Muitos dos universitários começam a faculdade sem ter a menor ideia do que fazer após a graduação. Vários outros já iniciam sabendo exatamente o que querem. E vemos que, no decorrer do curso, esses sentimentos podem mudar facilmente. Os alunos acabam encontrando um caminho para trilhar ou mudam totalmente seus direcionamentos a partir das vivências que a universidade proporciona.
A psicóloga Julia Borchardt, que era estudante de psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM) – agora mestranda em psicologia –, viveu isso na pele. Em 2019, na semana de recepção para os alunos, teve seu primeiro contato com o Núcleo Transdisciplinar de Defesa e Pesquisa da Criança e Adolescente (NPCA) – na época conhecido como Programa Multidisciplinar de Estudo, Pesquisa e Defesa da Criança e do Adolescente (PCA) – e resolveu participar do projeto, mesmo sem nunca ter pensado em trabalhar diretamente com crianças ou adolescentes.
Essa escolha a surpreendeu, “extremamente”! Mesmo entrando no curso de psicologia sem perspectiva de lidar com um público muito mais jovem, ela se viu como uma pessoa que gosta de estar rodeada por ele. “Antes, era algo que eu não cogitava, mas o projeto ampliou meus horizontes e me fez, sim, pensar em atender crianças e adolescentes. E eu atendi por mesmo, por um tempo, e sempre foram boas experiências”, afirma a mestranda.
Borchardt se vinculou ao “Brincadeiras com Meninos e Meninas de/e nas Ruas”, um dos vários projetos de extensão existentes dentro do NPCA, que tem o objetivo de proporcionar brincadeiras com propósito para crianças do bairro Pioneiro Odwaldo Bueno Netto, em Maringá:

A mestranda conta que uma das experiências mais marcantes para ela, na sua atuação no NPCA, foi durante a época da pandemia da Covid-19. Esse foi um momento que fez ela perceber o impacto positivo e modificativo que o núcleo possui na vida das crianças e adolescentes que são assistidas por ele.
Vários dos participantes do projeto Brincadeiras não possuíam acesso à internet, a um computador ou um celular, itens que fizeram muita diferença no dia a dia das pessoas durante a pandemia, e eram utilizados para que o Brincadeiras continuasse acontecendo mesmo à distância.
Por isso, muitas crianças acabaram dividindo o mesmo aparelho para participarem das reuniões do projeto, momento em que os coordenadores descobriram outra lacuna vivida pelos pequenos e seus familiares: a falta de informação sobre a situação pandêmica. Eles sabiam muito pouco sobre a necessidade de uso de máscara, nem qual tipo utilizar, bem como formas de prevenção e proteção, ou como se cuidar após o diagnóstico.
Dessa forma, todos os participantes se reuniram para confeccionar cartazes informativos para serem espalhados em pontos estratégicos do bairro, de forma que as crianças e adolescentes se divertiam em casa fabricando cartazes e também se conscientizavam sobre a situação global e, principalmente, local.

Bom, acho que já deu para entender a importância desse tipo de projeto dentro das universidades, não é mesmo? E, claro, o fato de que seu impacto não fica limitado apenas ao campus universitário, mas extrapola os muros e chega direto nas comunidades. O NPCA é um exemplo perfeito disso!
Afinal, o núcleo trabalha e prioriza a defesa, estudos e formação em relação aos direitos de crianças e adolescentes, sejam de acadêmicos, educadores sociais ou mesmo assistentes sociais, além do contato direto com a comunidade. O núcleo foi formalizado, com essa roupagem, em 2024, no entanto, existe desde 1992, quando era chamado de PCA.
Ele sempre foi vinculado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PEC), da UEM, promovendo assessoria, capacitação, e produção científica na temática específica da infância e adolescência, bem como buscando contribuir para o debate nacional sobre soluções e alternativas voltadas à melhoria da qualidade de vida da população infanto juvenil. Tudo isso seguindo normas e leis que protegem crianças e adolescentes no Brasil.

O NPCA é entendido como transdisciplinar, uma vez que é composto pela união de diversas áreas do conhecimento, até mesmo no seu corpo de coordenadores. A coordenação administrativa fica por conta da docente do Departamento de Educação Física (DEF – UEM), doutora Paula Marçal Natali, mas há, também, outros coordenadores.
A docente do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE – UEM), doutora Thais Godoi de Souza; a professora do curso de Serviço Social (UEM), doutora Vanessa Rombola Machado; o docente do curso de História, doutor Ailton José Morelli, bem como a presidente da Associação de Educadores Sociais de Maringá (Aesmar), doutora Verônica Regina Müller.

“Já tivemos colaboradores das artes cênicas, educação física, educação, pedagogia, direito, engenharia, enfermagem… É uma produção em direção à educação para os direitos humanos e, com a categoria criança, adolescente e formação, precisamos de todas as áreas! Afinal, a infância é o chão da vida”, afirma a coordenadora administrativa.
Para além dessa união de campos do saber, todos os projetos de extensão do núcleo são compostos pela combinação de ação na comunidade, grupo de estudo e grupo de pesquisa. Então, o impacto científico é imenso, pois durante os mais de 30 anos de projeto, nunca deixou de existir extensão e pesquisa na temática!

“Essa não limitação do pensamento dentro da universidade ajuda a pensar políticas públicas. Inclusive, a nossa última ação com as crianças foi pensar o que elas queriam para a cidade e apresentamos essa proposta para alguns candidatos a prefeito. Porque a gente entende isso como uma possibilidade de participação social das crianças”, afirma Natali.
A influência do Núcleo é tão grande, que pode ser sentida por toda a cidade. A presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), por exemplo, é de um dos seus membros, o professor Morelli. O CMDCA é responsável por propor, deliberar e controlar as políticas públicas municipais voltadas para crianças e adolescentes.
Ou seja, podemos afirmar com tranquilidade que essas políticas estão sendo pensadas por pessoas que estudam as problemáticas e pensam nas melhores soluções possíveis, visando o melhor interesse da criança.
Além disso, o Núcleo representa o Brasil, juntamente com a Aesmar, dentro da Rede Dynamo Internacional de Educadores/as Sociais de Rua, presente em mais de 80 países e que busca a formalização da profissão em todo o mundo, bem como uma atuação eficaz dos colaboradores.
E, claro, para trazer as crianças e adolescentes mais perto de ações culturais, o próprio NPCA promove eventos e também participa, sempre que possível, dos disponibilizados pela Prefeitura. Em 2024, o núcleo foi responsável pela organização e execução do XI Seminário Estadual Estatuto da Criança e do Adolescente, com o tema: “Ser criança e ter infância: desafios para efetivação da garantia dos direitos infanto-juvenis no Brasil”. O evento reuniu quase 300 participantes entre adolescentes, jovens, educadores sociais, psicólogos, professores e pessoas envolvidas na garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes.
XI Seminário Estadual Estatuto da Criança e do Adolescente (Foto/NPCA) XI Seminário Estadual Estatuto da Criança e do Adolescente (Foto/NPCA) XI Seminário Estadual Estatuto da Criança e do Adolescente (Foto/NPCA) XI Seminário Estadual Estatuto da Criança e do Adolescente (Foto/NPCA) XI Seminário Estadual Estatuto da Criança e do Adolescente (Foto/NPCA)
Ainda esse ano, a equipe do Núcleo também levou as crianças e adolescentes participantes dos projetos para o 1° Festival de Circo de Maringá, o Festival Cirqueringá, que apresentou espetáculos circenses em espaços públicos, bem como no Festival de Teatro de Bonecos de Maringá, o Festebom.
“Em todo evento para o público infanto-juvenil da cidade, tentamos garantir o acesso para as crianças do projeto, levando a uma formação política para eles compreenderem a cidade. Se eles entendem o município, eles também entendem suas necessidades e seus direitos”, afirma a coordenadora Thais Godoi de Souza.
A Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), que ocorre todo ano, também conta com a participação do NPCA. “Na Flim, por meio do CMDCA, foi possível angariar um recurso do Fundo da Infância e Adolescência (FIA), que possibilitou a emissão de vouchers que representavam um valor em dinheiro para as crianças do projeto adquirirem livros na feira”, explica Souza.
Todas essas iniciativas, ações e inovações promovidas pelo Núcleo são tentativas de oferecer espaços cada vez melhores para as crianças e adolescentes, em especial, aqueles que possuem acessos limitados aos seus direitos.
“A gente precisa evoluir e ampliar o conceito de educação, o qual não é sinônimo de escola, até porque as pessoas são seres educáveis a vida inteira. Precisamos entender que toda criança é um ser que está em processo de desenvolvimento, mas que também é possível de participação, de fala, de discussão e de estar nos espaços públicos”, afirma Natali.
Infelizmente, esse caminho é muito longo, já que temos muito a aprender, mas, felizmente, existem instituições como o NPCA que buscam essas melhorias. “Além da ampliação da visão da educação, também é preciso expandir, por meio dos movimentos sociais, dos educadores e da sociedade em geral, a defesa da democracia e dos direitos humanos. E, a partir disso, reivindicar sempre melhorias na educação, seja ela no âmbito escolar ou fora dele”, expõe Souza.
O apoio à organizações que lutam pela garantia dos direitos de crianças e adolescentes no Brasil deve ser levado muito a sério, em especial, em uma sociedade em que é necessário superar uma política muito conservadora, que reproduz ideias que já são superadas em muitos outros lugares, como em relação ao trabalho infantil ou a redução da maioridade penal, lembra a coordenadora administrativa do NPCA.
“Quanto mais a gente puder falar sobre direitos humanos, sobre participação social, sobre formação das pessoas… A gente vai quebrando, na formação dos acadêmicos, esse conservadorismo em relação ao que é ser criança, o que é direito da criança”, explica Natali.
Se você quiser saber mais sobre o Núcleo Transdisciplinar de Defesa e Pesquisa da Criança e Adolescente, acompanhe-o no Instagram ou no Facebook: www.instagram.com.br/PCAUEM e www.facebook.com/PCAnaUEM. E, caso queira fazer parte da equipe do núcleo, entre em contato pelo próprio Instagram ou pelo e-mail: sec-pca@uem.br.
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Marco Antonio Sant’Ana e Hellen Vieira
Supervisão de arte: Tiago Franklin Lucena
Edição Digital: Gutembergue Junior
Glossário
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