Números que atravessam gerações desde os anos 90

Colagem colorida de um computador antigo com uma figura humana saindo da tela — a cabeça é um monitor com rosto sorridente, o corpo feito de livros. Uma mão toca o teclado em primeiro plano. Ao fundo, formas coloridas e vibrantes sugerem criatividade e tecnologia.
O Kit Matemática, há décadas criado na UEM, ajuda alunos a não se perderem entre cálculos, provas e softwares

compartilhe

Eu nunca fui fã de matemática. Na verdade, eu nunca nem a entendi. Embora eu não tenha seguido para a área de exatas na graduação, sofri bastante com números e contas durante todo o ensino fundamental e médio. Sempre ouvi que tudo ao meu redor continha matemática, mas mesmo assim não consegui ter uma amizade com ela. Me lembro de pular todas as questões que envolviam números quando fiz o vestibular e jurei jamais fazer escolhas que me façam estudá-la de novo.

Mas a dificuldade com cálculo não é exclusiva de nós, meros mortais. Os estudantes da própria Matemática, às vezes, também precisam de ajuda. Hoje, eu te convido a conhecer o Kit de sobrevivência em matemática, — ou como é chamado atualmente: Kit Matemática — um projeto de extensão do curso de Matemática, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), que vem salvando a pele dos acadêmicos desde os anos 90!

O programa reúne materiais sobre cálculo, softwares matemáticos, questões de vestibular resolvidas e outros conteúdos produzidos por professores e acadêmicos do curso de Matemática. Tudo está disponível on-line, organizado por categorias no site e também nas redes sociais do projeto.

Como tudo começou 

Mas, afinal, como surgiu a ideia de criar um kit de sobrevivência em matemática para os alunos? Em uma entrevista com o atual coordenador do projeto, o professor doutor Rodrigo Martins, fiquei conhecendo essa história. 

Tudo começou na década de 80, há bastante tempo, quando surgiram vários softwares de computação algébrica. Era o início da disponibilização desses recursos tecnológicos para matemática avançada. Esses programas começaram a chegar no Brasil de maneira pirateada, trazidos por professores que estudavam fora do país. Alguns docentes ficaram encantados com a facilidade dessas tecnologias, já que os programas realizavam um trabalho cansativo em poucos minutos… Imagine poupar tempo (e paciência) na hora de fazer cálculos? Era o começo de uma nova era.

Mas, como tudo que é novo, vieram junto algumas dificuldades. Por se tratar de recursos recentes, ainda não existia nenhum conteúdo que pudesse treinar e ensinar os alunos a fazerem uso desses softwares. Pensando nisso, o precursor do Kit, o professor doutor Doherty Andrade resolveu unir esforços para mudar essa situação. Ele escolheu um desses programas e começou a criar conteúdo escrito para ensinar os alunos a usá-lo, disponibilizando o conteúdo a quem precisasse.

Com o tempo, o banco de dados criado por Doherty foi crescendo. Em 1999, o Kit virou mocinho e passou a existir oficialmente! Com o passar dos anos, o professor percebeu que ainda faltava material de fácil acesso aos alunos, então, se juntou aos colegas do departamento e passou a disponibilizar notas de aula além de compilar materiais. Fez esse trabalho até se aposentar, em meados de 2010, acumulando um arsenal de conteúdo útil no site do projeto.

Infográfico em estilo linha do tempo com o título “A evolução do Kit Matemática”. Ele mostra marcos históricos desde os anos 1980 até hoje, com imagens de computadores antigos e modernos. Destaca momentos como a chegada de softwares matemáticos ao Brasil, a criação do Kit de Sobrevivência em Matemática em 1999, e a ampliação dos conteúdos para redes sociais em 2023. O fundo é azul, e o texto está disposto em blocos com cores vibrantes.

O Kit como divulgação científica

A evolução do Kit não para por aí. O projeto cresceu, recebeu novos membros, criou braços e pernas e hoje caminha com muito mais que apenas materiais sobre softwares e notas de aula.

Algumas ideias foram surgindo para ampliação, com produção de materiais inéditos. Assim foi criado o JEPEEMA, o Jornal Eletrônico de Ensino e Pesquisa de Matemática, com publicações autorais com o objetivo de preservar essas atividades produzidas pelos alunos.

Mas ainda não era o suficiente. Ao assumir o projeto, Rodrigo Martins, logo percebeu que a era digital é uma realidade e que o Kit não poderia escapar dela. Então, criou perfis nas redes e começou a alimentá-los com os conteúdos.

Hoje, os acadêmicos cuidam do Instagram e TikTok, um movimento natural que veio com os novos membros que naturalmente já pensam nessas ideias. Segundo o professor, a matemática é uma área que não elimina nada do que foi feito antes, apenas acumula informações, nada se perde. Os materiais de anos atrás continuam sendo divulgados e relevantes para os alunos. Com isso, o Kit também virou um projeto de popularização científica de matemática!

A divulgação do projeto também conta com a parceria do CONEMAT, um hub de grupos e de informações para divulgação científica por meio de estratégias de marketing. A matemática tem muito poucos assuntos que despertam interesse no público, diferente de outras áreas da ciência. O grande desafio é mostrar para a população como os números fazem parte de tudo em nosso dia a dia.

Fotografia colorida que mostra uma captura de tela de reunião online em formato de videoconferência, com oito participantes distribuídos em uma grade de janelas de vídeo.
Reunião do Kit Matemática, realizada on-line (Foto/Arquivo pessoal)

O impacto do projeto para os acadêmicos e para a comunidade externa

Para o curso de licenciatura, especificamente, o Kit é um laboratório de como lidar com os novos modelos digitais na educação. Como todo o trabalho do projeto é desenvolvido de maneira on-line e para o ambiente digital, o aluno já se acostuma a criar conteúdo para esse cenário, contribuindo para a sua formação como professor em tempos modernos. Além disso, a praticidade é uma aliada: o estudante percebe que pode desenvolver conteúdo para o projeto com algo que ele já faz no dia a dia, basta apenas divulgar no formato certo!

Para os alunos da graduação, o impacto vem no momento em que eles mais precisam: período de provas. O Kit de Sobrevivência em Matemática faz jus ao nome e os acadêmicos percebem como os materiais podem ajudar na hora de se preparar para as avaliações.

Já para a comunidade externa, não há como medir o impacto do projeto em métricas. Mas, em tempos de inteligência artificial, Rodrigo ressalta como é valioso o Kit oferecer conteúdos de confiança. Segundo ele, um material que um professor de fato leu e corrigiu antes de ser disponibilizado, já é um ganho gigantesco.

Como é fazer parte do Kit?

Rafaela Mayumi é aluna do terceiro ano da licenciatura em Matemática, na UEM. Ela conta ter conhecido o Kit no primeiro ano da faculdade e, embora tenha recusado vários convites para fazer parte do projeto, deu o braço a torcer e entrou para a equipe. Seu maior receio era não dar conta de mais uma atividade além da faculdade e do trabalho, mas a realidade foi surpreendentemente positiva.

Segundo Rafaela, o projeto permite que ela desenvolva as atividades propostas, mas sem atrapalhar sua rotina com o próprio trabalho e estudos. A ideia é justamente oferecer o espaço para que o aluno participe de modo prazeroso, mantendo o foco na graduação. Uma das características que ela mais gosta é a possibilidade de produzir sobre o que tem interesse. O professor Rodrigo permite que os membros escolham quais atividades querem fazer, valorizando as habilidades e afinidades de cada um.

A imagem mostra uma sala de aula. Em primeiro plano, há um estudante sentado de costas, olhando para frente. Ao fundo, uma mulher está de pé diante da turma, sorrindo e gesticulando com as mãos, apresentando um conteúdo. Ela está vestida com uma blusa branca sem mangas, calça bege clara e sapatilhas. À sua direita, há um televisor fixado na parede exibindo o slide de uma apresentação com o título: “Cálculo Diferencial e Integral – um kit de sobrevivência!”
Rafaela Mayumi em apresentação no EAEX 2024 (Foto/Arquivo pessoal)

Para além da oportunidade de desenvolver conteúdos, Rafaela conta como o Kit a ajudou a melhorar suas responsabilidades com sua vida acadêmica e a estabelecer laços com professores. Também fala com orgulho de dividir seu espaço com as colegas do projeto, que atualmente é formado 100% por mulheres, sendo um avanço no destaque feminino na área da Matemática.

Como social media do projeto, Rafaela enfrenta o desafio de aumentar o alcance do Kit nas redes sociais e fazer com que o reconhecimento chegue em acadêmicos, professores e até na rede básica de ensino. O objetivo é levar os materiais não só para os alunos da graduação que estão perdidos e desanimados, mas também para os estudantes da rede básica que querem entrar no ensino superior. 

Perspectivas futuras para o projeto 

O coordenador do Kit, professor Rodrigo, diz ser conservador quanto a movimentos bruscos. Ele acredita que o projeto precisa consolidar o que já se tem antes de novos avanços. Quer criar métodos internos para produção de conteúdo, garantindo a qualidade na continuidade do projeto entre indas e vindas de alunos durante os próximos anos.

Outra preocupação é alcançar um público mais amplo, abrindo portas para estudantes do Ensino Médio e pré-vestibular. Atualmente, o projeto aceita alunos de todas as áreas das Ciências Exatas e também da Comunicação e Artes. A proposta é receber acadêmicos com diferentes expertises para investir em divulgação científica e alcançar o objetivo de furar a bolha restrita em que o projeto se encontra.

O Kit conta com um site onde informações, contatos e materiais estão organizados por categoria e assuntos. Também vale a pena acompanhar a divulgação no Instagram e TikTok, te prometo que a Matemática fica até menos assustadora!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Maria Beatriz Ganacim Guilhermetti
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

Edição desta semana

Artigos em alta

Descubra o mundo ao seu redor com o C²

Conheça quem somos e nossa rede de parceiros