A dor pode começar bem cedo, às vezes logo ao abrir os olhos pela manhã. E, mês após mês, o sofrimento se repete. É a chamada cólica menstrual, naturalizada como algo que faz parte da vida das mulheres — e, muitas vezes, é vivida em silêncio. O cenário se agrava quando o diagnóstico acertado demora ou quando a gravidade é minimizada pela desinformação. Em parte desses casos, a causa da dor tem nome: endometriose. Mesmo afetando milhões de mulheres e com consequências graves à saúde, a doença ainda é tema relativamente recente no campo da pesquisa científica, e novas abordagens de tratamento estão em fases iniciais de estudo.
Nem sempre seus indícios aparecem nos exames de rotina, mas a intensidade da dor é inegável — em alguns casos, totalmente incapacitante. Apesar desses sintomas fortes, muitas mulheres crescem ouvindo que é normal sentir cólica e ainda é pouco explicado o caráter multifatorial da endometriose ou seus efeitos sobre a vida cotidiana. Os efeitos são sentidos no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e na vida social como um todo. Uma doença crônica que afeta milhões de mulheres pelo mundo e ainda encontra barreiras como atraso e dificuldades no diagnóstico, além de falta de informação.
Você sabe o que é a Endometriose? Confira no episódio 1 do podcast “Conexão Endometriose”.
Os dados da incidência assustam. Segundo o Ministério da Saúde, o percentual de acometimento vai de 5% até 15% das mulheres em idade reprodutiva. No Brasil, o total de mulheres em idade reprodutiva (entre 15 e 49 anos) está estimado em 54 milhões, pelo relatório da Agência das Nações Unidas para a Saúde Sexual e Reprodutiva, o UNFPA. Isso significa que se calcularmos – conservadoramente – 10% desse total temos 5,4 milhões de brasileiras acometidas pela doença, gerando internações hospitalares, necessidade de atendimento especializado e um sofrimento constante.
Além de um alarmante impacto sobre a fertilidade: de 30 a 50% das pessoas com endometriose podem ter infertilidade, como informa a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). O tratamento recomendado tem sido multidisciplinar, com acompanhamento psicológico, atividade física e controle nutricional, este último cada vez mais em destaque, indica a Febrasgo.
As causas da endometriose ainda não estão totalmente definidas pela ciência. Investiga-se fatores genéticos, imunológicos e influência hormonal. O Ministério da Saúde aponta também que a menstruação retrógrada – quando o sangue menstrual flui para dentro do corpo (via tubas uterinas) em vez de sair pelo canal vaginal – pode ser uma das causas da inflamação que acarreta lesões e dores.
Já o diagnóstico é normalmente alcançado depois de um cuidadoso exame clínico. Pela anamnese1 (entrevista médica) bem conduzida já se consegue chegar a uma suspeita próxima de 80%. Os exames complementares – ressonância magnética, ultrassonografia, tomografia – nem sempre conseguem demonstrar visualmente as lesões, pois há casos em que a endometriose profunda, por exemplo, só é detectada a partir do exame de toque.
Os impactos na vida de quem convive com a doença são muito diversos e o atendimento deve ser multidisciplinar, como explica a médica ginecologista Nathalia Westphalen, parte da equipe de cirurgia em Endometriose, do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina. “Desde os impactos físicos mais comuns, como a dor, desde as primeiras menstruações, as dores nas costas, dor até para evacuar – que chamamos de dispareunia de profundidade – e dores nas relações sexuais. A qualidade de vida é muito prejudicada”, reforça. “Tudo isso pode gerar muita ansiedade, angústia e às vezes até uma normalização da dor. Então há esse risco de achar que ter dor é normal, mas não é!”, define a médica.
No vídeo abaixo, trazemos mais sobre a endometriose e como ela afeta a vida de quem tem a doença.
Há pouco menos de um ano, o Hospital Universitário da UEL (HU-UEL) inaugurou um centro de atendimento multidisciplinar para pacientes com Endometriose, em março de 2025. Já que a endometriose pode acometer diferentes órgãos e sistemas, “a atuação de diferentes especialidades para um tratamento adequado e completo é o mais recomendado”, apontou o médico ginecologista Francisco Lopes, responsável pelos atendimentos no ambulatório e também nas cirurgias.

A média de atendimentos chegou a 70 pacientes por mês, com 12 cirurgias realizadas dentre esses. O serviço prioriza técnicas minimamente invasivas, buscando o menor impacto na cirurgia e tempo reduzido de recuperação e de internação. O atendimento funciona como um centro de referência, onde pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de endometriose são avaliadas, e se necessário, são encaminhadas para nutricionistas ou para atendimento psicológico também. Quando há a confirmação da necessidade de cirurgia, todo o processo é encaminhado no próprio ambulatório.
Como explica Francisco Lopes, coordenador dos atendimentos, o tratamento é pensado como um todo, atendendo às necessidades de cada caso. “Nosso diferencial é cuidar do caso de forma completa e planejada. Temos equipe multidisciplinar e além do cirurgião ginecológico, o co-responsável pelos atendimentos é o doutor Luiz Westphalen, cirurgião do aparelho digestivo, Temos ainda colaboração de cirurgiões urológicos, torácicos, e mais profissionais de nutrição e de fisioterapia uroginecológica”, enumera.
Além dos profissionais, toda uma estrutura de exames de alta complexidade, como ressonância magnética e ultrassom com preparo intestinal, um centro cirúrgico com videolaparoscopia moderna, anestesista e UTI (Unidade de Terapia Intensiva) estão disponíveis no mesmo local. “Os profissionais em cirurgia têm experiência em laparoscopia avançada e cirurgia robótica”, complementa o médico.
Ciência local nas pesquisas globais
As opções de tratamento atualmente reconhecidas consistem em terapias hormonais, para conter o crescimento das lesões ou cirurgias para removê-las, tratando uma consequência da doença e não a causa. É por isso que as lesões podem retornar futuramente. Porém, linhas de pesquisas mais recentes, com menos de 10 anos, dedicam-se a pesquisar fármacos que possam conter a doença e explicar seus mecanismos complexos.
Uma dessas linhas de pesquisa contou com colaboração do Ladinc (Laboratório de Dor, Inflamação, Neuropatia e Câncer), do Programa de Pós-Graduação de Patologia Experimental, da UEL, liderado pelo professor e pesquisador citado como um dos mais influentes do mundo em sua área, Waldiceu Aparecido Verri Jr. As pesquisas foram conduzidas primariamente no laboratório do pesquisador Michael Rogers, do Hospital Infantil de Boston (Boston Children’s Hospital) e Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos.
Ouça no episódio 2 do podcast “Conexão Endometriose”, como uma linha de pesquisa recente está tentando encontrar um medicamento que cure a doença.
Esses estudos tiveram início em 2018, quando o farmacêutico e pesquisador Victor Fattori assumiu a maior parte dos experimentos para compor também sua pesquisa de doutorado desenvolvida na UEL. Hoje, ele atua como Instrutor na Escola Médica de Harvard e pesquisador pelo Hospital Infantil de Boston, Estados Unidos. As principais descobertas feitas pelo grupo binacional de pesquisadores foram registradas em um Paper (Artigo acadêmico) no final de 2024 e foram importantes.
Os achados
Entre as conclusões extraídas das pesquisas, está a observação da interação da endometriose com mecanismos do sistema nervoso e do sistema imunológico como um mecanismo complexo, de modo que esses dois sistemas se retroalimentam, permitindo assim que as lesões cresçam, em vez de serem combatidas pelo organismo.
Basicamente o que o artigo revelou para a academia é que os neurônios que enviam a sensação de dor liberam mensageiros químicos que acionam os macrófagos, que são células de defesa do nosso organismo. Na endometriose, esses mensageiros alteram a função dos macrófagos. Então, em vez deles colaborarem com a limpeza das lesões da endometriose, os macrófagos passam a estimular a proliferação dessas células, ampliando a doença.

Entender os mecanismos que levam à doença vai servir para desvendar como um medicamento poderia atuar na sua contenção. “Sabemos que [a endometriose] é altamente dolorosa, já que tem fundo inflamatório e lesões enervadas, aquelas com neurônios que levam a mensagem de dor ao cérebro”, explica o pesquisador.
Seguindo os neurônios
Esses neurônios que levam a mensagem de dor ao cérebro são do tipo produtores de CGRP, uma espécie de mensageiro químico entre as células. Os testes em camundongos apontaram que duas substâncias liberadas pela lesão ativam os neurônios que produzem CGRP e enviam o sinal de dor. “Quando camundongos geneticamente modificados foram criados em laboratório, para não liberarem esse composto CGRP, as lesões neles foram menores”, detalha Fattori.

E eis um grande passo: a função normal dos macrófagos – a habilidade de eliminar detritos e células mortas – foi recuperada depois de serem tratados com um medicamento utilizado para enxaqueca, o qual inibe a ação do CGRP. “Esses testes feitos aqui nos Estados Unidos tiveram a vantagem de contar com medicamentos usados para a enxaqueca já aprovados para uso comum, algo que ainda não temos liberado no Brasil – até onde eu soube”, informa Fattori.
Apesar da boa notícia, muito ainda precisa ser estudado. “Estamos em busca de colaborar com pesquisadores com mais expertise em estudos clínicos, para conduzirmos um estudo com algumas pessoas que tenham a doença. E são muitos detalhes envolvidos para um estudo assim, ainda vão uns bons anos”, emenda o pesquisador.
Enxaqueca e endometriose
Os testes com camundongos e o medicamento aprovado para enxaqueca deram essa importante pista. “Estudos apontam que há uma correlação genética entre endometriose e enxaqueca. Pessoas com endometriose têm mais chance de ter também enxaqueca”, conta. Além disso, dados epidemiológicos demonstram que de fato, pacientes com endometriose apresentam enxaqueca como uma importante comorbidade”, conta Fattori. “Esses achados genéticos e epidemiológicos serviram de base para nosso trabalho também”.
Esse novo olhar para um possível medicamento para a endometriose ainda é chamado de inovador, pois o que se pesquisou nos últimos seis anos são alvos hormonais, de acordo com Fattori. “E esse tipo de medicamento [hormonal] não é livre de efeito no corpo feminino, como sabemos, suspende a menstruação e ainda não é totalmente eficaz para conter a doença”, destaca Victor.
Há ainda o fator tabu nessa dificuldade. O próprio pesquisador deu esse depoimento. “Falar de menstruação ainda é um tabu. O diagnóstico da endometriose pode levar em média de sete a nove anos e provavelmente há subnotificação dos casos. É sabido que as doenças femininas têm menos estudos consagrados”, avalia Fattori. “Esses estudos levam tempo, porque são muito caros, dependem de muita estrutura, de recrutar enfermeiros, médicos, muitas pessoas para atuarem”, indica.
Aqui no Conexão Ciência – C², o tema das pesquisas na área de saúde das mulheres é constante. Mostramos em uma reportagem recente sobre a pesquisa com um componente natural encontrado no própolis brasileiro que pode atuar sobre o câncer de mama ou a revolução que a autocoleta de material para o exame de HPV pode representar nas políticas públicas de prevenção a um tipo de câncer muito comum entre mulheres: o de colo do útero.
Confira também como a questão da informação (ou a falta dela) é um dos entraves para a prevenção e tratamento de doenças no universo feminino nessa matéria sobre a saúde de mulheres lésbicas.
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Texto: Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi e Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Anamnese – Conversa inicial entre paciente e o profissional de saúde para levantar informações sobre a saúde da pessoa, perguntar sobre sintomas atuais, doenças anteriores, uso de medicamentos e histórico familiar. Esses dados ajudam a entender o problema e orientar o diagnóstico e o tratamento. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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