Era uma vez um alienígena curioso chamado Gamellito, que chegou à Terra com um problema de saúde: ele tem diabetes tipo 1. Mas, diferente do que parece, ele não veio pedir ajuda, veio ensinar. Com humor, cores vibrantes e missões divertidas, o personagem guia crianças de verdade em uma jornada de aprendizado sobre o corpo, o autocuidado e o convívio com a doença.

Em novembro, quando se celebra o Dia Mundial da Diabetes, a chegada do Gamellito ganha ainda mais significado, lembrando que a conscientização e o cuidado com a doença são importantes.
Mas o que parece apenas um personagem é, na verdade, uma ferramenta científica e educativa criada dentro do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina (HU/UEL). O projeto Gamellito nasceu da união entre pesquisa, ensino e extensão e vem mostrando que ciência e imaginação podem andar lado a lado quando o objetivo é cuidar de gente.
Mas, antes de conhecer a missão do Gamellito, é preciso entender o adversário com o qual ele está lidando: a diabetes.
Descomplicando a diabetes
Você provavelmente já ouviu alguém dizer que “diabetes é excesso de açúcar no sangue”. Mas será que é isso mesmo? A frase circula em conversas, campanhas e até nas salas de aula, mas nem sempre explica o que realmente acontece no corpo de quem vive a doença. A diabetes não se resume apenas a níveis elevados de açúcar.
Para compreender melhor sobre causa e manifestações da doença, é preciso conhecer três termos-chave: glicose, insulina e glicemia. Vamos lá?
A glicose, um carboidrato simples do tipo monossacarídeo, nada mais é que o açúcar presente no sangue e a principal fonte de energia do corpo. Ela é obtida por meio da ingestão de alimentos, especialmente os ricos em amido, como pão, batata, macarrão, ou até mesmo frutas e sucos. A glicose é essencial à vida, pois fornece energia para todas as células do corpo, permitindo a respiração celular.
Quando os carboidratos são ingeridos, eles são transformados em glicose pelo organismo. É neste momento que a insulina, hormônio produzido pelo pâncreas, entra em ação. A insulina é responsável por sinalizar às células que o açúcar está disponível para ser absorvido e transformado em energia. Por isso, age diretamente no controle da glicose no sangue
Para saber se o corpo está usando a glicose adequadamente é necessário medir a glicemia, que indica a quantidade de glicose circulando no sangue em determinado momento. Em outras palavras, a glicemia serve para mensurar se os níveis de açúcar presentes no sangue estão dentro do padrão.
Mas como a diabetes ocorre?
Se o pâncreas não produz insulina suficiente, ou ainda, se a insulina não estiver funcionando de forma correta, a glicose não é absorvida pelas células, elevando a concentração de açúcar no sangue, cenário ideal para o desenvolvimento da diabetes.
A diabetes mellitus (DM), nome técnico da doença, é, portanto, uma síndrome metabólica crônica causada pela produção insuficiente ou não produção, ou ainda pela má absorção de insulina. A doença pode acometer pessoas de todas as idades e perdura pelo resto da vida. Todavia, ainda que não tenha cura, é possível controlar a doença com o uso de medicamentos adequados ao quadro de cada paciente.
Existem quatro tipos principais de diabetes, mas, neste texto, vamos nos concentrar no tipo 1 e no tipo 2, dando ênfase ao tipo 1, que é o foco do projeto Gamellito. Essa distinção é importante para compreender melhor os cuidados, os desafios e o aprendizado que o projeto busca promover para crianças e adolescentes com a doença.
Tipo 1 x Tipo 2
Mesmo que possuam algumas características em comum, a diabetes tipo 1 e tipo 2 possuem sintomas, causas e tratamentos distintos.
A diabetes tipo 1 acontece quando o sistema imunológico ataca as células do pâncreas responsáveis por produzir insulina. Sem insulina suficiente, a glicose não consegue ser absorvida pelas células, permanecendo no sangue. Por esse motivo, pessoas portadoras da diabetes tipo 1 precisam administrar insulina diariamente.
Essa forma da doença tem maior incidência em crianças e adolescentes na faixa etária entre 10 e 14 anos, embora também possa se manifestar em pessoas adultas de qualquer idade. No Brasil, estima-se que ocorram 25,6 casos por 100.000 habitantes a cada ano, sendo considerada uma incidência elevada.
Por outro lado, o tipo 2 ocorre quando o corpo não consegue utilizar a insulina produzida de forma adequada. Essa forma da doença está diretamente associada a fatores como sobrepeso, sedentarismo, péssimos hábitos alimentares, pressão alta e triglicerídeos elevados.
Diabetes na infância
De acordo com os dados apresentados pelo Atlas da Federação Internacional de Diabetes, o Brasil tem cerca de 92,3 mil crianças e adolescentes vivendo com diabetes tipo 1, o que coloca o país em terceiro lugar no ranking mundial, atrás apenas da Índia e dos Estados Unidos.
Embora não possa ser prevenido, o tipo 1 da doença apresenta sinais de alerta que merecem atenção: sede excessiva, cansaço, aumento da fome, fraqueza e feridas que demoram a cicatrizar. Uma vez diagnosticada, a criança requer aplicações diárias de insulina para equilibrar os níveis de glicose no sangue e garantir o funcionamento adequado do organismo.
Se tratando de crianças, mais do que o tratamento em si, o grande desafio está em compreender e lidar com a doença no dia a dia. Conviver com a diabetes desde cedo exige manter uma rotina de cuidados que pode ser desafiadora para as crianças, que estão em fase de aprendizado e descobertas. Nesse contexto, a gamificação da doença se mostrou uma ferramenta importante, mas como?
Diabetes e games tem tudo a ver!
Para as crianças e suas famílias, conviver com a diabetes representa um desafio diário. Compreender a doença, seus sintomas e a rotina de cuidados pode ser complexo, exigindo aprendizado constante e atenção. É aí que a gamificação se mostra importante: transformar informações e tarefas de autocuidado em experiências lúdicas torna o aprendizado sobre a doença mais leve, envolvente e divertido.
Durante o jogo, a criança não apenas se entretém, mas aprende sobre o funcionamento do próprio corpo e os cuidados diários necessários para lidar com a doença. O jogo se torna uma ferramenta de educação e conscientização, capaz de tornar mais leve a rotina de quem convive com a diabetes, seja crianças ou, até mesmo, a família, que também participa da rotina de cuidados, além de aproximar o conhecimento científico da vivência cotidiana.
O projeto coordenado pelas professoras Vânia Vargas, da psicologia, e Rosane Martins, do departamento de Design Gráfico da UEL, nasceu dentro do Ambulatório de Especialidades do HU/UEL e reúne uma equipe multidisciplinar com profissionais e estudantes de nutrição, psicologia, artes cênicas, design gráfico, educação física, enfermagem, odontologia, oftalmologia e serviço social.
Desde 2023, as atividades acontecem semanalmente e atendem cerca de 40 crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 e suas famílias. As ações vão muito além das consultas médicas: incluem oficinas culinárias, dinâmicas de grupo, rodas de conversa, jogos educativos e momentos recreativos.
A ideia é ensinar sobre o diabetes de forma prática e divertida e, principalmente, dar às crianças autonomia e confiança para lidar com o tratamento. Nas oficinas, por exemplo, os participantes aprendem receitas com baixo índice glicêmico e treinam a contagem de carboidratos. Já nas atividades lúdicas, descobrem como reconhecer sintomas, prevenir crises e monitorar a glicose brincando.
Identidade visual do Gamellito
A coordenadora Rosane Martins é responsável por ajudar a dar forma e vida ao pequeno alienígena. Rosane coordena a identidade visual do projeto e supervisiona a criação de jogos, materiais e livros.
A coordenadora de identidade visual conta que o papel do design é transformar os conteúdos de saúde em experiências lúdicas e acessíveis. Os alunos orientados por ela usam metodologias criativas aplicadas ao design, para transpor a linguagem densa científica em linguagem imagética divertida. “Lidar com essas coisas chatas, como medir a insulina todo dia, controlar muito bem a alimentação, tem que aprender sobre a glicemia. Então, é transformar isso numa linguagem que seja divertida. Os alunos usam metodologias que a gente adota no design, metodologias de criação para treinar, para transpor essa linguagem”, explicou.

A professora destaca, também, o uso de metáforas e elementos visuais: monstros gosmentos representam preconceitos, a vontade de comer doces simboliza desafios diários e até um avião com formato de pâncreas ajuda a ensinar sobre o corpo. Esses recursos facilitam a comunicação entre profissionais de saúde e crianças.
A docente reflete sobre o impacto do projeto. “Nesses dez anos, eu aprendi tanta coisa e o impacto que isso causa não só para as crianças, mas para os pais, que, muitas vezes, não têm acesso à informação ou a profissionais de saúde”.
Ciência, empatia e tecnologia
O jogo digital Gamellito, desenvolvido em parceria com o curso de Ciências da Computação da UEL, coloca as crianças como protagonistas: elas ajudam o alienígena a entender o que é o diabetes e, no caminho, aprendem sobre si mesmas. Neste momento, o jogo está fora do ar para remodelagem, mas Rosane garante que, muito em breve, ele estará disponível para download nas plataformas digitais, e o melhor: totalmente gratuito!
O projeto já ultrapassou fronteiras, conquistando prêmios no Brasil e no exterior, como o 2º lugar no Games for Change América Latina (2023) e três troféus no Games for Health, incluindo o de melhor game de doenças crônicas (EUA, 2017). O sucesso do projeto vai além das telas. Desde que começou, o Gamellito tem mostrado resultados concretos, como aumento da adesão ao tratamento, melhora da autonomia das crianças, maior aceitação do diagnóstico e fortalecimento do apoio emocional entre as famílias.
Hoje, 37 crianças participam regularmente das atividades. A média de idade é de 8,9 anos, e muitas delas afirmam que o projeto transformou a forma como enxergam o tratamento.
Os encontros também inspiraram a criação de materiais educativos impressos e digitais, como histórias em quadrinhos, vídeos e uma novelinha infantil. Tudo produzido com linguagem acessível e base científica, para facilitar o entendimento de pais e cuidadores.
Um futuro de novas missões
O próximo passo do projeto é a implantação do protocolo “Hospital Amigo do Diabetes”, que começa pela pediatria do HU/UEL. A proposta inclui treinamento das equipes de saúde e adoção das ferramentas do Gamellito para fortalecer o cuidado humanizado.Além disso, os voluntários estão produzindo um livro baseado na história do alienígena, com novos capítulos e aventuras que ajudam a explicar, de forma leve, os desafios do diabetes. “E o impacto que causa de forma geral, o encanto que as pessoas têm por esse projeto. Os próprios profissionais da saúde que têm contato com ele, com os materiais, como isso facilita a vida deles. E isso é muito, muito gratificante para a gente” disse Rosane, emocionada.

Um alienígena que ensina com o coração
O Gamellito é muito mais do que um personagem: é o símbolo de uma ciência feita com afeto, empatia e criatividade. Um projeto que mostra que aprender sobre saúde também pode ser encantador, e que a arte e o design têm papel essencial em tornar o conhecimento acessível a todos.
Rosane resume a missão do projeto. “Tem criança que se identifica tanto com o Gamellito que até dorme com ele e leva para tudo que é lado. Ela [criança] passa de uma condição de cuidado à cuidador e aprende efetivamente. Isso não tem preço”.
Assim, o pequeno alienígena segue sua jornada, viajando entre o real e o imaginário, mostrando que a ciência também pode falar a língua das crianças.

Para ficar por dentro de tudo que o projeto desenvolve e não perder nada do que vem por aí, fique ligado nos canais oficiais do projeto, acesse a página no Instagram @gamellito e o site oficial do projeto.
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Texto: Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Romão
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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