A imagem mostra um laboratório moderno com cientistas trabalhando. Há estantes com frascos coloridos, equipamentos como microscópio, tubos de ensaio e uma grande máquina cilíndrica ao centro. Três pessoas de jaleco analisam amostras e usam computadores. No primeiro plano, aparece uma garrafa marrom sobre um pedestal iluminado. O ambiente é amplo, claro e organizado, com tons suaves de verde e branco.
Pesquisadores do NAPI Ressonância Magnética Nuclear são protagonistas na pesquisa de adulteração de bebidas destiladas

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Nos últimos meses, laboratórios de todo o país registraram um aumento expressivo na procura por análises de bebidas destiladas. O motivo? Um surto de casos de consumo de bebidas adulteradas com metanol, que acendeu o alerta vermelho em várias regiões, com 17 mortes e várias pessoas intoxicadas, até início de dezembro

Mas vamos iniciar detalhando vários aspectos até chegar ao que aconteceu em meados de setembro deste ano. Se constata um surto quando ocorre um aumento repentino nos casos de uma determinada enfermidade. Após os registros em São Paulo ganharem força e ter uma ampla repercussão nacional, os pesquisadores do laboratório publicaram que fariam análises e, no dia seguinte, já havia amostras, tanto do governo estadual, da polícia científica e de cidadãos, que levaram até essas autoridades.

O álcool é um composto muito conhecido, que vem a nossa mente associado ao etanol ou álcool etílico, uma referência do grau etílico de todas as bebidas definidas como ‘alcoólicas’, mas que possui diversas outras aplicações na indústria e na ciência. O que popularmente se tinha pouco conhecimento é que existem diversos outros álcoois bem parecidos, tanto em aparência como aroma, mas que ao invés de causar os efeitos tradicionais, são tóxicos ao consumo humano e com alto risco de vida.

A imagem é uma ilustração educativa sobre usos seguros do metanol. No plano de fundo há um painel verde-água com o título: “Onde o Metanol é utilizado com segurança”. Abaixo do título aparecem ícones representando diferentes aplicações: Embalagens – ilustradas por caixas de papelão e plástico bolha; Cosméticos – representados por embalagens de creme e perfume; Laboratórios de pesquisa – mostrados com uma lupa e um frasco de reagente; Medicamentos – representados por um frasco de comprimidos e uma seringa; e Tintas/Solventes – ilustrados por latas de tinta e um borrifador. Na parte inferior da imagem, em primeiro plano, há um pedestal escrito “Molécula do Álcool” e sobre ele uma representação tridimensional da molécula de metanol (CH₃OH), com esferas coloridas indicando hidrogênio (H), carbono (C) e oxigênio (O). No canto inferior direito há créditos: “© Conexão Ciência | Arte: Guille Cordeiro”.

Diante da crise, os pesquisadores do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação de Ressonância Magnética Nuclear (NAPI RMN) se prontificaram a conduzir análises de amostras, isso após verem notícias na TV sobre o que estava acontecendo em relação aos casos envolvendo o metanol.

“O NAPI é uma rede de laboratórios de ressonância magnética nuclear do Paraná, com capacidade de realizar análises químicas imediatas de praticamente qualquer substância. Diante da demanda, a rede se colocou à disposição da sociedade para fazer essas análises”, destaca o professor Andersson Barison, do Departamento de Química (RMN), da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A foto mostra uma pessoa adulta, de pele clara e cabelos castanhos curtos, sorrindo para a câmera. A pessoa veste uma camisa de flanela xadrez em vermelho e preto, aberta por cima de uma camiseta preta. Na mão direita, segura uma caneca branca com um logotipo que lembra um microscópio estilizado e as letras “LabRMN UFPR”. Ao fundo, logo atrás da pessoa, há um equipamento científico grande, com formato cilíndrico e partes metálicas na parte superior — parece um aparelho de laboratório de grande porte, possivelmente relacionado a análise ou pesquisa científica. Cabos e conexões saem da parte de cima do equipamento. O ambiente é bem iluminado e tem paredes claras, sugerindo um laboratório organizado.
Professor Andersson Barison, docente da UFPR (Foto/Arquivo pessoal)

Além do destaque atual na análise de bebidas destiladas adulteradas, o laboratório já fez outras de vários produtos comumente adulterados, como verificação de álcool em gel durante a pandemia para ver se eram álcoois 70%; análise de mel, em que a fraude ocorre adicionando xarope de açúcar ou outros adoçantes; de azeite de oliva com diluição do azeite extravirgem com óleo de girassol ou soja, por exemplo; e até de combustível, que também é adulterado com metanol.

A impressão após as análises foi boa, segundo o pesquisador e professor Kahlil Schwanka Salome (UFPR). “De mais de 400 amostras que analisamos até agora, nenhuma apresentava contaminação por metanol. Recebemos materiais de todo o Paraná… de Matinhos a Foz do Iguaçu, e o número de casos adulterados foi zero”.

A imagem mostra um homem em um ambiente simples, com fundo liso e claro. A pessoa está enquadrada da altura do peito para cima, olhando diretamente para a câmera. Tem pele clara, cabelos castanhos ondulados e compridos, que caem um pouco abaixo das orelhas. Usa óculos de armação escura e redonda. A expressão é neutra e suave, com um leve sorriso. Está vestindo um jaleco branco, como os usados por profissionais da área da saúde ou de laboratório, sobre uma camiseta cinza. A iluminação é uniforme e suave, sem sombras fortes, e o fundo é completamente liso, em tom claro, sem objetos ou detalhes visíveis.
Kahlil Schwanka Salome, docente da UFPR (Foto/Arquivo pessoal)

Quando o metanol vira perigo

O metanol é obtido pela fermentação, seja a partir de gás natural, carvão mineral, cana-de-açúcar ou madeira seca (pirólise), ou seja, não é sintético. Ele está na natureza e, antigamente, era popularmente chamado de álcool de madeira, por ser produzido na destilação, mas que, hoje em dia, é fabricado a partir de matéria orgânica. É amplamente utilizado em laboratórios como solvente químico, em análises de separação de compostos orgânicos e até mesmo na tentativa de converter o gás poluente CO² em combustível.

Em se tratando de composição molecular, o metanol é o álcool mais simples que existe, em termos químicos, e é descrito pela fórmula (CH₃OH), ligado a um grupo hidroxila (-OH). O fato de ter apenas um átomo de carbono o torna o menor e mais simples álcool, mas com alto teor de toxicidade.

Diferente do álcool etílico (etanol), produzido pela fermentação de açúcares de fontes vegetais, como a cana-de-açúcar, possui uma estrutura maior, com dois carbonos. Pode parecer pequena, mas essa diferença faz com que ele seja metabolizado de forma segura, ocasionando os efeitos já conhecidos de bebida alcoólica, como a euforia ou danos no fígado,  devido a compostos orgânicos que também causam a ressaca.

Na destilação, o metanol pode surgir, naturalmente, em baixas concentrações de compostos orgânicos ou inorgânicos em bebidas. Porém, a Portaria 539/2022, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), traz o parâmetro que aguardentes de cana e cachaça devem conter: limites de 20mg em 100ml de álcool metílico (metanol). Acima disso, é considerado fraude por adulteração.

Segundo Barison, o problema se agrava por conta do metanol ser muito barato. “Você consegue adulterar o etanol colocando metanol para dar mais volume, e foi o que aconteceu em São Paulo, principalmente nas distribuidoras que tiveram uma grande repercussão em todo o país. E isso acontece, quase anualmente, um surto de intoxicação em vários países, com dezenas de vítimas”, explica. Ele ressalta que, ao ter essa suspeita de intoxicação, o tratamento tem que ser feito o mais rápido possível.

  • A imagem mostra uma cena em um laboratório de química ou pesquisa, focada na bancada branca onde uma pessoa está manipulando líquidos e amostras. A figura central é uma pessoa (apenas o tronco e os braços são visíveis) vestindo um jaleco branco, que está usando uma micropipeta para transferir uma pequena quantidade de líquido escuro de um frasco marrom (sem tampa) para algum outro recipiente (a ponta da pipeta está ligeiramente abaixo do frasco). No primeiro plano da bancada, no lado esquerdo, destaca-se uma garrafa cheia de whisky Jack Daniel's, fechada. Esta garrafa está ao lado de um suporte de plástico laranja que contém cerca de 18 a 20 pequenos frascos de amostras transparentes (provavelmente vials de RMN) com tampas azuis escuras. À direita, há um suporte rotativo de bancada (dispensador) contendo várias micropipetas de tamanhos variados, e ao lado deste suporte há mais tubos de ensaio com etiquetas manuscritas. O ambiente de fundo possui uma bancada de granito claro e armários brancos, característicos de um laboratório moderno.
  • A foto mostra uma mulher jovem sentada em frente a um computador em um laboratório. A pessoa está de perfil, virada para a direita, com cabelos longos, escuros e encaracolados que caem sobre os ombros. Ela veste um jaleco branco de laboratório. À sua frente há um monitor grande exibindo gráficos coloridos — linhas e picos que lembram análises de espectros, como os usados em pesquisas químicas. A pessoa segura o mouse com a mão direita e parece concentrada no trabalho.
  • A imagem mostra um laboratório de pesquisa onde quatro pessoas (três mulheres e um homem) estão reunidas em torno de uma estação de trabalho. Eles estão concentrados em um monitor de computador que exibe um gráfico de análise, provavelmente um espectro de Ressonância Magnética Nuclear (RMN). O homem e as duas mulheres sentadas estão olhando para a tela, sendo que o homem fotografa o monitor com seu celular. A quarta pessoa (uma mulher) está de pé, observando a interação. Na mesa, à frente do monitor, há um rack com vários pequenos tubos de ensaio (amostras). Ao fundo, no canto superior direito, vê-se o grande equipamento científico que parece ser o espectrômetro de RMN (marca Bruker). A cena capta um momento de análise e discussão de dados em um ambiente científico bem iluminado.
  • A imagem mostra uma visão mais ampla de um laboratório, focando nos equipamentos de grande porte. Equipamento Principal: No primeiro plano, à direita, domina a cena o corpo cilíndrico e branco de um Espectrômetro de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), apoiado em uma base preta. Cabos amarelos e pretos saem da parte superior. Unidade de Controle: No lado esquerdo, ao lado de uma janela, há um módulo de controle do equipamento, um gabinete branco e cinza, também da marca BRUKER. Segurança: A área ao redor do equipamento principal é delimitada por uma corrente de plástico amarela e preta (faixas de segurança) presa a balizadores pretos, indicando uma área restrita ou de risco. Cabos grossos e pretos ficam no chão dentro desta área delimitada. Fundo: O laboratório é amplo, com piso cinza claro e paredes brancas. No fundo, é possível ver pelo menos mais dois equipamentos de RMN menores, e armários de laboratório. O ambiente é bem iluminado e organizado.
  • A imagem mostra sete garrafas de bebidas alcoólicas, algumas originais e outras rotuladas como "falsas" (FALSO), dispostas em uma bancada de laboratório ou ambiente de pesquisa. As garrafas estão sobre uma bancada branca, que parece ser uma superfície de laboratório. Ao fundo, é possível ver equipamentos típicos de laboratório, incluindo: Um tanque cilíndrico grande cinza (possivelmente um recipiente de nitrogênio líquido, como indicado pelo rótulo "LN 1973" visível no topo); alguns equipamentos brancos à esquerda, talvez pipetadores ou pequenos centrífugas; cabos de cor laranja no canto superior esquerdo; e há um copo de vidro transparente vazio à direita das garrafas de uísque/conhaque.

A ingestão de valores superiores a esses no organismo pode causar sérios problemas na nossa fisiologia, já que ele será metabolizado no fígado por algumas enzimas e que o transformarão, primeiro, em formaldeído (formol) ou em ácido fórmico. Este último interfere na respiração e no nervo óptico, podendo causar acúmulo de ácido no corpo levando a pessoa a perda de consciência, em coma e até a óbito.

Essa quantidade minúscula de 20 mg, que se assemelha a uma colher de sopa, já é suficiente para se tornar um grande perigo  em nosso corpo, principalmente se tratando desse caso de bebida adulterada, que continham valores exorbitantes. Apesar de adulterada, fisicamente ela não é perceptível, mas seus efeitos podem ser sentidos algumas horas depois do consumo.

É uma imagem tirada em um ambiente que parece ser um laboratório ou cozinha. Ela mostra dois pequenos copos de vidro, do tipo "shot", ambos preenchidos com um líquido incolor e transparente, semelhante à água ou álcool. Os copos estão lado a lado sobre uma superfície branca e lisa. Cada copo tem uma etiqueta colada na parte externa: o copo da esquerda tem a etiqueta "ORIGINAL"; o copo da direita tem a etiqueta "ADULTERADA". A imagem foca nos copos, com o fundo um pouco desfocado, onde se pode notar alguns objetos e a bancada. O conteúdo dos dois copos parece visualmente idêntico ou muito similar na foto, apesar das etiquetas indicarem um contraste em sua natureza.
Comparação de bebida original e adulterada (Foto/NAPI RMN)

Como os laboratórios do Paraná entraram em ação

O episódio também evidenciou algo fundamental: quando a ciência é acessível e integrada à sociedade, a resposta acontece rápido. É exatamente esse o espírito dos NAPIs, que reúnem pesquisadores do Paraná para gerar conhecimento de forma colaborativa e voltada para demandas reais.

O NAPI RMN, em especial, deixou claro que estava pronto para atender qualquer demanda. A equipe se colocou à disposição do governo, da indústria e, principalmente, da população, oferecendo análises confiáveis de qualquer produto que chegasse à bancada, fosse bebida suspeita de adulteração, mel, azeite ou combustível.

Como resume o professor Khalil Salome, esta é exatamente a essência do projeto. “O NAPI existe para atender a sociedade. Se ainda não existe uma metodologia, a gente descobre. Qualquer necessidade que surgir, estamos equipados para isso”. 

Se você está em dúvidas sobre a procedência e composição de alguns dos produtos citados na matéria, basta procurar em sua região um dos oito laboratórios do NAPI RMN, vinculados a instituições de ensino superior. Leve a sua amostra e, gratuitamente, poderá saber se está sendo fraudado ou não.

Para saber mais sobre o metanol e suas aplicações, o C² preparou o podcast “Conexão Metanol”. Dê um play!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Guilherme Nascimento dos Santos e Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Guille Cordeiro
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Henrique Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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