Você deve se lembrar das muitas dificuldades que passamos durante a pandemia de Covid-19, que começou há mais de cinco anos, não é mesmo? Quase todos os brasileiros sentiram algum impacto, principalmente aqueles que estavam na linha de frente no combate ao vírus.
Saber quantos leitos estavam ocupados, onde faltavam respiradores ou quais medicamentos estavam prestes a acabar tornou-se uma corrida contra o tempo. Enquanto isso, gestores e profissionais da saúde enfrentavam um grande desafio: os sistemas não conversavam entre si. A falta de integração atrasava decisões, gerava desperdício de recursos e impedia respostas rápidas em momentos críticos.
Mas esse problema não nasceu com o coronavírus. Na verdade, a pandemia apenas escancarou uma fragilidade que, há anos, se estende pelos serviços públicos e privados de saúde no Brasil: a ausência de interoperabilidade, ou seja, de um diálogo real entre os sistemas de informação. Essa desconexão faz com que dados importantes se percam ou demorem a chegar a quem precisa deles, algo que afeta desde o planejamento de políticas públicas até o atendimento primário de um paciente.
Foi justamente diante desse cenário que surgiu a ideia de implantação do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Interoperabilidade a Serviço da Saúde (NAPI PITIS).
O NAPI PITIS
Inicialmente pensado para Maringá, o projeto logo ganhou alcance regional. A primeira proposta foi apresentada à Fundação Araucária, que identificou no modelo uma oportunidade de transformação para todo o estado. Foi então que a própria Fundação sugeriu a inclusão de Londrina, dando origem a dois núcleos com atividades simultâneas e espelhadas.
“Os recursos físicos e financeiros são idênticos nas duas cidades. A ideia é que tudo o que for desenvolvido aqui [em Maringá] também seja aplicado lá”, explica a professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenadora geral do Arranjo, Márcia Marcondes Samed. Em Londrina, o núcleo é coordenado pela professora Daniela Frizon Alfieri, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que atua em parceria direta na condução das etapas do projeto.

O Arranjo foi oficialmente lançado em julho de 2025, num evento realizado na sede do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (CODEM), com a presença de autoridades da Fundação Araucária, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI), pesquisadores da UEM e representantes do município. Desde outubro, os bolsistas estão envolvidos em atividades de campo, marcando o começo da construção desse novo ecossistema de inovação em saúde.
Mais que integração: interoperabilidade!
O termo pode soar técnico, mas a diferença é essencial para entendermos o trabalho do NAPI PITIS. Enquanto integração significa colocar sistemas para trabalhar juntos, interoperabilidade vai além, pois permite que plataformas distintas troquem informações, mesmo que não utilizem a mesma linguagem. De acordo com Márcia, essa troca pode ocorrer por meio de inteligência artificial ou outros mecanismos tecnológicos.
Com isso, o NAPI pretende construir uma rede inteligente de dados de saúde, capaz de tornar as informações acessíveis, seguras e atualizadas. “A interoperabilidade garante que os sistemas se comuniquem sem precisar ser iguais, e isso muda tudo”, resume Márcia.
O projeto promete impactos diretos na vida da população. Com sistemas interoperáveis, os profissionais da saúde terão acesso a informações mais completas e atualizadas dos pacientes, o que vai resultar em diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes. “Primeiro, há a diminuição da burocracia. Em vez de vários prontuários replicados, o paciente terá uma única informação compartilhada por toda a rede, que agiliza o atendimento, melhora a tomada de decisões e permite um acompanhamento mais preciso”, explica a professora.
Ao promover a interoperabilidade dos sistemas de saúde, o NAPI almeja avançar rumo ao modelo de saúde 5.0, em que tecnologia e cuidado caminham juntos. A proposta do NAPI PITIS dialoga diretamente com os princípios desse conceito e, para explicar melhor o que é Saúde 5.0, o C2 preparou um vídeo sobre o assunto! Confira:
Com sistemas interoperáveis, os gestores passam a ter acesso a dados confiáveis para planejar políticas públicas, identificar gargalos e investir com mais eficiência. “Isso se reflete diretamente em melhores serviços de saúde e na criação de políticas mais adequadas às reais necessidades da população”, complementa.
A integração também deve trazer benefícios econômicos. “Podemos reduzir custos, evitar a duplicidade de exames e procedimentos, otimizar os recursos disponíveis e, assim, diminuir despesas tanto para os pacientes quanto para o sistema de saúde”, diz Márcia.
As duas fases do NAPI
O projeto está estruturado em dois eixos complementares. O primeiro, chamado de fase de estruturação, consiste em um diagnóstico aprofundado do setor de saúde nas regiões de Maringá e Londrina. “Temos bolsistas em campo realizando pesquisas para mapear o funcionamento dos serviços, as tecnologias utilizadas e as lacunas existentes”, afirma a coordenadora.
Durante essa fase, será desenvolvida uma plataforma web com um painel de dados BI (Business Intelligence), que reunirá informações sobre o sistema de saúde local, embora a integração total ainda não esteja ativa.

A segunda fase, prevista para um futuro próximo, será dedicada à implementação da interoperabilidade, com a criação da arquitetura da rede, a capacitação de profissionais e a integração efetiva dos sistemas. “Com base no diagnóstico, vamos propor como essa interoperabilidade vai se dar, como as pessoas serão preparadas para trabalhar com ela e quais condições técnicas serão necessárias”, complementa Márcia.
Impacto
Para Márcia, o projeto representa um avanço para humanizar e fortalecer a gestão pública da saúde. “Quando os sistemas passam a conversar entre si, todos ganham: gestores, profissionais e cidadãos. É um passo importante para que a tecnologia esteja verdadeiramente a serviço da vida.”
Já sabemos que a colaboração entre universidades e a sociedade civil tem o poder de promover pesquisa, desenvolver novas tecnologias e contribuir em diversas práticas de inovação. Mas os avanços propostos pelo NAPI PITIS representam não só ganhos técnicos, mas também sociais, que podem contribuir para o bem-estar e a saúde dos cidadãos, beneficiando não só Maringá e Londrina, mas todo o estado do Paraná.
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Luiza da Costa
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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