A escola é um ambiente de muitos aprendizados, não é mesmo? Claro, para além das matérias obrigatórias e das relações sociais que construímos desde a infância até a adolescência, este é um momento no qual somos apresentados aos nossos primeiros hobbies.
O esporte, além de um bom passatempo, também funciona como exercício físico e ferramenta de transformação para crianças vulneráveis sócio-economicamente. Eu mesmo, nunca gostei muito de futebol ou vôlei, mas quando fui apresentado ao basquete, me apaixonei.
Quanto às lutas marciais, nunca tive muito contato durante as aulas de Educação Física no ensino básico, mas uma apresentação artística me apresentou a capoeira. Os movimentos, as vestimentas e a música construíram um ambiente único que ainda carrego na memória.
Se, por um lado, as artes marciais costumam ser associadas à diversão e ao fortalecimento físico, por outro, o acesso a essas práticas ainda é desigual e, muitas vezes, restrito. É justamente para romper essa barreira histórica que surge oNovo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Corpo em Movimento: Formação Cidadã em Rede por Meio de Lutas Corporais.
O NAPI nasceu como projeto de extensão para atender crianças e adolescentes de escolas públicas paranaenses em situação de vulnerabilidade. A partir do encontro entre pró-reitores de extensão e professores de diferentes universidades paranaenses, todos ligados à Educação Física e às artes marciais, logo o projeto já contava com a participação de nove instituições.

Em vez de padronizar uma única modalidade em todo o Paraná, como o judô, por exemplo, o projeto incorporou a diversidade regional das práticas corporais. Em algumas regiões, predominam o karatê e o taekwondo; em outras, a capoeira ou o jiu-jitsu ganham espaço. “O projeto já nasceu em rede, pois cada uma das instituições envolvidas passou a atuar nas escolas a partir da sua realidade local”, afirma o articulador do Arranjo e professor da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Rui Gonçalves Marques Elias.
A formalização do NAPI trouxe, além do investimento da Fundação Araucária, uma mudança na forma de compreender e estruturar as ações desenvolvidas nas escolas. Se antes o foco estava na extensão e no contato direto com a comunidade, passou a existir também uma exigência de produzir conhecimento e inovação a partir dessas práticas.
“Com a articulação do NAPI, conseguimos inovar para além da aplicação das aulas, aumentando o contato com a sociedade e passamos a desenvolver estudos na área da fisiologia do exercício”, diz o professor.
A organização do Arranjo
Hoje, o Arranjo conta com dois eixos que se complementam e funcionam ao mesmo tempo em todas as universidades envolvidas. O primeiro se concentra justamente na dimensão socioeducacional ao desenvolver metodologias de ensino das lutas que possam ser replicadas nas escolas.

Por mais que as lutas sejam um conteúdo previsto na educação física escolar, esse é um eixo importante, porque, muitas vezes, elas não são trabalhadas, seja pela falta de formação específica, seja pela ausência de metodologias acessíveis. O professor Rui explica que, independentemente da modalidade, há princípios pedagógicos que podem ser organizados e aplicados de forma consistente. “Mesmo com as diferenças entre as modalidades, existe uma técnica e um método que podem ser estruturados e ensinados”, defende.
A partir disso, o projeto pretende desenvolver e testar metodologias que possam, posteriormente, contribuir com a educação básica. A proposta não é padronizar as modalidades, mas construir caminhos pedagógicos comuns, capazes de orientar os professores das escolas.
Já o segundo eixo está voltado à fisiologia do exercício. Nele, os pesquisadores investigam aspectos como crescimento, maturação, condicionamento físico e aptidão das crianças e adolescentes participantes. Um dos objetivos atuais é a criação de um protocolo unificado de avaliação física, que será aplicado em todas as universidades da rede, permitindo traçar um panorama estadual dos impactos do projeto.
Com a estruturação do NAPI, em setembro de 2025, a expectativa é que o método das avaliações físicas sejam aplicados no segundo semestre de 2026. “Com essas avaliações, a ideia é inferir sobre os efeitos da prática de lutas na aptidão física dessas crianças e adolescentes”, aponta Rui.
As escolas
Nesse formato, a rede de professores passa a atuar não apenas na aplicação das atividades, mas na construção de metodologias e resultados que dialogam com a ciência e a tecnologia, consolidando o projeto como um espaço de pesquisa.
A articulação com a Secretaria de Estado da Educação (SEED) é um dos pilares do programa. É por meio dessa parceria que o NAPI consegue acessar as escolas e definir, junto aos núcleos regionais, onde sua atuação será mais necessária.
A preferência é por escolas em regiões periféricas e com maior vulnerabilidade social, sempre considerando também a existência de outros programas esportivos já em funcionamento, garantindo que o projeto chegue para quem mais precisa e que se insira de forma estratégica no território, ampliando seu impacto.
No fim das contas, o projeto assume o enfrentamento de debater temas urgentes e contemporâneos, especialmente quanto a violência no ambiente escolar, como bullying. O debate também se amplia para a violência de gênero, para a promoção de hábitos saudáveis por meio da atividade física e para a valorização da cultura corporal, incluindo discussões sobre racismo e história a partir da capoeira.
Nas palavras de Rui, “a luta não é um ato de violência, é um movimento corporal”. Ao deslocar esse sentido, o NAPI Corpo em Movimento propõe uma leitura crítica do corpo e do conflito, mostrando que saber lutar não incentiva agressão, mas sim autocontrole, consciência e respeito.
Para saber mais detalhes sobre o NAPI, não deixe de conferir o vídeo institucional, logo abaixo!
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi e Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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