Do litoral paranaense à SNCT: cultura oceânica em pauta

Ilustração em tons de azul que mistura sala de aula e fundo do mar. No centro, um estudante está agachado lendo um livro, enquanto em volta dele o chão se transforma em ondas circulares. Dentro da água, aparecem silhuetas de animais marinhos como tartaruga, golfinhos, peixes, arraia e lula. Acima, um quadro negro exibe desenhos de uma estrela-do-mar e de uma fragata com seus respectivos nomes escritos.
Com o programa MarMaré e o Selo Escola Azul, Pontal do Paraná mostra como a educação fortalece o vínculo entre ciência, escola e oceano

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Na sala de uma escola municipal de Pontal do Paraná, o alfabeto que enfeita a parede foge do comum. No lugar do “G de girafa” ou do “E de elefante”, aparecem o G de guará e o E de estrela-do-mar. As letras ganharam vida com elementos da fauna e flora locais, aproximando as crianças de um território que está bem pertinho delas, o oceano. 

Em 2024, Pontal alcançou um marco inédito, visto que todas as suas 27 escolas municipais receberam o Selo Escola Azul, um reconhecimento nacional para instituições que se destacam na promoção da educação oceânica e no fortalecimento do vínculo entre escola, território e oceano.

Na imagem, um grupo de crianças observa atentamente um painel ilustrado colocado em um espaço aberto e coberto. O painel mostra uma paisagem de praia com mar, areia e montanhas cobertas por vegetação. As crianças estão de costas para a câmera, vestindo uniformes escolares de moletom azul-marinho com detalhes brancos. Elas estão participando de uma atividade educativa do programa MarMaré, aprendendo sobre meio ambiente. Ao redor, há árvores, plantas e uma área ensolarada, o que reforça o clima de aula fora da sala.
Programa MarMaré em ação (Foto/Arquivo pessoal)

O feito de Pontal ganha ainda mais relevância com a chegada da 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), que acontece de 20 a 26 de outubro. Criada em 2004, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Semana é, hoje, o maior evento de popularização da ciência no país, mobilizando milhares de instituições, escolas, museus e comunidades em todos os estados.

A cada edição, um tema central orienta as atividades. Neste ano, em sintonia com a Década da Ciência Oceânica das Nações Unidas (2021-2030) e com os 40 anos do próprio MCTI, a temática escolhida é “Planeta Água: cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território”. A escolha não poderia ser mais urgente.

Mas o que significa, afinal, falar em cultura oceânica?

O conceito de cultura oceânica surgiu para expressar a necessidade de reconhecer o oceano como parte da vida cotidiana, mesmo para quem vive longe da costa. Não se trata apenas de saber mais sobre o mar, mas de entender nossa dependência dele e, a partir disso, cultivar responsabilidade e cuidado.

O oceano cobre mais de 70% da superfície da Terra, produz cerca de metade do oxigênio que respiramos, regula o clima e garante alimento para bilhões de pessoas. No entanto, está em crise. O aumento da temperatura das águas, a perda de biodiversidade e a elevação do nível do mar mostram que cuidar do oceano é uma questão de sobrevivência.

Na imagem, três pessoas estão agachadas em um gramado ensolarado, reunidas em volta de um pequeno buraco na terra para plantar uma muda verde. À esquerda, uma mulher de cabelos castanhos claros e curtos, vestindo uma blusa azul-escura de mangas compridas com estampas florais e um colete claro por cima, segura a plantinha e ajeita a terra com as mãos. Ao lado dela, uma jovem de cabelos longos e escuros, usando uma blusa xadrez preta e branca, observa de perto o plantio. Em primeiro plano, um menino de cabelo curto, vestindo uniforme escolar branco da prefeitura de Pontal do Paraná, com detalhes em azul, também acompanha a atividade, agachado diante da muda. Ao fundo, aparecem parcialmente as pernas de outras pessoas, indicando que mais participantes estão envolvidos. A cena transmite a ideia de cuidado com a natureza e de um momento coletivo de aprendizado e colaboração.
Programa MarMaré em ação (Foto/Arquivo pessoal)

A bióloga Camila Domit, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora da Coalizão Paraná pela Década do Oceano, resume esse pensamento: “Quando entendemos que dependemos do oceano para ter oxigênio, alimento, transporte e equilíbrio no clima, percebemos também a necessidade de cuidar dele. Essa relação de mão dupla, em que o mar nos sustenta e nós precisamos preservá-lo, é o que fortalece a conexão de todas as pessoas com o oceano.”

Esse olhar é essencial em um estado como o Paraná. Longe do imaginário de que o oceano só diz respeito às cidades costeiras, a professora Camila lembra que ele influencia diretamente a agricultura, a economia e a vida no interior. “Somos um estado agrícola que depende completamente do oceano e esse entendimento não é evidente. As secas, as chuvas, a fertilidade dos solos, tudo está relacionado ao que acontece no mar.”

Ciência e oceano na sala de aula

Se o oceano está presente em cada respiração e refeição, nada mais estratégico do que levá-lo também para as salas de aula. O Brasil foi pioneiro ao assumir o compromisso de incluir a cultura oceânica no currículo nacional, o chamado Currículo Azul. Embora ainda não esteja consolidado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a proposta já inspira experiências locais que mostram o potencial da educação para criar vínculos de pertencimento e responsabilidade ambiental.

Em Pontal do Paraná, essa inspiração se transformou em prática com o programa MarMaré. Criado em 2023, ele surgiu do desejo de transformar ações pontuais de educação ambiental em um projeto contínuo e estruturado. A pedagoga Patrícia Carnasciali, coordenadora da iniciativa, conta que o ponto de partida foi justamente a necessidade de continuidade, sobretudo pela importância geográfica do município.

A imagem tem fundo azul e traz o título em letras grandes e brancas: “ALFABETO OCEÂNICO”. No canto superior esquerdo aparece o logotipo do programa MarMaré, com o texto “Programa Permanente de Educação Ambiental”. Abaixo, o alfabeto está organizado em 5 linhas de quadrados brancos, cada um contendo uma letra maiúscula e minúscula, acompanhada por uma ilustração colorida de um animal, planta ou elemento relacionado ao oceano, ou à natureza. Em cada quadrado também aparece a palavra correspondente. A – Água-viva (animal marinho transparente com tentáculos); B – Baleia (animal marinho grande, azul-escuro); C – Camarão (crustáceo laranja); D – Donzela (peixe amarelo); E – Estrela-do-mar (estrela alaranjada); F – Fragata (ave preta de peito vermelho); G – Guará (ave vermelha); H – Hadoque (peixe cinza); I – Ilha (pequena ilha com coqueiro); J – Jacaré (réptil verde); K – Krill (crustáceo pequeno e translúcido); L – Lula (molusco rosado com tentáculos); M – Mero (peixe marrom com manchas); N – Nemo (peixe-palhaço laranja com listras pretas e brancas, referência ao personagem do filme); O – Ouriço-do-mar (animal espinhoso roxo); P – Polvo (animal marinho vermelho com tentáculos); Q – Quero-quero (ave cinza com asas pretas e brancas); R – Raia (animal marinho achatado, azul-escuro); S – Siri (caranguejo azul); T – Tartaruga (verde com casco marrom); U – Urubu (ave preta com cabeça vermelha); V – Vieira (concha em formato de leque, azul-claro); W – Wakame (alga verde marinha); X – Xaréu (peixe prateado); Y – Representado por duas criaturas marinhas pequenas e rosadas (sem nome específico); e Z – Zooplâncton (animal marinho microscópico, desenhado ampliado em azul e branco). Na parte inferior da imagem, há ondas azuis estilizadas, reforçando o tema oceânico.
Alfabeto oceânico desenvolvido pelo MarMaré

Segundo Patrícia, um dos grandes objetivos do programa é trazer aos alunos um senso de pertencimento ao ambiente em que vivem. Essa filosofia acabou se tornando um lema: “conhecer para cuidar”. Afinal, não é possível preservar aquilo que não se conhece e, mesmo quando se conhece, é preciso criar uma relação de afeto e cuidado com o que nos cerca.

Dois anos após sua criação, o MarMaré já realizou mais de 22 mil atendimentos em Pontal e em outros municípios do litoral paranaense, como Paranaguá e Matinhos. A ideia é ampliar cada vez mais essa articulação para que outras cidades também possam conquistar o Selo Escola Azul e difundir a educação oceânica em todo o território.

O oceano como manutenção da vida

Para Patrícia, o aprendizado que fica do trabalho realizado em Pontal é simples e impactante. “A vida depende do oceano. É um ecossistema de manutenção de vida e eu acredito que essa mensagem já está espalhada em cada criança que a gente toca, em cada ação que a gente faz, em cada engajamento com a comunidade”, pontua. 

Essa visão ecoa nas palavras da professora Camila ao lembrar que compreender nossa relação de dependência com o oceano é o caminho para fortalecer a conexão de toda a sociedade com o mar e garantir que ele continue a nos oferecer oxigênio, alimento, transporte e equilíbrio climático.

A foto mostra uma cena em uma rua enfeitada durante um evento do programa MarMaré e da Coalizão Paraná pela Década do Oceano. No centro da imagem há uma mesa coberta com uma toalha azul, onde estão expostos modelos de animais marinhos, como pinguim, tartaruga e arraia, além de esqueletos e peças educativas relacionadas ao mar. Do lado direito da mesa, uma mulher de cabelo comprido e liso, vestindo jaqueta azul-marinho, conversa com uma visitante. A visitante está de costas para a câmera, tem cabelos longos e cacheados presos em um rabo baixo, usa blusa clara, calça jeans e carrega uma bolsa marrom transversal. Ao fundo, vê-se um muro azul decorado com bandeirinhas coloridas e painéis com desenhos, além de pessoas circulando pela rua. A cena transmite a ideia de uma feira educativa sobre meio ambiente e conservação marinha.
Programa MarMaré em ação (Foto/Arquivo pessoal)

Do alfabeto pintado em uma sala de aula de Pontal às discussões que mobilizam a SNCT 2025, a mensagem é a mesma: proteger o oceano é proteger a vida.

A meta agora é expandir experiências como a de Pontal, fazendo com que a cultura oceânica esteja cada vez mais presente nos currículos e nas políticas educacionais. Para Camila, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é um terreno fértil para inspirar novas iniciativas e fortalecer esse movimento. Afinal, aproximar ciência, educação e oceano é investir em um futuro mais sustentável para todos.

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Texto:
 Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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