Cotas raciais: acesso, permanência e futuro

Não basta abrir portas, políticas de permanência também são necessárias

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Imagine que você é esse garotinho da ilustração de capa desta matéria. Vive com a sua família no Paraná, e não tem em mente o sonho de ser professor ou entrar na universidade, pois nem sabia que ela existia. De repente, você acorda para mais um novo ano letivo. Agora, está iniciando o 6º ano e, quando entra na sala de aula, dá dê cara com um professor que nunca havia visto, que se parece muito com você. 

Ele tem a cor de pele igual à sua e o cabelo parecido com o do seu pai. Ensina como a ciência é importante para todo mundo e te apresenta a universidade. Tem mais: te conta que existe a possibilidade de pessoas como você entrarem no meio acadêmico, por meio de ações afirmativas como as cotas raciais. 

Você nem sabe o que são essas cotas. Ele explicou que, enquanto houver a necessidade de lutar contra o racismo no Brasil, há necessidade de se ter políticas de inclusão, como as cotas: sociais, raciais e outras. 

A partir do convívio com esse professor você começa a se ver no futuro, entrando na universidade que ele tanto fala, e também por meio das cotas raciais que agora julga fundamentais. 

No entanto, depois de muitos estudos, você consegue entrar na graduação de Direito, por meio das cotas raciais, mas se vê rodeado de novos desafios no campus.

Para entender melhor sobre todo o cenário do impacto das cotas raciais no ensino superior, o C² conversou com o professor do Departamento de História e do Mestrado Profissional em Ensino de História, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Delton Aparecido Felipe. Com um currículo extenso e marcado por diversas áreas que investigam questões raciais, o docente, que compõe o Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros da UEM, dedica parte das suas vivências acadêmicas e pessoais debruçado sobre a luta da e a história da população negra no Brasil.

À primeira vista, pode parecer natural imaginar que um professor que presidiu as Comissões de Heteroidentificação do vestibular da UEM, por três anos consecutivos (2021, 2022 e 2023), sempre tenha entendido a importância da Política de Cotas. No entanto, a relação com o tema foi construída ao longo do tempo. Em entrevista concedida ao jornalista Rafael Donadio, aqui no C², em maio de 2022, ele relembrou um episódio marcante de sua graduação em História.

Durante uma das aulas, a professora Teresa Teruya, do Departamento de Teoria e Prática da Educação da UEM, lançou uma provocação que transformou sua forma de pensar: “Não estamos discutindo sua capacidade intelectual, mas sim as oportunidades. Quantas pessoas como você, você vê aqui dentro?”. A pergunta o desestabilizou, já que até então se reconhecia dentro do estereótipo do “negro inteligente”, construído ao longo da escola básica.

Ao chegar em casa, inconformado, argumentou com a mãe que não precisava de cotas, porque acreditava ter conquistado a vaga universitária unicamente por esforço. A resposta dela, no entanto, foi incisiva: lembrou que ele havia recebido bolsas e apoio financeiro, além do suporte da própria família. “Será que faz sentido dizer que conseguiu tudo sozinho”, questionou.

Imagem colorida, de uma cerimônia de formatura. Em primeiro plano, à esquerda, uma jovem usando beca preta com faixa azul na cintura e gola branca está sorrindo. Ao centro, um homem negro de terno escuro com camisa estampada vermelha segura no braço de uma mulher negra ao lado dele, que veste uma blusa azul com detalhes rendados nos ombros e um colar colorido. Ambos sorriem. À direita, outro formando também de beca preta com faixa azul segura um diploma. No fundo, há várias pessoas batendo palmas, muitas delas também vestidas com becas de formatura.
O professor Delton e a mãe, Teresa Fátima Felipe, em 2019 na Colação de Grau Conjunta de 26 cursos da UEM em que ele foi Paraninfo (Foto/ASC-UEM)

Mas afinal, o que são as cotas raciais? 

Segundo os estudos de Felipe, as cotas raciais não têm relação com medir inteligência ou mérito individual, mas sim com oportunidades. Elas são uma política pública de ação afirmativa criada para corrigir desigualdades históricas que impedem ou dificultam pessoas negras terem acesso ao ensino superior em condições justas.

No Brasil, a população negra foi sistematicamente excluída da educação por séculos devido às marcas deixadas pela escravização que, mesmo após a abolição, continuou perpetuando barreiras econômicas, sociais e culturais. As cotas, portanto, reconhecem que esse histórico de exclusão gera desigualdades, que não podem ser superadas apenas pelo esforço individual.

Para Felipe, entender as cotas exige olhar para além da ideia de “mérito pessoal” e compreender que ninguém conquista nada sozinho: bolsas, apoio familiar, escolas de qualidade e, até mesmo, políticas públicas são parte desse processo. Assim, as cotas funcionam como uma forma de equilibrar o ponto de partida, garantindo que pessoas negras tenham condições de competir em pé de igualdade com aqueles que sempre tiveram acesso.

A Lei N° 12.990, sancionada em junho de 2014, pela presidente Dilma Rousseff, reservou “aos negros vinte por cento das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União”.

Infográfico colorido que apresenta os municípios nos quais as universidades estão localizadas, em destaque no mapa que mostra a implementação da política de cotas nas universidades estaduais e federais do Paraná. Ele é estruturado em três partes principais: uma linha do tempo, um gráfico de barras e um mapa do estado. À esquerda, encontra-se a linha do tempo vertical que, em cores diferentes, indica os anos em que cada universidade implementou a política de cotas, acompanhados dos nomes das instituições. Ao centro, em destaque, há um gráfico de barras que representa a quantidade de universidades que passaram a adotar cotas em cada ano. Na parte inferior, aparece o mapa do estado do Paraná, com a localização das sedes administrativas das universidades assinaladas por pontos vermelhos e rótulos. Ao lado do gráfico de barras, há ainda um quadro de legendas com a lista dos nomes das universidades vinculados às cidades onde estão situadas. As informações de cada figura são: Linha do tempo: 2004, em vermelho, representando a UEL (Universidade Estadual de Londrina); 2005, em laranja, representando a UFPR (Universidade Federal do Paraná); 2007, em amarelo, representando a UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa); 2013, em verde, representando Unioeste, Unicentro, UENP, Unespar, UTFPR e Unila (seis universidades no mesmo ano); e 2019, em azul, representando a UEM (Universidade Estadual de Maringá). Gráfico de barras: apresenta visualmente o crescimento da adesão, sendo 2004: 1 universidade; 2005: 1 universidade; 2007: 1 universidade; 2013: 6 universidades (maior concentração); e 2019: 1 universidade. Mapa do Paraná: marca com pontos vermelhos as cidades-sede das universidades que implementaram cotas: Londrina – UEL; Curitiba – UFPR e UTFPR; Ponta Grossa – UEPG; Cascavel – Unioeste; Guarapuava – Unicentro; Jacarezinho – UENP; Paranavaí – Unespar; Foz do Iguaçu – Unila; e Maringá – UEM. Quadro de legendas: estabelece a correspondência entre as cores da linha do tempo, os anos de implementação e as universidades listadas no mapa.

Em 2019, a UEM foi a última Instituição de Ensino Superior (IES) paranaense a adotar a Política de Cotas. Desde então, o professor assiste à Universidade recebendo perfis plurais em cursos que, na grande maioria, eram homogêneos. Ele cita o caso do Direito, em que ministra disciplinas já no primeiro ano. “Às vezes, você tinha, dos 160, um ou dois alunos negros entrando por ano. São quatro turmas de 40 e, hoje, temos, em média, 20 a 25 alunos entrando pelo sistema de cotas raciais”, menciona.

Imagem colorida, que mostra um grande grupo de pessoas reunidas em um auditório. Na frente, a maioria está sentada e vestindo camisetas brancas com a frase na cor preta, escrito “COTAS RACIAIS SIM”, levantando o punho. Há homens, mulheres, jovens e adultos de diversas cores e gêneros. Ao fundo, algumas pessoas estão de pé, próximas a um telão que exibe a logomarca da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a inscrição “Secretaria dos Colegiados Superiores”. No lado direito da parede, um grande cartaz vermelho com letras pretas traz a frase “EM UMA SOCIEDADE RACISTA, NÃO BASTA NÃO SER RACISTA. É NECESSÁRIO SER ANTIRRACISTA.”
Delton e colegas da UEM em 20 de novembro de 2019, dia da Consciência Negra e dia da aprovação da Política de Cotas Raciais na UEM (Foto/ASC-UEM)

Mais do que entender os impactos da Política de Cotas no ensino superior, é preciso compreendermos a realidade na qual estamos envolvidos. O professor aponta que “desde as escolas de medicina e as escolas de direito, criadas ainda no Brasil Imperial, até mesmo as universidades que são ali do início do século XX, foram criadas para uma elite”. E continua “por muito tempo, as poucas pessoas que vinham de grupos populares ou de grupos historicamente vulnerabilizados ingressavam a partir de uma ideia de ascensão social e com um currículo que era extremamente colonizador. Então, eu acredito que nós precisamos de algumas mudanças estruturais. E, nesse sentido, a universidade não está sozinha, ela está incluída numa sociedade”, reflete.  

Seguindo a lógica da Universidade como uma parte da sociedade, o professor afirma que o grande objetivo dela é combater o racismo. Portanto, enquanto a gente tiver racismo, a gente ainda vai precisar dessa potencialização das universidades. “Ainda há um caminho muito longo a se fazer, mas é o começo”, marca o historiador. 

A universidade abriu portas… mas também abriu espaços?

Considerando que “abrir portas” significa exclusivamente acesso e “abrir espaço” significa o combo: acesso, permanência e sucesso, “a gente pode dizer que a universidade abriu a porta e não foi uma abertura muito grande, não. Foi uma abertura pequena, porque 20% é um número ainda diminuto, considerando a estocagem que nós temos”, diz o professor.

Ainda com o pé no curso de Direito da UEM, o professor reflete que “se formos pegar os mais de 50 anos da graduação e contabilizar o número de alunos negros que se formou ao longo desse tempo, vai demorar para gente ter, por exemplo, a mesma proporção de pessoas negras e brancas.”

Quando falamos sobre abrir espaço, o professor considera que a Universidade ainda está se movendo. Ressalta que é preciso compreender que políticas de inclusão não se fazem apenas com acesso. “É preciso acesso, permanência — no seu aspecto material e simbólico —, e também de sucesso”, destaca. 

Agora que você já tem o contexto do que são as cotas raciais e como elas permitem que pessoas negras entrem na universidade, tanto na graduação como na pós-graduação, também é importante entender que devem existir medidas para que quem entra permaneça nesse espaço.

Infográfico colorido com o título na parte superior, em letras maiúsculas e na cor marrom: “Políticas de Permanência para Alunos Cotistas Raciais”. Uma linha central vertical divide o infográfico em dois lados, funcionando como eixo organizador. As caixas de texto estão distribuídas alternadamente à esquerda e à direita dessa linha, em dois padrões de cor: amarelo-claro, para políticas de apoio financeiro e estruturais; e marrom-escuro, para ações de acolhimento, acompanhamento e combate às desigualdades. Na parte inferior, há a ilustração de um estudante negro sorridente, em destaque, com fundo natural (céu, vegetação e elementos claros), representando simbolicamente o público beneficiado. No lado esquerdo, de cima para baixo, aparecem as seguintes políticas: bolsa de permanência; serviços de psicologia e acompanhamento psicológico; incentivo a projetos de pesquisa, extensão e cultura voltados para a história da população negra; campanhas, debates e rodas de conversa para professores, técnicos e estudantes; e ajustes contínuos nas políticas de permanência, baseados em dados e feedbacks. No lado direito, de cima para baixo, estão: programas de recepção e integração; auxílio moradia, alimentação e transporte; grupos de apoio e redes de convivência entre alunos negros; políticas efetivas de enfrentamento ao assédio e à discriminação; e monitoramento do desempenho acadêmico e das taxas de evasão dos alunos cotistas.

Lembra daquele menino que falamos para você imaginar no começo dessa matéria? Ele estaria nesse momento já inserido na universidade e, agora, como a maioria dos estudantes negros que entram nesse espaço, deveria ter acesso a políticas de permanência como essas citadas no infográfico, para que realmente possa concluir a graduação. 

Já que o ambiente acadêmico, por vezes, pode fazer com que as condições de sobrevivência da população negra universitária não aconteça, provocando desistências ou a impossibilidade da continuidade na graduação. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 70,6% dos negros com 18 a 24 anos deixaram os estudos sem concluir o ensino superior.

Mesmo com esse dado, ainda há a perspectiva de crescimento no número de formados. O professor Delton Felipe fala que “hoje nas universidades brasileiras, nós temos uma quantidade muito maior de alunos negros do que tínhamos há 20 e 30 anos atrás”. Então, a expectativa é que, se políticas de permanência forem implementadas de maneira adequada e esses estudantes forem acolhidos, aja mais advogados, médicos, comunicólogos, historiadores, pedagogos, professores, psicólogos, engenheiros e muitas outras profissões com protagonismo negro. 

“As cotas raciais têm um objetivo. Qual é o objetivo das cotas raciais? Combater o racismo. As cotas raciais serão necessárias enquanto houver racismo” conclui Felipe. 

Esperamos que como o personagem que narramos, mais crianças negras imaginem os seus futuros nas universidades, fazendo ciência, criando projetos artísticos e desenvolvendo novas fórmulas e equações!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
João Luiz Lazaretti da Silva e Maysa Ribeiro Macedo
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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