Maringá em Sinais: formando uma cidade acessível

A imagem mostra três figuras idênticas de uma pessoa usando camisa escura, com fundo em tons de laranja e azul pontilhado. Cada figura faz um gesto diferente com as mãos, representando sinais da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ao centro, uma linha laranja em zigue-zague separa as figuras. No canto inferior direito, há os créditos: "© Conexão Ciência | Arte: Lucas Higashi".
O projeto tem o objetivo de desenvolver um glossário bilíngue com vídeos em Libras e palavras em português

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Imagine o seguinte diálogo:

– Amiga, vamos em um barzinho hoje?

– Claro! Qual você pensou?

– Aquele que a gente gosta… É o… Como é mesmo?

– O último que fomos?

– Não! Aquele que fica naquela rua perto da sua casa… Ai, como chama a rua mesmo?

– Amiga, não sei qual você está falando… Você não sabe dizer nem o nome do barzinho ou da rua?

– Não sei dizer… mas fica em uma rua super conhecida!

– Não está fácil para eu ajudar assim – risos. 

Dá para perceber como fica difícil a comunicação quando não conseguimos dar nome às coisas, não é mesmo? Pense como seriam as conversas do nosso dia a dia, como explicaríamos histórias para um amigo ou compartilharíamos informações com o outro se não conseguíssemos preencher as lacunas para nos referirmos a um local específico, uma instituição ou mesmo algum evento.

Essa pode ser uma grande dificuldade enfrentada por pessoas surdas e surdocegas quando espaços públicos e privados das cidades não possuem um sinal próprio dentro da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para chamarem de seu. 

No diálogo da nossa suposta história, as amigas queriam apenas se divertir indo até um barzinho, mas essa falta de um nome ou sinal pode fazer ainda mais falta em casos graves e urgentes, como uma pessoa que está passando mal e precisa ser levada a um hospital ou alguém que está perdida e precisa de ajuda para se localizar, por exemplo.

A Libras é uma língua extremamente completa, mas, assim como o português, precisa ter novas palavras adicionadas conforme elas vão surgindo, o que também engloba novos estabelecimentos, eventos, espaços públicos ou mesmo pontos turísticos nas cidades. Que tal, inclusive, aprender mais sobre a história da Libras no vídeo a seguir?

Como vimos, é super importante um nome ou um sinal para que a gente consiga se localizar nos espaços, nos comunicarmos com outras pessoas e estarmos inseridos em um ambiente acessível. Foi pensando nisso que pessoas surdas e surdocegas de Maringá, no Paraná, desenvolveram em conjunto o Maringá em Sinais, com o objetivo de promover a acessibilidade linguística, valorizar a Libras e fortalecer a cultura surda na região.

O projeto, nascido em 2024, consiste em um glossário bilíngue com vídeos em Libras e palavras em português, pensado tanto para quem está começando quanto para quem já tem contato com a língua. A equipe começou a realizar estudos sobre os sinais em uso por pessoas surdas da cidade de Maringá. Aos poucos, o glossário passou a ser estruturado e os sinais começaram a ser gravados para, posteriormente, serem divulgados no próprio site do projeto e em redes sociais, a fim de alcançar o maior número de pessoas possível e informar os mais diversos públicos sobre os sinais de espaços maringaenses. A iniciativa é fruto de um projeto de extensão da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – Câmpus Apucarana, coordenado pela professora doutora Daniele Miki Fujikawa Bózoli.

Coordenadora do Maringá em Sinais, professora doutora Daniele Miki Fujikawa Bózoli (Foto/Arquivo pessoal)

O Maringá em Sinais possui importantes parceiros locais, como a Secretaria da Pessoa com Deficiência de Maringá (Seped), a Associação Norte Paranaense de Áudio e Comunicação Infantil e Colégio Bilíngue para Surdos de Maringá (Anpacin), o Centro de Apoio ao Surdo e aos Profissionais da Educação de Surdos do Paraná (CAS – Maringá) e a Associação dos Surdos de Maringá (Asumar). Veja, por exemplo, como ficam alguns desses nomes nos sinais dados pelo projeto:

“A ideia surgiu da necessidade de tornar Maringá mais acessível à comunidade surda. Como professora da área, percebi a importância de registrar os sinais usados localmente e valorizar essa diversidade linguística. Assim, o projeto foi proposto como uma ação de extensão, conectando a universidade à comunidade”, explica a coordenadora.

O projeto tem como base três pilares fundamentais: educação, inclusão e conexão. Por meio do primeiro pilar, eles se dedicam para disponibilizar um glossário bilíngue com vídeos em Libras e palavras em português. Com o segundo, buscam fortalecer a comunicação entre surdos e ouvintes, valorizando a Libras e a cultura surda. E, por fim, com o terceiro, criam um espaço colaborativo e acessível, promovendo aprendizado contínuo.

Um grupo de sete mulheres posa sorridente ao ar livre, com prédios e céu azul ao fundo. Duas delas estão agachadas na frente, enquanto as outras cinco estão em pé atrás. Todas usam roupas casuais em tons variados, como jeans, camiseta, blusa e jaqueta.
Parte da equipe que compõe o Maringá em Sinais (Foto/Arquivo pessoal)

A equipe do Maringá em Sinais já conseguiu registrar mais de 370 sinais, que são formados diretamente a partir das vivências e conhecimentos dos membros do projeto para garantir que eles reflitam, de forma fiel, a Libras utilizada em Maringá. Dessa forma, o glossário bilíngue vai ficando cada vez mais completo.

Confira alguns sinais referentes a lugares super importantes da cidade:

Assim, para a criação de materiais acessíveis, o protagonismo surdo se mostra fundamental. Afinal, são essas pessoas que entendem perfeitamente as necessidades da população surda e surdo-cega. De acordo com a coordenadora do Maringá em Sinais, o projeto tem recebido ótimos retornos de pessoas surdas, educadores, intérpretes e aprendizes de Libras que utilizam o material em diferentes contextos.

A imagem mostra um mapa ilustrado com o título “Categorias de Sinais do Glossário Maringá em Sinais”. Ícones representam categorias como hospitais, igrejas, escolas, shoppings, clínicas, farmácias, museus, teatros, universidades, supermercados, bancos, operadoras de telefonia, praças, pontos turísticos, parques urbanos e aquáticos, avenidas, ruas, eventos, clubes de lazer, associações, city tour, planos de saúde e a Região Metropolitana de Maringá. Cada categoria está destacada em uma faixa laranja.

“Cada novo grupo de sinais passa por encontros de estudo e validação com a equipe surda. Em seguida, realizamos gravações em vídeo, edição e publicação. Cada entrada do glossário traz o sinal em Libras, tradução em português e, sempre que possível, uma imagem de apoio”, afirma Bózoli.

O Maringá em Sinais busca contribuir para a formação e desenvolvimento de uma cidade cada vez mais inclusiva, reconhecendo a Libras como parte da cultura local. E é algo que todos podem fazer um pouquinho, conforme valorizam a língua de sinais, fortalecem vínculos com a comunidade surda e ampliam o acesso à informação em espaços urbanos e culturais.

Oito mulheres estão reunidas em um ambiente externo, com vegetação e parte de um prédio ao fundo. Três estão agachadas na frente e cinco estão em pé atrás. O grupo sorri para a câmera e veste roupas casuais de cores diversas.
Parte da equipe que compõe o Maringá em Sinais (Foto/Arquivo pessoal)

“Esse é um projeto coletivo, feito com muito cuidado e escuta. A participação das pessoas surdas em todas as etapas é o que garante a autenticidade e o impacto da iniciativa. Seguimos animados em fortalecer essa construção conjunta”, destaca a coordenadora.

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Yumi Aoki
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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