Genes e saúde da população negra: a genética tem cor?

A imagem mostra uma ilustração com duas figuras humanas estilizadas, cada uma com uma fotografia realista de rosto e corpo desenhados em formas geométricas. À esquerda, uma pessoa de pele escura, cabelos cacheados e óculos veste roupa em tons de marrom; à direita, uma pessoa de pele clara e cabelos castanhos veste roupa azul. Entre elas há uma hélice de DNA laranja, segurada por mãos humanas e observada com uma lupa. O fundo é em tons terrosos e rosados, com textura de tecido. No canto superior, lê-se: “© Conexão Ciência | Arte: Camila Lozeckyi”.
Ausência da ancestralidade africana nos estudos de Genética impulsiona projeto da UFPR dedicado à divulgação científica e à educação antirracista

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No final da defesa do Mestrado em Educação e da conclusão da graduação em Comunicação e Multimeios na Universidade Estadual de Maringá (UEM), em 2023, o jovem Andrey Cruz, que se autoidentifica como um homem negro de cor preta, começou a queixar-se de alguns incômodos: arritmia no coração e tremores nas mãos.

Preocupado, o acadêmico realizou alguns exames de rotina e buscou aconselhamento médico. Após orientar a aferição da pressão arterial durante alguns dias e sem exames complementares, o médico o diagnosticou com pressão alta, afirmando que ‘pessoas negras têm maior predisposição à doença’. 

Com o diagnóstico, Andrey foi orientado a tomar Losartana Potássica, um medicamento anti-hipertensivo, do qual fez uso por pelo menos dois anos. Foi apenas no final de 2024, ao conversar com outros profissionais da área da saúde, que resolveu buscar uma segunda opinião. 

Em outra avaliação com profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), Andrey começou a realizar uma série de exames que, por outro lado, tiveram um resultado diferente. De maneira inicial, a médica já recomendou a suspensão do remédio e a continuidade da investigação do quadro.

Homem negro com cabelo curto e ruivo posa ao ar livre durante o pôr do sol. Usa camisa azul, gravata e brincos, com expressão serena.
Andrey Gabriel Souza da Cruz (Foto/Arquivo pessoal)

Atualmente, Andrey tem 28 anos e é doutorando em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). À época do diagnóstico, estava passando por momentos de tensão com a conclusão dos estudos e esses fatores não foram levados em conta – tampouco a prescrição adequada da medicação.

Além disso, outros fatores não foram considerados: Andrey sempre levou uma vida saudável com prática diária de esportes e atividades físicas e alimentação equilibrada. 

A história de Andrey escancara um problema: a ausência de estudos e informação adequada sobre as especificidades de saúde de pessoas negras, o que, muitas vezes, leva profissionais à reafirmação de modelos de atenção baseados em uma perspectiva branca, que não oferecem o melhor tratamento ou levam em conta fatores genéticos.

É buscando preencher essa lacuna e colocar luz sobre o tema que surge o projeto de pesquisa e extensão ‘A Genética Tem Cor?’. 

Genética e ancestralidade: como tudo começou?

O projeto ‘A Genética Tem Cor?’ nasce do encontro entre duas professoras de áreas diferentes, mas que dividem um interesse em comum: a divulgação científica e busca por uma educação antirracista. 

Foi na Universidade Federal do Paraná (UFPR) que a pesquisadora e docente da Licenciatura em Educação do Campo, Claudemira Lopes, conheceu a pesquisadora Márcia Beltrame, à época docente do Departamento de Genética, também da UFPR.

Claudemira, além de um histórico de mais de 20 anos como professora da Educação Básica, sempre teve interesse em produzir materiais de ensino e divulgação científica com viés antirracista, de modo a combater violências que ela mesma sofreu ao longo da sua história.

Uma pesquisadora negra em laboratório manuseia amostras de sangue. Ela usa jaleco branco, máscara e luvas azuis, sentada à mesa com tubos de ensaio organizados em suportes.
Professora Claudemira Vieira Gusmão Lopes em laboratório da UFPR (Foto/Arquivo pessoal)

A professora Márcia, por sua vez, voltava de seu pós-doutorado nos Estados Unidos, onde havia estudado a genética de populações africanas. Durante as pesquisas, a docente constatou que haviam inúmeras doenças ligadas aos genes dos indivíduos, mas que no Brasil haviam pouquíssimos estudos sobre a prevalência de determinadas doenças na população afro-brasileira.

Foi no ErêYá, Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação para as Relações Étnico-raciais, da UFPR, que Márcia convidou a professora Claudemira para, juntas, desenvolverem um projeto de pesquisa. Assim, as duas começaram a analisar, em comunidades quilombolas do Paraná, a possível relação entre determinadas doenças e a genética dos indivíduos, como pressão alta, diabetes e câncer de mama.

Para tornar a pesquisa mais atrativa e obter anuência da comunidade, a professora Claudemira explica que as informações eram compartilhadas com eles e, com isso, mais de 200 pessoas das comunidades Restinga e Feixo, em Lapa (PR), se apresentaram interessadas e as pesquisas seguem até hoje.

  • Grupo diverso de pessoas posa para foto em ambiente interno, em frente a um banner do projeto “A Genética Tem Cor”. Ao fundo, há janelas que deixam entrar luz natural e uma mesa com toalha amarela e enfeites coloridos. As pessoas sorriem, demonstrando acolhimento e senso de comunidade, sugerindo o encerramento de uma atividade coletiva ou oficina.
  • Grupo grande de pessoas posa para foto em um espaço coberto, com bancos de madeira verde-clara e paredes simples. Ao fundo, há um banner do projeto “A Genética Tem Cor”. As pessoas, de diferentes idades, estão sentadas e em pé, sorrindo para a câmera, transmitindo acolhimento e espírito comunitário. O ambiente é iluminado e descontraído, sugerindo o encerramento de uma atividade coletiva.
  • Um grupo de pessoas está reunido em um espaço coberto, sentado em bancos de madeira verde-clara, participando de uma roda de conversa. No fundo, há uma mesa com toalha amarela e alimentos, além de um banner laranja com o logo do projeto “A Genética Tem Cor”. As pessoas demonstram atenção e interesse na discussão, criando um ambiente acolhedor e colaborativo.

“Nós, além dos testes genéticos, fazemos testes bioquímicos, porque havia pessoas com 40, 50 anos que nunca tinham feito um exame de sangue. Também levamos um médicos junto para explicar as doenças e damos de presente para eles a ancestralidade, ou seja, de qual lugar da África vinham seus antepassados”, explica Claudemira.

Junto das professoras, atuam graduandos, pós-graduandos e voluntários que, esporadicamente, precisam publicar os resultados de suas pesquisas. Em sua maioria, essas pesquisas são publicadas em revistas internacionais e em língua inglesa. 

Com isso, a professora Claudemira entendeu a necessidade de transformar esse projeto de pesquisa também em projeto de extensão: “As pessoas mais interessadas nesses resultados são as comunidades onde a gente está indo e a população no geral, uma vez que 55,5% da população afro-brasileira tem ascendência africana”, explica a professora.

‘A Genética Tem Cor?’ pretende divulgar os resultados do Projeto de Pesquisa “Genes e Saúde da População Afro-brasileira e sua composição alélica”, desenvolvido no Laboratório de Genética Molecular Humana (LGMH) da UFPR e no Laboratório de Genética Afro-Brasileira e Indígena (LGABI) da UFRGS.

“Tive a ideia de criar esse projeto de extensão justamente para fazer a divulgação dos resultados da pesquisa. Então, nós pegamos todos aqueles resultados e transformamos em uma linguagem que as pessoas consigam entender, tudo em português”, finaliza Claudemira.

Mas por que a Genética?

Os estudos de Genética são fundamentais para compreendermos por que algumas doenças predominam em certos grupos populacionais. A investigação do DNA (Ácido Desoxirribonucleico) permite identificar variações genéticas que aumentam ou reduzem a predisposição a doenças crônicas como diabetes, hipertensão ou câncer.

Mais do que identificar o risco de desenvolvimento dessas doenças, a Genética possibilita entender a interação entre a herança biológica (genes) e o contexto social do indivíduo, uma vez que as doenças são determinadas pela combinação de fatores genéticos e fatores ambientais e estruturais, como o acesso à saúde, qualidade da alimentação e condições de vida.

Duas pesquisadoras, usando jalecos e máscaras, trabalham em um laboratório. Elas estão manuseando tubos de ensaio sobre uma bancada repleta de amostras e materiais de laboratório, indicando uma rotina de pesquisa científica.
Professoras Claudemira Gusmão e Márcia Beltrame em laboratório da UFPR (Foto/Arquivo pessoal)

Em um país como o Brasil, estudar Genética é, nesse sentido, fundamental para compreender o contexto histórico e a herança biológica da população, uma vez que o país é composto pela miscigenação de inúmeros povos.

A genética da população afro-brasileira, que representa mais da metade da população total, é marcada por uma diversidade enorme. Entretanto, os estudos genéticos realizados no país se baseiam, majoritariamente, em amostras de populações brancas europeias. 

Entender a genética da população negra e indígena do Brasil é, desse modo, entender a prevalência de certas doenças, a resposta a determinados medicamentos, mas, para além disso, possibilitar uma medicina mais justa que garanta o cuidado adequado desses indivíduos. 

A Genética Tem Cor?

Mesmo com a mudança da professora Márcia Beltrame para o Rio Grande do Sul, o projeto  segue acontecendo, agora em uma parceria entre a UFPR e a UFRGS. O projeto ainda conta com parcerias com instituições como a Fiocruz e pesquisadores e voluntários em todo o Brasil.

Com isso, as professoras passaram a dedicar esforços no trabalho de divulgação da Ciência “Nosso trabalho é no sentido de democratizar esses conhecimentos para que eles cheguem às pessoas que realmente são negligenciadas nos estudos de Genética”, explica Claudemira. 

O projeto já lançou o primeiro volume da coleção ‘A Genética Tem Cor?’, que é resultado da tradução da linguagem técnica de artigos de mestrado e doutorado em uma linguagem acessível para crianças desde a Educação Infantil até o Ensino Médio.

A imagem mostra a capa e a ficha técnica do livro “A Genética Tem Cor? – Um livro para refletir, colorir e aprender”, produzido por um projeto de extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A capa apresenta uma ilustração colorida de um rosto com traços afro e elementos de DNA nos cabelos. Ao lado, estão os créditos de autoria, ilustração, revisão e agradecimentos do projeto.
Captura de tela do Ebook ‘A Genética Tem Cor? – Volume I’ (Foto/Reprodução)

No momento, o segundo volume está sendo produzido e o novo foco é contar as histórias dos participantes da pesquisa das comunidades quilombolas, tornando possível humanizar os dados de laboratório, dando rosto e história a eles. 

Neste contexto, o projeto oferece oficinas educacionais em escolas como uma forma de divulgação dos estudos produzidos, com foco na disseminação de uma educação antirracista. De acordo com a professora Claudemira, o público alvo mais engajado são os professores e estudantes, que fazem uso do material disponibilizado.

A imagem mostra uma mulher conduzindo uma atividade educativa com crianças em uma sala de aula. Ao fundo, há uma tela com o título “Nossa equipe de cientistas” e um banner do projeto de extensão “A Genética Tem Cor?”.
Professora Claudemira Gusmão ministrando a oficina “Extração de DNA do Morango” na escola Desembargador Marçal Justen (Foto/Reprodução)

‘A Genética Tem Cor?’ ainda conta com diferentes canais de divulgação como redes sociais (Facebook e Instagram) e participa de eventos científicos como a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), o Congresso de Inovação, Ensino e Pesquisa (CIEP) e feiras comunitárias.

Uma educação antirracista

A escassez de pesquisas e dados sobre saúde, genética, prevalência de determinadas doenças e as necessidades da população negra e indígena, sobretudo em território brasileiro, impacta profundamente esses indivíduos.

Isso porque a carência de dados se transforma em iniquidades1 na saúde, ou seja, essas pessoas passam a ter um acesso desigual aos serviços de saúde, podendo ser vítimas de violência médica e racismo institucional dentro das unidades de saúde, além de, em muitos casos, não receberem diagnóstico ou tratamento adequados. 

A lacuna na literatura científica, portanto, impede a formulação de políticas públicas de saúde que viabilizem tratamentos médicos especializados e eficazes para essas populações e que levem em conta suas especificidades. 

Essa sub-representação na ciência não se dá, somente, nessa população enquanto objeto de estudo, mas também no papel de pesquisadores e cientistas. Embora os números cresçam ano após ano com as políticas de cotas sociais e raciais, os dados ainda são discrepantes. 

Projetos como ‘A Genética Tem Cor?’ vislumbram uma nova possibilidade para produzir pesquisas que dêem respaldo à população negra e indígena e, ainda, que esse conhecimento seja acessível a todas as pessoas, desde crianças até comunidades quilombolas, médicos ou pesquisadores.

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Texto:
Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

Glossário

  1. Iniquidades: falta de justiça, grande injustiça ou maldade, um ato ou qualidade oposta à equidade e à moral. ↩︎

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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