Desafios e vitórias na conservação dos animais

A imagem mostra uma paisagem natural ao entardecer, com árvores, rio e céu alaranjado. Diversos animais silvestres aparecem, como tartarugas, tamanduá-bandeira, onça-pintada, jacaré, tucanos e urubus. Duas pessoas observam a fauna com binóculos, uma em pé e outra sentada. A cena é rica em detalhes e cores, com destaque para a interação entre humanos e natureza. A arte tem estilo ilustrativo e é creditada à “Conexão Ciência” e à artista Camila Lozeckyi.
Projeto de Medicina e Conservação da UFFS revela desafios e ações para proteger animais silvestres no Paraná e envolver a comunidade

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No Paraná, a vida dos animais silvestres está repleta de desafios que, muitas vezes, passam despercebidos. Um exemplo emblemático são os cágados do Rio Iguaçu, especialmente, a espécie Williams, que enfrenta uma séria ameaça devido à ação humana.

Por trás desse cenário, pesquisadores, estudantes e parceiros da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) desenvolvem o Projeto de Medicina e Conservação de Animais Silvestres no Paraná, coordenado pelo professor Paulo Henrique Braz. Juntos, eles investigam as relações complexas entre a fauna local e as transformações do ambiente, buscando caminhos para proteger e conservar essas espécies.

  • Em uma floresta densa, três pessoas usam coletes marrons e luvas enquanto manipulam cuidadosamente um pequeno animal silvestre. Um homem segura uma seringa de coleta, enquanto outro mantém o animal firme nas mãos, e uma terceira pessoa observa atentamente. O chão está coberto por folhas e galhos, e troncos altos envolvem o grupo, criando um ambiente úmido e sombreado.
  • Quatro pessoas estão em um veículo tipo jipe adaptado, circulando por uma área com vegetação fechada. Um homem de costas veste colete preto com a inscrição “Pro Life” e segura uma armadilha de arame. À frente dele, uma mulher de boné, óculos escuros e camiseta cinza manipula um tubo de plástico transparente. Dois outros homens, um de camiseta verde e outro cinza, estão na parte traseira, próximos a caixas de papelão e redes.

Os desafios dos cágados do Rio Iguaçu

Os cágados são animais semi-aquáticos que dependem do sol para aquecer o corpo e encontrar alimento. Diversos fatores ecológicos, ambientais e de ação direta do homem têm feito com que o ecossistema dos cágados tenha se alterado.  Esse desequilíbrio provoca a perda de habitat, afogamento e escassez de alimento, impactando diretamente as populações de cágados, com a espécie Williams que corre risco iminente de extinção. Além disso, análises feitas com amostras sanguíneas apontam alterações genotóxicas, que indicam um ambiente contaminado e prejudicial à saúde dos animais.

  • Dois homens, usando luvas azuis, manipulam um cágado sobre uma bancada de azulejos brancos. O homem à esquerda veste uniforme vermelho e segura o animal, enquanto o da direita, de uniforme verde, aplica uma seringa na lateral do casco. A cena ocorre em ambiente interno, com paredes revestidas de azulejos claros.
  • Três homens em um barco estacionado próximo à margem, cercada por vegetação. Um deles, de colete bege e roupa vermelha, segura uma armadilha cilíndrica de arame. Outro, em pé e de casaco verde, observa de perto, enquanto o terceiro, sentado e de chapéu camuflado, segura um pano branco para auxiliar na manipulação de animais capturados.

Segundo o professor Paulo, esses resultados são um alerta para todos. “O contato com o ambiente em que eles vivem está ruim e isso não afeta só eles, afeta também a gente. O Rio Iguaçu é um dos principais rios do Paraná e saber que sua saúde não está boa já é algo bastante preocupante para todos nós.”

Outra preocupação revelada pela pesquisa foi a presença de bactérias resistentes a antibióticos hospitalares no rio, um sinal de que os poluentes urbanos e industriais chegam aos cursos d’água, comprometendo a saúde ambiental e humana.

O monitoramento desses animais, realizado há três anos, envolve captura ativa para exames, coleta de sangue e análise microbiológica, permitindo um diagnóstico detalhado da situação e embasando ações de conservação. Essa base de dados já permite até estabelecer paralelos com grandes catástrofes ambientais.

O professor lembra que, assim como no desastre de Mariana, em Minas Gerais, onde toneladas de rejeitos afetaram ecossistemas inteiros, no Paraná, também existem impactos contínuos e silenciosos. “Não é uma barragem se rompendo, mas é como se, todo dia, algo pequeno e silencioso estivesse acontecendo e ninguém vendo”, destaca.

O olhar atento para as onças-pintadas

Enquanto os cágados enfrentam ameaças silenciosas, as onças-pintadas, grandes predadoras e símbolo da biodiversidade local, mostram que a conservação é possível quando há empenho.A equipe do professor Paulo Braz trabalha em parceria com o projeto “Onças do Iguaçu”, responsável pelo monitoramento desses felinos no Parque Nacional do Iguaçu. Com o uso de colares via satélite, câmeras trap e a identificação individual baseada no padrão único de pintas, o projeto acompanhou um crescimento expressivo da população, dobrando a quantidade de onças no Parque Nacional.

Imagem com fundo preto. No lado esquerdo, aparece em close o olho castanho e parte do rosto de uma onça-pintada, com pelagem dourada e manchas pretas. No centro e à direita, o texto “Projeto Onças do Iguaçu” está escrito em laranja, acima dele o contorno simples de uma onça deitada. Na parte inferior, há cinco logotipos de apoiadores: Pró-Carnívoros, WWF, CENAP/ICMBio, Parque Nacional do Iguaçu e ICMBio/MMA.

Esse avanço, reconhecido internacionalmente, foi acompanhado de novos desafios. Constatou-se que onças podem contrair doenças comuns de gatos domésticos, como FIV e FeLV, tornando essencial o controle sanitário. Por isso, a equipe realiza ações de vacinação, coleta de sangue e vermifugação em cães e gatos domésticos nas áreas rurais próximas ao parque, formando uma verdadeira barreira sanitária para proteger os felinos selvagens.

Além disso, a equipe realiza um trabalho de educação ambiental nas comunidades, buscando dissipar medos e criar vínculos. Muitos moradores tornaram-se “amigos da onça”, atuando como colaboradores no monitoramento e na preservação desses animais.

O agronegócio e a fauna na região

Toda a região ao redor do Parque Nacional do Iguaçu é marcada pela presença do agronegócio, com extensas áreas de agricultura e pecuária. Embora não seja um problema em si, essa ocupação modifica a paisagem natural e afasta espécies que preferem áreas florestadas.

Muitos animais acabam saindo das zonas de lavoura em busca de refúgio e alimento, entrando em territórios desconhecidos e, por vezes, chegando às cidades. Foi o que aconteceu no ano passado, quando um tamanduá-bandeira apareceu no centro de Capanema, surpreendendo moradores e mobilizando equipes de resgate.

A vida da fauna no Paraná também enfrenta ameaças cotidianas, como atropelamentos em rodovias que colocam em risco tamanduás, lobos, veados e onças. A expansão urbana traz animais para mais perto das cidades, e casos de resgate, como o de um tamanduá-bandeira em Capanema, revelam a necessidade de maior integração entre proteção ambiental e planejamento urbano.

O tráfico e a caça ilegal continuam sendo problemas graves, com jacarés e corujas resgatados de cativeiros e relatos de caça de veados.

Conscientização e educação como caminhos para a mudança

Para o professor Braz, a mudança real começa pela conscientização, especialmente nas escolas. “Quando visitamos crianças de até 10, 11 anos, percebemos o interesse e o engajamento delas.”

Levar animais seguros para o contato cria uma conexão que vai além da sala de aula e atinge as famílias, promovendo mudanças de comportamento. Relatos como “meu pai não mata mais, agora eu não deixo” mostram que as crianças podem ser agentes de transformação, influenciando diretamente os adultos.

Mesmo diante dos desafios logísticos de conciliar pesquisa e extensão, o projeto segue firme nessa missão, com a certeza de que o envolvimento da sociedade é essencial para a conservação da fauna paranaense e a construção de um futuro mais sustentável.

Para quem quiser se aprofundar ainda mais no tema, preparamos um podcast especial com o professor Paulo Henrique Braz, em que ele fala sobre os desafios, as descobertas e as ações do Projeto de Medicina e Conservação de Animais no Paraná. Não perca!

Além disso, o projeto mantém um canal no YouTube e um perfil no Instagram, ambos chamados “Observatório de Patas”. No YouTube, você encontra vídeos mais longos, de 15 a 20 minutos, mostrando as capturas, o dia a dia dos pesquisadores e o funcionamento das ações. Já no Instagram, o conteúdo é mais dinâmico, com fotos e vídeos curtos, para acompanhar rapidamente as novidades e até os perrengues da equipe. Vale a pena seguir para conhecer de perto esse trabalho que faz a diferença!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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