Você com certeza tem lembrança de algum professor. Há momentos que nos marcam e, como passamos boa parte da vida estudando, muitos deles estão relacionados àqueles que nos educam. Imagine, então, como é importante que existam profissionais capacitados para promover ambientes mais acolhedores. Afinal, a falta de compreensão sobre quem é visto como “diferente” afeta a experiência escolar/acadêmica e, consequentemente, o desenvolvimento do aluno como pessoa e cidadão.
Sim, ter toda essa responsabilidade com relação a outros indivíduos realmente não é uma tarefa fácil. Não à toa, existem datas para destacar o quanto devemos valorizar a atuação dos docentes como Dia Mundial do Professor, em 5 de outubro, e Dia Nacional do Professor, em 15 de outubro. Contudo, a busca pela inclusão de estudantes neurodivergentes, isto é, com um funcionamento cerebral considerado fora do padrão convencionado pela sociedade, ainda precisa ser constante.

Segundo a Lei nº 13.632/2018, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a Educação Especial deve ser ofertada a todos que necessitam, tanto no início da educação infantil como ao longo da vida. Sabe-se, porém, que criar um espaço de aprendizagem acessível é um desafio, sobretudo no Ensino Superior. A ausência de formações específicas aos professores e a diversidade de metodologias pedagógicas, por exemplo, podem tornar essa inclusão muito mais complexa.
Na busca por promover ações efetivas, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) conta com o projeto de pesquisa em ensino “Estudos para Educação Especial no Ensino Superior: Apoios para Estudantes com Deficiência, Altas Habilidades/Superdotação e Transtornos Funcionais Específicos”. A iniciativa é coordenada pela Pró-reitora de Graduação, professora Ana Márcia Fernandes Tucci de Carvalho, do Departamento de Matemática. As ações são em parceria com o Núcleo de Acessibilidade da UEL (NAC), vinculado à Prograd.

Como o próprio nome indica, o projeto tem reuniões para discutir estudos sobre Educação Especial no Ensino Superior. De acordo com a coordenadora do NAC, Ingrid Caroline de Oliveira Ausec, os encontros mensais focam em como essas pesquisas podem contribuir nas práticas da instituição. “Seja na sala de aula, nas atividades de apoio ou nas políticas institucionais, os conhecimentos atualizados impactam tanto no atendimento aos estudantes quanto na produção de conhecimento e formação continuada dos participantes”, explica a coordenadora. Interessados em participar podem entrar em contato pelo e-mail nac@uel.br.
Quebrando barreiras
O público-alvo da Educação Especial são pessoas com deficiência (física, auditiva, visual e intelectual), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e altas habilidades/superdotação. Conforme o último levantamento divulgado, o NAC UEL atendeu quase 300 estudantes que solicitaram o apoio especializado após a efetivação da matrícula. “O acompanhamento inclui desde o primeiro contato, no ingresso, até orientações relacionadas à permanência e conclusão do curso”, destaca Ingrid Ausec.
O planejamento das adaptações pedagógicas, por exemplo, é pensado respeitando cada estudante. Os alunos possuem necessidades diferentes, sendo preciso compreendê-los e oferecer apoio sem reforçar estigmas ou criar barreiras atitudinais1, que impedem a plena participação do acadêmico. O capacitismo, inclusive, é visto como discriminação, segundo a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015).
Neste sentido, o NAC atua com ações de prevenção, acolhimento e encaminhamento, ao mesmo tempo, em que tenta evitar a superproteção e a negligência. Aos docentes, há oferta de assessoria individual na efetivação dos suportes de acessibilidade recomendados e atividades de formação continuada. Além disso, a UEL ainda oferece tratamentos de saúde na Divisão de Assistência à Saúde da Comunidade (DASC), no Serviço de Bem Estar à Comunidade (SEBEC) e na Clínica Psicológica.
Aliás, o acompanhamento médico-psicológico costuma ser um diferencial importante na rotina do aluno do Ensino Superior. Isso porque a falta ou pouca compreensão pode causar estresse, desregulação emocional, ansiedade e depressão. Em alguns casos, pode provocar até a desistência do curso. Foi isso o que aconteceu na primeira graduação de Rosa Maria Tonkio, recém-formada na Licenciatura em Letras — Português/Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Tonkio conta que, aos 17 anos, optou por sair do curso de Engenharia Elétrica, após reprovar em várias matérias no segundo semestre. Aos 24, já na segunda graduação, a maior dificuldade era conciliar trabalho e estudo. Pensou em desistir mais uma vez, chegava atrasada e adiava entregas. No entanto, valorizava participar das discussões teóricas e seguiu firme até o final por conta do apoio recebido. “Já estava em tratamento para o TDAH2 com médico, medicação e psicólogo, o que considero decisivo para concluir a graduação, apesar das adversidades”, relembra.
Pensando em trazer representatividade a outros estudantes que passam por obstáculos parecidos, Tonkio desenvolveu a pesquisa “Educação inclusiva e neurodiversidade (TDAH) no ensino superior: desafios para a formação docente” como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Considero fundamental ampliar o debate no Ensino Superior, especialmente nos cursos de formação de professores, já que a perspectiva docente e discente em sala de aula pode enriquecer a discussão e preencher lacunas deixadas por outras áreas”, destaca.
Construindo inclusão
De acordo com a professora Isabel Cristina Vollet Marson, que orientou o TCC, essa investigação evidenciou pontos importantes. Um exemplo é a pressão que os alunos com TDAH enfrentam para cumprir prazos, causando sofrimento quando não há sucesso. Outro tópico é a necessidade dos professores em demonstrar tolerância e empatia para compreender as dificuldades enfrentadas pelos acadêmicos. Até porque, o medo da discriminação também pode criar uma relutância do aluno em solicitar o suporte à Universidade.
Na UEPG, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) é quem oferece apoio e um Plano Educacional Individualizado (PEI), conforme a necessidade de adaptações. Porém, só é possível quando o aluno manifesta interesse e, para isso, é preciso que o estudante confie no processo. “Enquanto no Ensino Fundamental a identificação de necessidades especiais é, muitas vezes, mediada pela família por meio de laudos médicos, no contexto universitário, a responsabilidade recai sobre o próprio estudante”, ressalta Isabel Marson.
Em sua pesquisa, Rosa Maria Tonkio revela que teve um diagnóstico tardio e foi uma estudante que não chegou a protocolar o laudo médico no sistema da UEPG. “[…] Primeiro por pensar que não precisava, mesmo passando várias dificuldades, segundo porque esqueço (assim como outros colegas com TDAH que simplesmente evitam a burocracia […])”, relatou no texto. Hoje, reconhece que poderia ter tido um atendimento diferenciado na Universidade, caso tivesse buscado orientação.
A verdade é que ainda existem muitos desafios para garantir a inclusão no Ensino Superior. Para Tonkio, é importante incorporar a Educação Especial no currículo de cursos de formação de professores e investir em profissionais especializados dentro dos núcleos de apoio. Mais que isso, é preciso que haja sensibilização da comunidade acadêmica, espaços estruturados para o bem-estar do aluno e políticas institucionais claras e permanentes. Afinal, toda mudança começa e se fortalece quando fazemos questão de discutir sobre ela.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Isabella Abrão
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Maria Eduarda Ehms e Ana Julia Pavoni Probst
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Barreiras Atitudinais: Preconceitos, estereótipos, estigmas e/ou comportamentos negativos que dificultam a participação e inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. ↩︎
- TDAH: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Pode ser considerado uma deficiência, caso a pessoa apresente limitações que causem barreiras à sua participação social. Na busca por garantir direitos específicos, já existem projetos de lei em tramitação que propõem classificar o TDAH como deficiência para todos os efeitos legais. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

