Nos últimos meses, laboratórios de todo o país registraram um aumento expressivo na procura por análises de bebidas destiladas. O motivo? Um surto de casos de consumo de bebidas adulteradas com metanol, que acendeu o alerta vermelho em várias regiões, com 17 mortes e várias pessoas intoxicadas, até início de dezembro
Mas vamos iniciar detalhando vários aspectos até chegar ao que aconteceu em meados de setembro deste ano. Se constata um surto quando ocorre um aumento repentino nos casos de uma determinada enfermidade. Após os registros em São Paulo ganharem força e ter uma ampla repercussão nacional, os pesquisadores do laboratório publicaram que fariam análises e, no dia seguinte, já havia amostras, tanto do governo estadual, da polícia científica e de cidadãos, que levaram até essas autoridades.
O álcool é um composto muito conhecido, que vem a nossa mente associado ao etanol ou álcool etílico, uma referência do grau etílico de todas as bebidas definidas como ‘alcoólicas’, mas que possui diversas outras aplicações na indústria e na ciência. O que popularmente se tinha pouco conhecimento é que existem diversos outros álcoois bem parecidos, tanto em aparência como aroma, mas que ao invés de causar os efeitos tradicionais, são tóxicos ao consumo humano e com alto risco de vida.

Diante da crise, os pesquisadores do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação de Ressonância Magnética Nuclear (NAPI RMN) se prontificaram a conduzir análises de amostras, isso após verem notícias na TV sobre o que estava acontecendo em relação aos casos envolvendo o metanol.
“O NAPI é uma rede de laboratórios de ressonância magnética nuclear do Paraná, com capacidade de realizar análises químicas imediatas de praticamente qualquer substância. Diante da demanda, a rede se colocou à disposição da sociedade para fazer essas análises”, destaca o professor Andersson Barison, do Departamento de Química (RMN), da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Além do destaque atual na análise de bebidas destiladas adulteradas, o laboratório já fez outras de vários produtos comumente adulterados, como verificação de álcool em gel durante a pandemia para ver se eram álcoois 70%; análise de mel, em que a fraude ocorre adicionando xarope de açúcar ou outros adoçantes; de azeite de oliva com diluição do azeite extravirgem com óleo de girassol ou soja, por exemplo; e até de combustível, que também é adulterado com metanol.
A impressão após as análises foi boa, segundo o pesquisador e professor Kahlil Schwanka Salome (UFPR). “De mais de 400 amostras que analisamos até agora, nenhuma apresentava contaminação por metanol. Recebemos materiais de todo o Paraná… de Matinhos a Foz do Iguaçu, e o número de casos adulterados foi zero”.

Quando o metanol vira perigo
O metanol é obtido pela fermentação, seja a partir de gás natural, carvão mineral, cana-de-açúcar ou madeira seca (pirólise), ou seja, não é sintético. Ele está na natureza e, antigamente, era popularmente chamado de álcool de madeira, por ser produzido na destilação, mas que, hoje em dia, é fabricado a partir de matéria orgânica. É amplamente utilizado em laboratórios como solvente químico, em análises de separação de compostos orgânicos e até mesmo na tentativa de converter o gás poluente CO² em combustível.
Em se tratando de composição molecular, o metanol é o álcool mais simples que existe, em termos químicos, e é descrito pela fórmula (CH₃OH), ligado a um grupo hidroxila (-OH). O fato de ter apenas um átomo de carbono o torna o menor e mais simples álcool, mas com alto teor de toxicidade.
Diferente do álcool etílico (etanol), produzido pela fermentação de açúcares de fontes vegetais, como a cana-de-açúcar, possui uma estrutura maior, com dois carbonos. Pode parecer pequena, mas essa diferença faz com que ele seja metabolizado de forma segura, ocasionando os efeitos já conhecidos de bebida alcoólica, como a euforia ou danos no fígado, devido a compostos orgânicos que também causam a ressaca.
Na destilação, o metanol pode surgir, naturalmente, em baixas concentrações de compostos orgânicos ou inorgânicos em bebidas. Porém, a Portaria 539/2022, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), traz o parâmetro que aguardentes de cana e cachaça devem conter: limites de 20mg em 100ml de álcool metílico (metanol). Acima disso, é considerado fraude por adulteração.
Segundo Barison, o problema se agrava por conta do metanol ser muito barato. “Você consegue adulterar o etanol colocando metanol para dar mais volume, e foi o que aconteceu em São Paulo, principalmente nas distribuidoras que tiveram uma grande repercussão em todo o país. E isso acontece, quase anualmente, um surto de intoxicação em vários países, com dezenas de vítimas”, explica. Ele ressalta que, ao ter essa suspeita de intoxicação, o tratamento tem que ser feito o mais rápido possível.
A ingestão de valores superiores a esses no organismo pode causar sérios problemas na nossa fisiologia, já que ele será metabolizado no fígado por algumas enzimas e que o transformarão, primeiro, em formaldeído (formol) ou em ácido fórmico. Este último interfere na respiração e no nervo óptico, podendo causar acúmulo de ácido no corpo levando a pessoa a perda de consciência, em coma e até a óbito.
Essa quantidade minúscula de 20 mg, que se assemelha a uma colher de sopa, já é suficiente para se tornar um grande perigo em nosso corpo, principalmente se tratando desse caso de bebida adulterada, que continham valores exorbitantes. Apesar de adulterada, fisicamente ela não é perceptível, mas seus efeitos podem ser sentidos algumas horas depois do consumo.

Como os laboratórios do Paraná entraram em ação
O episódio também evidenciou algo fundamental: quando a ciência é acessível e integrada à sociedade, a resposta acontece rápido. É exatamente esse o espírito dos NAPIs, que reúnem pesquisadores do Paraná para gerar conhecimento de forma colaborativa e voltada para demandas reais.
O NAPI RMN, em especial, deixou claro que estava pronto para atender qualquer demanda. A equipe se colocou à disposição do governo, da indústria e, principalmente, da população, oferecendo análises confiáveis de qualquer produto que chegasse à bancada, fosse bebida suspeita de adulteração, mel, azeite ou combustível.
Como resume o professor Khalil Salome, esta é exatamente a essência do projeto. “O NAPI existe para atender a sociedade. Se ainda não existe uma metodologia, a gente descobre. Qualquer necessidade que surgir, estamos equipados para isso”.
Se você está em dúvidas sobre a procedência e composição de alguns dos produtos citados na matéria, basta procurar em sua região um dos oito laboratórios do NAPI RMN, vinculados a instituições de ensino superior. Leve a sua amostra e, gratuitamente, poderá saber se está sendo fraudado ou não.
Para saber mais sobre o metanol e suas aplicações, o C² preparou o podcast “Conexão Metanol”. Dê um play!
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Guilherme Nascimento dos Santos e Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Guille Cordeiro
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Henrique Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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