Desde criança, Mariangela sempre foi curiosa pelas ciências. A inspiração veio da avó, professora, que apresentou à neta o universo científico. Aos 8 anos, a aspirante a cientista ganhou dela um livro sobre biologia e, a partir dali, decidiu que seria microbiologista. Algumas décadas depois, foi premiada com o “Nobel da Agricultura”.
Essa é a história de Mariangela Hungria, natural de Itapetininga (SP), que ingressou em 1976 na graduação em Agronomia, uma área predominantemente masculina naquele tempo. Ela lembra que, quando começou a faculdade, o ambiente era bem machista. “Havia muitas brincadeiras de mau gosto, dizendo que nós, mulheres, estávamos ali só para enfeitar o curso ou para arrumar marido”, conta a pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia e Biotecnologia, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Ainda na universidade, ela engravidou e, mais tarde, tornou-se mãe de uma filha com necessidades especiais. As críticas dos colegas homens vieram em peso. “Diziam que eu tinha acabado com a minha vida, que não fazia nenhuma escolha certa. Eu admito que estava preparada para os comentários machistas vindos dos homens, mas o que mais me derrubava eram os comentários machistas feitos por outras mulheres”, lembra a pesquisadora.

Curiosamente, foi em um dos períodos mais desafiadores da vida pessoal, quando ela precisou ficar mais tempo em casa cuidando das filhas, que a carreira dela deu um salto importante. Nesse período, escreveu o primeiro Manual de Métodos de Estudo em Microbiologia do Solo, obra que impulsionou a trajetória científica de Mariangela. “Houve fases em que precisei ser mais mãe e outras em que pude ser mais pesquisadora. Então, posso dizer que, apesar dos comentários machistas, acabei aprendendo a equilibrar os papéis.”
Para ela, o reconhecimento internacional recebido décadas depois foi uma confirmação desse equilíbrio, que defende ser possível. “Ser laureada com o World Food Prize [Prêmio Mundial de Alimentação], em 2025, foi a prova de que nós, mulheres cientistas, podemos ter vida familiar e profissional sem reproduzir a lógica machista de dedicação exclusiva ao trabalho. Não é porque sou mãe que sou menos capaz. Nem porque não posso estar sempre viajando que deixo de ser uma cientista competente, por exemplo”, ela defende.

A maternidade, segundo Mariangela, também a tornou uma pesquisadora mais objetiva. “Sempre fui muito dispersa. Viajava muito na maionese, se posso dizer assim. Quando o tempo ficou escasso, aprendi a priorizar e focar no que realmente importava”, conta. Ao longo da carreira, a pesquisadora e professora orientou mais de 250 estudantes e observa o mesmo fenômeno, de se tornarem mais objetivas, entre alunas que se tornam mães.
Esse olhar materno também influencia a motivação científica dela. Para Mariangela, a maternidade desperta uma vontade ainda maior de transformar o mundo por meio da ciência. No caso da pesquisadora, isso se traduz em pesquisas sobre a sustentabilidade agrícola e sobre a construção de um futuro melhor para as próximas gerações.
Desde 1991, em Londrina, Mariangela atua na Embrapa Soja, onde desenvolve pesquisas sobre o uso de biológicos para substituir fertilizantes químicos. O trabalho resultou em um dos maiores bancos de dados do mundo sobre o tema. “Não existe nenhum outro banco que comprove, como o nosso, que a soja pode ser cultivada sem fertilizantes nitrogenados”, destaca orgulhosamente.
A técnica defendida por ela é a inoculação, que é o uso de insumos formulados a partir de microrganismos vivos, como bactérias e fungos, que auxiliam no desenvolvimento das plantas. Esses organismos colonizam raízes ou folhas, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resistência a estresses ambientais, como a seca.

Atualmente, a inoculação é utilizada por cerca de 85% dos produtores de soja no Brasil. O impacto é expressivo: o país economiza aproximadamente 25 bilhões de dólares por ano em fertilizantes nitrogenados, além de evitar a emissão de cerca de 230 milhões de toneladas de CO₂.
Ela lembra que quando chegou à Embrapa, há mais de 30 anos, precisou construir tudo do zero mais uma vez: “Foi aqui que me tornei a profissional que sou hoje e consegui colocar em prática o que sempre acreditei: produzir em larga escala, com altos rendimentos, usando fertilizantes biológicos.”

Com mais de 40 anos dedicados à ciência, Mariangela comemora, hoje, o crescimento acelerado do uso de insumos biológicos no Brasil. Foi justamente esse trabalho que, em 2025, foi reconhecido com o World Food Prize, conhecido como o “Nobel da Agricultura”.
Integrante do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, iniciativa da Fundação Araucária, a pesquisadora defende que a agricultura do futuro carrega qualidades femininas.
“Não significa que será feita apenas por mulheres, mas que prioriza produzir com responsabilidade, cuidando do solo, da nutrição, da redução da emissão de gases de efeito estufa e da saúde das plantas, dos animais e da população”, conta Mariangela, que, sem dúvidas, é exemplo para muitas mulheres que querem ser ou que já são cientistas. Se você gostou desse tema, não deixe de conferir o Conexão Mulheres na Ciência, com mais histórias de mulheres inspiradoras, em comemoração ao mês da mulher. Esperamos você lá!
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Texto: Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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