Quando comecei a correr, em 2022, lembro de como minha cabeça repetia um mantra “só mais um quilômetro, você consegue!”, embora minhas pernas e meus pulmões discordassem completamente daquilo. Depois de quase uma década de sedentarismo, praticar um esporte era ainda mais desafiador.
Entrei pro universo da corrida por gosto mas, sobretudo, por necessidade. Precisava mudar meus hábitos, estabelecer uma rotina mais saudável e encontrar um meio de fazer as pazes com a ansiedade. A corrida se mostrou uma boa aliada.
Correr é democrático. Comecei a correr sozinha. Calçava um par de tênis e ia. Aos poucos, vi minha vida ser completamente transformada pelo esporte. Com o tempo, claro, foi essencial encontrar um grupo com quem pudesse conversar, uma treinadora para me auxiliar, comprar novos tênis e pesquisar mais sobre o esporte.
Porém, uma coisa preciso confessar: de todos os benefícios que a corrida trouxe e ainda traz pra minha vida, poucas coisas são tão valiosas quanto os encontros e as pessoas que conheci. Acho que isso deve ser um consenso entre os corredores.
O nascimento do Papa-léguas
O Geococcyx californianus é popularmente conhecido como papa-léguas. A ave é encontrada na América Central e América do Norte e se popularizou como personagem do desenho animado estadunidense Looney Tunes.
O papa-léguas – da animação – corre rápido para fugir do personagem Coiote. Na natureza, a ave também é bastante rápida: a espécie pode correr a 30 km/h, embora faça, geralmente, voos curtos.
O primeiro contato do professor Rui com os papa-léguas se deu há oito anos, quando fazia o doutorado na Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Rui Gonçalves Marques Elias é professor de Educação Física do Centro de Ciências da Saúde e atual diretor de Extensão da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), no Campus Jacarezinho.

Os papa-léguas, entretanto, não eram nem desenho animado e nem aves do deserto do México: compunham um grupo de corredores. O professor os encontrou enquanto fazia um levantamento do perfil de saúde dos servidores do Hospital Universitário (HU) da UEM, para sua tese de doutorado.
Embora o perfil da grande maioria dos trabalhadores não fosse muito ativa, um grupo de funcionários, com seus amigos e familiares, se reunia esporadicamente para correr. Ali, o professor viu uma brecha para estruturar um grupo de corrida com tudo que tinha direito: avaliação dos participantes, variação de estímulos de treinamento, encontros coletivos e uma metodologia própria.
Posteriormente, a ideia do grupo se mudou com o professor para a cidade de Jacarezinho, na Universidade Estadual do Norte do Paraná, onde continua até hoje.
A vida de um papa-léguas
Os papa-léguas se reúnem semanalmente, de três a quatro vezes, para treinar nas pistas da Universidade. Os treinos têm uma hora de duração e acontecem das 18h às 19h. A estruturação dos treinos leva em conta, segundo o coordenador, a rotina dos participantes, de maneira que haja maior aderência ao projeto.
De acordo com Rui, já passaram pelos treinos mais de 400 pessoas nesses últimos sete anos de atividade. “Tem gente que continua desde o princípio, né? Faz sete anos que estão ali conosco, no mesmo dia e no mesmo horário”.

A adesão é bastante grande, principalmente, por parte da comunidade externa, como professores do ensino básico e policiais militares, e o grupo atende pessoas de todas as faixas etárias. De acordo com o coordenador, o objetivo principal que fortalece o grupo é trazer pessoas do sedentarismo a iniciar uma prática esportiva, sendo essa prática a corrida de rua.
O projeto é muito cauteloso em respeitar os dias de duração dos treinos. De acordo com Rui, o ideal é que isso facilite as pessoas praticarem exercício físico e não abdicarem do esporte por não conseguirem encaixá-lo na rotina.
E para quem começa: em que ritmo correr?
Para o melhor aproveitamento das potencialidades de cada participante, o projeto conta com uma metodologia própria de sistematização de treinos. “É bem democrático, porque essa separação de faixa é fundamental. Um treino difícil para quem não corre vai ser um treino difícil para quem corre por causa das divisões por faixa, intensidade”, afirma Rui.
Assim que um participante novo chega, ele faz uma avaliação, o chamado Teste de Léger. O também chamado ‘teste vai-e-vem’ foi criado em 1982, pelos pesquisadores Léger e Lambert. Ele é composto por vários estágios progressivos de corrida, em intensidade crescente para definir o VO²max de um indivíduo.
VO²max é a sigla para Volume de Oxigênio Máximo, valor que expressa a capacidade do corpo em captar oxigênio e empregá-lo durante a prática de um exercício. O teste, portanto, ajuda a dimensionar como está o condicionamento físico de um indivíduo. No caso da corrida, colabora para a prescrição adequada de treinos.
Com os resultados em mãos, o participante vai integrar uma faixa de treino que é dividida por cores – semelhante às faixas do judô. Uma vez definida a faixa mais adequada pro atleta, ele passa a receber treinos semanais pelo WhatsApp.

De acordo com o professor, a sistematização do envio das planilhas de treino – que se dá por meio de uma automatização no WhatsApp – auxilia os atletas a desenvolverem as práticas dentro ou fora dos dias de encontro do grupo, caso necessário. Atualmente, participam dos treinos presenciais em torno de 40 pessoas e 165 fazem parte do grupo on-line.
Como o modelo de acompanhamento funcionou bastante bem, de acordo com o coordenador do projeto, agora, eles estão pensando novos formatos. “Nós estamos desenvolvendo um aplicativo para ter esse treinamento. A pessoa recebe o treino no aplicativo, sempre determinado pela faixa de atividade física que ela faz”, afirma Rui.
Treino de corrida: é tudo igual?
Na prática da corrida, existem diferentes tipos de treinos e estímulos, cada um serve a um propósito diferente. Alguns deles são: treino intervalado (ou treino de tiro), treino fartlek, treino longão, treino de rodagem e treino regenerativo.

Por isso, é essencial contar com o auxílio de profissionais para montar um treino que, além de alinhado com as habilidades do atleta, vai ao encontro dos objetivos e metas de cada indivíduo dentro do esporte, adequando a quantidade certa de diferentes estímulos.
No Projeto Papa-léguas, de acordo com o professor Rui, vários dos atletas, ao longo dos anos, passaram a visar a performance e alguns objetivos em provas de corrida. Segundo o coordenador, ter provas-alvo ou metas estabelecidas ajuda também na motivação e na permanência dos integrantes.
A corrida e a produção de conhecimento científico
Os benefícios para quem pratica um exercício físico como a corrida são inúmeros: melhora o condicionamento físico, a qualidade do sono e a respiração. Além disso, auxilia na prevenção de doenças cardiovasculares e fortalece músculos e ossos. Também atua no aspecto emocional: ajuda em transtornos mentais como a ansiedade e a depressão.

Para além dos benefícios para os integrantes que participam do grupo, que sentem na pele as mudanças, a existência de um projeto como o Papa-léguas é uma excelente fonte de informações e dados para pesquisa científica.
De acordo com o professor, o grupo, os participantes e a metodologia criada por eles já forneceu uma rica fonte para trabalhos de conclusão de curso, artigos e dissertações de mestrado.
A estrutura da universidade é, nesse sentido, um campo muito fecundo para o incentivo ao esporte concomitante à produção de conhecimento acadêmico. De acordo com Rui, para que exista a possibilidade de oferecer um projeto gratuito à comunidade, a segurança e o espaço fornecidos pela universidade são essenciais.
Correr sozinho é bom, mas correr em grupo é melhor
Uma parte muito importante da prática de esportes é o senso de comunidade e pertencimento que ela possibilita. Praticar um esporte sozinho é possível e é muito bom. Mas quando a prática envolve a troca com outras pessoas, ela intensifica ainda mais os seus benefícios – para o corpo e, sobretudo, para a mente.
De acordo com o professor, uma das maiores barreiras que as pessoas encontram para a prática esportiva é a de não terem companhia. Por isso, ele reafirma a importância do grupo e das trocas entre os participantes. Constantemente, de acordo com Rui, os corredores estão no grupo incentivando para os treinos.
“É contagiante, né? A atividade física (…). Então, a gente tem, ali, sempre alguém que tá correndo junto. Isso os estagiários também já fazem. Se alguém está começando, vai alguém do lado dele correndo. A pessoa sempre tem essa companhia pra poder conversar, falar um pouco do treino, também”, relata Rui.

A criação de espaços de trocas em torno do esporte nos fortalece enquanto pessoas e enquanto sociedade. A existência de grupos que valorizem o esporte alinhado à ciência dentro das universidades são um tesouro.
Me lembro de quando estava na escola e aprendemos sobre o uso dos coletivos: o coletivo de peixes é um cardume, o coletivo de aves é um bando e o coletivo lobos é uma alcateia. Me parece certo dizer que um coletivo de corredores se construa como uma comunidade.
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Texto: Camila Lozeckyi
Supervisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Bruna Mendonça
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Tiago Franklin Lucena
Edição Digital: Gutembergue Junior
Glossário
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