Onde trabalho, no Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi) da Universidade Estadual de Maringá (UEM), tenho um amigo que vira e mexe fala que vai cuidar dos ratos dele no biotério. Mas que raios é um biotério? E por que ele tem ratos lá?
Então fui pesquisar essa palavra que eu nunca tinha ouvido em toda a minha vida. Biotério, de origem grega, é formada por bios (vida) e o sufixo -terion (local onde se realiza uma ação específica). Em poucas palavras, é o lugar em que os animais para estudo de laboratório são mantidos.
Esse meu amigo “pai de rato” se chama Henrique Cazanti, e faz sua pesquisa de mestrado com esses animaizinhos. Ele está investigando a ação da melatonina no intestino delgado e grosso, enquanto verifica as possíveis alterações que ela pode causar no trato gastrointestinal.
A preocupação surgiu porque a melatonina é liberada para qualquer pessoa comprar, sem necessidade de receita médica, já que é considerada um suplemento alimentar, e, portanto, muitas vezes, seu uso ultrapassa o recomendado. Os primeiros resultados da pesquisa indicaram que o uso crônico desse hormônio causa uma alteração no organismo, por isso, continuar esse estudo com animais é crucial para terem os parâmetros fisiológicos certos. A ideia é que, por meio dessa pesquisa, a legislação mude e dificulte a compra da melatonina, além de as pessoas terem mais ciência dos os malefícios de usá-la sem moderação.
Então, depois de entender melhor a pesquisa do Henrique, fiquei muito animado para conhecer um dos Biotérios Setoriais, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), que é onde ocorrem as pesquisas, diferente do Biotério Central, que é onde acontece a criação de animais. Quando fui lá, tive que me adequar para não correr o risco de contaminar o estudo do pessoal (e não me contaminar também!). Vesti um jaleco, higienizei as mãos, botei luvas e falei baixo para não estressar os bichanos. O lugar é climatizado e com entrada permitida somente a pessoas autorizadas, afinal de contas, qualquer parâmetro externo não controlado pode prejudicar a exatidão das pesquisas.
Acredito que a maioria das pessoas, assim como eu, se preocupa se os ratos sentem alguma dor durante o estudo. E aí o Henrique me explicou que “não tem sofrimento animal nenhum. No dia a dia, a maioria dos procedimentos são indolores e qualquer manipulação que vai causar o mínimo de dor é feita com anestesia. Inclusive, no momento da eutanásia, a morte dos animais é feita de forma indolor.”
Enquanto estávamos conversando, perguntei ao Henrique como ele faz para conseguir os ratos. Basicamente, o pesquisador tem que mandar o projeto escrito para o Comitê de Ética em Experimentação Animal. Com a proposta em mãos, eles fazem a revisão, solicitam algumas mudanças para adequá-lo às normas e, enfim, disponibilizam a quantidade de animais solicitada para que a pesquisa seja feita da melhor maneira possível.
O biotério
Os responsáveis por fornecerem os animais para as pesquisas são os biotérios de cada instituição. Um biotério é uma instalação especialmente planejada para a criação, manutenção e utilização de animais de laboratório, operando sob rigoroso controle ambiental e sanitário, de modo a garantir o bem-estar animal, a qualidade e confiabilidade dos resultados científicos dos estudos.
De acordo com a médica veterinária doutora Alciony Andréia da Cunha Alexandre, responsável pelos Biotérios Setoriais, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), “nos biotérios são realizadas pesquisas essenciais para a saúde humana e animal, além de ser um local em que nascem descobertas que transformam a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de doenças”, afirma ela.

Como já foi citado, os biotérios seguem rigorosas normas técnicas e éticas. Esses padrões são regulados pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com supervisão da Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA), que é um órgão obrigatório em qualquer instituição nacional, que produza, mantenha ou utilize animais para ensino ou pesquisa científica.
O bem-estar animal é uma das prioridades dentro dos biotérios, por isso, são seguidos um conjunto de princípios éticos essenciais para o uso de animais em pesquisas científicas. Um deles é a aplicação dos 3Rs:

Esse princípio está alinhado a Diretriz Brasileira para o Cuidado e a Utilização de Animais em Atividades de Ensino ou de Pesquisa Científica (DBCA) e as normas do CONCEA, em conformidade com a Lei no 11.794/2008 e regulamentações correlatas. “Em conjunto, os 3Rs asseguram que o uso de animais seja realizado com responsabilidade ética, rigor científico e respeito ao bem-estar animal”, explica a doutora Alciony Andréia da Cunha Alexandre.
Espécies mais utilizadas nos biotérios
De acordo com o Relatório do CONCEA (2019–2023), os grupos taxonômicos com maior número de animais registrados para ensino e pesquisa no Brasil são as aves, os peixes e os roedores. Esses dados são provenientes das Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs) e refletem o total de animais aprovados para ensino ou pesquisa. “Mas, a plataforma computa todos os animais utilizados independente do desfecho do estudo. Então, temos os animais de produção, as aves, sendo as mais utilizadas, seguida dos peixes. Temos também os animais de companhia, cães e gatos, que participaram de um estudo em algum momento da sua vida, mas não tiveram e sua vida ceifada pela eutanásia, e os animais de produção, que seguem o destino zootécnico próprio da espécie, por exemplo, a produção de ovos, leite e carne”, acrescenta a médica veterinária.
Ela também conta que, no caso particular da UEM, a tilápia do Nilo se destaca como a terceira espécie mais pesquisada, sendo amplamente utilizada em estudos de melhoramento genético, com o objetivo de produzir peixes mais resistentes, com melhor crescimento e maior qualidade para a piscicultura.
No entanto, quando se considera exclusivamente a pesquisa biomédica realizada em biotérios, os roedores são os animais mais utilizados, com destaque para camundongos e ratos, devido à sua reprodução rápida, pequeno porte, similaridade biológica com humanos e ampla disponibilidade de linhagens padronizadas. “Esses dois grupos representam a maior parte dos modelos animais utilizados em estudos de genética, farmacologia, fisiologia, toxicologia, imunologia e doenças. Assim, embora aves e peixes predominem numericamente nos registros gerais, muitas vezes associados à produção animal, os biotérios de pesquisa biomédica utilizam majoritariamente roedores”, comenta Alciony Alexandre.

Medidas de cuidado nos biotérios
Os principais cuidados adotados nos biotérios envolvem aspectos éticos, sanitários, estruturais e de bem-estar animal. Em primeiro lugar, é fundamental garantir condições adequadas de alojamento, respeitando o espaço, a densidade populacional, a temperatura, a umidade, a ventilação, a iluminação e o enriquecimento ambiental compatível com cada espécie.
Outro cuidado essencial é a sanidade animal, com controle rigoroso de doenças, quarentena de animais recém-chegados, programas de monitoramento sanitário e manejo adequado para evitar contaminações cruzadas. “Também é indispensável assegurar alimentação e água de qualidade, em quantidade adequada, específicas para cada espécie e fase de vida, sempre livres de contaminação. O bem-estar animal deve ser prioridade, com manejo humanizado, minimização do estresse, uso adequado de analgesia e anestesia quando necessário, e aplicação rigorosa dos princípios dos 3Rs”, acrescenta a médica veterinária.
O biotério também deve contar com equipe treinada e capacitada, seguindo protocolos operacionais padrão, normas de biossegurança e legislação vigente do CONCEA. Além disso, é essencial manter registros e rastreabilidade, incluindo a origem dos animais, os procedimentos realizados, as condições de manutenção e o destino final, garantindo transparência, responsabilidade ética e conformidade legal.

Em caso de acidente em um biotério, devem ser adotadas medidas imediatas tanto para o pesquisador quanto para o animal envolvido. Em relação ao pesquisador, a atividade deve ser interrompida imediatamente, com uso ou manutenção dos equipamentos de proteção individual. O local do acidente deve ser isolado e o pesquisador deve realizar higienização adequada, além de buscar atendimento médico quando houver risco biológico, físico ou químico. O ocorrido também deve ser comunicado e registrado, conforme os protocolos de biossegurança do biotério.
Já o manejo do animal envolve sua contenção ou isolamento, avaliação veterinária e a adoção de cuidados necessários para a redução de dor, estresse ou sofrimento. Caso haja risco sanitário ou comprometimento de seu bem-estar, devem ser instituídas medidas terapêuticas ou o ponto final humanitário, conforme as normas do CONCEA. “Essas ações visam proteger a saúde humana, garantir o bem-estar animal e assegurar a conformidade ética e legal das atividades do biotério”, conclui Alciony Alexandre.
Além de promover a segurança e proteção dos animais, pesquisadores e técnicos contra zoonoses e riscos biológicos, os biotérios garantem a padronização e a qualidade dos estudos. Com o controle das condições ambientais e sanitárias, eles asseguram resultados científicos confiáveis e reprodutíveis, sendo essenciais para pesquisas, ensino e produção de insumos, como soros e vacinas.
Quer saber mais sobre as questões éticas e padrões de qualidade dos biotérios? Acesse o podcast “Conexão Biotérios”, também disponível no nosso site!
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Gustav Bartmann e Milena Massako Ito
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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