Durante a sua vida escolar, com quantos alunos autistas você lembra de ter estudado? Para te contar sobre a minha experiência: nenhum. E, se você já passou do período escolar há muitos anos, é possível que a sua resposta seja a mesma que a minha.
Mas será que isso significa que antes não existiam pessoas no espectro autista? Ou então, que o número de pessoas diagnosticadas com autismo aumentou muito?
Na verdade, sempre existiram pessoas autistas. É possível que você tenha estudado com elas ao longo dos anos em que esteve na escola. Mas também é preciso afirmar que sim, os diagnósticos aumentaram nos últimos anos.
Isso significa que existem mais pessoas com autismo hoje do que nas décadas passadas?
Pavimentando o caminho das próximas gerações
O aumento no número de diagnósticos de autismo não tem relação direta com um crescente no número de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas sim com algo mais simples e fundamental: o acesso à informação.
O crescimento difusão de conteúdo (educativo, informativo ou de entretenimento) sobre o autismo se deve a uma combinação de fatores: o papel da internet, o ativismo de movimentos e Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam em prol de pessoas autistas, a representatividade e, claro, os avanços científicos.

As redes sociais possibilitaram que cada vez mais pessoas autistas pudessem compartilhar suas experiências em primeira pessoa e também que instituições, ONGs e movimentos sociais aumentassem o raio de divulgação e conscientização dos seus trabalhos e pesquisas.
Atualmente, não é incomum encontrar livros, filmes ou séries que trazem personagens autistas e suas relações interpessoais: com amigos, familiares ou no ambiente escolar. Nesse sentido, a mídia também tem esse papel importante.
Além disso, o melhor preparo dos profissionais da saúde em torno dessa condição e os critérios de avaliação mais abrangentes também contribuíram para que mais pessoas TEA conseguissem ter um diagnóstico mais assertivo.
Em décadas passadas, muitas pessoas autistas passavam despercebidas ou eram classificadas de outras formas, especialmente em casos de autismo leve. Hoje, felizmente, cresce o número de autistas que têm recebido diagnóstico e suporte adequado, o que explica o aparente crescimento dos números.
Neade/TEA: mapeando o Paraná
É nesse cenário que o Núcleo de Estudos, Pesquisas e Ações da Diversidade Educacional (Neade), existente nas universidades estaduais, resolveu se reunir em torno de um propósito: mapear o autismo nas instituições de ensino público do Estado do Paraná. Com aporte financeiro da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), nasceu o Neade/TEA.
O projeto é formado por 14 bolsistas, sendo sete professores e sete estudantes vinculados aos cursos de Pedagogia, Psicologia, Letras e Educação Física das sete instituições de ensino superior do Paraná, com apoio da Seti, por meio do Fundo Paraná.

A pesquisa visa mapear o número de crianças, adolescentes e adultos autistas matriculados na rede pública de ensino fundamental, médio e superior do nosso estado, explica Rosangela Trabuco Malvestio da Silva, docente da Unespar (campus Paranavaí).
Rosangela atua há mais de 30 anos com ensino – desde o fundamental até o superior. Sua área de pesquisa é a Educação e, atualmente, está atuando como coordenadora geral do grupo Neade/TEA.
A pesquisa desenvolvida pelo grupo é um estudo quali-quantitativo e abrangeu um grande número de municípios e instituições. Além de coletar e organizar essas informações, o grupo ainda desenvolveu análises sobre o que foi identificado nos dados com intuito de, ao final da pesquisa, publicar um e-book com todo material produzido.

“É uma pesquisa piloto… E para todo mundo que apresentamos, as pessoas nos dizem que querem esses dados. É um estudo inovador e o Paraná é o primeiro estado do Brasil a fazer um trabalho como esse”, comenta Rosangela.
Os dados coletados foram fornecidos pela Secretaria da Educação do Paraná (SEED/PR), de crianças, adolescentes e adultos com laudo cadastrados no Sistema Estadual de Registro Escolar, o SERE. O laudo é apresentado no momento da matrícula do aluno.
Mas o trabalho é ainda mais complexo e conta com inúmeras variáveis: leva em conta alunos com comorbidades, deficiências intelectuais, além de dados como idade, gênero e raça. Com base nisso, portanto, é possível tecer análises completas e complexas sobre esse cenário.
De acordo com a professora, em 2023, havia 10.468 alunos autistas na educação infantil, 14.711 no ensino fundamental, 1.809 no ensino médio e apenas 149 no ensino superior. Esse número representa uma evasão escolar preocupante: mas o que tem levado as pessoas com TEA a, gradativamente, pararem de ocupar esses espaços?
TEA: a conscientização cria atalhos
A evasão escolar dos alunos com TEA representa, em parte, uma lacuna e uma falta de protocolos que auxiliem professores, instituições e alunos sobre sua permanência e direitos. Essa pesquisa vem no sentido de dar luz a isso.
Além da evasão escolar, a professora pontua que as desigualdades em torno do próprio diagnóstico e também o acesso ao laudo, são grandes. Em geral, crianças negras, pardas, indígenas e quilombolas têm menos acesso a esse tipo de suporte.

E, por isso, a pesquisa é tão valiosa. Esses dados têm como objetivo servirem de base para o desenvolvimento de protocolos para professores, fomento de políticas públicas que garantam a permanência desses estudantes, divulgação e conscientização dessas informações para a população.
Rosangela argumenta que a intenção é usar os dados coletados em publicações científicas e materiais de apoio, além de participar de eventos e apresentações que divulguem esses resultados, em prol de medidas efetivas de inclusão e de maior acesso à informação para pessoas TEA.
“Esse tema é atual, chama atenção das políticas públicas e a sociedade pede esse retorno… Além da pesquisa ser inovadora, ela é importante pra sociedade. É pesquisa e também é extensão, porque agrega conhecimento tanto às universidades quanto para a comunidade.”
Em que direção estamos caminhando?
Rosangela explica que um dos dados interessantes da pesquisa é que o número de crianças diagnosticadas com deficiência intelectual diminuiu, enquanto o número de crianças diagnosticadas com TEA aumentou, o que corrobora com a noção de que o maior acesso à informação e diagnósticos mais precisos tem ajudado esses indivíduos terem suas necessidades melhor atendidas.
Dia 2 de abril é celebrado o Dia da Conscientização do Autismo. Essa foi uma data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007. O propósito é levar informação à população, além de reduzir e discriminação e o preconceito contra pessoas autistas. E ainda: possibilitar melhor qualidade de vida para esses indivíduos.

Se eu pudesse resumir esse texto em uma frase, seria: a informação salva. O estigma sobre o autismo tem, a pequenos passos, diminuído e também incentivado mais pessoas a buscarem diagnóstico e suporte adequado.
Com isso, respondendo às perguntas do início do texto: o crescimento no número de diagnósticos reflete não um aumento real de casos, mas uma sociedade mais informada e preparada para reconhecer e incluir pessoas autistas.
Embora ainda exista muito trabalho a ser feito, projetos como o do Neade/TEA têm sido fundamentais para que não só a informação chegue até à população, mas para que a vida de pessoas com autismo seja cada dia melhor.
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Texto: Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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