Cine Oeste, Outra Vez: democratizando o cinema

A imagem tem um estilo ilustrado e retrô, remetendo ao universo do cinema. Ela mostra dois personagens em silhueta vermelha, um com chapéu e outro com cabelo curto, correndo por um corredor decorado com pôsteres de filmes brasileiros: Limite; Dona Flor e Seus Dois Maridos; Minha Mãe É uma Peça 3; Ainda Estou Aqui; Carandiru; Central do Brasil. O ambiente tem tons de roxo, vermelho e laranja, com luminárias amareladas que iluminam suavemente os cartazes na parede. A parte superior e inferior da imagem trazem molduras de película cinematográfica, reforçando a estética de filme antigo.
Estudantes da Unioeste criam projeto para democratizar o acesso ao cinema, no interior do Paraná

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Domingo, 2 de março de 2025.

Bares lotados, família e amigos reunidos em casa, na frente da televisão, torcida animada e muitos gritos. O Brasil se encontra em clima de Copa do Mundo, mas, na tela, não tinha futebol.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, também chamada de The Academy (A Academia, em tradução livre), é quem organiza o Oscar, a premiação que parou o Brasil neste ano. O filme brasileiro “Ainda Estou Aqui” recebeu três indicações, foram elas: “Melhor Filme Internacional”, “Melhor Filme” e “Melhor Atriz”, com Fernanda Torres.

O apelo maior vinha para a categoria de “Melhor Filme”, porém, a vitória, mais que esperada, veio na categoria de “Filme Internacional”, que foi extremamente celebrada, como se estivéssemos ganhando da Argentina no jogo da final da Copa do Mundo.

O pôster do filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, mostra uma família de quatro pessoas — dois adultos e duas crianças — posando juntas diante do mar, sob uma luz suave de fim de tarde. Acima da imagem, aparecem os nomes dos protagonistas Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro. O pôster destaca que o filme participou da 81ª Mostra de Veneza (2024) e venceu o prêmio de Melhor Roteiro, com produção da Sony Pictures e VideoFilmes.
Pôster do filme “Ainda Estou Aqui” (Foto/Reprodução)

A importância do cinema nacional, não só na minha vida como na de milhares de pessoas, nunca esteve tão em alta, vide o sucesso de “Ainda Estou Aqui”, que mostrou ao mundo a potência de um filme feito em nossa terra e com uma história tão importante sobre parte da história do Brasil. Isso faz com que o nosso cinema ganhe duas datas de celebração para chamar de sua.

Foi há 129 anos, mais precisamente em 5 de novembro de 1896, que ocorreu a primeira exibição pública de cinema no Brasil. A elite carioca, na Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de Janeiro, viu pequenos filmes. Mas, em 19 de junho de 1898, a história do cinema brasileiro ganhou um novo episódio: foram registradas as primeiras imagens em movimento por aqui. Ambas as datas levam o título de Dia Nacional do Cinema Brasileiro.

Seja novembro ou seja junho, só existe uma certeza: o cinema brasileiro precisa ser celebrado!

Por trás das câmeras: Cinema como ato político

Um dado da Ancine, Agência Nacional do Cinema, traz um recorde histórico de salas de cinema ativas em 2024, superando o último ano antes da pandemia, com 3.481. Isso se deve a ações para impulsionar a expansão e acesso ao cinema pós-pandemia. O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) possibilitou, por exemplo, linhas de crédito para a construção de cinemas em locais onde não havia salas de exibição.

Além desse incentivo, iniciativas como o Cine Oeste, projeto da Universidade Estadual Oeste do Paraná do campus de Marechal Cândido Rondon (Unioeste MCR), fazem com que o cinema seja cada vez mais democratizado, levando a cultura cinematográfica para mais pessoas.

A casa de exibição mais próxima de Marechal Cândido Rondon fica a mais de 40 quilômetros, ou seja, o acesso para muitos não é algo simples. Não podemos esquecer que é garantido na Constituição Federal o direito à cultura. É por meio dela que combatemos outros tipos de desigualdade, já que ela ajuda na ampliação de visão de mundo. Os acadêmicos do curso de Direito que fazem parte do projeto têm a consciência de que o trabalho desenvolvido tem uma função social para com a comunidade externa.

A ideia nasceu de forma despretensiosa. “A gente estava assistindo a um filme bem antigo, o Eraserhead, de David Lynch, e começamos a pensar em como seria incrível ter um espaço de cinema dentro da universidade”, conta Milena Lorenzini, uma das fundadoras. A ideia era criar um espaço pioneiro em estimular a convivência, conexão entre acadêmicos e incentivar o protagonismo estudantil, além de, claro, reduzir a desigualdade cultural.

A primeira sessão do projeto, coordenado pelo professor Gabriel Júlio Alves Carvalho, do departamento de Direito da Unioeste MCR, aconteceu semanas após a vitória do Brasil na categoria de “Filme Internacional” em 2025, e reuniu em torno de 70 pessoas no Tribunal do Júri da Universidade.A partir daí, as sessões acontecem uma vez por mês e levantam pautas em alta ou que sigam as campanhas de conscientização que temos conhecimento. O filme “Pixote, a Lei do Mais Fraco”, do grande cineasta Hector Babenco, por exemplo, teve o apoio do Núcleo de Estudo e Defesa de Infância e Juventude (NEDDIJ), que atua para ajudar os menores infratores e as crianças no geral, no aspecto jurídico. Outro mês que seguiu essa linha temática foi Agosto Lilás, que traz a conscientização da violência contra a mulher. Esta teve a colaboração do Núcleo Maria da Penha, da Unioeste.

  • A imagem mostra um grupo de nove jovens, posando sorridentes em frente a um mural colorido. O mural retrata uma cena com várias figuras humanas levantando os punhos, bandeiras e faixas, sugerindo um contexto de manifestação ou mobilização social. No canto esquerdo, há uma parte da bandeira do Brasil com o lema “Ordem e Progresso”. As pessoas estão organizadas em duas fileiras: quatro agachadas na frente e cinco em pé atrás. Algumas vestem camisetas que indicam o curso de Direito da Unioeste. O clima da foto é descontraído e coletivo, transmitindo união, engajamento e entusiasmo com o projeto que representam.
  • Na primeira foto (à esquerda), um auditório com cadeiras verdes e pretas está parcialmente ocupado por estudantes. No fundo, há uma grande tela projetando o pôster do filme “Argentina, 1985”, estrelado por Ricardo Darín e Peter Lanzani. O mediador está em pé e fala ao público segurando um microfone. O ambiente é iluminado e transmite um clima de debate ou apresentação antes da exibição do filme. Na segunda foto (à direita), o mesmo auditório aparece com mais pessoas sentadas, em um momento já durante a exibição. As luzes estão mais baixas, e o público assiste atentamente — alguns seguram pipoca ou celular.

Filmes nacionais, contemporâneos e clássicos passaram entre o brilho do projetor e o reflexo nas paredes do auditório do Tribunal do Júri da Unioeste, recebendo a comunidade universitária e pessoas externas também.

“Acho que é legal também ter a visão de que é possível, sabe? Vai além de um objetivo individual, atuamos como grupo. É um exercício de cidadania, de protagonismo estudantil e, de certa maneira, também de sentimento de comunidade”, comenta Raquel de Castro, integrante da equipe.

Mais do que exibir filmes, a equipe quer resgatar o sentimento de comunidade dentro da própria universidade, já que a realidade de muitos dos estudantes se resume a ir pra aula e ir embora. Não há um Diretório Central dos Estudantes, DCE, há mais de dez anos e existem poucas atividades de extensão, o projeto serve como inspiração para que esses próximos estudantes encontrem uma universidade mais viva, com espaços de troca e convivência.

Richard Alves, estudante de direito no curso da Unioeste MCR, é um dos criadores do projeto. Para falar sobre a missão do Cine Oeste de ampliar o acesso ao cinema, ele lembra de uma frase de autoria do filósofo alemão Ludwig Wittgenstein: “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. Se o meu mundo é reduzido pela falta de acesso à cultura, meu pensamento também é reduzido”.

Esse caminho, no entanto, não é simples. A equipe enfrenta desafios típicos de quem tenta fazer cultura na universidade pública. Um problema que impacta as sessões é o fato de muitos estudantes morarem fora da cidade, isso implica na decisão de datas que funcionem para a maioria. Porém, o principal ponto destacado pela equipe é a falta de mais apoio institucional. “Às vezes, a gente faz vaquinha pra comprar pipoca, porque cinema sem pipoca não é cinema. E a universidade poderia nos apoiar mais, afinal, promover cultura é também dever do Estado”.

Ainda estamos aqui: O audiovisual em números

A imagem é um gráfico de barras verticais que apresenta dados sobre o impacto econômico do setor audiovisual no Brasil, com base em informações de 2024. O fundo é bege-claro, e as barras são escuras, lembrando tiras de filme cinematográfico, com pequenos furos laterais que remetem a rolos de película. O título em destaque diz: “Audiovisual no Brasil”. Com um texto abaixo: “Foram gerados 31,6 bilhões de reais de forma direta ao PIB brasileiro, o gráfico abaixo mostra a distribuição desse valor em todos os âmbitos da indústria audiovisual brasileira.” No rodapé, há o crédito: © Conexão Ciência | Arte: Lucas Higashi

Dados da Oxford Economics revelam que todas as atividades desenvolvidas na indústria audiovisual impactam positivamente o nosso PIB (Produto Interno Bruto). Seja focado em cinema ou programas de TV. Geram empregos e receita, impactando de forma direta e indireta, já que a utilizam de serviços e bens de fornecedores nacionais.

O infográfico acima mostra dados da contribuição direta, ou seja, empresas e/ou pessoas empregadas diretamente na criação, produção e distribuição de conteúdo audiovisual, indo desde sets de filmagens, empresas que prestaram serviços nesse processo e serviços de pós-produção, como edição, sonorização etc.

O estudo traz uma análise detalhada da contribuição do setor audiovisual para a economia brasileira. De forma direta e indireta, representa R$ 70,2 bilhões  do nosso PIB, cerca de 0,6%, e mais de 608 mil empregos.

Um dado importante para se destacar, ainda, é de que foram gerados cerca de 121 mil empregos diretamente. É o mesmo número de empregos gerados pela indústria farmacêutica, e 50% maior do que os trabalhos na indústria de carros. Informações pouco conhecidas pelo público e um grande resultado para comprovar a importância e tamanho da indústria audiovisual.

Quando falamos apenas do setor cinematográfico, os números impressionam: a cada R$ 10 milhões gerados pela indústria audiovisual, o impacto sobre o PIB brasileiro chega a R$ 12 milhões.

Muito se deve aos fatores desses grandiosos números: o maior alcance com novas salas de cinema, o acesso com projetos que incentivam a exibição e, também, os festivais de cinema. O Brasil, um país com uma cultura riquíssima, leva a esses festivais nacionais e internacionais, uma visibilidade da arte brasileira para um público de nível global.

Devemos ressaltar o papel que as políticas públicas têm nisso. Há a Lei Paulo Gustavo, que facilita esse processo de acesso à verba destinada com parceria dos estados e municípios. Outra frente é a Lei Aldir Blanc, um conjunto de práticas de fomento que apoia trabalhadores e espaços culturais.

Essas leis tiveram um grande papel de fomento na cultura após a pandemia de COVID-19, já que o setor audiovisual precisava de suporte. Elas incentivaram mais iniciativas independentes, além de aquecerem a produção de filmes e fazer com que chegassem mais longe.

Em 2024, o setor do cinema significou um valor expressivo no PIB, no gráfico abaixo podemos observar os números gerados em arrecadação de dinheiro, empregos e o valor de impostos arrecadados, em três segmentos diferentes, impacto direto, indireto e induzido, este último, sendo o dinheiro gerado a partir de gastos dos trabalhadores diretos e indiretos.

A imagem é um infográfico que apresenta o impacto econômico da exibição de filmes em cinemas no Brasil em 2024, destacando três áreas principais: contribuição ao PIB, arrecadação de impostos e geração de empregos. O título em destaque diz: “Impacto econômico da exibição de filmes em cinemas no Brasil em 2024”. A composição é visualmente equilibrada e usa cores quentes para destacar o setor cinematográfico, reforçando o tema do cinema como agente econômico relevante no Brasil. No rodapé, há o crédito: © Conexão Ciência | Arte: Lucas Higashi

O audiovisual gera impacto em outros setores da economia, hotéis, restaurantes, transportes e turismo.

Um exemplo que o próprio estudo traz é o fenômeno cultural que o filme “Ainda Estou Aqui” proporcionou ao bairro da Urca, no Rio de Janeiro, um grande atrativo cultural. O sucesso da película fez com que o prefeito do Rio anunciasse planos de compra da casa que serviu de cenário para o filme, com finalidade de se tornar um museu e centro cultural ao cinema brasileiro. Esse é apenas um exemplo de como as produções feitas aqui no Brasil podem gerar um atrativo ao turismo para públicos internacionais.

Cine Oeste: luz, câmera e cidadania

Nossa Constituição Federal garante direito à cultura, por meio do Artigo 215, com o Estado garantindo o acesso pleno às fontes culturais. Projetos como o Cine Oeste são um reflexo de como a política cultural está viva e transforma o direito este bem comum em algo acessível.

A região Oeste do Paraná conta com 10 cinemas e, assim como no restante do Brasil, eles se concentram em grandes centros. Uma cidade com pouco mais de 55 mil habitantes como Marechal Cândido Rondon tem o privilégio de possuir uma iniciativa como o Projeto da Unioeste.

Cinema é um ato de resistência, em tempos de desinformação, assistir e discutir filmes são atos políticos e de extrema importância.

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Texto:
Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho 
Arte: Camila Lozeckyi e Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Henrique Nascimento

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