Entre muitas culturas, nasceu o cristianismo medieval

A capa apresenta uma composição circular inspirada na iconografia do cristianismo medieval. No centro, Cristo ressuscitado surge nu, com auréola radiante em forma de sol, em postura de triunfo. Ao redor, em faixas concêntricas azuis e douradas, aparecem cenas bíblicas e figuras simbólicas: anjos, demônios, santos, mártires e episódios de julgamento, combate espiritual e redenção. Estrelas, chaves, cruzes e instrumentos celestes reforçam o imaginário teológico. A estética remete a iluminuras e gravuras antigas, com textura envelhecida, cores contrastantes e forte carga simbólica, sugerindo a luta entre bem e mal, salvação e condenação, dentro de uma visão cósmica e religiosa do mundo medieval.
Na UEM, estudar o passado permite descobrir como diversas culturas se permeiam e, até mesmo, combater a intolerância religiosa

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Quando falamos das origens de festividades como o Natal e o Dia de Todos os Santos ou, até mesmo, sobre intolerância religiosa, quase ninguém imagina que boa parte das raízes dessas discussões nasceram muito antes da Idade Média. Mas é justamente observando o passado que os pesquisadores conseguem entender por que certas crenças são vistas de forma negativa a partir de algumas perspectivas e como, mesmo assim, elas influenciaram, e continuam influenciando, a forma como vivemos hoje.

Por isso, quando descobri que, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), há um professor da graduação em História que integra o Grupo de Pesquisa História das Crenças e das Ideias Religiosas (HCIR/UEM) e o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Medievais (Meridianum), da Universidade Federal de Santa Catarina, fiquei super curiosa. Religiões e Idade Média? Como pesquisar temas tão específicos, relacionando-os, pode ser benéfico para nós no presente?

Grupo de pessoas do HCIR reunidas em uma sala, posicionadas lado a lado e em pé, com uma pessoa sentada à frente. Há cadeiras com pranchetas dispostas em filas no primeiro plano. As pessoas vestem roupas casuais. O ambiente tem paredes claras e iluminação interna uniforme.
Curso de Ensino de História e História das Religiões ministrado por Daniel no HCIR (Foto/Arquivo Pessoal)

Não para por aí. Confesso que achei o currículo do professor Daniel Costa um dos mais diferentões que já vi em muito tempo: “Experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e Medieval e História das Religiões, atuando principalmente nos seguintes temas: seres híbridos antigos e medievais, bestiários medievais, mitologia antiga e medieval, literatura medieval, cosmologia, cristianismo, pós-morte, Dante Alighieri, inferno”.

Professor Daniel, de frente para a câmera. Usa óculos de armação escura, tem cabelo curto e barba aparada. Veste camiseta clara e um colar com pingente fino. Está sorrindo. Ao fundo, há um painel com blocos de cores claras e uma estrutura vertical de madeira.
Professor Daniel Lula Costa (Foto/Arquivo Pessoal)

De tão curiosa para saber como tudo isso se conecta, entrei em contato com Daniel, que pegou minhas ideias confusas sobre a pauta e me orientou a conversarmos sobre os envolvimentos transculturais das mitologias antigas em relação ao cristianismo medieval. E foi justamente aí que eu corri para pesquisar o que esse conceito significava. Tive uma ideia inicial, mas só mergulhei de verdade quando pudemos conversar.

Segundo o professor, transculturalidade significa pensar as conexões entre culturas, considerando que nenhuma é pura ou fechada em si. Pelo contrário: elas estão sempre trocando elementos, reinterpretando símbolos e modelando práticas do cotidiano. 

Agora, como saber de onde e como se originam essas influências? O professor Daniel explica que definir isso com precisão é muito difícil. Ainda assim, os historiadores buscam documentos que tenham tido contato com as culturas analisadas. Ele destaca, especialmente, os documentos artísticos, porque revelam emoções e imaginários que podem denunciar muito sobre essas influências.Foi nesse ponto da conversa que eu entendi por que o currículo do professor inclui tantos estudos sobre Dante Alighieri. Inclusive, aproveitando a deixa, gravamos um podcast sobre como identificar influências transculturais nas obras do autor, como o Inferno, da Divina Comédia, marcada por elementos cristãos. Não deixe de conferir aqui! E, para tornar a sua experiência ouvindo o podcast ainda melhor, preparamos um esquema visual sobre as camadas so Inferno de Dante:

Infográfico vertical com fundo texturizado em tons de amarelo e azul-escuro, estética inspirada em pergaminho antigo e arte medieval. O título aparece em tipografia gótica, com recortes irregulares, e os números de um a nove são grandes, ornamentais e dispostos em coluna à esquerda. O design remete a manuscritos antigos, com aparência envelhecida e contraste forte entre texto claro e fundo escuro. O conteúdo apresenta os nove círculos do Inferno de Dante, listados de cima para baixo: Limbo, Vale dos Ventos, Lago de Lama, Colina de Rocha, Rio Estige, Cemitério de Fogo, Vale do Flegetonte, Malebolge e Lago Cocite. Cada círculo traz uma breve explicação do tipo de alma ali punida, como virtuosos não batizados, luxuriosos, gulosos, gananciosos, iracundos, hereges, violentos, fraudulentos e traidores.

Na Idade Média, esses envolvimentos aparecem nas relações do cristianismo com tradições judaicas, zoroastristas (uma fé persa antiga), romanas, celtas e até persas. Ou seja, o cristianismo medieval não nasceu pronto: ele absorveu elementos culturais, ressignificou símbolos e reconstruiu conceitos. 

Os filósofos antigos, por exemplo, foram fundamentais para a formação da moral cristã. O cristianismo também recebeu influências da cultura popular e as imagens tiveram papel central nisso. A figura de Hades e do submundo, oriunda da mitologia grega, foi se aglutinando à ideia do inferno medieval, construindo um imaginário de medo, por exemplo. Naquele contexto, seres associados a outras culturas, como Hades, tornavam-se símbolos do “não cristão”.

Daniel dá um exemplo muito legal sobre o Natal, considerado uma festa cristã. Ao longo dos séculos, essa festividade incorporou diferentes tradições, como as festas da Saturnália, caracterizadas pela troca de presentes e pela decoração com folhagens, algo bem comum no nosso Natal atual. 

“Temos uma ideia parecida com a festa do Sol Invicto, celebração romana que acontecia em 25 de dezembro, data posteriormente associada ao nascimento de Jesus – embora não haja provas de que Cristo tenha nascido exatamente nesse dia. Essa comemoração exaltava o solstício de inverno e marcava o “renascimento do sol”, o que pode ajudar a explicar a auréola presente nas imagens cristãs”, conta o professor.

Placa de pedra em relevo com figuras humanas esculpidas. No centro, há uma figura com cabelos ondulados e raios saindo da cabeça. À direita, aparece parcialmente outra figura com barba. As figuras usam vestimentas esculpidas em dobras. A superfície da pedra apresenta marcas de desgaste.
Sol Invicto, deus pagão cuja festa era celebrada no dia do Natal (Foto/Divulgação)

O mesmo vale para o Dia de Finados, comemorado em 2 de novembro. Antes de se tornar uma data oficial, havia celebrações romanas vinculadas ao culto aos mortos, como a festa da Lemúria. Com o tempo, o cristianismo reinterpretou essas tradições para homenagear os santos e seus legados, o que originou o Dia de Todos os Santos, na véspera do Dia de Finados.

Para o professor, o cristianismo atual surge de todo esse hibridismo cultural. Isso mostra o quanto as religiões são múltiplas dentro das suas próprias construções. Pensar essa multiplicidade nos ajuda a refletir sobre alteridade e sobre o “outro”. Pesquisar o passado medieval é também uma forma de entender quais atitudes intolerantes não podem ser repetidas. Mostrar que uma religião é resultado de hibridismos culturais é um passo importante para combater a intolerância religiosa e celebrar diferenças de crenças.

“Um exemplo desse impacto no presente é o trabalho de mapeamento de terreiros e religiões afro-brasileiras, em Maringá, coordenado pelo HCIR, pela professora Vanda Serafim, com o objetivo de dar visibilidade a grupos historicamente silenciados”, reforça o professor.

Grupo de pessoas do HCIR reunidas em uma sala, dispostas em duas fileiras, todas em pé e voltadas para a câmera. Vestem roupas casuais. Ao fundo, há cadeiras azuis organizadas em filas e uma imagem grande de uma paisagem urbana na parede. O ambiente é interno, com paredes claras e iluminação artificial.
Evento do HCIR ministrado pelo professor Daniel (Foto/Arquivo Pessoal)

Daniel encerrou nossa conversa destacando o papel da divulgação científica no combate à intolerância religiosa e no reconhecimento da diversidade cultural das religiões. Ele menciona o perfil do Grupo de Pesquisa no Instagram, @hcir.uem, que faz esse trabalho. No Meridianum, o professor também chama atenção para pesquisas sobre bruxaria na Idade Média e Moderna, além do estudo da cultura árabe medieval, muitas vezes, negligenciada pelo foco europeu predominante. A ideia é pensar uma Idade Média mais global, e não restrita apenas ao olhar europeu.No fim das contas, mergulhar nesse passado tão distante ajuda a compreender tensões muito atuais. E, talvez, seja justamente estudando o ontem que a gente consiga conviver melhor no hoje! Se você se interessa pela história medieval, não vai querer deixar de ler a matéria do C2 sobre por que a idade média ainda importa, ou o Conexão Boas Festas, em que o professor Daniel também nos conta sobre as origens das festividades de fim de ano. Te esperamos lá!

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Texto:
Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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