A carreira de Carolina Panis no mundo da saúde começou com a sua escolha pela Bioquímica como curso de graduação, na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Logo, ela passou a trilhar passos que a encaminharam para a área da oncologia com suas escolhas de pós-graduação, ou seja, indo para o ramo da medicina que estuda, diagnostica, trata e previne o câncer.
Ela realizou uma Especialização em Infecção Hospitalar, depois se tornou mestre em Patologia Experimental, na subárea da Imunologia, e, posteriormente, doutora em Patologia, na subárea da Oncologia, todos pela UEL. Por fim, fez pós-doutorado em Oncologia, pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), na área de genômica e proteômica do câncer de mama e neoplasias hematológicas, bem como pós-doutora em Patologia, pela UEL, na área de imunopatologia e quimiorresistência no câncer de mama.
Hoje, é professora no curso de Medicina e no Programa de Residência Médica em Cirurgia Geral, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), campus Francisco Beltrão, e atua no Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde da Unioeste, no Programa de Fisiopatologia Clínica e Laboratorial e do Programa de Patologia Experimental da UEL.

Podemos ver um envolvimento direto com uma das doenças mais cruéis da humanidade, mas feito com um olhar profissional, de pesquisadora e cientista. No entanto, essa proximidade se tornou totalmente pessoal, quando o filho de Carolina, ainda criança, foi diagnosticado com leucemia, um tipo de câncer que afeta as células sanguíneas na medula óssea e no sistema linfático, fazendo com que a produção de sangue na medula óssea seja zerada.
Por sete meses, a professora precisou trocar o papel de pesquisadora pelo papel de mãe, que só queria tempo para cuidar e zelar pelo filho. No entanto, o tempo que passou no hospital, na ala oncopediátrica, despertou sua atenção para um fato alarmante: a alta taxa de mortalidade de crianças portadoras de leucemias.
A questão fez com que a professora passasse a se questionar se havia alguma coisa errada com os protocolos de tratamento, se as crianças estavam recebendo ou não um diagnóstico adequado, ou se estava faltando alguma coisa durante o percurso de diagnóstico. Tudo isto porque a leucemia é uma doença extremamente curável!
De acordo com Panis, a taxa de cura atual em países desenvolvidos é acima de 90%. No Brasil, saímos de uma mortalidade de 100% na década de 40, para uma taxa de cura acima de 80%. Então, como seria possível uma taxa de mortalidade próxima de 60% entre algumas dessas crianças com leucemia?
Foi aí que ela decidiu elaborar um projeto de pesquisa voltado para as crianças, trazendo como bagagem todo o seu conhecimento e estudos desenvolvidos com o câncer de mama, o qual já tinha um modelo da investigação de agrotóxicos muito bem estabelecido – inclusive, você pode ficar sabendo mais sobre essa pesquisa na matéria “Perigo no campo: o uso de agrotóxicos e o câncer de mama”, aqui no C²!
Contudo, diferente de mulheres adultas, agricultoras, que trabalham diretamente com agrotóxicos durante anos de suas vidas e acabam por desenvolver o câncer de mama, as crianças não foram expostas diretamente e por tempo suficiente para desenvolverem certas doenças como o câncer. E, apesar da leucemia ser um câncer de origem súbita, pouco se sabe sobre a sua origem.
Então de que forma uma criança pode ser exposta a substâncias carcinogênicas para que chegue a desenvolver um câncer?
Neste caso, é fundamental pensarmos não somente nas exposições recentes, mas também no impacto das exposições passadas a agentes químicos, que aconteceram nos pais antes mesmo dessa criança nascer. Esse processo é chamado de exposição transgeracional, ou seja, algo que pode ser passado de geração para geração, por meio do acúmulo de alterações no material genético das células do sistema reprodutivo. Estas exposições ao longo das gerações têm sido bastante discutidas pelos cientistas como possível causa de doenças, incluindo o câncer.

A pesquisadora explica um pouco mais sobre o processo de exposição passado de geração para geração no primeiro episódio do “Conexão Câncer Infantil”:
A exposição de mães e pais aos agrotóxicos está conectada ao perfil de agressividade da leucemia desenvolvida pelos filhos, por conta de um fator chamado exposição transgeracional. Confira!
Há vários motivos que potencializam a necessidade de se estudar a leucemia infantil. Um dos principais é que, dentre as doenças graves em crianças, os cânceres são os mais comuns e, especificamente, a leucemia é a mais comum entre eles. No entanto, não quer dizer que ela seja popular, muito pelo contrário, pois ela também é uma doença muito rara, o que agrava a questão de se ter pouca informação sobre ela.
Além disso, é uma doença agressiva com dificuldade em ser rastreada, uma vez que é um câncer de início súbito, ou seja, em uma semana os resultados de um hemograma podem apresentar dados dentro da normalidade e poucos dias depois, a pessoa pode começar a apresentar sintomas da doença.
E o que causa a leucemia?
Essa é a grande pergunta que ainda está sem resposta e, por isso, ela deve ser buscada!
“É uma doença cujos mecanismos são muito desconhecidos, mas que as observações nos relatos dos onco-hematologistas, ou seja, os médicos especialistas que tratam cânceres do sangue e do sistema linfático, falam muito do potencial que as contaminações ambientais podem ter tanto na causa como no agravamento destas patologias. Então, por isso, a leucemia é uma forte candidata a ser estudada no contexto dos agrotóxicos e micropoluentes”, explica a pesquisadora.
Dessa forma, crianças portadoras de leucemia passaram a ser monitoradas por um estudo de investigação da relação entre o perfil da leucemia infantil e a exposição parental (das mães e dos pais) aos agrotóxicos.
A primeira fase da pesquisa foi clínica e epidemiológica, composta por respostas obtidas de um questionário e pelo levantamento do perfil clínico dessas crianças. A professora explica um pouco sobre esse processo no segundo episódio do “Conexão Câncer Infantil”.
No último episódio da Série Conexão Câncer Infantil, a conversa gira em torno de como é realizada a análise da presença de leucemia nas crianças e o contato dos pais com agrotóxicos. Dê o play!
Claramente, não são todos os pacientes que são filhos de famílias que possuem contato direto com agrotóxicos. Por isso, dentro da pesquisa, as crianças foram separadas em grupos para serem analisadas e monitoradas.
O primeiro grupo foi formado por crianças cujos pais e/ou mães apresentavam histórico de exposição ocupacional aos agrotóxicos, ou seja, trabalhavam na agricultura e eram expostos através da diluição/preparo, pulverização ou lavagem e descontaminação de roupas e utensílios contendo agrotóxicos. Este grupo foi denominado exposto.

Para comparação, foi criado um grupo de controle composto por crianças oriundas de famílias que vivem na área urbana, cujos pais possuem ocupações que não têm nenhuma exposição química evidente.
A partir dos grupos estabelecidos, os cientistas partiram para uma comparação dos perfis clínicos dos pacientes. “Assim, a gente monta um banco de dados, coletando todas as variáveis necessárias: com quantos anos foi o diagnóstico da leucemia? Essa criança respondeu à primeira linha de tratamento? A doença voltou a aparecer? Teve complicações? Fez transplante? Ela foi a óbito? Então, assim, a gente tem mais ou menos 50 perguntas ou 50 parâmetros clínicos a partir do prontuário médico”, afirma Panis.
Como conclusão, a primeira etapa da análise estatística dos resultados evidenciou que as crianças filhas de pais expostos apresentam perfil clínico sugestivo de pior prognóstico, ou seja, cursam com maior taxa de falha no tratamento, ou falha na resposta quimioterápica e ao transplante, e que, infelizmente, apresentam uma frequência maior de óbito.
Finalizada a primeira fase do estudo, agora as pesquisadoras partem para a fase dois, composta por uma análise molecular. A medula óssea dessas crianças foi coletada para um estudo de mapeamento do material genético destas crianças, promovendo uma comparação entre os dados das crianças com e sem exposição parental aos agrotóxicos.
“Pode ser que a gente esteja diante da descoberta de algum marcador que possa ajudar a tratar essas crianças e a rastrear crianças suscetíveis. Por exemplo, se eu identificar uma proteína X no sangue de uma criança, pode ser que eu já saiba que eu preciso tratá-la de modo diferente o mais rápido possível, porque no meu estudo, a criança que possuía o marcador dessa proteína X foi a óbito em dois anos. Então, com isso, a gente pode se questionar: ‘será que a gente consegue modificar essa chavinha do material genético e propor um tratamento ou um monitoramento?’ E esse é o objetivo final do nosso estudo”, explica a pesquisadora.
Apesar destas informações alarmantes, Panis alerta para que as pessoas não tenham medo do assunto ou entrem em pânico em relação aos agrotóxicos quando se pensa em uma exposição ocasional, ou seja, aquela que ocorre através de consumo de água e alimentos contaminados. Até porque os dados da pesquisa mostram riscos apenas na população de crianças filhas de pais expostos de forma ocupacional, ou seja, aqueles cujo trabalho envolve a exposição crônica e continuada aos agrotóxicos ao longo da vida.
“Infelizmente, não temos uma forma de tirar o agrotóxico da nossa vida. As pessoas não podem ter medo dos alimentos ou da água por causa disso. A exposição ocupacional é crônica, severa e envolve a cadeia de uso do agrotóxico para produzir o alimento, sendo muito diferente da exposição ocasional, que acontece quando comemos alimentos e água contaminados por agrotóxicos. Tanto é que a Organização Mundial de Saúde afirma que, apesar disso, ainda existe um benefício muito maior em consumir o alimento e adquirir todos os componentes protetores que ele oferece, do que não consumir. O que a gente precisa na verdade é lutar por uma alimentação segura, com menos veneno”, afirma a professora.
Apesar da dificuldade em evitar a contaminação por agrotóxicos, o grupo de pesquisa vem conduzindo oficinas educativas junto à população de agricultores de diversos municípios do estado, com o objetivo de minimizar a entrada destas substâncias no organismo, especialmente pensando nos resultados da pesquisa até aqui – que apontam para um possível agravamento de doenças como a leucemia nos filhos de pessoas expostas aos agrotóxicos.
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi e Lucas Romão
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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