O que você quer ser quando crescer?

Pergunta que atormenta gerações ganha uma nova resposta na UEM

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Era 2020, um ano que com certeza vai ficar marcado na memória de toda a humanidade. As ruas estavam vazias, o comércio fechado, as aulas presenciais suspensas e os hospitais cheios. A COVID-19 chegou quando eu estava ingressando no ensino médio em meio ao ápice da adolescência.

Falo de um lugar privilegiado, de quem pôde ficar em casa e não viu nenhum ente querido se somar aos mais de 700 mil mortos pela pandemia. Mas foi nesse período que emergiu uma grande questão: “o que eu vou fazer da vida quando sair do colégio?”. Cada vez que alguém me perguntava “e aí? Já sabe o que vai prestar no vestibular?”, uma tela azul se acendia na minha cabeça e eu não tinha uma resposta para dar.

Os números mostram que eu não estava sozinho nessa. Uma pesquisa feita em 2022, feita com mais de 2 mil jovens brasileiros, em maio de 2021, por uma empresa de treinamento, a CMOV – Construindo Carreiras, constatou que 82% dos entrevistados não sabiam ou tinham dúvidas do que fazer profissionalmente. O relatório apontava um possível fator “consequência, ou não, da pandemia, em que esses alunos ficaram mais um ano e meio longe das salas de aulas presenciais”.

Pelo menos uma vez no mês, a equipe do Conexão Ciência – C² se junta para olhar o que você aí, atrás da tela, está clicando e consumindo no universo do Conexão. No mês de setembro, de todos os nossos acessos, a maior parte dos cliques veio de pessoas de 18 a 24 anos. Justamente, o grupo que a CMOV entrevistou naquele período e a idade que eu tinha em 2020 e que meus colegas da mesma idade dividíamos esse sentimento de incerteza.

É comum que o “futuro” cause ansiedade, ainda mais quando colocamos ao lado dessa sentença a palavra “profissional”. Essa inquietação pode ser potencializada por diversas questões: familiares, por histórico de carreiras próximas, pelos amigos ou até pelo próprio mercado.

Para entender melhor sobre o assunto, o C² foi até a Unidade de Psicologia Aplicada, da Universidade Estadual de Maringá (UPA/UEM), para falar com o professor Marco Antônio Rotta Teixeira, que coordena o programa contínuo de Orientação Profissional em Clínica do Trabalho. Ele tem pesquisas voltadas para a constituição das Subjetividades contemporâneas, Psicanálise e Trabalho na Sociedade Contemporânea.

Uma escolha da modernidade

Nosso papo começou com uma pergunta que, talvez, seja a primeira a surgir quando essa decisão parece ser algo muito distante: “por que é tão difícil escolher uma profissão hoje em dia?”. E a primeira resposta foi: “eu não sei se algum dia já foi fácil”.

Na imagem, o professor Marco Rotta está em pé, de frente para a câmera, em um ambiente interno com uma parede de ripas de madeira ao fundo. Ele tem barba cheia e cabelo preso para trás. Usa uma camisa clara, de tecido leve, com botões e mangas dobradas, deixando transparecer parte de uma camiseta escura por baixo. Suas mãos estão dentro dos bolsos de uma calça de tom neutro. Ambos os braços são tatuados com desenhos coloridos e detalhados.
O professor Marco Antônio Rotta Teixeira, da UEM (Foto/Arquivo pessoal)

Teixeira continuou explicando que “a ideia de escolha da profissão é uma coisa da modernidade a partir do momento em que houve contato com as universidades, faculdade”. E ressaltou que uma profissão como escolha é um privilégio das classes mais favorecidas e que está envolta em diversas influências como idealizações; questões sociais, culturais e demandas. Diante disso, o professor chamou atenção para um aspecto: “eu não chamaria de escolha de profissão, chamaria de escolha ocupacional”. 

Segundo ele, a ideia de que todos precisam trabalhar oito horas por dia, de segunda a sexta, e que o valor de uma pessoa está na profissão que ela exerce, é algo relativamente recente na história humana. “Antes disso, as pessoas exerciam atividades de sobrevivência, caçavam, plantavam, trocavam bens, mas não existia esse conceito de ‘carreira’. O trabalho como obrigação e identidade é uma invenção moderna, ligada ao avanço do capitalismo”, explica.

Essa reflexão é o ponto de partida do serviço que ele criou na Clínica de Psicologia da UEM. O programa de Orientação Profissional em Clínica do Trabalho surgiu de uma insatisfação do professor com a forma tradicional de se fazer psicologia do trabalho dentro das empresas. No início de sua carreira docente, ele acompanhava alunos em estágios dentro de organizações e percebeu que esperavam que a psicologia servisse apenas para avaliar o desempenho dos funcionários, dizendo quem era “bom” ou “ruim”.

A imagem mostra a fachada da Unidade de Psicologia Aplicada da UEM. Na parte superior da entrada há uma placa com o texto “Universidade Estadual de Maringá – Unidade de Psicologia Aplicada”. A construção é térrea, de formato retangular, com paredes claras e janelas alinhadas horizontalmente no lado esquerdo. As janelas possuem grades metálicas e, abaixo de algumas delas, há aparelhos de ar-condicionado fixados na parede externa. À direita da entrada principal existe uma porta com o número 1690 sinalizado. Em frente ao prédio, junto à parede, há dois bancos de metal posicionados lado a lado e uma cadeira isolada perto da porta de entrada. A porta é protegida por uma grade metálica clara, semelhante às grades das janelas. O chão externo é pavimentado com concreto e há uma faixa de grama na lateral esquerda da imagem. Na parte superior do enquadramento, galhos e folhas de uma árvore aparecem, ocupando grande parte do topo da fotografia, criando uma moldura natural sobre o prédio. Uma pessoa aparece ao fundo, no lado esquerdo, próxima à parede, mas não é possível ver detalhes de seu rosto ou vestimenta.
Unidade de Psicologia Aplicada da UEM, onde o Projeto do Professor Rotta é ofertado (Foto/ASC-UEM)

A partir dessa percepção, Rotta decidiu transformar o estágio em um espaço de acolhimento psicológico voltado às questões do trabalho e das escolhas ocupacionais. O serviço, que hoje já tem mais de oito anos de existência, oferece atendimentos individuais e em grupo, realizados por alunos do último ano de Psicologia, sob sua supervisão. O foco é ajudar todas as pessoas, não só adolescentes e jovens mas também adultos a refletirem sobre seu lugar no mundo do trabalho e sobre o que de fato dá sentido à sua vida profissional.

Uma escolha de uma vida ou para a vida?

Para o professor, a chamada “escolha de profissão” é, na verdade, um processo de construção contínua, que dura a vida inteira. E mais: ela é atravessada por fatores sociais, econômicos, culturais e inconscientes. “Não existe um dom natural, uma profissão que ‘nasceu para você’. O que existe é uma relação que você constrói com a ocupação ao longo da vida. E essa relação muda, amadurece, se transforma conforme as experiências e as condições que você tem”, afirma Rotta.

Essa visão contrasta com a lógica das orientações profissionais tradicionais, muito comuns em escolas ou consultórios particulares. Em geral, esses serviços aplicam testes vocacionais e indicam profissões compatíveis com o perfil do participante. No caso da Clínica do Trabalho, o método é outro: não há testes, nem respostas prontas. Em vez disso, os encontros se estruturam como um processo em que o participante fala sobre sua história, seus desejos, suas limitações e seus medos. Por meio disso e com o tempo, começa a compreender o que realmente o motiva e o que o impede de seguir determinados caminhos.

O professor conta que o objetivo não é apontar o curso certo, mas ajudar a pessoa a entender porque certas escolhas parecem impossíveis. Às vezes, há pressões familiares muito fortes, expectativas sociais ou, até, a falta de condições concretas para seguir um sonho. “Quando a pessoa entende essas forças, ela ganha liberdade para construir um caminho mais realista e, ao mesmo tempo, mais autêntico”, explica Rotta.

A imagem apresenta um cartaz com o título “O que considerar na hora de escolher uma profissão”. O fundo é bege com detalhes em vermelho. O conteúdo traz orientações: olhar para a própria realidade (condições e possibilidades), questionar idealizações (nem tudo que dá status traz satisfação), conversar com pessoas da área (experiência real ajuda), escutar desejos e medos, e procurar apoio profissional (psicólogos e orientadores auxiliam na escolha). No rodapé: “© Conexão Ciência | Arte: Any Veronezi”.

O serviço recebe um público bastante variado. Embora muitos adolescentes busquem ajuda no período de vestibular, há também adultos em crise com o trabalho, desempregados ou profissionais frustrados com suas carreiras. Alguns procuram a clínica depois de anos atuando em áreas que nunca desejaram estar. Outros chegam deprimidos, cansados ou sem esperança de encontrar um novo rumo. “Tem gente que queria fazer Artes Visuais e acabou em Contabilidade. Ou que sonhava em ser músico e virou bancário. Essas histórias são muito comuns. As pessoas são empurradas para o que parece mais seguro, mas isso nem sempre garante satisfação ou estabilidade”, diz o professor.

Para Rotta, essa angústia está diretamente ligada às mentiras da meritocracia e à forma como as redes sociais e a cultura do empreendedorismo moldam nossos desejos. “Vivemos em uma época em que nos dizem que basta se esforçar para conseguir o que quiser. Mas não é bem assim. O esforço individual não compensa as desigualdades sociais e econômicas. E isso cria um sofrimento enorme, porque quem não consegue se realizar se culpa, como se o problema fosse falta de mérito, quando, na verdade, o problema é estrutural”, observa.

Além de atender à comunidade, o projeto tem um papel importante na formação dos futuros psicólogos. Os alunos do quinto ano, que conduzem os atendimentos sob supervisão, passam por um intenso aprendizado técnico e humano. “Eles saem do estágio muito mais preparados para lidar com pessoas, porque aqui o atendimento é real. É um trabalho psicoterapêutico verdadeiro, com impacto direto na vida dos pacientes. Eles aprendem a escutar, a pensar criticamente sobre o papel social da psicologia e a compreender o sofrimento humano em profundidade”, explica.

Rotta também destaca que o estágio ajuda os próprios estudantes a repensarem suas trajetórias. “O fim da graduação é um momento de muita ansiedade. Os alunos percebem que a faculdade não prepara completamente ninguém para o mercado. Nenhum curso forma um profissional pronto. A formação é contínua, e a ocupação é uma construção que nunca termina”, afirma o professor.

Durante a pandemia, enquanto eu passava noites em claro pensando em qual carreira ia seguir, o serviço passou por adaptações e passou a oferecer atendimentos on-line. Isso permitiu ampliar o alcance para outras cidades da região de Maringá e atender pessoas que, antes, não conseguiam se deslocar até a universidade. “Foi uma experiência nova e muito positiva. Muita gente de fora pôde participar pela primeira vez, e isso reforçou o caráter comunitário do serviço”, conta Rotta.

Apesar de toda a seriedade com que trata o tema, o professor não deixa de reconhecer que o processo de escolha é, por natureza, angustiante. “Escolher significa renunciar. Quando você escolhe um caminho, está deixando outros de lado. Essa renúncia gera angústia, e é preciso aprender a tolerá-la. A escolha profissional não deve ser um fardo, mas um espaço de autoconhecimento e reflexão”, diz Marco Antônio.

Tolerar o angustiante

Ao ser perguntado que conselho daria a um jovem em dúvida sobre o futuro, Rotta sorri e responde: “eu não dou conselhos. Nenhum conselho serve para todo mundo. O que eu posso dizer é: tolere a angústia, ela faz parte da vida. E se conheça. Converse com pessoas, leia, observe, pergunte, viva. O autoconhecimento não é introspectivo, ele acontece nas relações, nas trocas, na convivência.”

Para ele, o maior desafio contemporâneo é resgatar o sentido humano do trabalho, que foi se perdendo em meio à lógica da produtividade e do sucesso. “O que tento fazer na clínica é justamente o contrário do que a sociedade faz: em vez de acelerar, parar. Em vez de prometer sucesso, propor reflexão. Porque o trabalho não é só sobre produzir, é sobre existir no mundo”, conclui Marco.

O Serviço de Orientação Profissional em Clínica do Trabalho que esteve suspenso no último ano deve retomar suas atividades no próximo semestre, com inscrições abertas pelo site da UEM. De acordo com o professor, o atendimento deve continuar gratuito e voltado tanto a adolescentes quanto a adultos que desejam repensar sua trajetória profissional.

Hoje é 2025, e eu tô no terceiro ano do curso de Comunicação e Multimeios da Universidade Estadual de Maringá.

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Texto:
João Luiz Lazaretti e Maysa Ribeiro Macedo
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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