Artes que transformam corpos e vidas

A imagem é uma colagem com fundo bege e manchas laranja destacando várias figuras em preto e branco. Crianças e jovens praticam artes marciais em diferentes posições: luta, defesa, chutes e movimentos acrobáticos. Entre as figuras aparecem objetos como tesoura, compasso, régua triangular, apontador, caneta, cola e clipes de papel. No centro, um grupo forma uma estrutura acrobática coletiva. A composição mistura esporte, movimento corporal e materiais escolares em estilo artístico.
No combate à desigualdade, o NAPI Corpo em Movimento leva a prática de lutas marciais para crianças e adolescentes de escolas em situação de vulnerabilidade

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A escola é um ambiente de muitos aprendizados, não é mesmo? Claro, para além das matérias obrigatórias e das relações sociais que construímos desde a infância até a adolescência, este é um momento no qual somos apresentados aos nossos primeiros hobbies. 

O esporte, além de um bom passatempo, também funciona como exercício físico e ferramenta de transformação para crianças vulneráveis sócio-economicamente. Eu mesmo, nunca gostei muito de futebol ou vôlei, mas quando fui apresentado ao basquete, me apaixonei. 

Quanto às lutas marciais, nunca tive muito contato durante as aulas de Educação Física no ensino básico, mas uma apresentação artística me apresentou a capoeira. Os movimentos, as vestimentas e a música construíram um ambiente único que ainda carrego na memória. 

Se, por um lado, as artes marciais costumam ser associadas à diversão e ao fortalecimento físico, por outro, o acesso a essas práticas ainda é desigual e, muitas vezes, restrito. É justamente para romper essa barreira histórica que surge oNovo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Corpo em Movimento: Formação Cidadã em Rede por Meio de Lutas Corporais. 

O NAPI nasceu como projeto de extensão para atender crianças e adolescentes de escolas públicas paranaenses em situação de vulnerabilidade. A partir do encontro entre pró-reitores de extensão e professores de diferentes universidades paranaenses, todos ligados à Educação Física e às artes marciais, logo o projeto já contava com a participação de nove instituições.

O infográfico intitulado “Lutas marciais nas escolas do Paraná” apresenta a proposta de que cada universidade do estado leva uma modalidade específica de luta corporal para escolas públicas de sua região. A composição visual utiliza recortes fotográficos estilizados, com cores vibrantes e contrastantes, distribuídos sobre um fundo claro, criando dinamismo e destacando cada prática esportiva. Na parte superior, o título ocupa grande destaque, seguido da linha fina explicativa que informa que cada instituição é responsável por desenvolver determinada modalidade nas escolas. À esquerda, em verde, aparece a capoeira, acompanhada das siglas UEL, UEM e UFPR, com a imagem de uma roda formada por praticantes e instrumentos como berimbau e atabaque, remetendo à dimensão cultural da prática. À direita, em amarelo, o karatê é associado à Unicentro e à UTFPR, ilustrado por dois atletas em combate com quimonos brancos. Na parte inferior esquerda, em azul e roxo, o judô é vinculado à Unioeste, UENP e Unespar, representado por um movimento de projeção entre dois judocas. No centro inferior, em azul-claro, o jiu-jitsu aparece ligado à UEPG, com dois lutadores em posição de luta no solo. À direita, em vermelho, o muay thai é relacionado à UFPR e à Unespar, ilustrado por dois atletas trocando golpes em um ringue.

Em vez de padronizar uma única modalidade em todo o Paraná, como o judô, por exemplo, o projeto incorporou a diversidade regional das práticas corporais. Em algumas regiões, predominam o karatê e o taekwondo; em outras, a capoeira ou o jiu-jitsu ganham espaço. “O projeto já nasceu em rede, pois cada uma das instituições envolvidas passou a atuar nas escolas a partir da sua realidade local”, afirma o articulador do Arranjo e professor da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Rui Gonçalves Marques Elias.

A formalização do NAPI trouxe, além do investimento da Fundação Araucária,  uma mudança na forma de compreender e estruturar as ações desenvolvidas nas escolas. Se antes o foco estava na extensão e no contato direto com a comunidade, passou a existir também uma exigência de produzir conhecimento e inovação a partir dessas práticas.

“Com a articulação do NAPI, conseguimos inovar para além da aplicação das aulas, aumentando o contato com a sociedade e passamos a desenvolver estudos na área da fisiologia do exercício”, diz o professor. 

A organização do Arranjo

Hoje, o Arranjo conta com dois eixos que se complementam e funcionam ao mesmo tempo em todas as universidades envolvidas. O primeiro se concentra justamente na dimensão socioeducacional ao desenvolver metodologias de ensino das lutas que possam ser replicadas nas escolas.

A imagem mostra quatro pessoas atrás de um estande de apresentação, em um espaço interno de um evento institucional. À frente deles há uma mesa expositora com alguns itens relacionados a artes marciais: protetores de braço pretos com a marca “Venum”, um notebook aberto, um capacete de proteção vermelho e preto, outro capacete preto e um quimono branco dobrado. Os objetos sugerem a demonstração ou divulgação de práticas de lutas e esportes de combate. Ao fundo, dois monitores exibem uma apresentação intitulada “Apresentação do NAPI”. Em uma das telas é possível ler o tema “Lutas, Artes Marciais, Esporte de Combate e Inclusão Social nas Escolas do Paraná”, além de tabelas e informações organizadas em formato de slide. O ambiente tem iluminação clara e estrutura moderna, reforçando a ideia de um evento científico ou institucional de divulgação de projetos.
A equipe do NAPI Corpo em Movimento. Da esq. para dir: Rui Gonçalves Marques Elias (UENP), Ana Cláudia Saladini (UEL), Marcus Peikriszwili Tartaruga (Unicentro) e Lucinar Jupir Forner Flores (Unioeste) (Foto/NAPI Paraná Faz Ciência)

Por mais que as lutas sejam um conteúdo previsto na educação física escolar, esse é um eixo importante, porque, muitas vezes, elas não são trabalhadas, seja pela falta de formação específica, seja pela ausência de metodologias acessíveis. O professor Rui explica que, independentemente da modalidade, há princípios pedagógicos que podem ser organizados e aplicados de forma consistente. “Mesmo com as diferenças entre as modalidades, existe uma técnica e um método que podem ser estruturados e ensinados”, defende.

A partir disso, o projeto pretende desenvolver e testar metodologias que possam, posteriormente, contribuir com a educação básica. A proposta não é padronizar as modalidades, mas construir caminhos pedagógicos comuns, capazes de orientar os professores das escolas.

Já o segundo eixo está voltado à fisiologia do exercício. Nele, os pesquisadores investigam aspectos como crescimento, maturação, condicionamento físico e aptidão das crianças e adolescentes participantes. Um dos objetivos atuais é a criação de um protocolo unificado de avaliação física, que será aplicado em todas as universidades da rede, permitindo traçar um panorama estadual dos impactos do projeto.

Com a estruturação do NAPI, em setembro de 2025, a expectativa é que o método das avaliações físicas sejam aplicados no segundo semestre de 2026. “Com essas avaliações, a ideia é inferir sobre os efeitos da prática de lutas na aptidão física dessas crianças e adolescentes”, aponta Rui. 

As escolas

Nesse formato, a rede de professores passa a atuar não apenas na aplicação das atividades, mas na construção de metodologias e resultados que dialogam com a ciência e a tecnologia, consolidando o projeto como um espaço de pesquisa.

A articulação com a Secretaria de Estado da Educação (SEED) é um dos pilares do programa. É por meio dessa parceria que o NAPI consegue acessar as escolas e definir, junto aos núcleos regionais, onde sua atuação será mais necessária.

  • A foto mostra uma atividade realizada em um ginásio escolar. Um grupo numeroso de crianças e adolescentes está sentado no chão, sobre o piso verde da quadra, formando um semicírculo ao redor de um adulto que parece ser o professor ou instrutor. Ele está sentado em uma cadeira, de frente para os alunos, conduzindo a conversa. A maioria das crianças veste quimonos brancos, com faixas de diferentes cores na cintura — como branca, laranja e azul — indicando níveis distintos na prática da modalidade, possivelmente karatê ou outra arte marcial. Muitas delas estão com o braço levantado, demonstrando participação ativa, como se estivessem respondendo a uma pergunta ou querendo falar. A expressão geral é de atenção e entusiasmo. Ao fundo, é possível ver a estrutura do ginásio, com paredes azul-claro, traves de futebol e a marcação da quadra poliesportiva no chão. À direita da imagem, alguns alunos vestem roupas comuns, sentados e observando a atividade. A cena transmite a ideia de um momento pedagógico coletivo, em que a prática esportiva se articula com diálogo e orientação dentro do ambiente escolar.
  • A foto mostra uma atividade realizada em um ginásio escolar. Um grupo numeroso de crianças e adolescentes está sentado no chão, sobre o piso verde da quadra, formando um semicírculo ao redor de um adulto que parece ser o professor ou instrutor. Ele está sentado em uma cadeira, de frente para os alunos, conduzindo a conversa. A maioria das crianças veste quimonos brancos, com faixas de diferentes cores na cintura — como branca, laranja e azul — indicando níveis distintos na prática da modalidade, possivelmente karatê ou outra arte marcial. Muitas delas estão com o braço levantado, demonstrando participação ativa, como se estivessem respondendo a uma pergunta ou querendo falar. A expressão geral é de atenção e entusiasmo. Ao fundo, é possível ver a estrutura do ginásio, com paredes azul-claro, traves de futebol e a marcação da quadra poliesportiva no chão. À direita da imagem, alguns alunos vestem roupas comuns, sentados e observando a atividade. A cena transmite a ideia de um momento pedagógico coletivo, em que a prática esportiva se articula com diálogo e orientação dentro do ambiente escolar.

A preferência é por escolas em regiões periféricas e com maior vulnerabilidade social, sempre considerando também a existência de outros programas esportivos já em funcionamento, garantindo que o projeto chegue para quem mais precisa e que se insira de forma estratégica no território, ampliando seu impacto.

No fim das contas, o projeto assume o enfrentamento de debater temas urgentes e contemporâneos, especialmente quanto a violência no ambiente escolar, como bullying. O debate também se amplia para a violência de gênero, para a promoção de hábitos saudáveis por meio da atividade física e para a valorização da cultura corporal, incluindo discussões sobre racismo e história a partir da capoeira. 

Nas palavras de Rui, “a luta não é um ato de violência, é um movimento corporal”. Ao deslocar esse sentido, o NAPI Corpo em Movimento propõe uma leitura crítica do corpo e do conflito, mostrando que saber lutar não incentiva agressão, mas sim autocontrole, consciência e respeito.  

Para saber mais detalhes sobre o NAPI, não deixe de conferir o vídeo institucional, logo abaixo! 

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto:  Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi e Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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