O sorriso de um atleta faz diferença na performance?

A imagem apresenta uma composição artística. No centro, há a figura de uma mulher correndo, em tom sépia, com trajes esportivos. Ela está posicionada dentro de uma grande boca aberta, cujos dentes brancos ocupam as bordas superior e inferior da imagem. O fundo é composto por um céu alaranjado com nuvens, em tons quentes e texturas que remetem a colagens e pinceladas. No canto inferior direito, lê-se: “© Conexão Ciência | Arte: Camila Lozecky”.
Pesquisadora da UEM é premiada em Congresso de Odontologia do Esporte na USP

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Algumas das imagens mais marcantes do esporte são dos atletas na reta final de suas competições ou logo após uma prova ou torneio desafiador. É comum ver os competidores felizes mordendo medalhas ou beijando os troféus conquistados nos pódios. 

Além disso, todo mundo lembra de uma fotografia do seu jogador de futebol favorito sorrindo enquanto comemorava um gol ou daquele atleta olímpico comemorando um novo recorde alcançado. 

Quando se trata da prática esportiva amadora, não é diferente: pessoas felizes ao completarem provas de corrida de rua em suas cidades, amigos celebrando a vitória do campeonato de futsal no fim de semana ou aquele grupo de atletas felizes no jogo de basquete universitário.

A imagem mostra uma atleta brasileira sorrindo enquanto morde uma medalha dourada. Ela veste um agasalho azul-marinho com o escudo do Brasil e o logo das Olimpíadas de Paris 2024. A cena simboliza celebração e conquista esportiva.
Ginasta brasileira Rebeca Andrade conquista a medalha de ouro na final do solo nas Olimpíadas de Paris 2024 (Foto/Reprodução)

Todas essas cenas têm algo em comum: uma feição marcada por um sorriso ou um grito de comemoração. Mas por trás dessa alegria, existe uma parte do corpo que, muitas vezes, é negligenciada no mundo esportivo: a boca. 

Você sabia que dores no dente, cáries, bruxismo ou lesões bucais podem afetar diretamente no rendimento, concentração, respiração e saúde de atletas? E é nesse cenário que o profissional da odontologia do esporte se mostra tão fundamental. 

Odontologia do esporte: um recurso para atletas de elite?

A odontologia do esporte é uma especialidade que foi reconhecida pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) em 2015 e se configura como a área responsável pela prevenção, acompanhamento, tratamento e reabilitação de atletas. 

O termo ‘atletas’ é no geral mesmo e nisso está o detalhe mais importante: ela é fundamental para todos os atletas, sejam eles profissionais ou amadores. O objetivo da especialidade é focar em cuidar da saúde bucal desses indivíduos e contribuir para o desempenho físico e performance.

Esse cuidado se expande para diferentes questões como o uso de protetores bucais, tratamento de cáries, lesões ou fraturas decorrentes de esportes de impacto, apertamento excessivos dos dentes devido ao estresse e cuidado em relação à maior ingestão de açúcares e carboidratos pela suplementação, por exemplo. 

A imagem é um infográfico com fundo vermelho e título em destaque: “Géis de Carboidrato & Bebidas Isotônicas – Quais os riscos para a saúde bucal?”. À esquerda, há ilustrações de uma boca aberta e duas garrafas (uma roxa e uma laranja). Ao centro, uma imagem de dente com parte escurecida simbolizando cárie. Textos informativos explicam que a produção de saliva diminui com esforço físico intenso, favorecendo a ação de bactérias. Bebidas isotônicas e géis contêm carboidratos simples e pH ácido; o açúcar e o ácido prolongados na boca aumentam o risco de erosão dentária e cáries. À direita, destacam-se os principais riscos: cáries de rápida evolução, desgaste do esmalte, sensibilidade e inflamações gengivais. Abaixo, seguem dicas para a saúde bucal: enxaguar a boca com água após o consumo, evitar escovação imediata após ingerir produtos ácidos (esperar 30 minutos) e visitar regularmente o dentista do esporte. Arte creditada a Camila Lozeckyi e produção pelo Conexão Ciência.

No contexto dos atletas profissionais, que normalmente integram clubes de treinamento, o profissional da odontologia faz parte de uma equipe esportiva multidisciplinar, junto de profissionais da educação física, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas. 

Além disso, o profissional cirurgião-dentista do esporte precisa ter conhecimento vasto em relação às regras e normas da Agência Mundial Antidoping (WADA) no que diz respeito à medicamentos e substâncias nos esportes de alto rendimento, prescrevendo e tratando os pacientes de acordo com as normativas.

O contexto dos atletas universitários

Foi por intermédio de um professor que a pesquisadora e graduanda em Odontologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Sofia Frandoloso, conheceu a odontologia do esporte.

Sofia, além de estar no último ano da graduação, também participa do projeto Atletismo da UEM há três anos e foi o coordenador do projeto, Jeferson Rojo, quem introduziu o tema para a atleta.

Apaixonada por corrida e pela área da odontologia, foi durante uma conversa com o professor de Educação Física que surgiu a ideia para a pesquisa. “Na universidade mesmo eu não tinha ouvido falar sobre essa especialidade e, depois da conversa, eu descobri um mundo à parte e veio a ideia de realizar essa pesquisa”, conta.

A imagem mostra uma corrida ao ar livre em uma estrada asfaltada no campo, sob céu azul. Em destaque, um homem e uma mulher correm lado a lado usando roupas esportivas e números de identificação. A mulher sorri e usa óculos espelhados. Ao fundo, outros corredores seguem o trajeto.
Sofia Frandoloso e o professor Jeferson Rojo em uma prova de corrida de rua (Foto/Arquivo pessoal)

O professor comenta que “é um desafio, porque eu sou da educação física e ela da odontologia, então eu oriento a parte metodológica da pesquisa para produzirmos o material, mas a parte do conhecimento sobre a odontologia parte dela, então é uma troca riquíssima”.

A pesquisa de Sofia teve como objetivo compreender o nível de conhecimento dos atletas universitários, pegando uma amostra do Atletismo da UEM, sobre a especialidade da odontologia voltada para o esporte.

“Busquei pesquisar o que eles já sabiam, se sabiam alguma coisa e qual a importância eles dão para a odontologia do esporte… Se eles consideram importante e se é algo que faz parte da rotina deles ou não”, explica a graduanda.

Com base em artigos e outras pesquisas, Sofia e seu orientador Jeferson criaram um formulário específico para o contexto de atletas universitários e a pesquisadora aplicou na amostra de alunos do grupo de atletismo.

A imagem é um infográfico com fundo bege que apresenta os resultados de uma pesquisa sobre o conhecimento em odontologia esportiva entre atletas de um projeto de atletismo. Ao todo, 34 atletas responderam à pesquisa. À esquerda, um dente branco exibe que nenhum dos atletas conhece um profissional da odontologia esportiva, com 100% das respostas indicando desconhecimento. Ao centro, outro dente mostra que 55,88% dos participantes acreditam que o acompanhamento odontológico é relevante apenas para atletas de alto rendimento ou profissionais, enquanto 44,11% consideram que é importante para todos os níveis. À direita, dois dentes representam o desconhecimento sobre os impactos dos géis de carboidrato e das bebidas isotônicas na saúde bucal. Apenas 5,88% dos atletas sabem que géis de carboidrato podem causar danos, enquanto 88,23% desconhecem esse risco. Quanto às bebidas isotônicas, 11,76% disseram saber dos impactos, 14,70% talvez saibam e 73,52% não sabem. Em destaque no infográfico, há frases informativas apontando que nenhum atleta conhece um profissional da área e que a maioria não tem conhecimento sobre os efeitos dessas substâncias na saúde bucal. A arte é assinada por Camila Lozekyi e vinculada ao Conexão Ciência.

De acordo com a pesquisadora, os resultados da pesquisa foram impactantes: “A gente já esperava que o conhecimento não fosse muito grande, mas foi um choque, porque, por exemplo, nenhum deles conhece nenhum dentista do esporte, nenhum deles fazia acompanhamento… Ainda, a maioria deles utilizava algum tipo de suplementação, mas não sabia nenhum impacto que ela podia causar na boca”.

Mais da metade dos atletas universitários ainda respondeu que pensava que a especialidade é específica apenas para atletas de elite, mostrando o déficit informacional entre esses indivíduos.

Protetores bucais e celebrações

No final do ano de 2024, Sofia pôde apresentar o trabalho no 2º Congresso Internacional de Odontologia do Esporte da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte (Abroe), que aconteceu na Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa ‘Avaliação do conhecimento em odontologia esportiva entre atletas de um projeto de atletismo’, desenvolvido por Sofia foi premiada no congresso. 

“Foi uma oportunidade muito especial porque é uma parte da odontologia que eu queria muito falar e lá só falavam sobre isso. Eu fui muito incentivada pelo meu orientador, o Jeferson. Lá eu pude aprender muito sobre a especialidade, vendo outros trabalhos e tendo  oportunidade de mostrar o que fiz […] Só de estar lá eu já estava realizada e a premiação foi uma surpresa muito feliz”, explica Sofia.

O orientador comenta que “a notícia da premiação do projeto da Sofia para nós é riquíssima e um sinal de que o que nós estamos tentando fazer está dando certo. E, além de ser uma premiação reconhecida pela comunidade da odontologia do esporte, é uma alegria mostrar para a Sofia que as escolhas dela estão dando frutos”.

  • A imagem mostra uma jovem sorridente, em pé sobre um palco, segurando um certificado. Ao fundo, há uma grande tela de projeção com o título do evento: "2º Congresso Internacional de Odontologia do Esporte ABROE 2024". A tela também informa que ela, junto com Jeferson Roberto Rojo, conquistou o 1º lugar na categoria Graduação com o trabalho intitulado: "Avaliação do conhecimento em odontologia esportiva entre atletas de um projeto de atletismo". A jovem aparenta estar feliz com a conquista, vestindo calça clara e colete preto. O ambiente é uma sala de conferências, com cadeiras à frente do palco.
  • A imagem mostra uma jovem apresentando um trabalho acadêmico em um congresso. Ela está em pé ao lado de um telão que exibe o título da pesquisa: “Avaliação do conhecimento em odontologia esportiva entre atletas de um projeto de atletismo”. O público assiste atentamente, sentado em cadeiras de auditório. A apresentação ocorre durante o 2º Congresso Internacional de Odontologia do Esporte.

O professor ainda comenta que o grupo irá participar dos Jogos Universitários Paranaenses (JUPS) e que Sofia vai apresentar outro trabalho sobre a especialidade no JUPS Acadêmico.

Agora, na reta final da graduação, Sofia está realizando uma pesquisa também dentro da odontologia esportiva. A graduanda explica que o seu trabalho de conclusão de curso (TCC) aborda o uso de protetores bucais.

Para o trabalho, a pesquisadora fez amostras dos protetores bucais e, com ajuda de atletas universitários também do Atletismo da UEM, está testando esses protetores para entender como os atletas se sentem usando e se ele impacta na performance.

Projeto de Atletismo da UEM

O Atletismo da UEM é um projeto idealizado em 2022 pelo professor do Departamento de Educação Física, Jeferson Rojo, que atua como coordenador. As atividades integram o Núcleo de Atividade Física e Esporte da UEM (NAUEM) e a iniciativa tem como objetivo oferecer tanto a iniciação quanto a prática do atletismo para a comunidade universitária.

“O sentimento que eu tenho é gratidão. O projeto, para além da prática esportiva, oferece um amparo para que as pessoas possam se sentir confortáveis e seguras em um lugar […] Antes da competição, é ter vivência, ter companheirismo e experiências com as pessoas de diversos cursos e isso é uma troca riquíssima”, explica o coordenador.

Os discentes encontram diferentes modalidades do atletismo: corridas rasas (de 100m, 200m e 400m), corridas de meio-fundo e fundo (800m, 1500m), corridas com barreiras, corridas com obstáculos, revezamentos, salto em altura, salto com vara, salto em distância, salto triplo e arremessos.

De acordo com o coordenador, o projeto oferece as modalidades do atletismo de acordo com o desejo dos alunos, com intenção de alinhar o trabalho oferecido pelo projeto com o que o aluno deseja praticar.

  • A imagem mostra um grande grupo de atletas universitários posando para uma foto de comemoração, muitos usando medalhas no pescoço e segurando troféus. Eles vestem uniformes pretos com o logotipo do Atletismo UEM da Universidade Estadual de Maringá. À frente, dois banners destacam o nome da UEM e o símbolo do grupo de atletismo. Ao fundo, é possível ver uma bandeira do Brasil. O cenário é um ambiente esportivo ao ar livre, possivelmente após uma competição de atletismo.
  • A imagem mostra um grupo de estudantes-atletas da Universidade Estadual de Maringá (UEM) reunidos em uma pista de atletismo, celebrando suas conquistas. Muitos deles exibem medalhas no pescoço e troféus à frente. O grupo segura duas bandeiras: uma com o logotipo do atletismo UEM e outra com o nome da UEM e a cidade Maringá-PR. O clima é de comemoração e união, com sorrisos e poses descontraídas ao final de uma competição esportiva. Ao fundo, é possível ver uma área verde e estruturas esportivas.

O projeto, agora no seu quarto ano, já levou atletas para diversas provas de corrida de rua e competições de atletismo, como o Torneio da Federação Paraná de Atletismo e o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, da Confederação Brasileira de Atletismo, o qual já conquistaram lugares no pódio por dois anos.

De acordo com Jeferson, é essencial poder proporcionar para os alunos essas vivências e experiências, que vão muito além das medalhas e troféus. “O aluno pode viver uma experiência que será significativa para a vida dela no futuro. Então, para além de dar a possibilidade de um aluno competir, às vezes, numa pista de alto nível, de padrão olímpico e poder ver atletas de alto rendimento, é a experiência de estar lá junto com os colegas”, reforça

Atualmente participam do projeto entre 25 a 30 alunos, de diferentes níveis, mas ao todo já passaram pelo projeto mais de 70 alunos da comunidade acadêmica da UEM. Os treinos acontecem todas às segundas, quartas e sextas, na pista de atletismo da UEM, das 17h30 às 19h30. 

A informação é sempre o primeiro passo

A pesquisa realizada pela graduanda Sofia Frandoloso evidencia, principalmente, como a lacuna informacional no que diz respeito a odontologia do esporte, traz prejuízos significativos para os atletas de diferentes modalidades esportivas, sejam eles amadores ou profissionais, impactando diretamente no rendimento. 

Sofia reforça como a informação ainda é muito escassa mesmo para os profissionais em formação no contexto universitário. De acordo com a estudante de Odontologia, não houve disciplinas sobre a especialidade ou ações interventivas para atletas universitários.

Dessa maneira, pesquisas como esta abrem o diálogo para a urgência da divulgação científica e de um trabalho conjunto de diferentes áreas como pesquisadores e divulgadores científicos, cirurgiões-dentistas, treinadores e profissionais da educação física, em apresentar a temática e conscientizar aqueles que praticam esportes regularmente. 

Além disso, reforça a maneira como a extensão e a pesquisa no contexto universitário estão diretamente ligados. O projeto de atletismo da UEM, além de treinar e orientar novos atletas, proporciona um ambiente rico para pesquisadores, sejam eles os próprios atletas dos diferentes cursos de graduação ou alunos de fora do projeto que se valem do grupo para aplicar pesquisas e coletar dados.

Nessa corrida, a informação é sempre o primeiro passo e um atleta sorrindo com uma medalha no peito requer uma saúde bucal em dia.

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Texto:
Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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