Da seda ao skincare: UEL cria sérum facial inovador

A imagem mostra uma ilustração colorida com fundo azul e formas circulares amarelas. Ao centro, há uma mariposa pousada sobre um frasco preto com rótulo “Seda Brasil”. Ao redor, aparecem folhas verdes, laranjas e rosas, além de casulos brancos e um bicho-da-seda sobre uma folha. A composição mistura elementos naturais e produtos, criando um visual vibrante e artístico.
Responsável por 86% da produção nacional, Paraná é referência mundial na qualidade da seda

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O que um frasco de sérum facial tem a ver com a economia do Paraná, com a agricultura familiar e com um inseto que vive apenas algumas semanas? Mais do que parece! Uma parceria entre pesquisadores do projeto multidisciplinar “Seda Brasil, o fio que transforma”, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), com pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) resultou na produção de um cosmético inovador, um sérum facial desenvolvido a partir de uma proteína extraída do casulo do bicho-da-seda.

Frasco âmbar de sérum facial do Seda Brasil repousa sobre uma superfície repleta de folhas frescas de amoreira e diversos bichos-da-seda brancos em diferentes tamanhos.
Sérum facial desenvolvido pela UEL (Foto/Arquivo pessoal)

Hoje, o C² te conta mais uma história de como a ciência transforma o dia a dia e como diferentes personagens se conectam para que isso aconteça.

Seda Brasil, o fio que transforma

Desenvolvido na UEL, o projeto surgiu com a proposta de pensar novos usos para a seda produzida no Paraná. Atualmente, o estado exporta o fio bruto para outros países, onde ele é transformado em tecido. Aqui, porém, a cadeia produtiva termina cedo. Foi dessa constatação que veio a virada de chave do projeto: por que não desenvolver tecnologia para que a seda paranaense gerasse produtos de maior valor agregado antes de sair do país?

Segundo a coordenadora do Seda Brasil e também diretora de inovação da Associação Brasileira de Seda (Abraseda), Cristianne Cordeiro, a equipe começou explorando novos caminhos e chegou ao biofilme de fibroína, resultado de experimentos que revelaram propriedades importantes da proteína presente no casulo. O biofilme mostrou que a fibroína tem potencial regenerativo e capacidade de auxiliar na cicatrização, uma constatação que acendeu outra possibilidade. 

“Descobrimos as propriedades da fibroína, que é altamente regenerativa e cicatrizante, com a confecção do biofilme. Esse biofilme é uma patente também do projeto Seda Brasil e, a partir dele, nós resolvemos entrar na cosmética. Se [a fibroína] é cicatrizante, é regenerativa, ela pode ter um efeito na pele, de beleza, de estética, muito maior”, contou a coordenadora.

A partir dessa lógica, surgiu a ideia de desenvolver um cosmético. O raciocínio foi direto: se a fibroína favorece processos de recuperação, ela pode contribuir para o cuidado e tratamento da pele. 

Mas havia um empecilho: para transformar esse conhecimento em um produto de fato, era preciso dominar uma etapa inicial essencial, a extração da proteína do casulo.

“A parceria é a alma do negócio”

A professora Cristianne, da UEL, explicou que, embora o projeto envolva várias áreas, a equipe não tinha quem pudesse assumir a extração dentro da universidade. A solução veio de uma conversa informal com o professor do Departamento de Química, do Campus Londrina da UTFPR, Luís Fernando Cabeça, que participa, ao lado dela, da Governança de Químico e Materiais. “Cabeça, você consegue extrair fibroína?”, perguntou ela. Ele, sem pestanejar, topou o desafio. Foi nesse ponto que a parceria ganhou força. 

O sérum é resultado da pesquisa desenvolvida pela mestranda Maria Vitória Ferreira da Silva, do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas, sob orientação da professora Audrey Lonni, do Departamento de Ciências Farmacêuticas e coordenadora do Laboratório de Tecnologia Cosmecêutica (Labitec) da UEL.

Para os pesquisadores, a colaboração foi o fator determinante para que a ideia saísse do papel. “Tudo acontece assim, sempre numa conversa, com amigos, conectando coisas. Essa é a maior pegada do projeto”, resume Cristianne. Luís traduz em uma frase, ao dizer que “a parceria é a alma do negócio. As coisas andam mais rápido”.

A produção do sérum só foi possível porque cada instituição cumpriu um papel essencial no processo. A UEL concentrou a pesquisa, articulou as frentes do projeto e desenvolveu o conceito do cosmético; a UTFPR entrou como parceira estratégica ao viabilizar a etapa inicial da extração da fibroína; e a Bratac garantiu a matéria-prima, fornecendo os casulos utilizados no desenvolvimento. 

Agora, vamos voltar a protagonista desta história, uma lagarta que se transforma em mariposa e é responsável por toda essa cadeia produtiva.

Bombyx mori

A Bombyx mori, popularmente conhecida como bicho-da-seda, é o inseto responsável pela produção de pelo menos 95% da seda usada mundialmente, desde a confecção de peças de luxo para grifes à indústria biotecnológica e dermocosmética. Domesticado há milhares de anos, é criado exclusivamente para a produção do fio da seda. Sua dieta é restrita, se alimentando quase exclusivamente de folhas de amoreira, o que torna o manejo da espécie relativamente simples e possibilita que pequenos produtores possam aderir a atividade da sericultura.

Um mês é o tempo necessário para que esse bichinho saia de um ovo minúsculo e se transforme em uma lagarta robusta, pronta para realizar seu principal trabalho: a produção do fio da seda para tecer seu casulo

Infográfico colorido intitulado “Ciclo de vida do bicho-da-seda”, organizado em seis etapas numeradas e conectadas por setas. As fases são ilustradas com desenhos sobre folhas verdes: 1) ovo, com pequenos ovos brancos; 2) lagarta, alimentando-se de folha de amoreira; 3) crescimento e engorda, mostrando a lagarta aumentando de tamanho; 4) casulo, com o fio de seda sendo formado; 5) pupa, fase de metamorfose dentro do casulo; 6) mariposa adulta, que emerge e reinicia o ciclo. O fundo é azul, com tons naturais e linguagem didática.

A  espécie que hoje conhecemos é resultado de um longo processo de domesticação, que alterou seu comportamento e fisiologia. Ao contrário de borboletas selvagens, a mariposa adulta não voa, não se alimenta e vive poucos dias, tempo suficiente para garantir a reprodução. Todas essas características são consequências da seleção humana voltada à produção de fios mais longos, uniformes e resistentes.

Além da importância biológica, o Bombyx mori tem peso econômico relevante. O casulo produzido pela lagarta dá origem ao fio de seda, utilizado em tecidos de alta qualidade e, mais recentemente, como insumo para pesquisas em materiais avançados, biotecnologia e desenvolvimento de cosméticos, como o sérum desenvolvido pela UEL.

Agora que você já conheceu o protagonista dessa história, vamos entender o que se produz a partir dele, ou melhor, de um fragmento do seu casulo!

O sérum facial

De textura fluida e rápida absorção, o sérum facial é um produto cosmético indicado para cuidar da pele do rosto. O cosmético pode ser encontrado no mercado com diferentes ativos em sua composição, a depender do resultado desejado e da necessidade de cada pele, como por exemplo: hidratação, suavização de rugas, tratamento de manchas, entre outros. O produto em si, não é novidade.

Na imagem, um frasco do sérum facial do projeto Seda Brasil está apoiado sobre dois folhetos verdes com o título em destaque: “SEDA – O fio que transforma, inova e conecta”. O design traz folhas de amoreira e o contorno de um casulo, reforçando a ligação entre ciência, natureza e tecnologia da seda.
Produto inovador no mercado de cosméticos (Foto/Arquivo pessoal)

Assim, o que diferencia o sérum encontrado no mercado do produto desenvolvido pela UEL? Spoiler: vai muito além da matéria prima.

Quando a seda vira ciência

O caminho até chegar ao produto final é longo e tem início com uma pequena ‘casa’ revestida por fios longos e finos, o casulo do bicho-da-seda. É aqui que começa nossa aventura. Neste lugar, encontramos a fibroína, proteína estrutural que confere resistência ao fio de seda, e foi matéria prima para o desenvolvimento do sérum facial.

Na imagem, uma mão toca delicadamente um dos casulos de seda presos à estrutura trançada de bambu. Os casulos brancos, ovais e macios, preenchem a trama de forma quase orgânica, iluminados pela luz quente que atravessa as frestas. A pele da mão tem um tom moreno claro, e os dedos alongados revelam cuidado no gesto. A pessoa veste uma blusa de manga comprida em tecido escuro, que contrasta com a paleta suave do bambu e dos casulos.
Casulos envoltos em fios de seda (Foto/Arquivo pessoal)

A aposta na fibroína não é por acaso, essa proteína é frequentemente utilizada na produção de dermocosméticos por suas propriedades hidratantes e regeneradoras. Mas se a metodologia de manipulação da fibroína como princípio ativo também não é inédita, o que exatamente torna o sérum facial desenvolvido pelo projeto Seda Brasil inovador em relação aos demais produtos disponíveis no mercado?

“É o conjunto da obra”, explicou o professor Luís da UTFPR.

É a combinação de fatores que confere inovação ao produto. A extração da fibroína associada ao desenvolvimento do sérum facial pode ser considerada uma inovação na indústria dermocosmética. Sobre isso, Cristianne, coordenadora do Seda Brasil, explica: “Nós já temos outros produtos similares. Eu fui para a França, no Silk Union, tinha alguns outros produtos similares, mas não como sérum. Eram cremes hidratantes e associado a outros ativos. Por exemplo, eu comprei um com karité, comprei com outras fórmulas que compõem, como a fibroína. Agora, exclusivo com a fibroína, 100% fibroína, é o único”

Na imagem, aparece uma pessoa vestida com jaleco branco manipulando tubos de ensaio em um ambiente de laboratório. As mãos, protegidas por luvas de látex claras, seguram dois tubos — um deles com líquido escuro, provavelmente amostra biológica. A pessoa posiciona o tubo dentro de um equipamento de centrífuga, cuja tampa preta está aberta. Ao fundo, é possível ver parte de um computador, reforçando o caráter técnico do espaço. A cena transmite precisão, controle e rotina de pesquisa científica.
Laboratório, berço da inovação (Foto/Arquivo pessoal)

Além de inovar na matéria-prima, durante o desenvolvimento do sérum, o grupo também precisou pensar na possibilidade de reprodução em escala industrial, algo essencial para qualquer produto que pretende chegar ao mercado. Durante o processo, essa preocupação guiou parte das decisões técnicas. “Você não pode ser muito acadêmico quando está desenvolvendo alguma coisa que vai para a indústria, porque ela tem que ser escalável. Tem que ser barata, ela tem que ser simples, e por quê? Porque depois a ideia é que a indústria tente escalonar isso e jogar no mercado”, explicou Luís.

O produto desenvolvido pela UEL em parceria com a UTFPR é indicado para tratamento de qualquer tipo de pele, porque a fibroína possui potenciais ações biológicas, atendendo necessidades específicas como hidratação e combate ao envelhecimento.

Paraná: capital da seda

O Paraná é o maior produtor de fio de seda do Brasil, responsável por cerca de 86% da produção nacional. Mas esse número é só o começo da história. Os dados reforçam a potência do estado. Só no ano passado, 2024, o Paraná registrou R$ 44,4 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP). Foram produzidas 1,35 mil toneladas de casulos e cultivados mais de 2,4 mil hectares de amoreiras, a planta que alimenta o bicho-da-seda.

E não para por aí! A atividade está espalhada pelo território do estado. De 399 municípios, 153 estão envolvidos na atividade da sericultura1, somando mais de 1,3 mil produtos em todo Paraná. Uma cadeia que envolve desde o cultivo de amoreiras até a entrega dos casulos para indústria.

É dessa produção que sai o fio responsável por colocar o Paraná no mapa global com o fio de seda mais longo e branco do mundo. Um único casulo pode render até 1,2 km de fio contínuo, aspecto que eleva o valor do produto no mercado internacional.

Infográfico intitulado “Paraná: Capital da seda”, com fundo azul claro e elementos gráficos em tons de amarelo, verde e branco. No centro, há o contorno do estado do Paraná destacado em azul. Ao redor, setas conectam informações sobre a produção de seda: o Paraná produz cerca de 86% da seda do Brasil; o estado gera aproximadamente 1.400 toneladas de casulos por ano; a cadeia da seda movimentou cerca de R$ 39,2 milhões em 2023. Há ilustrações de um mapa do Brasil com o Paraná em destaque, casulos, lagartas e um saco de dinheiro com símbolo de cifrão. Na parte inferior, um fio contínuo simboliza que cada casulo do Bombyx mori pode render entre 1 e 1,2 km de fio. Também há a informação de que os fios produzidos são mais brancos, o que valoriza a tintura e o acabamento da seda.

O resultado?  Todas essas características valorizam o produto no mercado e o tornam extremamente disputado mundo afora. Cerca de 90% da seda brasileira é exportada, principalmente para França, Itália e Japão. O fio paranaense abastece marcas de luxo, como a francesa Hermès, que utiliza a matéria-prima na confecção de peças de alto padrão.

Para a professora Cristianne, a seda não é apenas objeto de pesquisa, mas uma paixão que atravessa toda a cadeia produtiva. “As pessoas me chamam de professora da seda, porque é uma paixão. A seda quando você entende que é uma cadeia 100% sustentável, em que nada se perde, tudo nela aproveitado, até o resíduo do animal, você limpa, carda, e transforma em estofamento de carro de luxo. A pupa é alimento, tem 53% de proteínas, ácidos graxos e ômega 3. Então, nada dela é perdida e é uma cadeia limpa, sustentável, que é o impacto que a gente quer no mundo”, ressaltou.

Mulheres e agricultura familiar no centro da produção

A inovação nasce dentro do laboratório, mas suas raízes estão no campo. É nas pequenas propriedades rurais que se concentra grande parte da produção da seda no Paraná. A sericicultura é baseada majoritariamente na agricultura familiar e envolve milhares de produtores distribuídos por diferentes regiões do estado. São eles que cultivam as amoreiras, cuidam das lagartas e entregam os casulos que mais tarde serão transformados em fio pela indústria, ou como na história de hoje, em tecnologia.

Em uma mesa iluminada, um pequeno tear de madeira aparece com fios esticados, ao lado de um saco transparente contendo casulos brancos de bicho-da-seda. O cenário destaca materiais usados na produção artesanal da seda no Paraná.
Processo artesanal da seda: casulos e tear usados na produção (Foto/Arquivo pessoal)

Dentro desse universo, as mulheres ocupam um papel central. Elas estão à frente de etapas fundamentais do processo, desde o manejo diário do bicho-da-seda até a organização da produção familiar. Em muitas propriedades, são as responsáveis por garantir a regularidade e a qualidade dos casulos, o que faz diferença direta no resultado final.

O protagonismo feminino, embora histórico, nem sempre é visível. Mas é ele que sustenta a continuidade de uma atividade que movimenta o campo, gera renda e mantém viva uma tradição milenar.

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Texto:
Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

Glossário

  1. Sericultura – É a prática de criar bichos-da-seda para produzir fios de seda. ↩︎

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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