Dores na face, estalos na mandíbula, sensação de travamento ao abrir a boca. A princípio, esses sintomas talvez pareçam algo passageiro, mas para milhões de pessoas no Brasil, eles indicam algo mais complexo: a chamada disfunção temporomandibular, também conhecida como DTM.
Trata-se de um conjunto de sinais e sintomas que afetam os músculos da mastigação e/ou a articulação temporomandibular (ATM), e que interferem de forma significativa na qualidade de vida. De acordo com estimativas, cerca de 37% da população brasileira apresenta ao menos um sintoma de DTM, ainda que nem sempre saiba disso. A falta de informação sobre o tema é uma das razões pelas quais muitos pacientes demoram a buscar ajuda ou recebem diagnósticos errados.

Silvana Proche Rocha, professora do ensino fundamental I, de Guarapuava (PR), levou um tempo até entender o que estava acontecendo. Ela começou a sentir dores de ouvido por volta dos 37 anos e, por já ter tido muitas otites na infância, pensou na possibilidade de ser uma nova inflamação. Porém, as dores pioraram e vieram acompanhadas de estalos no encaixe da mandíbula. “A dor se intensificou tanto que travou minha mandíbula e não conseguia abrir a boca. Para abrir era um sofrimento, doía demais” relata.
Após procurar um dentista e realizar exames, recebeu o diagnóstico de disfunção temporomandibular. O tratamento de Silvana incluiu fisioterapia, compressas e uso de medicamentos. Embora hoje a dor seja mais leve, o incômodo persiste. “Quando percebo que está me incomodando muito, já entro com a medicação. Hoje em dia é o que mais me auxilia para que as dores não se intensifiquem.”
Histórias como a da paranaense são mais frequentes do que se imagina e, muitas vezes, envolvem confusões no diagnóstico e uma longa trajetória até o alívio. Foi pensando nessas dificuldades que surgiu o aplicativo EducaDOR, uma iniciativa desenvolvida na Universidade Federal do Paraná (UFPR) para orientar pacientes e complementar o tratamento clínico da DTM.
Mas, primeiro, vamos entender como essa disfunção surge?
Segundo a professora do curso de Odontologia da UFPR, Priscila Brenner Hilgenberg Sydney, uma das responsáveis pelo desenvolvimento do EducaDOR, a DTM não tem uma única causa e, sim, um conjunto de fatores que variam entre os pacientes. Entre os mais comuns estão os hábitos parafuncionais1, como roer unha, mordiscar objetos ou manter os dentes encostados (característico do bruxismo em vigília). Mas também pode ser provocada por uma combinação de outros agentes, como distúrbios do sono (insônia e apneia), fatores emocionais (estresse, ansiedade e depressão), traumas físicos, histórico de tabagismo e predisposição genética.

Priscila explica que o subtipo da DTM mais comum é a dor miofascial, de origem muscular. Ela pode irradiar para os olhos, ouvidos, dentes ou cabeça, o que aumenta a chance de confusões no diagnóstico. Para evitar isso, é importante que o diagnóstico seja feito por um cirurgião-dentista especialista em DTM e Dor Orofacial. Um exame físico completo e o histórico clínico do paciente ajudam a identificar corretamente o tipo de DTM e o melhor tratamento para cada caso individualmente.
Cada subtipo de DTM exige uma abordagem diferente, por isso o diagnóstico correto é essencial. Porém, o sucesso do tratamento não depende só disso, também está relacionado ao envolvimento do paciente com o próprio cuidado. “A adesão do paciente ao automanejo da dor é mais da metade do caminho para a melhora. A educação em dor faz muita diferença no prognóstico”, declara.
O aplicativo EducaDOR
O EducaDOR nasceu como um instrumento para aumentar essa adesão. A ideia surgiu nas atividades práticas da disciplina de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial da graduação em Odontologia da UFPR, sob supervisão da professora Priscila e do professor Daniel Bonotto. “A principal limitação que encontramos foi a dificuldade dos pacientes em aderir ao tratamento e em seguir as orientações passadas durante as consultas. Isso nos frustrava”, lembra Júlia Fabris, recém-formada em Odontologia pela UFPR e uma das idealizadoras do aplicativo.
O objetivo era criar uma ferramenta de apoio, com base científica, que o paciente pudesse consultar a qualquer momento. “A seleção das funcionalidades foi toda baseada em revisão de literatura. Não teve nada baseado apenas em vivência ou achismo”, explica Júlia. A equipe envolveu alunos da graduação, pós-graduandos, professores e um designer, que cuidou da parte visual e da organização do conteúdo.

Lançado gratuitamente para Android e iOS, o EducaDOR já ultrapassou a marca de 1.200 downloads em diferentes estados brasileiros e até fora do Brasil. O app oferece vídeos demonstrativos, textos explicativos e recursos visuais sobre exercícios mandibulares, automassagem, termoterapia, hábitos nocivos, alimentação, estratégias de alívio da dor, prática de atividade física, técnica de mindfulness e um diário para o paciente registrar a intensidade dos sintomas.
“O aplicativo traz uma gama de conteúdos, mas seu uso deve ser orientado previamente por um profissional, que vai guiar a utilização das funcionalidades de forma personalizada, de acordo com o tipo de DTM que o indivíduo possui”, ressalta Júlia.
Além de complementar o tratamento clínico, o app auxilia pacientes que ainda aguardam atendimento. Só no Serviço Ambulatorial em DTM e Dor Orofacial e Distúrbios do Sono (SAMDOF) da UFPR a lista de espera por atendimento especializado em DTM ultrapassa três mil pessoas. “A educação em dor também é fundamental. O aplicativo fornece essas informações. Muitas pessoas conseguem fazer os exercícios e as terapias indicadas, entender melhor o problema e evitar fatores que pioram a dor”, afirma a professora Priscila.
A estudante de medicina da UFPR, Ana Carolina Cunico, usa o EducaDOR e conta que o aplicativo foi essencial para manter a rotina de cuidados com a DTM. “Eu esquecia de fazer os exercícios de relaxamento, mas via o vídeo no app e fazia junto. Usei muito a parte de automassagem, termoterapia e as dicas de higiene do sono”, relata. Para ela, o fácil acesso à informação e a possibilidade de aplicar o que aprendeu na consulta fizeram diferença. “Com o tempo, os desconfortos diminuíram bastante e isso melhorou muito minha qualidade de vida.”
Criado na universidade pública, o EducaDOR é um grande exemplo de como a ciência vai além dos limites da academia e impacta diretamente a vida das pessoas. Sendo assim, o aplicativo torna o tratamento da DTM mais acessível e fortalece a autonomia do paciente, traduzindo conhecimento técnico em orientações simples e aplicáveis. Também comprova como a tecnologia pode melhorar rotinas de saúde e ampliar o alcance de quem precisa mesmo longe dos consultórios.
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Texto: Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Hábitos parafuncionais: ações repetitivas e involuntárias realizadas com a boca, língua ou mandíbula, que não possuem uma função essencial evidente, como mastigar ou falar. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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