Quando falamos das origens de festividades como o Natal e o Dia de Todos os Santos ou, até mesmo, sobre intolerância religiosa, quase ninguém imagina que boa parte das raízes dessas discussões nasceram muito antes da Idade Média. Mas é justamente observando o passado que os pesquisadores conseguem entender por que certas crenças são vistas de forma negativa a partir de algumas perspectivas e como, mesmo assim, elas influenciaram, e continuam influenciando, a forma como vivemos hoje.
Por isso, quando descobri que, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), há um professor da graduação em História que integra o Grupo de Pesquisa História das Crenças e das Ideias Religiosas (HCIR/UEM) e o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Medievais (Meridianum), da Universidade Federal de Santa Catarina, fiquei super curiosa. Religiões e Idade Média? Como pesquisar temas tão específicos, relacionando-os, pode ser benéfico para nós no presente?

Não para por aí. Confesso que achei o currículo do professor Daniel Costa um dos mais diferentões que já vi em muito tempo: “Experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e Medieval e História das Religiões, atuando principalmente nos seguintes temas: seres híbridos antigos e medievais, bestiários medievais, mitologia antiga e medieval, literatura medieval, cosmologia, cristianismo, pós-morte, Dante Alighieri, inferno”.

De tão curiosa para saber como tudo isso se conecta, entrei em contato com Daniel, que pegou minhas ideias confusas sobre a pauta e me orientou a conversarmos sobre os envolvimentos transculturais das mitologias antigas em relação ao cristianismo medieval. E foi justamente aí que eu corri para pesquisar o que esse conceito significava. Tive uma ideia inicial, mas só mergulhei de verdade quando pudemos conversar.
Segundo o professor, transculturalidade significa pensar as conexões entre culturas, considerando que nenhuma é pura ou fechada em si. Pelo contrário: elas estão sempre trocando elementos, reinterpretando símbolos e modelando práticas do cotidiano.
Agora, como saber de onde e como se originam essas influências? O professor Daniel explica que definir isso com precisão é muito difícil. Ainda assim, os historiadores buscam documentos que tenham tido contato com as culturas analisadas. Ele destaca, especialmente, os documentos artísticos, porque revelam emoções e imaginários que podem denunciar muito sobre essas influências.Foi nesse ponto da conversa que eu entendi por que o currículo do professor inclui tantos estudos sobre Dante Alighieri. Inclusive, aproveitando a deixa, gravamos um podcast sobre como identificar influências transculturais nas obras do autor, como o Inferno, da Divina Comédia, marcada por elementos cristãos. Não deixe de conferir aqui! E, para tornar a sua experiência ouvindo o podcast ainda melhor, preparamos um esquema visual sobre as camadas so Inferno de Dante:

Na Idade Média, esses envolvimentos aparecem nas relações do cristianismo com tradições judaicas, zoroastristas (uma fé persa antiga), romanas, celtas e até persas. Ou seja, o cristianismo medieval não nasceu pronto: ele absorveu elementos culturais, ressignificou símbolos e reconstruiu conceitos.
Os filósofos antigos, por exemplo, foram fundamentais para a formação da moral cristã. O cristianismo também recebeu influências da cultura popular e as imagens tiveram papel central nisso. A figura de Hades e do submundo, oriunda da mitologia grega, foi se aglutinando à ideia do inferno medieval, construindo um imaginário de medo, por exemplo. Naquele contexto, seres associados a outras culturas, como Hades, tornavam-se símbolos do “não cristão”.
Daniel dá um exemplo muito legal sobre o Natal, considerado uma festa cristã. Ao longo dos séculos, essa festividade incorporou diferentes tradições, como as festas da Saturnália, caracterizadas pela troca de presentes e pela decoração com folhagens, algo bem comum no nosso Natal atual.
“Temos uma ideia parecida com a festa do Sol Invicto, celebração romana que acontecia em 25 de dezembro, data posteriormente associada ao nascimento de Jesus – embora não haja provas de que Cristo tenha nascido exatamente nesse dia. Essa comemoração exaltava o solstício de inverno e marcava o “renascimento do sol”, o que pode ajudar a explicar a auréola presente nas imagens cristãs”, conta o professor.

O mesmo vale para o Dia de Finados, comemorado em 2 de novembro. Antes de se tornar uma data oficial, havia celebrações romanas vinculadas ao culto aos mortos, como a festa da Lemúria. Com o tempo, o cristianismo reinterpretou essas tradições para homenagear os santos e seus legados, o que originou o Dia de Todos os Santos, na véspera do Dia de Finados.
Para o professor, o cristianismo atual surge de todo esse hibridismo cultural. Isso mostra o quanto as religiões são múltiplas dentro das suas próprias construções. Pensar essa multiplicidade nos ajuda a refletir sobre alteridade e sobre o “outro”. Pesquisar o passado medieval é também uma forma de entender quais atitudes intolerantes não podem ser repetidas. Mostrar que uma religião é resultado de hibridismos culturais é um passo importante para combater a intolerância religiosa e celebrar diferenças de crenças.
“Um exemplo desse impacto no presente é o trabalho de mapeamento de terreiros e religiões afro-brasileiras, em Maringá, coordenado pelo HCIR, pela professora Vanda Serafim, com o objetivo de dar visibilidade a grupos historicamente silenciados”, reforça o professor.

Daniel encerrou nossa conversa destacando o papel da divulgação científica no combate à intolerância religiosa e no reconhecimento da diversidade cultural das religiões. Ele menciona o perfil do Grupo de Pesquisa no Instagram, @hcir.uem, que faz esse trabalho. No Meridianum, o professor também chama atenção para pesquisas sobre bruxaria na Idade Média e Moderna, além do estudo da cultura árabe medieval, muitas vezes, negligenciada pelo foco europeu predominante. A ideia é pensar uma Idade Média mais global, e não restrita apenas ao olhar europeu.No fim das contas, mergulhar nesse passado tão distante ajuda a compreender tensões muito atuais. E, talvez, seja justamente estudando o ontem que a gente consiga conviver melhor no hoje! Se você se interessa pela história medieval, não vai querer deixar de ler a matéria do C2 sobre por que a idade média ainda importa, ou o Conexão Boas Festas, em que o professor Daniel também nos conta sobre as origens das festividades de fim de ano. Te esperamos lá!
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Texto: Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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