Você vai ao médico regularmente? Para muitas pessoas, ir em uma consulta médica é sinônimo de desconforto, incômodo, aflição e até angústia. Mesmo sabendo que fazer um check-up de vez em quando é necessário, vejo que várias pessoas do meu círculo social só buscam atendimento especializado quando apresentam sintomas mais preocupantes.
E elas ainda estão no lucro, pois, de acordo com a pesquisa “Mais Dados, Mais Saúde”, realizada em 2024, cerca de 62,3% dos brasileiros não procuram atendimento quando precisam. O estudo também apontou que algumas das razões para isso acontecer são a superlotação e a demora no atendimento, a burocracia no encaminhamento, a prática da automedicação e, até mesmo, a crença de que o problema não é grave.
Indo mais a fundo nesses motivos que afastam as pessoas dos médicos, também encontrei a ansiedade e o medo da possibilidade de descobrir uma doença grave, questões culturais e sociais, além da má experiência em atendimentos anteriores e o receio de alguns procedimentos mais invasivos.
Por exemplo, desde adolescente, lembro da minha mãe comentando com as amigas dela sobre o desconforto de realizar o exame de Papanicolaou, também conhecido como preventivo, e como todas elas concordavam e compartilhavam suas experiências fazendo esse bendito exame.
Mesmo muito nova, lembro de já ter ficado preocupada de quando chegasse minha vez de realizar o exame, pois, mesmo contando sobre o incômodo, minha mãe nunca deixava de fazer quando chegava a hora, por saber de sua importância.
Por conta disso, em 2022, quando a pauta do Conexão Ciência – C² foi um projeto que estuda a autocoleta para o teste do Papillomavirus humano, o HPV, que é um vírus sexualmente transmissível e a principal causa do câncer do colo do útero, eu fiquei muito interessada no tema. Afinal, imaginei que havia sido desenvolvida uma opção inovadora, que, assim como o exame de Papanicolaou, pode ser usada para o rastreio do câncer cervical.
Confira o que é HPV no vídeo abaixo:
Como a vida dá muitas voltas, atualmente, eu sou bolsista de divulgação científica e comunicação deste projeto. Porém, continuo firme e forte como voluntária do C² e, unindo o útil ao agradável. Hoje, vou te apresentar a Rede Previna-se.
Rede Previna-se
Com coordenação da professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Marcia Edilaine Lopes Consolaro, a Rede Previna-se desenvolve projetos em nível nacional, desde 2013, sobre o estudo da autocoleta vaginal para teste de HPV no combate ao câncer do colo do útero.

A Rede nasceu por conta de um cenário preocupante: muitas mulheres não fazem o Papanicolaou, seja por vergonha, pelo desconforto do exame, falta de informação e acesso ou por proibição do marido. A falta de rastreamento contribui com os 17 mil novos casos de câncer de colo de útero que são registrados, anualmente, no Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Esse tipo de câncer é, praticamente, 100% prevenível com a vacina e o rastreamento. Por isso, a praticidade da autocoleta, por ser rápida, indolor e, além da possibilidade de ser realizada pela própria mulher em casa, em uma clínica ou em qualquer outro local conveniente para ela, pode facilitar e aumentar a adesão para aquelas que não realizam o exame de prevenção do câncer de colo do útero.
Dessa forma, “os estudos realizados pela Rede são de extrema importância para avaliar e propor novas políticas públicas, pensando em melhorias nos exames preventivos de câncer do colo do útero para as mulheres brasileiras”, afirma a professora Marcia Consolaro.

Novas diretrizes
É importante destacar que, até o momento, o Papanicolaou é o exame mais tradicional para o rastreamento do câncer de colo de útero. Porém, em 2024, o Instituto Nacional do Câncer, apresentou a proposta de uma nova Diretriz Brasileira de Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. A iniciativa substitui o exame preventivo pelo teste de DNA-HPV oncogênico, um exame que possui maior sensibilidade para identificar lesões pré-cancerosas.
Essa proposta já tem aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), só precisa da avaliação final da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde para ser oficialmente implementada. A previsão é que o exame Papanicolaou seja substituído de forma gradual no Sistema Único de Saúde, o SUS, pelo teste molecular de DNA‑HPV, ainda em 2025.
Projeto multicêntrico
Um dos primeiros projetos da Rede Previna-se é o “Autocoleta e teste de HPV em mulheres não rastreadas para o câncer cervical: estudo multicêntrico de viabilidade no Brasil”. Ele envolve as cinco regiões brasileiras: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, e estuda a aplicação da autocoleta para teste HPV como ferramenta para promoção da equidade 1e diminuição da morbimortalidade por câncer de colo do útero, em todo Brasil.
Apesar de não estar finalizado, esse projeto já apresenta resultados promissores sobre o uso da autocoleta para teste de HPV. Por isso, em 2024, a Rede Previna-se deu mais um passo em direção à equidade, com um estudo focado em mulheres negras urbanas e quilombolas.
Em busca de mais equidade
O novo projeto é intitulado “Autocoleta para teste de HPV como estratégia de promoção da equidade e de diminuição da morbimortalidade por câncer do colo do útero em mulheres negras das diferentes macrorregiões brasileiras”. Ele foi uma das iniciativas apresentadas no Seminário Marco Zero, evento realizado em Brasília, em junho de 2024, que reuniu pesquisas contempladas pela Chamada Pública nº 21/2023 – Estudos Transdisciplinares em Saúde Coletiva.
É uma pesquisa que se encaixa no eixo de “Equidade em Saúde” e propõe avaliar a aceitabilidade e a adesão de mulheres negras urbanas e quilombolas à autocoleta de teste de HPV para rastreio e prevenção do câncer de colo do útero. A atuação prevê ações nas três diferentes macrorregiões econômicas brasileiras. As mulheres serão reunidas por meio de atividades de educação em saúde e de treinamento de Agentes Comunitários de Saúde (ACS), além de líderes comunitários.
As cidades e os estados das macrorregiões envolvidas no projeto são: Maringá – Paraná e Dourados – Mato Grosso do Sul (Macrorregião Centro-Sul); Manaus – Amazonas (Macrorregião Amazônica); Natal – Rio Grande do Norte; e Recife – Pernambuco (Macrorregião Nordeste).

O projeto surgiu a partir de dados que mostram uma realidade preocupante: entre as brasileiras, as mulheres negras urbanas e quilombolas estão entre as mais afetadas pelo câncer do colo do útero e esses números têm aumentado com o passar do tempo.
“Diante disso, entendemos que é urgente olhar com mais atenção para as mulheres negras, tanto das cidades, quanto das comunidades quilombolas, e desenvolver pesquisas que ajudem a criar políticas públicas mais justas, que possam mudar essa situação e salvar vidas”, explica a coordenadora da Rede Previna-se.
O objetivo do projeto é oferecer a autocoleta para teste de HPV, para que essas mulheres coletem a amostra de forma simples e acessível. “Isso facilita o acesso ao exame, especialmente em lugares com poucos serviços de saúde. Com mais mulheres fazendo o teste, é possível identificar o risco cedo, garantir o tratamento a tempo e ajudar a prevenir a doença, promovendo mais igualdade no acesso à saúde”, conta a professora Marcia Consolaro.
Metodologia
Como já citado, o trabalho é feito em parceria com os ACS e líderes comunitários, que receberão treinamento para orientar e apoiar as mulheres negras urbanas e quilombolas. Depois, cerca de 600 mulheres, de diferentes comunidades e Unidades Básicas de Saúde (UBS), vão receber um dispositivo simples para fazer a autocoleta para teste de HPV.
As amostras serão enviadas a um laboratório especializado que identificará os tipos de HPV de alto risco para desenvolvimento de câncer, o que vai ajudar a detectar precocemente as fases iniciais, antes da doença se desenvolver. As mulheres que receberem diagnósticos positivos serão encaminhadas para acompanhamento, tendo acesso ao tratamento e à prevenção.
Planejamento
As reuniões de alinhamento do projeto já estão acontecendo e, durante encontros remotos, foram discutidas as seguintes pautas: aprovações éticas de cada centro; indicação dos bolsistas, modalidades e prazos de bolsa; cronograma de atividades, datas dos treinamentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs); divulgação científica; cronogramas de reuniões; e assuntos gerais.

A professora Márcia conta que “os próximos passos envolvem o treinamento presencial das equipes locais, incluindo ACS e líderes comunitários de cada centro participante, com base em um modelo de educação em saúde já aplicado por nossa equipe em projetos anteriores. Após essa etapa, iniciaremos a busca ativa e coordenada por mulheres negras urbanas e quilombolas em cada centro do estudo”, explica ela.
Além de ajudar a detectar o risco de câncer mais cedo e salvar vidas, o projeto também pode auxiliar no fomento de políticas públicas ao mostrar, na prática, que a autocoleta para teste de HPV é uma forma eficaz e acessível de prevenir o câncer do colo do útero entre mulheres negras urbanas e quilombolas.
“Com dados e resultados confiáveis sobre a aceitação e os benefícios da autocoleta, o projeto oferece informações importantes para que governos e gestores de saúde possam incluir essa estratégia nos programas oficiais de prevenção, promovendo mais igualdade no acesso aos cuidados com a saúde”, conclui Marcia Consolaro.
Unindo pesquisadores de todo Brasil, a Rede Previna-se atua na linha de frente no combate ao câncer do colo do útero! Para saber mais, fique ligado nas redes sociais do projeto.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Milena Massako Ito
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Gustav Bartmann
Arte: Lucas Romão
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Equidade – O conceito de equidade é orientado pelas necessidades, diversidades e especificidades de cada cidadão ou grupo social, ou seja, ele reconhece que não somos todos iguais e que é necessário dar às pessoas o que elas precisam para que todos tenham acesso às mesmas oportunidades. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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