Você costuma ler livros no papel ou já se rendeu à leitura por meio da tecnologia? Então, principalmente, após a pandemia começamos a utilizar intensamente a tecnologia para diferentes atividades, inclusive para ler. Mas será que acessar os livros no computador nos dá a mesma experiência que passear pelas bibliotecas… mesmo parecendo um pouco saudosista, essa é uma questão para se pensar.
A professora Suelen Trevizan, em 2023 dava aula na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e ouviu queixas de seus alunos sobre a necessidade de usar as plataformas de ensino e o pouco tempo que alunos e professores tinham para realmente ler. Nessas plataformas, consegue-se controlar os acessos e tentar medir o quanto se lê. Mas, acessar o livro é o mesmo que ler? Na graduação em Letras, a professora Suelen, que atua na área de Literatura ficou chocada, pois notou que ninguém mencionava o assunto e resolveu pesquisar mais sobre ele.
Atualmente, a professora atua como docente e desenvolve pesquisas na Universidade Estadual do Paraná (Unespar) de Apucarana e continua preocupando-se com esse tema.

De onde surgiram as plataformas?
As plataformas já existiam antes da pandemia, mas o uso delas foi intensificado nesse período, especialmente nas escolas do Brasil. Como foi um período de emergência, não houve tempo de se estudar os pontos positivos e negativos. Todos se lembram que durante a pandemia todos fomos obrigados a utilizar diferentes tecnologias, para conversar, trabalhar dentre muitas outras atividades, assim, popularizando atividades realizadas no digital. Essa prática parece nos aproximar da leitura, pois carregamos o livro facilmente conosco, o celular, por exemplo, mas será que isso ocorre?
Particularmente, você pode se recordar com saudade das aulas de leitura na biblioteca, em que a professora deixava os alunos escolherem os livros, sentar no cantinho preferido e ler; trocar de livro, conversar com a bibliotecária. Nas escolas do Paraná, especificamente, de Apucarana, cidade que a professora Suelen pesquisa, os alunos leem por meio da Plataforma Leia Paraná1.
Seguindo sua inquietação, Suelen resolveu ir até a fonte, as escolas, para conversar com os alunos que leem na plataforma digital, e verificar se o aconchego das aulas clássicas de leitura estão sumindo ou está nascendo uma outra forma de ler? Claro que livros digitais não deixam de ser livros, mas causam o mesmo efeito de ler um livro físico?

Biblioteca física e Plataformas: você sabe a diferença?
Para começo de conversa, quando pensamos em biblioteca física nos vem à mente uma experiência multissensorial, o toque, o cheiro, o clima do local, além do número de exemplares e edições diversas que podemos pegar e sentir. Já quando pensamos em plataformas digitais, embora pareçam poder acomodar mais livros, já que não requer espaço na escola, isso nem sempre ocorre. A professora Suelen, por exemplo, notou que a Plataforma Leia Paraná conta apenas com 122 títulos para atender os alunos do 6 ano ao terceiro ano do Ensino Médio. Já quando você visita uma biblioteca física de uma escola, mesmo as mais humildes, observa um número muito maior de obras.
Outra questão que saltou os olhos da professora Suelen foi o tipo de livro fornecido nas Plataformas. Ela observou que a maioria é de autoajuda e empreendedorismo. Ou seja, faltam nossos clássicos brasileiros, nossa Capitu, nossa Iracema, o Cortiço e tantos outros lugares que embora não conheçamos são parte de uma memória coletiva.Ah…, mas você não é um fiel amante de clássicos, então, a professora Suelen também notou que faltam aquelas intrigas que todo adolescente gosta, mistério, terror, amor… E olha que não é só isso: o que faz falta mesmo são aquelas reviravoltas que fazem você gritar “não pode ser!”, os segredos que deixam todo mundo de olho na página seguinte e os personagens que você ama odiar ou odeia amar. É aquele tipo de história que te prende do começo ao fim, te faz rir, chorar e querer discutir cada detalhe com os amigos depois.
E os leitores, o que acham dessa iniciativa?
Nada melhor para entender o que nossos leitores jovens estão achando do que falar com eles, não é mesmo? Na conversa com os alunos, a professora Suelen perguntou qual era a preferência deles, livros físicos ou digitais, o que eles achavam da leitura digital e qual era a opinião sobre o Leia Paraná… Acredite, as respostas dos entrevistados foram bastante parecidas. Sem dar “spoiler”, pois a pesquisa está em andamento, alguns alunos confidenciaram suas opiniões com a professora de que não se sentem estimulados a ler mais pela plataforma, inclusive que criam estratégias para registrar acesso sem realmente ler; outros alunos reclamaram dos títulos do acervo e da visibilidade ruim na tela.
Também nos aventuramos em conversar com alguns alunos e numa conversa no Colégio Cerávolo, de Apucarana. Natafally Fagundes Pereira, do terceiro ano integrado do curso Técnico Enfermagem, acha a plataforma muito boa, com ótimo incentivo para os adolescentes. “Eu particularmente não tenho costume de ler livros, mas quando eu pego pra ler eu prefiro livro físico”. Evilyn Gabriele Lemos dos Santos, da mesma escola disse: “eu particularmente prefiro livros físicos, pois existem muitas informações presentes no celular que tiram a minha concentração, que deveria ser 100% ligada na leitura”. Já Alejandra Isabel Ramis Cruz, que costuma ler muitos livros físicos, acredita que a leitura na plataforma é um “pouco mais difícil porque eu acabo me desconcentrando com mais facilidade, eu prefiro ler livros físicos porque eu consigo focar melhor na leitura”.
Outro ponto que as alunas destacaram foi sobre a diversidade de obras. Natafally considera que deveria acrescentar à plataforma “mais livros diferentes que a gente possa procurar e achar livros mais conhecidos que a gente consiga entender melhor”. E, no mesmo sentido, Alejandra confessou que “não costumo procurar livros na plataforma Leia Paraná, porque normalmente eu não encontro títulos do gênero que eu me interesso e, de forma geral, eu acho que a plataforma é boa para uso escolar. Ela ajuda no contexto das aulas, fora disso, provavelmente, não usaria espontaneamente”.
Bom, a essa altura do campeonato você deve estar se perguntando “mas não estamos na era digital? A leitura e o acesso às obras não deveriam ser melhor virtualmente? Suelen, que não brinca em serviço, não descarta as opções de obras virtuais, muito menos a leitura virtual, mas leva em consideração o que os alunos relatam, como as distrações que podem acontecer durante a leitura em smartphones.

Embora estejamos na era digital e o acesso facilitado às obras nas plataformas seja uma realidade, que tem ganhado espaço nas escolas, na opinião dos leitores que conversamos, é o livro físico. Para eles, ainda é mais propício a uma leitura concentrada e comprometida. Isso porque, ao manusear o livro, o leitor se afasta das distrações do dia a dia e mergulha de verdade na narrativa. A leitura se transforma em um refúgio, um momento em que o mundo real fica de lado e a única preocupação é descobrir a próxima ação do personagem, o próximo passo da história. Essa imersão profunda não só melhora a compreensão do texto, como também torna a experiência de ler muito mais prazerosa e envolvente.
Então… bora ler?
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Texto: Tatiane Henrique Sousa Machado, Samuel Neres de Melo e Cassia de Lima Bruguel
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Madu Tenório
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Plataforma Leia Paraná – A plataforma Leia Paraná, que custou R$ 7.959.984,00 por 24 meses de serviço (contrato 5671/2022, disponível no Portal da Transparência), é composta por 122 títulos abordando áreas como história, filosofia, educação financeira, biografia, autoajuda, sendo a literatura apenas mais uma área. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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