A jovem Thalita sempre foi apaixonada por cultivar a terra, fosse em sua própria horta ou em algum projeto do colégio em que concluiu o ensino médio e, de quebra, se formou técnica em agropecuária. Com minhocas e matéria orgânica, montava composteiras para produção de húmus1. Ela se preocupava em transformar, cuidar e entender a lógica do solo, dentro do universo em que vivia.
Agora engenheira agrônoma, Thalita Helena Magalhães segue olhando para a terra com atenção — mas agora, entre os ofícios da profissão que tanto ama, carrega um trado2 na mão, divide o campo em talhões, coleta amostras e lê números com a precisão de quem sabe que o sucesso de uma lavoura começa nos detalhes, logo embaixo dos nossos pés.
“A análise de solo é como um exame de rotina. O ideal é que a gente faça pelo menos uma vez ao ano”, conta Thalita. Seu último trabalho foi para o plantio de cana-de-açúcar. Para saber que fórmula de adubo recomendar ao produtor, ela precisava primeiro entender o que havia no solo: quanto de nitrogênio, fósforo e potássio estava ali? Só assim poderia propor uma adubação certeira, sem desperdício e com foco em produtividade.
Com um trado manual de ponta inox, Thalita percorre uma área limpa, ainda sem plantio. Coleta quinze pontos distintos, agrupa as amostras num balde, mistura bem e dali separa uma amostra composta. No saquinho plástico etiquetado com o nome da propriedade e do talhão3, ela leva mais do que terra: leva um diagnóstico potencial de todo um ciclo agrícola.

A rotina da agrônoma ajuda a entender, na prática, como o solo é analisado e como os resultados dessas análises se tornam fundamentais para o manejo agrícola. No caso de Thalita, a análise revelou que o solo era majoritariamente arenoso, informação decisiva para planejar a adubação, prever a retenção de água e escolher a melhor forma de cultivo. “As análises físicas ajudam a caracterizar o solo, e a partir dessa caracterização posso escolher melhor a cultura e complementar as informações para fazer as melhores recomendações para o produtor”, ela conclui.
É nesse ponto da cadeia — entre a coleta cuidadosa e a tomada de decisão técnica — que entra o papel dos laboratórios de análise do solo. É lá que os materiais, vindos de diferentes propriedades, passam por análises detalhadas que revelam sua textura, estrutura e comportamento. A terra, ali, ganha voz através dos dados!
O LAFIS
No campus da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) em Marechal Cândido Rondon, está o Laboratório de Física do Solo (LAFIS). Vinculado ao Grupo de Estudo de Solos e Agroecologia (GESA), o laboratório nasceu junto com o curso de Agronomia da instituição e, em 2025, ambos celebram 30 anos de existência.
Quem coordena as atividades do espaço é a professora Edleusa Pereira Seidel. “Trabalhamos principalmente com parâmetros que indicam a qualidade física do solo: porosidade, densidade, estabilidade de agregados… tudo isso ajuda a identificar solos com compactação, ou mais propensos à erosão”, explica.
Um dos grandes destaques do LAFIS é o WP4, equipamento de alto valor agregado, que permite determinar o chamado “ponto de murcha permanente” — a condição em que a planta já não consegue mais absorver água do solo. “Isso é essencial para entendermos a disponibilidade hídrica de uma área”, afirma Edleusa. A ferramenta substitui um processo tradicionalmente demorado feito em extratores de pressão, entregando os resultados com maior rapidez. “Quando há estresse hídrico, a diferença na qualidade do solo vai refletir na produção de uma área”, alerta.
As análises
A análise granulométrica é uma das principais realizadas no LAFIS. Segundo a professora, ela é usada para determinar a textura do solo, “se é argiloso, de textura média ou arenosa”, e tem sido cada vez mais exigida por instituições financeiras que oferecem crédito rural. “Os bancos pedem essa análise justamente para avaliar o risco hídrico da área. Um solo com mais argila retém mais água, o que pode proteger melhor a lavoura em períodos de estiagem. Já o solo arenoso tem uma retenção menor, o que significa mais vulnerabilidade”, explica.
Além da análise granulométrica, o LAFIS também realiza exames de densidade e porosidade, parâmetros essenciais para avaliar a qualidade física do solo. A densidade refere-se à quantidade de matéria sólida presente em um determinado volume de solo. Quando a densidade é muito alta, pode indicar compactação, o que dificulta o crescimento das raízes e reduz a infiltração de água. Já uma densidade muito baixa pode ser sinal de fragilidade estrutural, o que também pode afetar a produtividade.
A porosidade, por sua vez, está relacionada à capacidade do solo de reter e conduzir água e ar, elementos vitais para o desenvolvimento das plantas. Um solo com boa porosidade permite o escoamento adequado da água das chuvas e, ao mesmo tempo, retém a umidade necessária para o período seco. Também garante que as raízes respirem e absorvam nutrientes com mais eficiência.

Todas essas análises seguem metodologias estabelecidas pela Embrapa, o que garante padronização, transparência e confiabilidade nos resultados. “A pessoa que pegar o laudo vai saber exatamente qual metodologia foi utilizada, como foi feita e o que aquele número significa”, destaca a professora da Unioeste.
LabMulti: laboratórios multiusuários
O LAFIS integra o LabMulti, plataforma de laboratórios multiusuários da Unioeste. Isso significa que qualquer pessoa de outras instituições, públicas ou privadas, pode utilizar a estrutura, desde que faça o agendamento. “É claro que, se a análise exigir um reagente específico, a pessoa interessada precisa trazer ou combinar como adquirir. Mas várias análises não têm custo direto ao usuário”, ressalta Edleusa.
Apesar da infraestrutura, o uso ainda é relativamente tímido por pessoas de fora da instituição. A expectativa é que, com a plataforma e uma maior divulgação, a procura aumente. “É importante que esse equipamento circule, que seja utilizado. Uma mesa de tensão totalmente automatizada, por exemplo, custa cerca de R$150 mil. Máquina que não é usada, estraga”, enfatiza a coordenadora.
Formação acadêmica
Na formação dos alunos, o laboratório ocupa um papel central. A disciplina “Física do Solo”, obrigatória na graduação em Agronomia, leva os estudantes a vivenciar na prática uma sequência de análises físicas do solo, com acompanhamento e uso de apostilas metodológicas. “Eu costumo dizer que os futuros agrônomos são os médicos do solo. E o médico que não sabe interpretar um hemograma, não cumpre sua função. O agrônomo precisa saber interpretar dados de qualidade física do solo”, defende a professora Edleusa.
Já na pós-graduação, praticamente todas as pesquisas que envolvem solos passam pelo LAFIS. No entanto, a falta de técnicos laboratoriais tem sido o maior desafio enfrentado. “O ideal seria termos um técnico responsável pelas análises, que pudesse acompanhar quem vem de fora, ou mesmo um agendamento com dias fixos em que alguém estaria disponível para orientar. Hoje, esse papel é muitas vezes assumido por alunos da pós”, conta Edleusa. O déficit de pessoal técnico inclusive levou à suspensão da prestação de serviços externos, que já foi uma das frentes de atuação do laboratório.
Estrutura e atendimento
Ainda assim, a estrutura tem se mantido com qualidade graças à obtenção de recursos por meio de projetos de pesquisa e parcerias. “Nossa atual mesa de tensão foi adquirida com recurso da Itaipu. Muitos equipamentos não foram comprados pela universidade diretamente, mas através de projetos”, relata Edleusa Seidel.
Quanto ao perfil do público atendido, o laboratório é buscado, principalmente, por técnicos agrônomos que já passaram pela universidade ou que atuam em empresas e cooperativas da região. “É uma análise muito específica. Não é o produtor que vem, mas o técnico que identifica um problema, coleta a amostra e traz para análise. São pessoas que entendem a importância disso para o manejo do solo”, diz a coordenadora do Laboratório da Unioeste.
E é justamente nessa ponte entre conhecimento técnico e prática agrícola que o laboratório acaba beneficiando toda a região, até a população urbana. “Se os técnicos e agrônomos utilizarem mais a análise física do solo como parâmetro para decisões, isso melhora o manejo das propriedades, aumenta a infiltração e a retenção de água, recarrega melhor os lençóis freáticos… o que afeta também quem mora na cidade, porque melhora a disponibilidade e a qualidade da água”, afirma a professora.
A análise física do solo, portanto, está diretamente ligada à sustentabilidade. O uso mais racional da água e de defensivos começa no conhecimento profundo do solo. “Uma sociedade com um solo pobre é uma sociedade pobre financeiramente e culturalmente. Está tudo interligado. Do solo à planta e da planta à mesa”, finaliza Edleusa.
E é assim que o laboratório alcança toda a sociedade: o conhecimento produzido ali retorna ao campo em forma de manejo mais eficiente, fortalecendo a agricultura, preservando os recursos naturais e gerando impactos positivos, que vão desde uma melhor produção de alimentos, até uma melhor qualidade de vida.
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Luiza da Costa
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Húmus – matéria orgânica depositada no solo, resultante da decomposição de animais e plantas mortas, folhas e de seus subprodutos ou produzida por minhocas. ↩︎
- Trado – ferramenta utilizada para perfuração do solo. ↩︎
- Talhão – porção de terreno, mais ou menos distinta e separada, com qualquer cultura. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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