Na poesia de Milton Nascimento e Fernando Brant, cantada em verso e prosa desde 1981, o desafio de que ‘todo artista tem que ir aonde o povo está’ ainda instiga mulheres e homens a garantirem a participação nos tradicionais ‘bailes da vida’. Da utopia a um sonho realizado, pesquisadores estão se valendo da ciência e da cultura, ou vice-versa, para diminuir a distância entre o artista brasileiro e o seu público.
Este é o princípio que move os integrantes do Laboratório de Cultura Digital, projeto de extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenado pela professora Maria Tarcisa Bega, do Departamento de Sociologia. A iniciativa está associada à plataforma Mapas Culturais, outro projeto coordenado pela professora de Arte Deborah Rebello Lima, no desenvolvimento e aperfeiçoamento de um software livre e colaborativo para criar uma estrutura em rede.
O objetivo é fortalecer a gestão pública da área cultural no país, por meio de ações como a promoção do letramento digital e soluções tecnológicas. As duas iniciativas atendem a uma demanda do Ministério da Cultura (MinC) para reconstrução de bases destinadas à formulação, monitoramento e avaliação das políticas culturais, como a Política Nacional Aldir Blanc (Pnab).
Vale relembrar que, no início dos anos 2000, houve um intenso movimento pelo software livre no Brasil. Naquele contexto, a organização do laboratório para a formulação de uma tecnologia colaborativa começou em 2003, depois 2015, mas foi interrompido em 2017. Esta é a terceira versão do projeto a partir da retomada do MinC, extinto em 2019.
“A partir da recriação do Ministério da Cultura, em 2023, a nossa universidade passa a ser um espaço de desenvolvimento de tecnologia ligada à Secretaria dos Comitês de Cultura, criando metodologias que permitam aos comitês trabalharem em rede”, explica Bega.
Tanto o Laboratório Digital quanto o Mapas Culturais fazem parte desta estratégia para facilitar e democratizar o acesso de estados, municípios e agentes culturais aos recursos de fomento direto, na ordem R$ 6 bilhões, por ano, até 2027, por meio de uma política cultural feita por editais como é a Lei Aldir Blanc.
“Nesta etapa, nós desenhamos o laboratório com uma parte voltada a esse espaço da rede cultura digital, em que estamos fazendo todo o mapeamento através de ‘Encontros de Conhecimentos Livres’, em que a gente trabalha no sentido de escuta e de desenho de proposições”, conta a coordenadora.

Com término previsto para o final deste ano, só o projeto do Laboratório de Cultura Digital envolveu 27 bolsistas de graduação, mestrado, doutorado e pós-doc, a maioria da UFPR, mas também com participação de outras Instituições de Ensino Superior (IEES) do Paraná e de outros estados. Entre os cursos participantes estão o de Produção Cultural, Comunicação Social, Ciências Sociais, História, Letras, Tecnologia e Sociedade e até Design, entre outras áreas.
No projeto Mapas Culturais, mais de 50 bolsistas passaram os últimos dois anos debruçados na customização de uma versão da Rede Mapas, que já atendia à demanda da Lei Rouanet para captação de recursos. Lançado em agosto deste ano, o software faz parte dos mais de 30 produtos que o grupo entregou no contexto do Termo de Execução Descentralizada (TED), firmado com o Ministério da Cultura.
Entre eles, merece destaque o Prêmio Cleodon Silva de Soluções Digitais Livres, que homenageia a memória do importante ativista da cultura brasileira e defensor da cultura livre. O prêmio é voltado a pessoas jurídicas que atuam ou querem atuar no ecossistema de soluções digitais e softwares livres, como empresas, startups, ONGs, instituições de pesquisa e demais entidades que desenvolvam soluções digitais para a gestão do fomento à cultura.

A iniciativa do Mapas surgiu em meio às transformações do cenário cultural brasileiro para promover a eficiência e integração na gestão cultural, retomando políticas de Cultura Digital no Governo Federal, a partir do protagonismo da UFPR no desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas à cultura.
Além de promover um rigoroso levantamento, o trabalho realizado no Laboratório de Cultura Digital permite localizar em vários pontos do país os integrantes da rede, suas qualificações, áreas e atividades culturais, bem como sistematizar todos os editais num único ambiente para serem consultados por agentes culturais em seu território e os gestores públicos que executam a Pnab.
“No final, temos dados e informações que irão orientar o encaminhamento de recursos pelo governo para cada região e a sua consequente fiscalização na aplicação. Desta forma, conseguimos quase um nivelamento no entendimento mínimo do que seja a cultura e de como fazer essa política funcionar”, complementa a coordenadora.
A professora Maria Tarcisa chama atenção para um aspecto relevante do projeto, que se refere à construção da relação das pessoas com a tecnologia. “Na área do letramento digital, a ideia é ir além do acesso facilitado aos sistemas com o uso do celular ou computador. Há o interesse na formação de pessoas que consigam ser desenvolvedores fora das plataformas dominantes, ou seja, dentro da rede de software livre”, enfatiza.

Cultura Digital
Não é de hoje que a ciência e a cultura estão intimamente interligadas, até muito antes do mundo conectado. Desde a década de 1970, a cada 5 de novembro, comemora-se o Dia da Ciência e da Cultura. Instituída em plena ditadura, a data reporta ao nascimento de Rui Barbosa, jurista, jornalista, escritor, filólogo, tradutor, político, diplomata, ensaísta e orador nascido em 1849, que mantinha grande interesse pelas ciências e defendia o seu ensino nas escolas do Brasil.
Pela sua importância, é preciso ter em mente que a cultura é um reflexo da ação humana, criando formas, objetos, dando vida e significação a tudo o que nos cerca. É essa ação humana que permitiu o desenvolvimento do computador e, por extensão, o surgimento da Cultura Digital. Porém, cabe ressaltar que a cultura não se transforma em digital. Ela, a cultura, busca se adequar ao cenário digital e ao mundo virtual, sendo entendida não como uma tecnologia, mas como um sistema de valores, de símbolos, de práticas e de atitudes.
Para ajudar a entender o que é a Cultura Digital, o C² preparou o vídeo abaixo, que traz elementos que representam o conceito que permeia a vida conectada na terra.
Neste sentido, a professora do Departamento de Artes da UFPR, Deborah Rebello Lima, coordenadora do Mapas Culturais, reforça a percepção de que cultura e ciência são indissociáveis. A cultura influencia absolutamente a ciência, aponta caminhos, valores e substâncias, enquanto a ciência operacionaliza achados importantes para a comunidade.
“Como pesquisadora do campo da cultura, defendo que a cultura não deve ser colocada a serviço da ciência, utilizada como um recurso operacional para apenas decompor uma linguagem científica. A cultura é muito mais do que isso. A ciência é produto da cultura e não o inverso”, explica Lima.
Para a coordenadora, o resultado de um incremento de um software como o Mapas Culturais demonstra a relevância dessa relação. “É especialmente ainda mais importante numa universidade como a nossa, centenária, com grandes achados, com uma potência na divulgação científica. Nos orgulha muito que a gente possa entregar para a sociedade brasileira um achado, um resultado que mostra exatamente a parceria entre cultura e ciência”.
O grande desafio de todos os bolsistas e profissionais envolvidos no Mapas foi atualizar o software para contemplar funcionalidades mínimas necessárias para atender à demanda por ferramentas digitais de mapeamento, monitoramento, prestação de contas, cadastro e inscrição de propostas da Política Nacional de Fomento à Cultura Aldir Blanc.
“A gente não criou softwares novos, nos debruçamos na busca de um sistema entre os já existentes, dando especial atenção a uma linguagem e requalificando para que eles atendessem às demandas dessa política pública de fomento à cultura”, reforça Deborah. Com o caráter colaborativo, seja dos desenvolvedores ou da comunidade, houve um esforço coletivo para formatar esse ecossistema direcionado para a Lei Aldir Blanc, que agora estará acessível e facilitará a ampliação e diversificação dos recursos.

Entre os objetivos a serem alcançados com a utilização do Mapas, estão a gestão cultural eficiente e integrada no Governo Federal Brasileiro; necessidades da execução federativa do fomento à cultura atendidas (PNAB); comunidade mobilizada e engajada; identidade, institucionalidade e sustentabilidade do ecossistema consolidadas; e processos de governança colaborativa estabelecidos. E, para completar, o alcance e esforço dos dois projetos só foram possíveis porque estão ancourados não só na modalidade da extensão, mas nas de pesquisa e ensino.
Por fim, é desejo dos integrantes dos projetos promover um movimento na sociedade que pressione o estado brasileiro a conquistar a soberania digital. “Este é o nosso papel enquanto universidade como espaço de uma criticidade sobre o que há em termos de oferta de internet, mas com um outro braço com uma linguagem simples, em sistemas livres e colaborativos. Estamos plantando algumas sementes para que no futuro estas pessoas possam ter uma leitura crítica da internet”, conclui a professora Maria Tarcisa Bega.
Confira no Podcast do C² “Conexão Ciência e Cultura” o que pensam e dizem as professoras Maria Tarcisa e Deborah sobre essa relação que há décadas inspira pesquisadores.
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Texto: Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Gustav Bartmann
Arte: Madu Tenório
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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