40 minutos seus podem salvar até 4 vidas inteiras

A imagem mostra uma grande bolsa de sangue centralizada, suspensa acima do solo, com líquido vermelho escorrendo para baixo e formando um caminho. Em um campo aberto, várias pessoas em tons rosados caminham ou permanecem ao longo desse caminho, segurando fios vermelhos. O céu ao fundo é rosado e amarelado, com nuvens suaves.
Conheça como o Hemocentro Regional, da Universidade Estadual de Maringá, atua na rede pública com coleta de sangue e atendimento ambulatorial

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Imagina poder salvar a vida de alguém? Você não precisa ser da área da saúde e nem ser um super-herói para isso. E também não precisa mais do que alguns minutos. Com uma única bolsa de sangue, é possível mudar a vida de até quatro pessoas. No dia 25 de novembro, é comemorado o Dia Nacional do Doador de Sangue, em homenagem a quem exerce a cidadania salvando, literalmente, vidas!

Os hemocentros e bancos de sangue são os responsáveis pelo processo que leva o sangue do doador até quem precisa recebê-lo. A Universidade Estadual de Maringá (UEM) conta com o Hemocentro Regional de Maringá, o único público da cidade. Ele faz parte do Hospital Universitário e, além das doações, também acolhe pacientes com algumas doenças do tecido sanguíneo.

Afinal, o que o Hemocentro faz e como ele funciona?

O Hemocentro Regional de Maringá faz parte da Rede HEMEPAR (Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná). Hoje, é responsável pela demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) de Maringá e da 15ª Regional de Saúde.

O foco principal do Hemocentro é a captação de doadores de sangue, a coleta de bolsas e produção de hemocomponentes. Mas a instituição também conta com um ambulatório de hematologia e hemoterapia, que atende pacientes com doenças hematológicas da macrorregião noroeste de saúde no Paraná, como problemas de coagulação e anemias, por exemplo. O Hemocentro também envia bolsas de plasma para a indústria farmacêutica e ajuda outras unidades da rede HEMEPAR a manterem os seus estoques.

A imagem mostra a fachada do Hemocentro Regional de Maringá, com uma entrada de portas de vidro, rampa de acessibilidade e um letreiro grande com o nome da instituição e seu símbolo em forma de gota de sangue. Há árvores e vegetação ao redor do prédio.
Hemocentro Regional de Maringá, no complexo do HU da UEM (Foto/ASC-UEM)

Talvez você imagine um hemocentro apenas como um banco de sangue para momentos críticos, como para pacientes acidentados ou algo do tipo. Mas não é bem assim. A instituição, na verdade, atende muitos outros tipos de casos rotineiramente, como doenças crônicas que precisam de transfusões periódicas. 

“Uma coisa importante é que o sangue não é substituível ainda por medicações. Então, é um produto biológico com seu prazo de validade, sem um substituto ainda, para vários tipos de terapêuticas. Por isso, nós precisamos dos doadores diariamente. Muitos colocam a doação sempre com aquela coisa crítica do acidentado, do trauma, da extrema urgência, mas não, são várias as doenças que precisam de transfusões programadas, agendadas. São muitas doenças crônicas que os pacientes muitas vezes transfundem a cada 15 dias, 20 dias ou um mês”, explica o diretor do Hemocentro Regional de Maringá, Gerson Zanussi Junior.

A imagem mostra um homem adulto posando para a foto, em frente a um fundo neutro escuro. Ele está sorrindo, veste um blazer cinza e uma camisa azul-escura. Tem cabelo curto e barba.
Diretor do Hemocentro Regional de Maringá, Gerson Zanussi Junior (Foto/ASC-UEM)

E acha que acabou por aí? Ainda tem mais! O Hemocentro Regional também faz o cadastro de doadores de medula óssea, outro serviço extremamente importante. O voluntário tem uma amostra de sangue colhida para um exame de histocompatibilidade, que fica registrado no cadastro de doador. Caso apareça algum paciente compatível necessitando de medula, o doador é chamado para um segundo teste de compatibilidade. A partir daí, se tudo der certo, a doação é feita. O cadastro de doadores de medula óssea tem abrangência nacional e internacional, o que possibilita uma vida ser salva em qualquer lugar do mundo!

Em apenas 40 minutos você pode salvar até 4 vidas

Doar uma bolsa de sangue é mais simples do que você pensa. Leva só cerca de 40 minutos entre a chegada do voluntário na recepção do hemocentro e o lanchinho final depois da coleta da bolsa!

Primeiro de tudo, o doador precisa estar dentro de alguns requisitos básicos: pesar no mínimo 50kg, ter entre 16 e 60 anos (para quem vai doar pela primeira vez na vida), estar em boas condições gerais de saúde, estar descansado e bem alimentado. Para quem já é doador, a idade limite é de 69 anos. Chegando ao hemocentro, basta fazer um cadastro na recepção com um documento oficial com foto e aguardar ser chamado para a triagem.

São dois tipos de triagem realizados: a hematológica e a clínica. Na primeira, é conferido se o doador não possui anemia, um critério importantíssimo para estar apto para doação. Na segunda, um médico faz uma avaliação da saúde do voluntário e também faz perguntas sobre comportamento, já que alguns podem aumentar os riscos de impeditivos para a doação. 

Passou nas triagens? Então, é hora de ir para a sala de coleta. Lá, uma equipe de profissionais treinados faz a coleta do sangue em uma bolsa. Esse processo dura em torno de 10 minutos. E, se o doador estiver desidratado antes da retirada do sangue, é encaminhado até á copa para se alimentar. Depois desse processo, a pessoa é observada de perto por alguns minutos para o caso de acontecer eventos adversos, como algum mal-estar comum depois da doação. O ciclo encerra lá na copa com um lanche final para repor as energias e reidratar o doador. 

“Então todo esse tempo aí, em média, é de 40 minutos, que não é muito grande. Acho que as pessoas que têm interesse podem se programar para vir para o Hemocentro. O atendimento é de livre demanda, mas também pode fazer o agendamento por horário. Então, a pessoa pode garantir o seu horário de atendimento fazendo o seu agendamento prévio e tirar os 40 minutinhos aí para nos ajudar” diz Gerson.

A imagem é um infográfico sobre o ciclo da doação de sangue em 40 minutos. Ele mostra quatro etapas com ícones simples: cadastro do voluntário; triagem hematológica e clínica; sala de coleta, onde o sangue é retirado; e lanche pós-doação, momento de hidratação e observação. O fundo tem tons rosados e alaranjados, com silhuetas humanas ilustrando cada etapa.

Um componente muito importante do sangue são as plaquetas, que podem atender diversos tipos de casos. A questão é que o prazo de validade é curto, de 5 dias. Segundo Gerson, é preciso estar em constante produção para conseguir manter o estoque de plaquetas estável, já que o processo de análise das amostras é rigoroso e o tempo de validade é breve, portanto, as bolsas são viáveis para uso por pouquíssimo tempo!

E depois da coleta, o que acontece?

O que determina se um doador está apto ou inapto para a coleta do sangue é a triagem. Por isso são feitas tantas perguntas ao voluntário nesta etapa. Os testes para doenças infecciosas e tipagem sanguínea são feitos depois, com amostras retiradas junto com a coleta da bolsa. São realizados exames de sorologia (para identificar infecções como HIV, sífilis, hepatites e outras), de hemoglobinopatias (como anemias e talassemias, por exemplo) e, também, a tipagem sanguínea. “Até todos esses exames ficarem prontos, essas bolsas não são utilizadas. Elas ficam na quarentena até que todos os exames mostrem que não há risco para o paciente recebê-la”, explica Gerson. 

A logística de análise dessas amostras vai além do Hemocentro em Maringá… os tubinhos de sangue seguem também para Curitiba e para o estado de Santa Catarina. Todos os dias, amostras são levadas para estes dois destinos, chegando em laboratórios da rede HEMEPAR para a realização da tipagem sanguínea e da biologia molecular. Todo esse processo dura de um a dois dias! Sem contar, também, nas bolsas que são transportadas para atender a demanda de outros hemocentros da rede.

Se os exames não apontarem nenhum risco, a bolsa segue para o estoque de utilização. Mas, se for identificada alguma irregularidade, isso é notificado para a vigilância sanitária da 15ª Regional de Saúde e para a vigilância sanitária do município, que contatam o doador para que uma segunda amostra seja coletada para confirmar os resultados. Então, ele é encaminhado para um centro de referência para tratamento. No caso das doenças hematológicas, o Hemocentro Regional de Maringá possui ambulatório para atender esses pacientes.

Todo o processo, desde a triagem até o armazenamento do sangue para doação, é feito com protocolos de segurança que garantem que nem o doador e nem o receptor estejam em risco. 

A imagem é um infográfico ilustrado sobre o destino da bolsa de sangue após a doação. No topo, há uma grande bolsa de sangue desenhada, com o título curvo “O DESTINO DA BOLSA DE SANGUE”. Abaixo, dois blocos de texto explicam o processo: o primeiro descreve que a bolsa fica em quarentena até a conclusão dos exames; o segundo explica que, caso algum problema seja identificado, o doador é chamado para consulta e orientação. O fundo tem tons rosados e alaranjados, com silhuetas humanas ao longe.

Doar sangue faz bem para quem recebe e também para quem doa

Ser doador é, acima de tudo, um ato de cidadania. Uma bolsa de sangue é fracionada em quatro produtos: concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas, plasma fresco e crioprecipitado. Todos esses hemocomponentes podem ser usados para diversos casos, salvando mais de uma vida. 

“O transtorno ou o incômodo da agulha é muito menor do que a grandiosidade do ato de estar salvando quatro vidas possivelmente. Então, isso acaba sendo uma coisa mínima por uma coisa tão grande que é a doação de sangue.” Pontua Gerson. 

Apesar dos benefícios, a doação de sangue ainda enfrenta alguns estigmas e certas dificuldades em alcançar novos doadores. Quando perguntei o que poderia ser feito para que o assunto fosse mais difundido, Gerson me contou que o maior desafio é fazer com que as informações corretas cheguem até as pessoas, desfazendo mitos que se formaram entre a população. Além disso, a melhor maneira de incentivar a doação é garantindo que os voluntários tenham uma boa experiência, voltando para novas coletas e também incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo.

O Hemocentro Regional de Maringá ainda conta com um ônibus de coleta de dois andares, o primeiro double decker do país com essa finalidade! O Hemocentro, então, realiza coletas externas agendadas com locais que possuem interesse.

“Uma das maneiras de quebrar esse mito é a gente estar presente na sociedade. É a nossa atuação direta. Então, nós tentamos ir o máximo possível para as campanhas externas, porque mesmo aqueles que não doaram na campanha externa, mas tendo o ônibus ali, tendo a ação, isso é uma maneira de estar mostrando para a população o quanto é importante. O Hemocentro está ali, a UEM está nas outras cidades também, a UEM não está só aqui em Maringá. A UEM está prestando serviço, mesmo em Maringá, mas em toda a 15ª Regional de Saúde. Então, a gente fala que a coleta externa é um evento. Algumas cidades enchem de pessoas na praça para ver, para conhecer” conta o diretor do Hemocentro.

Um ônibus vermelho de dois andares está estacionado em uma área aberta, cercada por palmeiras. Ele exibe a identidade visual do Hemocentro Regional de Maringá, incluindo um grande símbolo de gota de sangue na lateral. O veículo é uma unidade móvel de atendimento ou coleta de sangue.
Ônibus de coleta do Hemocentro Regional de Maringá (Foto/ASC-UEM)

Quem já doou uma vez ou continua sendo doador assíduo comprova como o ato é uma ação comunitária e gratificante. “Eu acho, particularmente, que a doação de sangue é uma das atitudes mais bonitas que um cidadão pode executar. Porque, por meio dela, você é capaz de, literalmente, salvar vidas de pessoas”, conta Mariana Manieri, doadora de sangue. “Eu acredito, inclusive, que é um dever, como cidadão, a prática da doação de sangue, porque não adianta nada exigir atitudes do serviço público, do governo, se nas práticas básicas do nosso dia a dia, da nossa convivência em sociedade, a gente não agir em prol do ambiente que a gente está inserido e das pessoas que estão ao nosso redor.” ainda completa ela.

Jaime Caulino Silveira, doador há cerca de 13 anos, reforça a importância e necessidade de políticas de incentivo para doação, principalmente para os trabalhadores e também em relação ao transporte. Ele diz que o direito que os doadores possuem de se ausentar do trabalho por um dia ao ano é muito pouco, já que um voluntário pode contribuir até 4 vezes dentro desse período. “Ter o seu ônibus gratuito para ir lá no banco de sangue fazer a doação, ou talvez até ter alguma forma de se locomover até lá de forma gratuita, por que não? E outra coisa: uma pessoa que é celetista, que está registrado lá no seu trabalho, não pode se ausentar, não pode ir lá fazer a sua doação, porque se a pessoa for mais de uma vez no ano, ela tem até o dia descontado de trabalho. Então, acho que é uma coisa que a própria empresa poderia incentivar.”

Uma das ações do Hemocentro é promover justamente esse incentivo e a conscientização sobre a importância da doação, envolvendo também instituições, como empresas. “Por isso que o Hemocentro tenta participar de todos os aspectos, seja em eventos, seja em palestras, seja em eventos com empresas, para educar a população. É uma questão que nós tentamos até passar um pouco para as grandes empresas que têm essa responsabilidade social”, explica Gerson. 

O Hemocentro Regional de Maringá também atua em projetos de ensino, de pesquisa e de extensão dentro da universidade. A equipe participa de eventos, apresentando trabalhos desenvolvidos e também recebe estudantes da residência multiprofissional da UEM. Além disso, esforços são direcionados para mídias sociais, entrevistas, discussões e bate-papos, a fim de difundir a marca do Hemocentro e levar conhecimento à população. 

Em menos de uma hora, qualquer pessoa saudável pode se tornar parte de uma corrente que sustenta milhares de vidas em um ato simples de cidadania. Por trás de cada bolsa de sangue doada, está uma equipe preparada, protocolos de segurança e muita ciência. Mas, para além disso, há um gesto humano que nenhuma máquina pode substituir. O Hemocentro Regional de Maringá — e todos os outros espalhados pelo país — estão de portas abertas para receber a sua doação.

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Texto:
Maria Beatriz Ganacim Guilhermetti
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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