Manhã do primeiro dia de julho, é um amanhecer frio – uma exceção entre os dias abafados que tomaram conta do mês anterior. Acordo 20 minutos antes do ônibus passar, às pressas me arrumo para não perder o horário e decido tomar café da manhã na rua. Chego em uma padaria, peço um pão de queijo e um Toddynho. O salgado vem armazenado numa embalagem plástica, a bebida com canudo de papel, mas a embalagem que o protege é plástico. Acabo de comer, procuro uma lixeira pra jogar o lixo no lixo. A lixeira? É plástica, o adesivo de identificação é de plástico, a sacola dentro do lixo, também…
Daí, me questiono se o meu café da manhã não foi de plástico. Levo-me a crer que, se fosse, não teria um sabor tão apetitoso quanto o compilado de químicos em um líquido saborizado e aromatizado de chocolate ou parecido com uma iguaria brasileira de polvilho azedo e queijo. Mas será mesmo que eu não ingeri plástico depois de tantas embalagens plásticas?
Estudos recentes mostram que sim. Mas, pera lá, não pense que ingerir plástico assemelha-se a imagem perturbadora de pegar uma sacola de supermercado e engolir de uma única vez.
Os plásticos estão por aí, em toda parte. É sério! Não tá acreditando? Então, olha aí em sua volta. Se tem garrafa, tem plástico. Caneta? Plástico. Cadarço de tênis? Plástico. Roupa com poliéster? Acho que você já sabe a resposta. Ele está em todos os lugares ao mesmo tempo.
Agora que nós entendemos que os plásticos estão por todo o lado, precisamos entender quem são. Antes de combater o inimigo, é preciso conhecê-lo.
Os plásticos são um arranjo de diferentes monômeros que se tornam um grande polímero. Não entendeu? Peraí que eu vou te explicar o que são esses dois palavrões. Os polímeros são moléculas grandes, que também podem ser chamadas de macromoléculas e são compostas pela união de várias outras moléculas, só que menores, chamadas de monômeros.
Pronto, agora que eu e você já sabemos como os plásticos são formados, vamos entender qual é a base química do plástico. Essa é essencialmente de carbono, com ligação de átomos de oxigênio, nitrogênio ou enxofre, mas que podem se ligar a diferentes elementos diferentes – o que faz com que ele tenha uma resistência física grande.
Mas não pense que todos esses plásticos são a mesma coisa. A cada arranjo químico, o material recebe um nome diferente. E os nomes também variam de acordo com o seu tamanho. Isso é o que mostra o infográfico abaixo:

Tá, então você pode imaginar que alguns plásticos, como os microplásticos, não são visíveis a olho nu. Mas sabe aquela história que a minha e a sua avó contam, de que se os olhos não veem, o coração não sente? Aqui, isso é mentira.

Um estudo recente, publicado no início de março deste ano, no The New England Journal of Medicine, mostrou que microplásticos foram encontrados nas artérias de 60% das pessoas que participaram da pesquisa. Nesses indivíduos, o risco de ter um ataque cardíaco, um acidente vascular cerebral ou, até mesmo, morrer era 4,5 vezes maior, em comparação com quem não apresentava microplásticos nas artérias.
O estudo
Uma análise realizada com 257 pessoas que tinham sido submetidas a uma cirurgia chamada endarterectomia carotídea – que é um procedimento indicado para tratar o estreitamento da artéria carótida devido à formação de placas de gordura e cálcio no seu interior – acompanhou durante 34 meses os pacientes após a cirurgia. Passado esse período, foram encontradas partículas de plástico, principalmente os micro e os nanoplásticos, nas artérias de 150 pacientes.
Em seguida, análises clínicas feitas pelos cientistas apontaram que a maior parte dessas partículas era composta por polietileno – o tipo de plástico mais utilizado no mundo e que pode ser encontrado em embalagens de alimentos e sacolas de mercado, por exemplo.
Durante o acompanhamento, pelo menos 20% dos pacientes sofreram infarto ou acidente vascular cerebral, sendo que alguns foram a óbito. Entre aqueles que não apresentavam partículas plásticas em suas artérias, apenas 7,5% sofreram esses eventos.
Para os pesquisadores, os pacientes que compreendem os 20% dessa amostragem – com níveis detectáveis de plástico – tiveram um risco quase cinco vezes maior de sofrer um problema cardiovascular se comparado com os outros participantes.
Em todo lugar ao mesmo tempo
Lembra que agora a pouco você olhou para os lados e viu que o plástico está em tudo quanto é lugar? Mas como é que isso aconteceu? Quem é que deu tanto poder a ele?
A resposta mais simples é: a indústria.
Ao longo dos anos, esse tornou-se um material atrativo para substituir o vidro, a madeira, a cerâmica e o papel, em razão de sua alta resistência física e química, maleabilidade, poder de transformação, reciclagem e baixo custo de produção, por exemplo.
É irônico pensar que o mesmo plástico que na indústria farmacêutica tantas vidas salvou ao reduzir o uso do vidro, e, consequentemente o índice de contaminação nas ampolas de medicamento e seringas, por exemplo, hoje é um problema.
Esse é um material barato e possui um grande volume de produção – o que o caracteriza como commoditie. Ou seja, o plástico é matéria-prima de base para a concepção de muitos outros produtos.
Dentre as 139 milhões de toneladas métricas de resíduos plásticos de uso único, em 2021, de acordo com a Mindero Foundation, o Polietilenos (PE), Polipropilenos (PP) e Poliestirenos (PS) foram os mais consumidos. Todos eles se interseccionam na facilidade de processamento, uso em grande quantidade, baixo custo de produção e aplicação em itens, também, de baixo custo.
A professora associada do Departamento de Patologia, da Universidade de São Paulo, Thais Mauad, que é um dos principais nomes quando o assunto é microplástico e saúde humana, considera que nós fazemos um uso abusivo do plástico, principalmente, o descartável.
“O plástico tem uma série de problemas que inicia na sua produção. Ele é uma manufatura que vem da indústria fóssil, que, por si só, já é danosa ao meio ambiente e à saúde humana. Nós precisamos pensar nas pessoas extraindo petróleo e trabalhando em refinarias, toda essa cadeia tem muito custo para a saúde e para o meio ambiente. Tudo isso para gerar um produto descartável”, reflete a professora sobre a commoditie.
Os microplásticos
Até começar a pesquisar sobre os microplásticos eu acreditava que eles eram derivados dos megaplásticos em decomposição. E isso me parece uma dúvida comum. Então, acho que vale a pena destacar isso. Não, os microplásticos não são só plásticos grandes que vão ficando pequenos em tamanho. A indústria já produz plásticos menores que 0,5 centímetros.
Para entender melhor sobre isso, o Conexão Ciência – C² conversou com o professor e pesquisador do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e membro do Colegiado do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade, Allan Paul Krelling. Ele explica que há dois tipos de microplásticos: os primários e os secundários. O primeiro grupo reúne aqueles que já são produzidos pela indústrias em tamanhos menores de 0,5 cm. Já o segundo, que são os mega, macro e meso plásticos são aqueles que vão perdendo tamanho no processo de decomposição até se tornarem micro.

“Existem os pellets, que são pequenas bolinhas, que são a matéria-prima da produção de itens maiores”, ilustra o professor. Os pellets ao qual ele se refere são estruturas plásticas produzidas em tamanho pequeno para facilitar o transporte em containers e que serão usados para produção de uma infinidade de objetos plásticos pela indústria.
Krelling, que também integra o Comitê de Pesquisa e Extensão do IFPR e o Grupo Consultivo para a ONU sobre Aspectos Científicos para a Proteção do Ambiente Marinho, ainda aponta outros usos dos microplásticos primários. “Na indústria cosmética, eles são usados para produzir produtos de esfoliação ou para fazer jateamento de coisas”, exemplifica o professor.
Mas como se dá o caminho do microplástico até o corpo humano?
A contaminação
Como nós conversamos a pouco, os microplásticos são estruturas químicas muito pequenas. Então, você pode imaginar que isso facilita o transporte delas até o interior do organismo humano. As formas de contaminação são dos mais variados tipos. As três mais comuns são: por ingestão, inalação e absorção pela pele.
Recentes pesquisas que associam os microplásticos à saúde humana como a publicada no The New England Journal of Medicine são um alerta para a presença onipresente do plástico no solo, no ar, na água, na comida e, principalmente, em casa.
Em 2019, os cientistas brasileiros foram pioneiros em constatar a presença de microplástico no sistema respiratório. Com a supervisão de Thaís Mauad, o grupo constatou a presença de partículas plásticas no pulmão humano. Cinco anos depois, ela continua com estudos dedicados à associação de plástico e saúde. Atualmente, a pesquisadora investiga a presença dessas partículas na cavidade nasal.

Em conversa ao C², Thais Mauad contou que o que mais a assusta é a presença dos microplásticos no sangue. “O plástico está circulando dentro de mim e de você. E, se ele está circulando ele está se depositando em qualquer órgão. Isso pode estar gerando uma reação imune que nós não sabemos qual é. Além de que ele pode estar se depositando em outros órgãos”, conta a professora.

Logística reversa
Diante do cenário apresentado, projetos espalhados por todo o Paraná buscam reduzir os impactos do plástico e do microplástico no ambiente e na saúde humana.
O professor Krelling, que atua no laboratório de conservação e manejo do IFPR, tem atividades voltadas para o lixo no mar. Ele trabalha em diversas frentes “uma das abordagens é o da presença do microplástico no litoral paranaense. Nós tentamos trabalhar com esse material em diferentes níveis. Desde a presença do microplástico na água, nos sedimentos e nas espécies até entender a distribuição disso ao longo da costa paranaense”, explica o professor.
O grupo, em parceria com o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR), faz o monitoramento da orla do Estado. O trabalho da equipe vai ainda mais longe e associa tecnologia e inovação. Eles desenvolveram uma rede de coleta de lixo com custo baixo para retirar os poluentes da água.
Um pouco mais para dentro do Estado, o projeto “Logística Reversa e Coleta Seletiva: aprendendo com o Juca sobre Sustentabilidade”,da Universidade Estadual de Maringá (UEM), tem por objetivo destinar para a reciclagem tampinhas de garrafa PET e cápsulas de café.

O projeto, coordenado pela professora Ana Paula Vidotti, ganha mais força e se estende à itinerância do Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi/UEM), onde a iniciativa está alojada, e leva para perto da população uma conversa sobre reciclagem. “A ideia é conectar a todos com o Projeto fazendo com que as pessoas levem isso para casa e disseminem a informação sobre o reuso dos materiais na família, na comunidade e pensem num mundo melhor”, destaca Vidotti.
Projetos como esses, carecem de fortalecimento e frisam que o tema microplástico deve ser foco do debate público. É imprescindível que o Estado pense em medidas que suavizem os danos dos microplásticos à saúde e ao meio ambiente. Além disso, a iniciativa privada deve trazer para si a responsabilidade, tendo em vista que é o grupo que mais polui.
Se uma mobilização conseguir mudar esse cenário, fico pensando em dias melhores. Me imagino, em breve, consumindo um café da manhã de forma mais segura. Café sem embalagem plástica. Uma proposta mais saudável não só para mim, mas para o ambiente. Sorriremos o meu e o seu organismo.
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Texto: João Luiz Lazaretti
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi e Hellen Vieira
Supervisão de arte: Tiago Franklin Lucena
Edição Digital: Gutembergue Junior
Glossário
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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