Hospital Veterinário Escola para além dos animais

A imagem mostra uma ilustração colorida em ambiente rural, com destaque para um cavalo no centro sendo cuidado por duas pessoas. À direita, outra pessoa interage com um cachorro dourado deitado no chão. Ao fundo, casas simples com telhados de barro e vegetação completam a cena.
O hospital vinculado a Universidade Estadual do Norte do Paraná — Campus Luiz Meneghel (UENP-CLM) atende animais e forma novos profissionais

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Apenas os pais de pet entendem o real desespero e sensação de impotência quando o seu bichinho de estimação precisa de algum amparo que vá além das suas capacidades e conhecimentos. Há um tempo atrás, estava levando meu cachorro Neji para um passeio diferente, longe de casa, e, por isso, fomos de carro. Em um momento, ele estava sentado tranquilamente no banco e, no outro, saltando pela janela, após conseguir se soltar da guia da coleira. 

Logo que chegou ao chão, o Neji quebrou o ossinho da sua perna esquerda traseira, ficando sentado na rua até que eu fosse ao seu resgate. Óbvio que uma peripécia dessa só poderia ocorrer em uma sexta-feira, às 18h30, fora do horário de expediente do seu médico veterinário. Ali, vi-me perdida e sem saber a quem recorrer, afinal, não tinha conhecimento de nenhum lugar que pudesse atendê-lo facilmente naquele horário. 

Após algumas pesquisas, fomos até uma clínica particular, que se dizia com pronto-atendimento 24 horas, mas que, chegando lá, estava fechada, sem aviso prévio. Fomos em mais dois locais, até que encontrássemos uma clínica particular que estivesse realmente aberta, mas que apenas após 2 horas do incidente, um médico veterinário estava apto a atendê-lo.

Neji, cachorro com pelos marrons, pretos e brancos, está em casa, deitado no chão com a pata esquerda traseira engessada em um curativo amarelo que tem um desenho de coração vermelho. O animal está em recuperação, com olhar atento e expressivo.
Neji em recuperação após cirurgia da pata (Foto/Arquivo pessoal)

Sei que, se morássemos em Umuarama, eu teria recorrido ao Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá (HVU), pois, morando em Maringá, o curso de Medicina Veterinária da UEM foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça para ajudar naquele momento de emergência. Mas, o curso não se encontra no campus sede… Por sorte, os umuaramenses contam com essa instituição de pertinho.

No Paraná, há ainda outros dois hospitais veterinários que unem qualidade de atendimento veterinário ao ensino, pesquisa e extensão na área: o Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina (HV-UEL) e o Hospital Veterinário Escola (HVE), da Universidade Estadual do Norte do Paraná — Campus Luiz Meneghel (UENP-CLM).

Por aqui, vamos conhecer um pouco mais do HVE que, desde 2003, é um dos órgãos suplementares fundamentais na formação dos graduandos do curso de Medicina Veterinária, juntamente com a Fazenda Escola. Os atendidos são, especialmente, da cidade de Bandeirantes, mas também de 16 dos 46 municípios da Mesorregião do Norte Pioneiro. Assim, o hospital proporciona, para além do bem-estar dos animais, o desenvolvimento de habilidades práticas aos alunos, integrando o ensino, pesquisa e extensão.

O fundo é bege, com faixas laranjas para destacar os títulos. No topo está escrito “Animais atendidos no HVE”. Abaixo, os animais são organizados por categorias: Animais de produção – aparecem ilustrações de: uma vaca preta e branca (bovino), um porco rosa (suíno), uma cabra branca (caprino), uma ovelha clara (ovino) e um búfalo marrom com grandes chifres (bubalino); Equídeos – há três figuras: um cavalo marrom (equino), um jumento cinza (asinino), e uma mula (muar); Animais de companhia – ilustrados: um cachorro preto e branco, sentado (canino) e um gato de pelo curto, com manchas brancas, pretas e alaranjadas (gato). Animais selvagens – com dois exemplos: uma ave carcará, de penas marrons e brancas, com bico curvo e um macaco-prego, pequeno, de pelo escuro com a face clara

Após cinco anos tratando e salvando diversos animais, o hospital teve um upgrade para potencializar essa missão, com o Programa de Aperfeiçoamento em Medicina Veterinária (PAP-MV), com duas vagas na área de clínica médica e clínica cirúrgica de animais de companhia.

E, buscando sempre a melhoria no atendimento, no aniversário de 10 anos do HVE, foi implantado o Curso de Especialização Lato Sensu — Residência em Medicina Veterinária, deixando o hospital ainda mais completo. Atualmente, os residentes podem se especializar nas áreas de clínica médica e clínica cirúrgica de animais de companhia; clínica médica e clínica cirúrgica, reprodução e obstetrícia de animais de produção e equídeos; medicina veterinária preventiva; anestesiologia veterinária; patologia clínica veterinária; e diagnóstico laboratorial. A residência é fundamental em um hospital, porque ela se configura como um programa de treinamento intensivo em atividade hospitalar e serviços subsidiários.

Um bulldog francês, com pelos pretos e brancos, está sendo examinado em uma clínica veterinária. Um veterinário, utilizando uma lanterna de cabeça, analisa o animal enquanto é acompanhado por um grupo de estudantes de medicina veterinária, que observam atentamente o procedimento.
Atendimento realizado por médicos veterinários, residentes e alunos de Medicina Veterinária no Hospital Veterinário Escola (Foto/Universidade Estadual do Norte do Paraná – Campus Luiz Meneghel)

E, assim como os seres humanos, nunca se sabe quando o animal necessitará de cuidados — lembram do Neji? —, o que sempre motivou a busca do hospital por um atendimento constante. Felizmente, desde 2025, o hospital oferece atendimento 24 horas. “Nosso hospital, de fato, tem atendimento permanente, realizado por docentes médicos veterinários e residentes, os quais têm a oportunidade de acompanhar o internamento de todos os pacientes que necessitam de permanência por aqui”, afirma o diretor do HVE, médico veterinário e professor de Reprodução Animal na UENP, doutor Thales Ricardo Rigo Barreiros.

Os serviços do HVE englobam tudo o que os seus pacientes necessitam e os atendimentos vem crescendo, gradativamente, a cada ano, conforme todas as melhorias vão sendo implantadas e o alcance do hospital se estende:

O fundo é laranja, com títulos em preto e branco. No topo está escrito “Serviços oferecidos pelo HVE”. Abaixo, em caixas arredondadas, os serviços estão divididos: Atendimento veterinário: para animais de companhia, produção e equídeos; Cirurgias: também para essas mesmas categorias de animais; Exames laboratoriais: incluem análises de sangue, urina, fezes e de tecidos e células; Exames de imagem: radiografia e ultrassonografia. Na parte de baixo, há um gráfico de barras horizontais mostrando o número de serviços realizados em três anos: 2022: 1.621 atendimentos; 2023: 3.240 atendimentos; 2024: 4.409 atendimentos. As barras crescem progressivamente de 2022 a 2024, mostrando aumento expressivo.

Os serviços oferecidos possuem valores atrativos e abaixo da média do mercado, visando uma democratização e acesso amplo dos atendimentos veterinários. No entanto, há também a gratuidade dos atendimentos, quando se trata dos bichinhos que possuem tutores em condições de vulnerabilidade social ou hipossuficiência, além daqueles atendimentos que sejam atrelados a Organizações Não Governamentais (ONGs) que visem o controle populacional dos animais errantes, ou seja, os animais que vivem nas ruas e não possuem tutores. O diretor ainda afirma que eles conseguem atender duas comunidades indígenas da região no mesmo sistema. 

Essas atividades, que compõem a dinâmica do HVE, fazem que as frentes vivenciadas nas dependências do hospital se resumam à: clínica médica, clínica cirúrgica e reprodução animal. A clínica médica engloba os atendimentos que visam diagnósticos, tratamento de doenças e não carecem de procedimentos cirúrgicos, ou seja, são restritos ao tratamento com medicação, podendo ser acompanhados de internação ou não. Há também, uma subdivisão super importante nessa área de atendimento do hospital, que é a clínica para moléstias infecciosas, ou seja, causada por agentes infecciosos, o que engloba a vertente das zoonoses.

Já na clínica cirúrgica, há diversas especialidades, sendo as mais comuns, as cirurgias oftalmológicas, ortopédicas e de tecidos moles em outros sistemas do organismo. Por sua vez, a parte de reprodução animal, oferece atendimentos para o tratamento de problemas relacionados ao sistema reprodutor, ao controle de natalidade, ao controle populacional de cães e gatos, bem como, em especial, questões de infecções na glândula mamária dos animais, ocasionando tumores de mama.

Uma equipe de profissionais da saúde veterinária realiza um procedimento cirúrgico em um dogue alemão, com pelos pretos e brancos. O animal está deitado na mesa cirúrgica, anestesiado e ligado a aparelhos, enquanto os veterinários trabalham com instrumentos cirúrgicos.
Cirurgia realizada por médicos veterinários, residentes e alunos de Medicina Veterinária no Hospital Veterinário Escola (Foto/Universidade Estadual do Norte do Paraná – Campus Luiz Meneghel)

Barreiros explica, ainda, que, para além de todo o serviço prestado, há três grandes pilares que expõem a importância da existência da instituição, sendo o ensino prático de qualidade para a graduação, o bem-estar em saúde única e o auxílio na criação de animais de produção. “Os alunos do curso de Medicina Veterinária necessitam de um hospital com rotina para que aprendam a trabalhar por meio do exercício profissional. Quando nós recebemos um caso clínico, de qualquer espécie, nós proporcionamos esse acompanhamento ao aluno, sob orientação de um docente ou, na falta dele, por um residente”, afirma sobre o primeiro pilar. 

Já pensando no bem-estar em saúde única, ela é a defesa de que, a saúde de humanos, animais e ecossistemas está intrinsecamente ligada e que a promoção do bem-estar em um desses setores beneficia diretamente os outros. Um exemplo clássico da importância dessa rede é o controle das zoonoses, que são doenças infecciosas que podem ser transmitidas de animais para humanos ou vice-versa. Faz parte do trabalho do HVE promover a orientação, conscientização e divulgação de informações na busca da prevenção dessas doenças, inclusive algumas bem famosas como a raiva e a gripe aviária. 

Além disso, o controle de natalidade dos animais também seria um forte exemplo dessa dinâmica, uma vez que o controle populacional dos animais errantes é uma demanda geral dos municípios paranaenses. A equipe do hospital acaba auxiliando, tanto os cidadãos que frequentam o hospital sobre a importância da castração, por exemplo, como também é parceira de prefeituras para orientar na solução dessa questão. 

E sobre o terceiro pilar, o professor de Reprodução Animal na UENP explica que o hospital possui um projeto de extensão muito forte envolvendo a assistência veterinária na agricultura familiar, onde são levadas informações de manejo geral dos animais de produção, incluindo a parte sanitária, nutricional, atendimentos clínicos, cirúrgicos, bem como a realização de inseminação artificial nesses animais para produtores que, por guias convencionais, não teriam acesso a essa técnica.

“O produtor está com um problema de infertilidade em suas vacas de leite e precisa de alguns exames complementares, por exemplo, para avaliar qualidade de sêmen que está sendo utilizado na inseminação artificial. Quem vai procurar? O laboratório privado ou a universidade para que ela estude esse problema de fato? Nós conseguimos devolver para ele, além do resultado do exame, soluções ou possibilidades de melhoria, porque, a partir do problema dele, é que nascem as hipóteses e as demandas de pesquisa. Ou seja, ele ganha, nós ganhamos e toda a sociedade ganha”, explica o diretor do hospital.

E o atendimento não se restringe às paredes do hospital! Uma iniciativa muito legal — e essencial — do HVE é o atendimento itinerante, fazendo com que, ainda que o animal não consiga chegar até o hospital, o hospital chega até ele. O tutor entra em contato com a equipe do hospital, explica a situação do seu animal e os veterinários utilizam o transporte da instituição para irem até o local. “Muitos dos nossos atendimentos são realizados nas propriedades rurais, especialmente quando se trata dos animais de grande porte, que têm mais dificuldade de transporte”, explica o diretor. 

Uma bezerra é examinada e acariciada por uma veterinária em um ambiente rural, próximo a um curral. A profissional está agachada, na mesma altura da bezerra, interagindo de forma carinhosa com o animal.
Atendimento itinerante realizado por médicos veterinários, residentes e alunos de Medicina Veterinária no Hospital Veterinário Escola (Foto/Universidade Estadual do Norte do Paraná – Campus Luiz Meneghel)

Além disso, a instituição possui diversos projetos de extensão e de pesquisa, que colaboram diretamente na potencialização do ensino dos alunos de graduação e residentes, bem como com a ampliação das demandas abarcadas pelo hospital. Um já mencionado, é o de agricultura familiar e inseminação, permitindo trabalhos de vacinação, controle de ecto e endoparasitas — vivem sobre a pele e pelos e no interior do corpo do hospedeiro, respectivamente —, controle reprodutivo, inseminação artificial, bem como o diagnóstico de gestação com ultrassonografia.

Além deste, um dos projetos de extensão de maior destaque é o AMOVE — Ambulatório de Oftalmologia Veterinária da Universidade Estadual do Norte do Paraná que, desde 2015, realiza atendimento especializado em tratamento de doenças e problemas relacionados aos olhos dos animais, seja na área clínica ou na cirúrgica. Anualmente, são cerca de 250 atendimentos apenas para essa demanda animal.

Um gato rajado está passando por um exame oftalmológico em uma clínica veterinária. Um profissional usa um equipamento específico para observar o olho do animal, iluminando-o, enquanto outra pessoa segura delicadamente o gato para manter a posição.
Atendimento da AMOVE realizado por médicos veterinários, residentes e alunos de Medicina Veterinária no Hospital Veterinário Escola (Foto/Universidade Estadual do Norte do Paraná – Campus Luiz Meneghel)

Já o tratamento aos animais selvagens é englobado pelo SASS — Serviço de Atendimento a Animais Selvagens, onde é prestado serviço ambulatorial nesse grupo específico e, posteriormente, o hospital realiza o encaminhamento para o Instituto de Pesquisa em Vida Selvagem e Meio Ambiente (IPEVS). Essa parceria permite oferecer a esses animais um serviço clínico especializado, bem como a estrutura adequada para a readaptação à fauna.

Outro projeto muito interessante é o de formação de banco genético da raça de gado bovino Jersey, em parceria com um laboratório privado — Empresa ABS —, que permite o desenvolvimento de experimentos e pesquisas para o ganho de embriões puros da raça, os quais, posteriormente são transferidos para vacas de cultura leiteira. “O objetivo é renovar o rebanho que temos na UENP, proporcionando, no futuro, uma genética de ponta de animais para produção leiteira para produtores da agricultura familiar. Nós já contamos com sete animais nascidos frutos dessa iniciativa”, informa Barreiros. 

Tudo isso só mostra que os hospitais veterinários vão muito além de serem instituições que atendem apenas animais. Esses espaços também são essenciais para os humanos, pensando tanto na formação de novos profissionais capacitados, na especialização de médicos já formados, no auxílio a tutores que necessitam de informações, na conscientização da sociedade sobre questões veterinárias e sanitárias, assim como na forma de apoio ao sistema público, por exemplo, com o controle de zoonoses e natalidade.

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Texto:
Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Maria Eduarda Ehms e Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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