Você já parou para pensar o que torna uma cidade viva? Talvez, sejam as histórias que resistem ao tempo. No coração de Londrina, um prédio de tijolos que já recebeu trens e passageiros continua a acolher memórias, sentimentos e descobertas. Hoje, a antiga estação ferroviária, inaugurada em 1950, abriga o Museu Histórico de Londrina (MHL), um espaço que vai muito além de guardar objetos antigos: conecta passado, presente e futuro.
Ao atravessar as portas, o visitante encontra não apenas vitrines, mas narrativas inteiras. Cada sala, objeto ou fotografia revela fragmentos de uma cidade construída por diferentes povos, culturas e sonhos. O museu é um convite a compreender Londrina não como um ponto fixo no mapa, mas como uma história em constante movimento.
Fundado em 1970, por iniciativas dos professores e estudantes do curso de história, o Museu Histórico de Londrina completou, em 18 de setembro de 2025, 55 anos de história. Desde então, tornou-se referência no Paraná pela riqueza de seu acervo e pela capacidade de transformar lembranças individuais em memória coletiva.
Num primeiro momento, o acervo foi instalado nos porões do Colégio Hugo Simas, um espaço pequeno para toda a memória que ali era preservada. Anos mais tarde, em 1974, o MHL passou a ser Órgão Suplementar da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Foi apenas em 1986, 16 anos após sua fundação, que o acervo ganhou um espaço adequado, sendo removido para o prédio da antiga Estação Ferroviária de Londrina. “Não tinha lugar mais importante, mais belo e significativo para receber o Museu Histórico, que antes estava no porão do Colégio Hugo Simas”, afirma Edméia Ribeiro, diretora da instituição.
Localizado no centro da cidade, o espaço preserva a arquitetura de uma época em que os trilhos e locomotivas ditavam o ritmo do progresso.“Veja, já tem 75 anos. Na década de 50, era aqui que as pessoas se encontravam, chegavam, partiam. Esse prédio carrega muitas histórias”, lembra a diretora Edméia Ribeiro.
Antiga Estação Ferroviária de Londrina (Foto/Yutaka Yasunakal) A primeira estação ferroviária de Londrina, em 1935 (Foto/Francisco Pereira Lopes) Inauguração da Estação Ferroviária (Foto/Acervo MHL) Pátio da estação, no início dos anos 50 (Foto/Francisco Pereira Lopes) Antiga Estação Ferroviária de Londrina (Foto/Folha de Londrina) Fachada Antiga Estação Ferroviária de Londrina (Foto/Acervo MHL)
Com pouco mais de cinco décadas de existência, a instituição se consolida como um dos museus mais visitados do estado. “É o espaço sacrossanto da salvaguarda das memórias de Londrina”, define Edméia. Para ela, a missão do museu vai além da preservação: é garantir que a história da cidade continue viva, acessível e reinterpretada por cada nova geração.
A memória da cidade, afinal, não se preserva sozinha. Ela é construída por quem dedica a vida a cuidar do acervo, pesquisar e compartilhar histórias. Algumas delas merecem ser vistas e ouvidas, não apenas lidas. Pensando nisso, o C² produziu um vídeo especial para que você conheça a trajetória do Museu Histórico de Londrina a partir de quem o preserva, o pesquisa e o mantém vivo. Dê o play!
O prédio que guarda memórias
A estação ferroviária, construída em 1945 e inaugurada em 1950, é hoje um dos cartões-postais da cidade. Sua imponência impressiona quem passa pela região central e remete à época em que Londrina recebia migrantes de todas as partes do Brasil em busca de novas oportunidades. O edifício, que já foi ponto de chegada e partida de tantos sonhos, agora acolhe um fluxo diferente: o das histórias que permanecem.
Dentro dele, o acervo se divide em três grandes tipologias: objetos tridimensionais, documentos e registros audiovisuais. São mais de 1,3 milhão de itens documentais, cerca de 10 mil objetos e coleções fotográficas que retratam desde partidas de futebol até colheitas de café, passando pelo cotidiano de famílias pioneiras. Neste diálogo entre o ordinário e o extraordinário, o museu mostra sua força ao revelar a cidade em detalhes.
Amauri Ramos da Silva, servidor do museu desde 1987, lembra o quanto sua visão mudou ao entrar ali. “Eu pensava que museu era lugar de coisa velha, sem utilidade. Mas, quando passei a trabalhar aqui, percebi que era completamente diferente. Você trabalha com memórias de pessoas, com sentimentos, com sonhos. Trabalha com acervos que representam médicos, lavradores, donas de casa, professores, tudo. O museu guarda todas essas experiências.”
Povos indígenas em destaque
Entre tantas memórias, os povos indígenas conquistaram espaço definitivo nas narrativas do museu. Em 2019, a exposição passou a valorizar esse acervo, composto por cerca de mil peças que vão de cerâmicas a objetos de uso cotidiano. Essa presença, antes invisibilizada, recoloca os indígenas como parte fundamental da história de Londrina e da região.
Para Amauri, cada peça é muito mais do que patrimônio material. “Quando um visitante vem e vê uma peça, muitas vezes, ele se emociona. Diz: ‘eu trabalhei com esse equipamento’, ou ‘eu tinha isso na minha lavoura’. Este reconhecimento faz o museu ser vivo, não um depósito de coisas velhas. A gente trabalha com memórias que conectam passado, presente e futuro.”
Entre a academia e a cidade
Mais do que preservar, o museu produz conhecimento. Desde a sua criação, está ligado à universidade, funcionando como um laboratório vivo para pesquisadores e estudantes. Esse caráter acadêmico transforma o espaço em extensão da sala de aula, e assim aproxima a ciência à comunidade.
A professora e pesquisadora Maria Luísa Hoffmann, da Universidade Estadual de Londrina, é um exemplo desse elo. O acervo do MHL se fez presente em cada passo da sua trajetória acadêmica, da graduação ao doutorado. Em seu doutorado, a pesquisadora estudou o papel da fotografia na recuperação e preservação da memória de Londrina, e para isso recorreu não somente às fotografias, mas também aos depoimentos orais do acervo. “Para entender quem eram as pessoas das imagens, eu ouvi histórias e identifiquei lugares. É um acervo muito completo.”, conta Hoffmann.
Atualmente, a professora coordena e desenvolve o projeto de pesquisa e extensão “Ontem e Hoje: A Evolução da Paisagem de Londrina Através da Fotografia (1950-2020)”. O objetivo do projeto é mostrar as transformações da cidade ao longo das décadas, para isso, utiliza como fonte a fotodocumentação feita por Oswaldo Leite, fotógrafo da prefeitura da cidade que registrou Londrina entre as décadas de 1950 e 1980.
A pesquisa se desenvolveu a partir da reprodução que os alunos participantes do projeto fizeram das fotografias feitas por Leite. Para a realização do trabalho, os alunos se organizaram em conjunto e fizeram uma pré-seleção das imagens produzidas pelo fotógrafo que estão disponíveis no acervo do MHL. Posteriormente, os estudantes foram divididos em grupos, cada equipe ficou encarregada de reproduzir as imagens selecionadas, se atentando ao ângulo e local exato em que as fotos originais foram produzidas.
A coordenadora reforça a importância do acervo estar disponível on-line, aspecto que possibilitou e facilitou o desenvolvimento de seu projeto. “Hoje existe um sistema unificado de museus do Paraná, mas ainda precisa melhorar. Nem sempre a busca traz todos os resultados. Ainda assim, só de estar online já é um grande avanço para futuros pesquisadores.”
Com a intenção de que a comunidade possa ter acesso ao trabalho produzido, a equipe do projeto de fotografia optou por criar um site. Para isso, se uniram com os alunos do curso de Ciências da Computação da UEL, que sob orientação do professor Fábio Sakuray, coordenador do curso, desenvolveram o site que irá armazenar as fotografias reproduzidas, assim como textos e ilustrações.
A expectativa é que o site esteja completo até dezembro, mesmo período em que a equipe do projeto irá expor o resultado do trabalho. O mês escolhido para exibir o material é simbólico, isso porque no dia 10 de dezembro Londrina completa 91 anos.
Para conhecer um pouco mais do projeto desenvolvido pela docente, acesse o Podcast Conexão Museu Histórico de Londrina.
Educação e identidade
Essa vocação educativa é também uma das maiores forças do Museu Histórico. Todos os anos, escolas da região levam seus alunos para conhecer o espaço. Crianças têm a chance de ver de perto objetos, fotografias e locomotivas que antes só conheciam por livros ou telas. Essa experiência, sensorial e afetiva, ajuda a construir identidade.
Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva) Locomotivas e objetos que compõem o acervo do MHL (Foto/Amauri Ramos da Silva)
Edméia Ribeiro reforça esse papel formador. “Museus ajudam a formar identidade. A internet sozinha não substitui esse contato.”
A professora Maria Luísa Hoffmann complementa. “Para projetar e pensar o futuro, a gente tem que entender o passado. É isso que gera pertencimento. Quando você entende a história da sua cidade, aprende a valorizar e a preservar o patrimônio.”
Os desafios da sobrevivência
Manter viva essa estrutura, no entanto, não é tarefa simples. Nos últimos dez anos, o museu não recebeu novas contratações de técnicos. O quadro de funcionários, que já chegou a 23, hoje conta com apenas 7 e Amauri é o único técnico em atuação.
“Quem vai tocar isso no futuro? Essa é a grande preocupação. Mais de dez anos sem novas contratações. A gente continua fazendo o mesmo trabalho, mas sobrecarregado com várias funções ao mesmo tempo”, relata o funcionário.
Apesar das dificuldades, há conquistas recentes a celebrar. A reconstrução da infraestrutura elétrica garante não apenas mais segurança, mas também melhores condições para preservar o acervo. O projeto prevê climatização adequada e capacidade elétrica ampliada, preparando o museu para receber eventos, exposições temporárias e novos públicos. “Essa entrega é um presente para Londrina e para a universidade”, afirma Edméia.
Um museu vivo
O Museu Histórico de Londrina não se limita a ser um guardião de objetos, é um espaço de vida. Para Amauri, que viu sua trajetória pessoal se entrelaçar com a do museu, foi lá que construiu família e até inspirou o filho, que hoje também trabalha na instituição. “Quando entrei, era solteiro. Um ano depois me casei, depois vieram os filhos, e voltei a estudar. O museu me transformou como pessoa e como profissional. É como uma família.”
Edméia também reconhece a complexidade de dirigir a instituição: “Quando assumi, em 2019, confesso que senti medo. Me perguntei como suceder diretoras tão brilhantes. Mas percebi que vir para cá foi um grande presente para minha vida profissional. Aqui encontrei não só o acadêmico, mas também o contato direto com a sociedade. O museu é extensão por excelência, é onde a universidade se encontra com a cidade.”
Essa relação afetiva se repete com cada visitante que encontra no museu um pedaço de sua própria história. Ao percorrer seus corredores, não se olha apenas para o passado, olha-se para o presente e projeta-se o futuro. Afinal, quantas memórias podem caber em uma cidade? E quantas cidades podem caber dentro de um museu?
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Texto: Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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