Na sala de uma escola municipal de Pontal do Paraná, o alfabeto que enfeita a parede foge do comum. No lugar do “G de girafa” ou do “E de elefante”, aparecem o G de guará e o E de estrela-do-mar. As letras ganharam vida com elementos da fauna e flora locais, aproximando as crianças de um território que está bem pertinho delas, o oceano.
Em 2024, Pontal alcançou um marco inédito, visto que todas as suas 27 escolas municipais receberam o Selo Escola Azul, um reconhecimento nacional para instituições que se destacam na promoção da educação oceânica e no fortalecimento do vínculo entre escola, território e oceano.

O feito de Pontal ganha ainda mais relevância com a chegada da 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), que acontece de 20 a 26 de outubro. Criada em 2004, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Semana é, hoje, o maior evento de popularização da ciência no país, mobilizando milhares de instituições, escolas, museus e comunidades em todos os estados.
A cada edição, um tema central orienta as atividades. Neste ano, em sintonia com a Década da Ciência Oceânica das Nações Unidas (2021-2030) e com os 40 anos do próprio MCTI, a temática escolhida é “Planeta Água: cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território”. A escolha não poderia ser mais urgente.
Mas o que significa, afinal, falar em cultura oceânica?
O conceito de cultura oceânica surgiu para expressar a necessidade de reconhecer o oceano como parte da vida cotidiana, mesmo para quem vive longe da costa. Não se trata apenas de saber mais sobre o mar, mas de entender nossa dependência dele e, a partir disso, cultivar responsabilidade e cuidado.
O oceano cobre mais de 70% da superfície da Terra, produz cerca de metade do oxigênio que respiramos, regula o clima e garante alimento para bilhões de pessoas. No entanto, está em crise. O aumento da temperatura das águas, a perda de biodiversidade e a elevação do nível do mar mostram que cuidar do oceano é uma questão de sobrevivência.

A bióloga Camila Domit, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora da Coalizão Paraná pela Década do Oceano, resume esse pensamento: “Quando entendemos que dependemos do oceano para ter oxigênio, alimento, transporte e equilíbrio no clima, percebemos também a necessidade de cuidar dele. Essa relação de mão dupla, em que o mar nos sustenta e nós precisamos preservá-lo, é o que fortalece a conexão de todas as pessoas com o oceano.”
Esse olhar é essencial em um estado como o Paraná. Longe do imaginário de que o oceano só diz respeito às cidades costeiras, a professora Camila lembra que ele influencia diretamente a agricultura, a economia e a vida no interior. “Somos um estado agrícola que depende completamente do oceano e esse entendimento não é evidente. As secas, as chuvas, a fertilidade dos solos, tudo está relacionado ao que acontece no mar.”
Ciência e oceano na sala de aula
Se o oceano está presente em cada respiração e refeição, nada mais estratégico do que levá-lo também para as salas de aula. O Brasil foi pioneiro ao assumir o compromisso de incluir a cultura oceânica no currículo nacional, o chamado Currículo Azul. Embora ainda não esteja consolidado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a proposta já inspira experiências locais que mostram o potencial da educação para criar vínculos de pertencimento e responsabilidade ambiental.
Em Pontal do Paraná, essa inspiração se transformou em prática com o programa MarMaré. Criado em 2023, ele surgiu do desejo de transformar ações pontuais de educação ambiental em um projeto contínuo e estruturado. A pedagoga Patrícia Carnasciali, coordenadora da iniciativa, conta que o ponto de partida foi justamente a necessidade de continuidade, sobretudo pela importância geográfica do município.

Segundo Patrícia, um dos grandes objetivos do programa é trazer aos alunos um senso de pertencimento ao ambiente em que vivem. Essa filosofia acabou se tornando um lema: “conhecer para cuidar”. Afinal, não é possível preservar aquilo que não se conhece e, mesmo quando se conhece, é preciso criar uma relação de afeto e cuidado com o que nos cerca.
Dois anos após sua criação, o MarMaré já realizou mais de 22 mil atendimentos em Pontal e em outros municípios do litoral paranaense, como Paranaguá e Matinhos. A ideia é ampliar cada vez mais essa articulação para que outras cidades também possam conquistar o Selo Escola Azul e difundir a educação oceânica em todo o território.
O oceano como manutenção da vida
Para Patrícia, o aprendizado que fica do trabalho realizado em Pontal é simples e impactante. “A vida depende do oceano. É um ecossistema de manutenção de vida e eu acredito que essa mensagem já está espalhada em cada criança que a gente toca, em cada ação que a gente faz, em cada engajamento com a comunidade”, pontua.
Essa visão ecoa nas palavras da professora Camila ao lembrar que compreender nossa relação de dependência com o oceano é o caminho para fortalecer a conexão de toda a sociedade com o mar e garantir que ele continue a nos oferecer oxigênio, alimento, transporte e equilíbrio climático.

Do alfabeto pintado em uma sala de aula de Pontal às discussões que mobilizam a SNCT 2025, a mensagem é a mesma: proteger o oceano é proteger a vida.
A meta agora é expandir experiências como a de Pontal, fazendo com que a cultura oceânica esteja cada vez mais presente nos currículos e nas políticas educacionais. Para Camila, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é um terreno fértil para inspirar novas iniciativas e fortalecer esse movimento. Afinal, aproximar ciência, educação e oceano é investir em um futuro mais sustentável para todos.
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Texto: Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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