Aprender juntas: outro jeito de fazer ciência

Ilustração de cinco mulheres e meninas usando jalecos em uma sala com quadro verde ao fundo. No quadro há desenhos de gráficos com eixos, linhas e números. Sobre a mesa estão um microscópio, livros, caderno em espiral e esquadro. Uma menina segura um microscópio portátil, outra lê um livro roxo e outra segura dois frascos. Ao fundo há um quadro com desenho de pássaro azul. As mulheres e meninas têm diferentes tons de pele e cabelos variados.
Imersão do programa Futuras Cientistas aproxima meninas da universidade e fortalece o aprendizado científico coletivo no Paraná

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“A conquista de uma é a conquista de todas.”

A frase emerge da experiência vivida por meninas de diferentes cidades do Paraná durante a imersão proporcionada pelo programa Futuras Cientistas, no mês de janeiro de 2026. Ao longo de uma semana, a convivência intensa, os desafios compartilhados e o contato com a rotina universitária reorganizaram a forma como o aprendizado científico se constrói. Com um relato dessa experiência, o C² comemora o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência em 11 de fevereiro. 

A etapa presencial do programa Futuras Cientistas, no Paraná, foi organizada pelo Rocket Girls: Meninas nas Ciências, projeto de extensão do Setor Palotina, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), voltado à aproximação de meninas da educação básica com o ambiente universitário. Após semanas de atividades on-line, o encontro presencial ocorreu no campus da UFPR, em Palotina.

Foto de grupo em laboratório com pessoas usando jalecos brancos. Doze estão em pé e duas agachadas na frente, ao lado de bancadas de madeira com microscópios. Ao fundo há quadro branco com anotações em vermelho, armários e frascos. Na parte superior esquerda há uma televisão e dois monitores. Sobre a mesa frontal há um projetor e um notebook. O piso da sala é branco.
Participantes da imersão do programa Futuras Cientistas durante atividade em laboratório no campus da UFPR em Palotina (Foto/Rocket Girls)

Ao todo, 26 participantes de diferentes regiões do Paraná integraram a terceira edição da imersão no estado. Para algumas delas, chegar até Palotina significou viagens de até doze horas, um deslocamento que faz parte da própria proposta formativa da iniciativa. Ao compartilhar alojamento, rotinas e atividades acadêmicas, as meninas passaram a vivenciar a universidade não como visita, mas como experiência cotidiana.

“O fato de você saber que não está sozinha, saber que existem outras meninas, de tantos lugares, que também querem estar ali, é incrível”, conta Elisa Namie Lopes Guimarães, do clube Little Scientist.

Entre oficinas de confecção e lançamento de minifoguetes, atividades em laboratórios e momentos de convivência, a formação também se deu no encontro entre as meninas. Para as participantes, estar em um espaço onde outras jovens compartilham interesses semelhantes transforma a forma de aprender e de se perceber na ciência.

Ao longo da imersão, essa vivência coletiva também tensiona imagens cristalizadas sobre quem pode ocupar o lugar da ciência. Longe do estereótipo do cientista solitário, masculino ou associado à genialidade excêntrica, as participantes circulam pelos laboratórios sendo quem são: adolescentes que usam maquiagem, acessórios, unhas coloridas e roupas que expressam sua identidade. 

Nesse contexto, aprender ciência não exige apagar traços pessoais ou assumir um personagem, mas reconhecer que o fazer científico comporta múltiplas formas de existir. A aproximação com a universidade, nesse cenário, também passa por desnaturalizar modelos restritos de cientistas e ampliar as possibilidades de identificação.

  • Duas mulheres estão lado a lado em um ambiente interno com janelas ao fundo e árvores visíveis do lado de fora. A mulher à esquerda usa regata branca e bermuda jeans clara, e segura uma sacola bege com a frase “Futuras Cientistas” em roxo e rosa. A mulher à direita usa vestido azul longo com detalhes vazados e um casaco azul estampado. Ambas sorriem para a câmera. Há cadeiras e piso claro no ambiente.
  • Seis mulheres e meninas posam ao ar livre em frente a um prédio amarelo com janelas e aparelhos de ar-condicionado. Duas mulheres adultas estão sobre um banco de concreto e quatro jovens estão ao redor, todas sorrindo e fazendo sinais com as mãos. Há árvores e gramado ao fundo, além de outro prédio parcialmente visível. As roupas variam entre vestidos, camisetas, saias, shorts e calças jeans, em cores como azul, preto, branco e bege. O chão é de grama e tijolos, e há folhas e sombras das árvores na parte superior da imagem. A cena é iluminada por luz natural durante o dia.
  • Quatro mulheres e meninas posam em um ambiente interno, em frente a um quadro verde e a uma tela de projeção. Duas mulheres adultas e duas jovens estão lado a lado, sorrindo para a câmera. Uma delas usa camisa estampada verde e vermelha, óculos e sandálias; outra veste roupa preta e um cocar com penas. A terceira usa blusa rosa e calça preta, com uma medalha pendurada no pescoço, segurando um troféu transparente junto com a pessoa ao lado. A quarta veste vestido vermelho com estampa branca e também usa medalha. Ao fundo há mesas, cadeiras e uma sacola branca próxima à parede.
  • Duas jovens estão em uma área externa com grama e árvores ao fundo. Ambas sorriem para a câmera e juntam as mãos formando um coração. Uma usa macacão preto e tem cabelos longos soltos. A outra veste camiseta clara com estampa e shorts jeans. As mãos e partes das pernas de ambas estão sujas de terra. No chão há folhas secas, um pequeno buraco e uma muda de planta. Ao fundo aparecem vegetação, um muro e parte de uma construção com telhado.
  • Uma jovem está agachada em uma área externa com grama e terra vermelha, escrevendo com uma caneta em uma placa fixada em um suporte de madeira. A placa contém o texto “Futuras Cientistas 2025” e várias assinaturas e desenhos coloridos. Ela usa camiseta clara, shorts jeans e sandálias, com o cabelo preso. Ao redor há folhas secas no chão e vegetação verde densa ao fundo, formada por plantas de folhas largas. A cena é iluminada por luz natural, com sombras suaves sobre o solo e as plantas.

Assim, a dinâmica construída entre as jovens desafia uma lógica frequentemente associada à formação científica, marcada pela comparação de desempenhos e pela competição. No convívio diário, o aprendizado se fortalece justamente quando é compartilhado: ideias circulam, se conectam e ganham novas formas a partir do diálogo e do afeto. Nesse ambiente, o avanço de uma participante não é visto como parâmetro de disputa, mas como referência possível, capaz de ampliar a confiança das demais. A vivência revela que aprender ciência envolve reconhecer o esforço coletivo, compreender o erro como parte do processo e perceber que trajetórias semelhantes tornam o caminho mais acessível.

Um grupo de pessoas formado majoritariamente por mulheres posa em frente à entrada de um prédio de paredes amarelas, com portas e janelas de vidro ao fundo. A maioria veste jalecos brancos, enquanto algumas usam roupas casuais. Parte do grupo está em pé e outra parte agachada ou sentada na parte frontal. Algumas pessoas seguram objetos nas mãos. Há uma placa na parede à direita com o texto “Bloco Didático II”. O chão é de concreto, com área de tijolos ao lado. A imagem foi feita em ambiente externo, com iluminação natural, e todos estão voltados para a câmera, próximos uns dos outros.
Durante a imersão do programa Futuras Cientistas, meninas participam de oficina de produção e lançamento de minifoguetes com sementes, unindo experimentação científica e ações voltadas ao reflorestamento (Foto/Rocket Girls)

Na prática, esse aprendizado se construiu em atividades realizadas nos laboratórios e nas oficinas ao longo da semana. As participantes entraram em contato com procedimentos, instrumentos e métodos que fazem parte da rotina universitária, formulando perguntas, testando hipóteses e trabalhando em grupo. O foco esteve menos na memorização de conteúdos e mais na vivência dos processos que estruturam a produção científica.

Para as estudantes, esse movimento não termina com o fim da imersão. “Depois que a gente volta, dá vontade de aplicar tudo o que aprendeu e mostrar para outras meninas que elas também conseguem fazer ciência”, afirma Giovanna Cristina de Pontes Chagas, 16 anos, que participou da imersão em 2025. Ela não integrou a edição presencial neste ano, porque a data coincidiu com seu retorno do intercâmbio realizado na Inglaterra, pelo programa Ganhando o Mundo. A experiência obtida amplia a confiança para ocupar espaços que antes pareciam distantes e reforça a ideia de que aprender ciência é um processo contínuo.

Do ponto de vista de quem acompanha as alunas, os efeitos da imersão também são evidentes. Para a professora Suelem Martins, coordenadora do clube Foguete Girls no Colégio Estadual Antônio Carlos Gomes, em Terra Roxa (PR), que acompanhou alunas pelo segundo ano consecutivo, a imersão provoca deslocamentos importantes. “É sair da zona de conforto. Mesmo com a saudade da família, o desejo de aprender se sobressai, e isso gera maturidade”, afirma.

Ao reunir participantes de diferentes territórios e trajetórias em um mesmo espaço formativo, a imersão possibilitou que as trocas fossem ampliadas e fortaleceu ainda mais o aprendizado coletivo. Segundo a docente, essa vivência não se encerra na universidade. “Esse aprendizado retorna para a escola em forma de clube de ciências”, defende.

Essas descobertas, no entanto, não se restringem às estudantes. Suelem conta que participar da imersão significou, também para ela, viver uma primeira vez. “Foi a primeira vez que dormi em alojamento. No meu período escolar, meus pais nunca permitiram esse tipo de vivência”, relata. Dividir esse momento com as alunas, segundo a professora, reforça a ideia de que a formação científica também envolve autonomia, convivência e descoberta e que essas experiências não têm idade para acontecer.

Em diálogo com o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, a imersão ganha novos sentidos. Ao atravessarem os portões da universidade, essas meninas e jovens mulheres não apenas acessam laboratórios e métodos científicos, mas passam a se reconhecer como parte desse espaço e a construir, juntas, novos caminhos possíveis.

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Texto:
Marilaine Martins
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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