CIENTISTA. Pare um minuto após ler essa palavra e perceba que imagem surgiu em sua mente.
Para a maioria das pessoas, quando se pensa na palavra “cientista”, a figura de um homem se forma na cabeça. Nomes emblemáticos e que atravessam gerações com seus feitos, marcam a memória. Einstein, Galileu, Newton, Darwin, Lattes, Freud, Pitágoras… A lista é infinita! Muitas vezes, até o nome de uma mulher aparecer, dezenas de homens já foram citados e rememorados.
Essa é uma injustiça imensa com a relevância de cientistas mulheres na trajetória científica mundial, que se desenvolveu exponencialmente com diversas descobertas e feitos com o cérebro feminino. Então, caso você também tenha demorado para pensar no nome de mulheres cientistas, o C² separou uma seleção incrível, confira no vídeo:
Para além de exaltar as grandes mulheres que já passaram nos campos da ciência e as que continuam contribuindo com seus conhecimentos, é muito importante que iniciativas sejam desenvolvidas para potencializar o interesse de meninas e mulheres pelos saberes científicos. Por isso, o projeto “Saberes: Desenvolvimento Integral das Meninas e Mulheres na Ciência”, coordenado pela professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), do campus Londrina, Ana Maria da Cruz Ferrari, veio para formar uma rede nacional para inclusão de meninas na ciência.
O Saberes foi contemplado por um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Ministério das Mulheres (MMulheres), com a finalidade de estimular a ascensão de mulheres nas carreiras de Ciências Exatas, Engenharias e Computação.

Várias profissionais e professoras de Engenharia estão envolvidas, bem como voluntárias e parceiras das mais diversas instituições e entidades, como a UTFPR, Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Central Única das Favelas (Cufa), Coletivo Conexões de Londrina, Centro Cultural Laudelina Emília Rosa, Fundação Educacional do Município de Assis, além de escolas do Ensino Fundamental e Médio do Paraná e Santa Catarina.
Hoje, o projeto é dividido em três núcleos: um no Paraná, na cidade de Londrina, e dois em Santa Catarina, nas cidades de São José e Florianópolis, no bairro Monte Cristo. A coordenadora do projeto conta um pouco de toda a história no primeiro episódio da série Conexão Meninas e Mulheres na Ciência, confira:
Com isso, o objetivo do Saberes é incentivar o ingresso e permanência de meninas, principalmente negras e indígenas, no ensino superior. Há a participação de 45 meninas — do 8º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio —, que foram contempladas com bolsas de Iniciação Científica Júnior, e que são divididas em grupos de 15 alunas nos três polos.
Além delas, há também sete bolsistas de Iniciação Científica, que colaboram no desenvolvimento e orientação das oficinas, além das oito professoras com bolsas de apoio técnico, que supervisionam as atividades. Por fim, há duas bolsas de apoio à difusão do conhecimento, ofertadas às líderes comunitárias, personagens fundamentais que fazem o meio de campo e contatos para promover a divulgação do projeto, bem como as articulações. Para completar o esforço, há mais de 30 pessoas envolvidas de forma voluntária para colaborar nas ações sociais e atividades.
As participantes têm contato direto com a Universidade, muitas dessas meninas pela primeira vez, por meio do Projeto Saberes. De acordo com a coordenadora, várias delas nunca tinham saído de dentro da comunidade onde moram e, agora, foram levadas para dentro das Universidades.

O contato, além de ser literal, também se realiza com as oficinas e atividades que são oferecidas, as quais estão conectadas, diretamente, com os cursos presentes no ensino superior, bem como às áreas de atuação das responsáveis pelo Saberes. Em Londrina, as meninas já participaram de oficinas de saboaria, fruto do projeto Sabonete Solidário, e outras atividades em encontros presenciais quinzenais, sempre aos sábados. As participantes aprendem, em laboratório, sobre toda a parte da Química que envolve a fabricação de sabonetes e cosméticos, além de técnicas de produção e até as possibilidades empreendedoras com os produtos artesanais.
Como atividades extras, elas já realizaram oficinas de fotografia, também com contato direto com a Química, no processo de revelar as fotos que tiraram e, nos próximos encontros do ano irão participar de uma oficina de impressão 3D, investigando todas as etapas que envolvem esse tipo de tecnologia tão diferente e cheia de possibilidades de aplicação. São vivências que, muitas vezes, elas nunca teriam se não fosse pelas atividades propostas pelo projeto.
Elas também realizaram uma oficina de jogos de tabuleiros africanos com papel reciclado, em parceria com a Ludoteca da UEL, projeto de extensão que desenvolve atividades lúdicas e recreativas voltadas ao público infantil. As participantes puderam aprender de forma prática um pouquinho sobre a estrutura e importância da celulose, bem como a forma de utilização de materiais biodegradáveis e a diferença e impacto que possuem no mundo, bem como na preservação da biodiversidade.
Além disso, surgem, com frequência, atividades extras conforme vão se verificando as necessidades e interesses das meninas. De acordo com a coordenadora, a partir de uma demanda das participantes, elas desenvolveram uma oficina extra sobre a plataforma Canva, para capacitá-las em uma necessidade que é super atual e útil no dia a dia. Todas essas atividades são complementadas por tarefas que devem realizar também em suas casas para fixar e aprofundar os aprendizados.
Já em Santa Catarina, outras oficinas são aplicadas conforme a realidade das meninas daquela região. No Monte Cristo, elas têm aula de informática e computação duas vezes por semana, uma oficina de cidadania e autoconhecimento a cada 15 dias, além de aulas de reforço semanais de Matemática e Língua Portuguesa, por conta de uma defasagem identificada nessas áreas com esse grupo de participantes. Enquanto em São José, as meninas têm o curso de cosmetologia natural uma vez por mês, também aos sábados, e durante a semana, às terças-feiras, elas têm o projeto de cultivo de uma horta dentro das escolas.

Essas atividades se complementam, uma vez que a construção e manutenção da horta envolve e envolverá muita pesquisa sobre as melhores técnicas, estudos sobre os princípios ativos dos vegetais cultivados, além de como cultivar, como colher e fazer a extração e depois como aplicar na cosmetologia. A partir daí, as participantes desenvolverão cosméticos com as matérias-primas que elas mesmas cultivaram, ou seja, tendo a oportunidade de presenciar e atuar em um ciclo completo para o desenvolvimento deste produto.
Além disso, elas também participam da iniciativa “Toque de Melanina”, que trabalha questões étnico-raciais. A coordenadora comenta que elas fazem estudos sobre cientistas negras que marcaram a história do Brasil e do mundo, promovendo uma aproximação ainda maior com as meninas e um letramento racial. Essa é a função socioemocional do Saberes, que também preza pela criação de vínculo, tanto entre as meninas, como das meninas com as profissionais.
“O projeto não se resume às ações de capacitação e oficinas, mas também há trabalhos de acolhimento emocional, com uma preocupação com a autoestima e na visão que as meninas têm sobre elas mesmas. Nós chamamos de ‘trabalho sobre si’, incluindo várias atividades de autoconhecimento. Por isso o título do projeto traz ‘desenvolvimento integral’, porque a gente busca essa outra parte que, às vezes, é deixada de lado. Muitos estudos mostram que mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade e risco não acreditam que são capazes de ocupar espaços de destaque, como universidades e centros de tecnologia. Não importa a quantidade de ações e capacitação que sejam oferecidas, elas precisam, em primeiro lugar, acreditar em si mesmas para haver mudança”, enfatiza a coordenadora.

A professora Ana complementa que o Saberes é fundamental até na percepção do quanto elas conseguem se sentir parte de um grupo, porque nos primeiros encontros as meninas têm muita dificuldade de interagir e de se sentir à vontade. No entanto, depois que elas começam a participar das atividades e das discussões, sentem-se mais livres para ser quem são. “E isso é fundamental, para além de todas as questões sociais e de conscientização, mas também para ter uma noção do direito que elas têm de ocupar todos os espaços”, afirma.
No segundo episódio da série Conexão Meninas e Mulheres na Ciência, a coordenadora explica um pouco mais sobre essa importância do Saberes e o impacto que ele está tendo na vida dessas meninas:
2025 marca a finalização do primeiro ciclo do projeto e, para o próximo ano, a expectativa é a realização das oficinas de cerâmica, com professores e orientadores do curso de Engenharia de Materiais, que irão abordar desde a produção da cerâmica até o desenvolvimento de produtos. Além disso, haverá a continuidade com o projeto da horta e sua conexão com o curso de cosmetologia. E é dessa forma que o projeto busca promover a formação de mulheres cientistas, vinculando às discussões super ricas sobre temáticas essenciais, como violência de gênero, autoestima e questões étnico-raciais.
Quem sabe num futuro bem próximo, você poderá se lembrar, de primeira, de várias mulheres cientistas brasileiras!
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Edição de vídeo: Maria Eduarda Tenório Calvi
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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