Uma notícia surpreendeu a equipe do C², meses atrás. Uma professora aposentada e servidora pública de Carambeí, no Paraná, havia doado o corpo para estudos científicos. A filha cumpriu o desejo da mãe, que já havia cumprido todos os trâmites legais e comunicado oficialmente à família o desejo de servir à ciência e dar apoio ao ensino e aprendizagem de estudantes da área da Saúde.
O processo se deu por meio do contato das filhas com a professora Sônia Trannin, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, naquele momento, responsável pelos processos de doação na Universidade. A docente cumpriu o restante das exigências legais e o corpo está hoje à disposição da UEM.
Segundo a filha da servidora pública, a mãe vinha avaliando, há algum tempo, a possibilidade de doar o corpo, porque ficou sabendo da burocracia que as instituições de ensino enfrentam para conseguir cadáveres para estudos. “Temos certeza que fizemos o certo e nos sentimos imensamente satisfeitas em deixar que ela continue ajudando mesmo depois de falecida”, reforçou a jovem.
O número de doadores cadastrados tem aumentado, segundo o primeiro programa brasileiro de doação voluntária de corpos, o Vida após a vida, da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2017, eram cerca de mil pessoas; em 2024, o registro ultrapassou três mil. Quem agradece são as instituições de ensino como a UEM. De acordo com a professora de Anatomia da Universidade, Aline Rosa Marosti, esse gesto é de extrema importância para a ciência e para os cursos da Saúde.

É importante lembrar que as doações são regulamentadas por lei. O artigo 14 do Código Civil Brasileiro prevê a doação gratuita e voluntária do próprio corpo após a morte com objetivo científico. O processo pode ser feito em vida por pessoas com mais de 18 anos, a partir de registro em cartório – familiares devem estar cientes sobre a intenção.
De acordo com a norma, corpos que não foram reclamados – aqueles sem identificação ou que não aparece ninguém para dar início ao processo de sepultamento também podem ser doados para fins de estudo após 30 dias.
Tipos de doação
Em outras palavras, há diferentes tipos de doação de cadáveres para as Universidades: a doação dos que não são reclamados, não identificados e as do mesmo tipo que a da Marli, que é a doação voluntária, na qual a pessoa deixa o desejo em vida.
No Paraná, a doação de corpos é organizada pelo Conselho Estadual de Distribuição de Cadáveres. Reúne o cadastro de todas as instituições do estado que desejam receber corpos. Elas são posicionadas em uma fila e vão sendo beneficiadas à medida que surge a oferta.
“E aí a gente tem alguns critérios para identificar qual é a instituição que está precisando mais. Priorizamos aquela que está abrindo um curso de medicina, que ainda não tem cadáveres e as que estão montando cursos da área da saúde. Depois que a instituição recebe o cadáver, vai lá para o final da fila, que é muito grande, para uma demanda muito pequena”, reclama a professora.
Aline lembra que há ainda o modelo de doação direto. Por exemplo, uma família de Maringá decide doar o cadáver de um ente querido e vai direto à UEM. Nesse caso, a Universidade não precisa estar na fila.
Infelizmente, segundo Aline Marosti, ainda não há uma cultura de doar o corpo depois da morte aqui no Brasil. Existem pessoas que têm até essa vontade, mas a concretização da doação acaba esbarrando em questões familiares afetivas ou as pessoas mais próximas não comunicam a morte.
Preparo
Uma preocupação de quem doa é: como serão utilizados esses cadáveres? Aline disse que há todo um processo de preparação deles. Tudo começa pela fixação, feita com a utilização de formol. O corpo fica em um tanque acondicionado nesta substância que tem poder conservante. Essa etapa dura meses ou até um ano.

Então, vem a fase de dissecação. Dissecar é o preparo para que o corpo possa ser fonte de estudo. As camadas vão sendo expostas, evidenciando as estruturas mais importantes. Começa pela retirada da pele, depois da camada de gordura, em seguida podem ser observados os vasos, os nervos. A cada etapa, a dissecação se torna mais profunda. É um trabalho bem minucioso.
“Aqui na nossa instituição [UEM], quem faz esse trabalho são os alunos do curso de medicina. Esse processo é uma aula importante para eles, que vão treinando habilidades de manipulação e ganham experiência para executarem, por exemplo, cirurgias. A incisão na pele, como devem manusear o instrumental cirúrgico. Vão conseguindo ver os melhores acessos, né? Então, todos esses conhecimentos vão sendo adquiridos nas aulas. E ainda, ao fazer isso, eles estão preparando peças para os alunos dos próximos anos”, explica a professora de anatomia.
Na UEM, os cadáveres dissecados são utilizados em aulas de todos os cursos da área da saúde e biológicas: medicina, odontologia, biomedicina, biologia, psicologia, educação física… Todos que têm a disciplina de anatomia na grade. Os professores sempre dão preferência para utilizar material humano nas aulas, porque é com ele que os alunos vão lidar depois de formados, na prática clínica. Os professores alegam que não é possível reproduzir o cadáver em termos de textura, profundidade, localização e relação das estruturas.

Na UEM, quase não há peças sintéticas. Para o estudante do primeiro ano de Medicina da UEM, João Vítor de Oliveira Forli, essa é uma boa notícia. Ele conta que é a disciplina de maior carga horária e o primeiro grande desafio dos calouros. Segundo Forli, o domínio dessa matéria é fundamental para formar uma base sólida do estudante para os anos seguintes do curso.
“Por isso que o uso de peças anatômicas reais [cadáveres] é tão importante.Desde o início da graduação, o aluno entra em contato com aquilo que ele encontrará de fato numa cirurgia no internato. O início dos estudos em anatomia é um processo de adaptação, porém, como estudamos a teoria e na sequência temos a prática com os cadáveres, fica mais fácil integrar a matéria dada em aula com o concreto”, explica o futuro médico.
João Vítor ainda destaca que os professores da UEM são do mais alto nível. “As professoras Aline e Carmem [Patrícia Barbosa] possuem um vasto conhecimento e toda paciência do mundo para nos ensinar. Como passamos muitas horas da semana juntos, cria-se uma relação professor-aluno muito saudável e produtiva. Enfim, o investimento em bons professores e materiais de estudo, como as peças anatômicas reais, dá qualidade ao curso e nos coloca nas primeiras colocações do ranking nacional”, comemora João.

A UEM tem 20 cadáveres que ficam acondicionados em tanques de formol, quando não estão sendo utilizados ou quando estão sendo preparados, no estágio de fixação. Os tanques ficam no Departamento de Ciências Morfológicas, localizado no bloco H79, no câmpus sede, em Maringá.
Cuidado
Daí, vem a pergunta, será que as pessoas têm preocupação em saber como esses corpos serão tratados por aqueles que os recebem? Por isso, minha próxima pergunta à professora fez surgir a questão: qual o controle ético sobre a manipulação desses cadáveres?
A resposta veio rápido: “assim como os familiares que doam, a gente também tem um carinho enorme pelos nossos cadáveres e pelas nossas peças. Sempre estimulamos os alunos, desde o comecinho, das primeiras aulas de anatomia, o respeito por eles. A gente não permite que fiquem fotografando, que dê nomes pejorativos. Por fim, eles têm consciência de que ali é alguém que está prestando um serviço para instituição depois de ter perdido a vida. Então, passam a ter muito cuidado na manipulação, no acondicionamento. A gente sempre lembra a eles que poderia ser ali um ente querido nosso”, destaca Aline.
A professora ainda disse que tem o hábito de ler com os alunos a oração do cadáver (veja abaixo), que, segundo a internet, foi escrita por Karl Rokitansky1, em 1876. “A gente costuma ler com eles e refletir, porque existe todo o envolvimento emocional que um profissional tem com uma pessoa viva, mas também com uma pessoa que se doou, para ser objeto de estudo”, acrescenta a docente.

Por fim, a professora pediu que lembrássemos a você, leitor, algo que poucos sabem: além do processo de doação de cadáveres, as famílias podem doar membros de amputação. Essas peças também são usadas em aulas e podem ser doadas independente do estado que estiverem.
“A gente frisa isso porque é uma forma de conseguirmos mais membros disponíveis para o aprendizado dos alunos. Se for menos de 500 gramas, um pé, uma mão, o hospital tem autorização para incinerar. Mas se for mais do que isso, se for um membro inteiro, é necessário enterrar, é lei. Para não ter esse custo e dar utilidade ao membro amputado, uma opção é doar. Temos como orientar esse processo”, descreve a professora da UEM.
O telefone do DCM, onde Aline fica é o 3011-4340. Ela também disse que a equipe da secretaria tem autorização para passar o contato do WhatsApp para quem quiser conversar com ela.
“Eu convido as pessoas para virem aqui conhecer o departamento, ver onde é, o que é, e, se estiver interessado no processo de doação, a gente também está disponível para conversar sobre isso”, finaliza Aline.
Existem temas que precisam mesmo de conversa e convencimento, já que tratam de coisas que nos são caras e despertam sentimentos que nem mesmo sabemos explicar. Quem sabe um bom papo não te faz dar vida ao seu corpo depois da morte. Pense nisso!
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Texto: Ana Paula Machado Velho
Revisão de texto: Milena Massako Ito
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Karl Rokitansky – Médico e patologista austríaco, ficou famoso pelo desenvolvimento da técnica em que os órgãos são examinados dentro do cadáver, um a um. São realizados vários cortes em todos os órgãos internos, depois, para serem retirados um a um. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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