Fungo magnético: solução para águas poluídas

Ilustração mostra um frasco de laboratório, preenchido parcialmente por um líquido branco na metade inferior. No fundo do frasco há uma massa verde com padrão reticulado, semelhante a estruturas celulares. Ao lado direito do frasco aparecem duas barras escuras paralelas. O fundo da imagem é composto por tons de verde com texturas e pontos espalhados.
Uma combinação inédita entre microrganismos e nanopartículas de ferro cria uma tecnologia capaz de remover poluentes da água

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A ideia surgiu em uma conversa entre dois professores da Universidade Estadual de Maringá (UEM). De um lado, João Alencar Pamphile, da Biotecnologia, que infelizmente foi uma das vítimas da Covid-19 na pandemia; do outro, Luiz Fernando Cótica, da Física. Movidos pela curiosidade e pela troca de experiências, os dois levantaram a pergunta que guiaria anos de estudo: por que não juntar um microrganismo com uma nanopartícula magnética?

Desse diálogo nasceu a pesquisa que ganhou forma no doutorado da professora Andressa Domingos Polli, hoje docente no Departamento de Biotecnologia, Genética e Biologia Celular da UEM. O trabalho resultou na criação de um nanobiocompósito capaz de absorver e remover poluentes da água, tecnologia que ficou conhecida como “fungo magnético”.

O infográfico tem um fundo verde claro com textura suave e explica visualmente como o “fungo magnético” é formado. No topo, aparece o título em letras grandes e escuras: “Como o ‘fungo magnético’ é formado”. Logo abaixo, há uma ilustração circular mostrando um fungo verde visto ao microscópio, representando o fungo endofítico Aspergillus flavus. Ao lado da imagem, lê-se que esse microrganismo vive dentro das plantas e ajuda a remover poluentes. Mais abaixo, um sinal de adição conecta essa primeira imagem a outra: um conjunto de pontinhos pretos espalhados que simbolizam nanopartículas de magnetita, acompanhadas da fórmula Fe₃O₄. O texto ao lado explica que essas partículas têm propriedades magnéticas que permitem separar o material da água. Em seguida, um sinal de igual leva ao resultado final: um frasco de laboratório cheio de pequenas partículas, representando o nanobiocompósito. O texto ao lado descreve esse produto como um material magnético e sustentável capaz de filtrar a água de maneira eficiente.

O projeto foi desenvolvido no Laboratório de Biotecnologia de Microrganismos, dedicado ao estudo de microrganismos endofíticos, isto é, fungos e bactérias que vivem dentro das plantas. Segundo a professora Andressa, o laboratório busca soluções voltadas à agricultura, ao meio ambiente e à descoberta de novos compostos com atividade biológica.

A motivação por trás do trabalho veio da preocupação com a contaminação das águas. Em diferentes partes do mundo, rios e lagos recebem toneladas de descartes todos os dias, e a água que chega às torneiras carrega o reflexo dessa poluição. Resíduos têxteis, pesticidas, medicamentos e uma infinidade de compostos químicos são despejados no ambiente, comprometendo não apenas os ecossistemas aquáticos, mas a saúde humana e a disponibilidade de água potável.

Com isso em mente, o ponto de partida da pesquisa foi cultivar o fungo endofítico Aspergillus flavus na presença de nanopartículas de magnetita (Fe₃O₄). O resultado surpreendeu, pois as partículas aderiram à superfície do microrganismo e também penetraram em suas células, sem interferir no crescimento ou em sua atividade biológica. Dessa forma, o fungo manteve sua função natural, mas passou a ser manipulado por um ímã.

A imagem mostra uma mão segurando um pequeno conjunto de ímãs metálicos cilíndricos, posicionados muito perto de um frasco de vidro do tipo Erlenmeyer. Dentro desse frasco há um líquido claro e, no fundo, um aglomerado escuro formado pela combinação do fungo Aspergillus flavus com nanopartículas magnéticas; esse material é atraído pelo ímã e se concentra em um canto do frasco. Ao fundo, um segundo Erlenmeyer aparece desfocado. Ele também contém um líquido claro, mas no fundo há apenas o fungo sem as nanopartículas, formando um depósito mais claro e sem reação magnética. A imagem evidencia a diferença entre o fungo comum e o “fungo magnético”.
O conjunto de ímãs atrai o nanobiocompósito por causa do magnetismo de suas partículas (Foto/Arquivo pessoal)

Por mais que fungos já sejam usados em processos de biorremediação1, sua combinação direta com nanopartículas que permitem uma recuperação simples e rápida é inovadora. A professora resume essa lógica afirmando que “a junção com a nanopartícula foi pensada para utilizar o microrganismo no tratamento da água e a nanopartícula para permitir a sua remoção”.

Como o nanobiocompósito funciona

O processo de limpeza ocorre pela capacidade do fungo de consumir ou transformar moléculas presentes na água contaminada. O primeiro teste foi feito com um corante preto reativo, amplamente usado na indústria têxtil e conhecido por sua alta estabilidade, o que o torna difícil de remover por métodos convencionais. Andressa explica que o microrganismo “consegue retirar essas moléculas da solução aquosa, removendo o corante”. Mesmo após incorporar as nanopartículas, o fungo mantém sua atividade biológica.

A magnetização facilita a etapa seguinte, permitindo recuperar o material sem que ele se disperse no ambiente. Como pontua a pesquisadora, “quando se coloca um agente biológico no ambiente, é necessário pensar na possibilidade de espalhamento e na recuperação desse organismo novamente”.

A escolha da linhagem também exigiu cuidado, já que o Aspergillus flavus pode produzir aflatoxinas2, embora isso varie entre cepas. A utilizada pelo grupo era endofítica e apresentou segurança. “Em todos os testes químicos que fizemos, ela não produziu toxina”, afirma a professora. Os experimentos também mostraram que, após o tratamento, a toxicidade do corante foi reduzida.

Além de segura, essa cepa demonstrou características importantes para a biorremediação, como crescimento rápido, boa produção de enzimas e associação eficiente com as nanopartículas. Para a equipe, essa combinação representou um caminho promissor para limpar diferentes tipos de poluentes presentes na água.

Os resultados obtidos com o corante preto motivaram o grupo a avançar para outras substâncias. O laboratório passou a testar o nanobiocompósito em diferentes corantes, metais pesados e moléculas orgânicas complexas. Segundo Andressa, “os resultados têm se mostrado bastante positivos”, indicando que a tecnologia pode ser adaptada a diversos tipos de efluentes.

Com essas evidências consolidadas, o grupo obteve a patente da tecnologia, reconhecida não apenas pela eficiência, mas pela inovação representada pela associação inédita entre um microrganismo vivo e nanopartículas magnéticas. Agora, o foco é avançar para aplicações práticas. 

O trabalho segue em parceria com o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT-UEM), que busca empresas interessadas em colaborar no desenvolvimento de protótipos e na validação da tecnologia em ambientes reais. Por mais que já tenha sido testado e validado em escala laboratorial, o próximo passo exige investimentos mais altos.

A imagem mostra três pessoas em um laboratório, de pé e olhando para a câmera com expressões tranquilas e simpáticas. São os pesquisadores Luiz Fernando Cótica, Andressa Domingos Polli e Julio Polonio, integrantes da equipe responsável pelo estudo do chamado “fungo magnético”. No centro está a professora Andressa, de cabelos castanhos e cacheados, usando óculos e uma blusa vinho. Ela sorri enquanto apoia as mãos sobre uma bancada branca, onde há dois frascos Erlenmeyer com experimentos da pesquisa. À esquerda aparece o professor Luiz Fernando, com cabelos curtos e escuros, usando óculos e uma camisa polo verde. À direita está o professor Julio, que tem barba curta, óculos, e veste uma camiseta vinho sob uma camisa xadrez aberta. O ambiente é um laboratório de paredes claras, com janelas ao fundo e diversos equipamentos visíveis, incluindo pipetas organizadas em um suporte sobre a bancada.
Pesquisadores Luiz Fernando Cótica, Andressa Domingos Polli e Julio Polonio, da esquerda para a direita (Foto/ASC – UEM)

O impacto da pesquisa

Para Andressa, o projeto tem grande valor pessoal e científico. “Para mim, essa pesquisa representa um orgulho, é o meu xodó”, afirma. Ela destaca que o trabalho reflete parceria, inovação e a força da ciência produzida na universidade pública. A concessão da patente reforça a relevância da pesquisa e incentiva novos estudantes a se interessarem pelo tema.

A pesquisadora acredita que a tecnologia pode inspirar outras ideias e abrir portas para avanços futuros. Ela ressalta que, mesmo que o fungo magnético não chegue diretamente ao mercado no curto prazo, o conhecimento gerado serve de base para novas soluções. “Espero que continue inspirando, incentivando e trazendo mais pessoas para a biotecnologia e para a inovação”, finaliza.

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Texto:
Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi e Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

Glossário

  1. Biorremediação: é um método de recuperação de áreas contaminadas que utiliza agentes biológicos, como microrganismos e plantas, para degradar ou neutralizar poluentes. ↩︎
  2. Aflatoxinas: são toxinas produzidas por fungos (como o Aspergillus flavus) que contaminam alimentos como milho, amendoim e nozes, especialmente em climas quentes e úmidos. ↩︎

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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