Olho no olho: enxergando a saúde dentro das escolas

Ilustração vibrante com cores fortes como azul, laranja, rosa e vermelho. Ao centro, há um rosto estilizado com olhos expressivos e cabelo azul. À esquerda, uma tabela oftalmológica com letras coloridas. Vários olhos aparecem espalhados pela imagem, incluindo um grande no topo da cabeça e outros menores na parte inferior. O fundo é formado por padrões geométricos e olhos estilizados. A arte é assinada por Any Veronezi para o Conexão Ciência.
O projeto tem o objetivo de oferecer exames oftalmológicos para crianças da Educação Infantil

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Desde muito novinha sempre fui muito curiosa, perguntando sobre tudo para os meus pais e querendo entender as coisas do mundo. Acho que por isso, eles viram na leitura uma forma de alimentar esse meu desejo de descobrir – e eu amava ler meus livrinhos! Quando entrei na escola, aos 5 anos, não achei ruim, porque me divertia com o que estava aprendendo. Mas, apenas um ano depois, ainda no Pré III, minha curiosidade foi se perdendo e minha dificuldade de aprender foi aumentando.

A minha professora foi a primeira pessoa a notar e avisou meus pais que algo estava errado. Ela indicou que me levassem ao oftalmologista, porque suspeitava que meu desinteresse – especialmente na leitura – estava associado ao fato de eu estar com dificuldade de enxergar os textos e as atividades. Assim como ela, você pode ficar atento a alguns sinais que podem indicar algum problema de vista logo na infância.

imagem colorida e vibrante, com fundo composto por formas abstratas em laranja, rosa, azul e branco. Há dois olhos desenhados no estilo cartunesco, um no canto superior direito e outro no canto inferior direito. Ambos têm cílios longos e uma lágrima escorrendo, sugerindo irritação ocular. No centro da imagem, um título em letras pretas, grandes e legíveis diz: "Sintomas que podem indicar doenças oftalmológicas". Logo abaixo, há uma lista vertical de sintomas comuns que podem sinalizar problemas de visão. Cada item aparece dentro de uma caixinha branca contornada de azul, como se fosse destacado ou sublinhado. A leitura dos sintomas segue esta ordem: Lacrimejamento; Olho vermelho; Secreção; Crostas nos cílios; Ver com os olhos semicerrados; Inclinação de cabeça; Visão embaçada; Sensibilidade excessiva à luz; Dores de cabeça; Visão dupla; Desvio ocular; Alterações pupilares. Ao final da imagem, no canto inferior esquerdo, estão os créditos: "Conexão Ciência | Arte: Any Veronezi"

Dito e feito! Após uma consulta com o oftalmologista, fui diagnosticada com miopia e astigmatismo, fazendo com que os óculos de grau sejam meus fiéis companheiros até hoje, mais de 20 anos depois! E estou longe de ser um caso raro, afinal, problemas oculares na infância são super comuns e devem ser investigados desde cedo. 

Tendo em vista que milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com problemas de vista, a Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu o Dia Mundial da Saúde Ocular, celebrado em 10 de julho, com o fim de alertar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico de doenças oculares que, se não tratadas, podem levar à perda da visão.

As principais doenças oculares acompanhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil são: erros de refração (miopia, astigmatismo e hipermetropia), catarata, glaucoma e doenças da retina (retinopatia diabética, retinopatia da prematuridade e degeneração macular relacionada à idade).

Se eu tivesse participado de algum projeto como o “Olho no Olho”, talvez tivesse evitado muito antes de passar por alguns meses ‘dificultosos’ na escola. Isso porque a iniciativa, aplicada na educação infantil da rede municipal de Bandeirantes, no norte do Paraná, tem o objetivo de identificar problemas de acuidade visual, ou seja, a nitidez com que enxergamos e a habilidade de ver detalhes com clareza a diferentes distâncias. Algo que pode interferir diretamente no processo de ensino e aprendizagem de qualquer criança. 

Um grupo de oito mulheres posa para uma foto em uma sala. Algumas delas estão vestindo jalecos brancos, pois são enfermeiras. Outras estão com roupas casuais e crachás. O ambiente tem cadeiras, mesas e armários.
Participantes do Projeto Olho no Olho (Foto/Arquivo pessoal)

O projeto é desenvolvido em parceria entre a Prefeitura de Bandeirantes, por meio da Secretaria de Saúde, e a Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), com o curso de Enfermagem, fazendo parte do Programa Saúde na Escola (PSE). O programa foi instituído em 2007, pelo Decreto Presidencial nº 6.286, sendo uma estratégia intersetorial dos Ministérios da Saúde e da Educação. O objetivo é contribuir para o pleno desenvolvimento dos estudantes da rede pública de ensino da educação básica, ou seja, incluindo a Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, além do Ensino de Jovens e Adultos.

Assim, integrando saúde e educação, o PSE é capaz de contribuir para o desenvolvimento da cidadania e da qualificação das políticas públicas brasileiras. O “Olho no Olho” é um excelente exemplo dessa prática bem sucedida,  que já passou por todas as escolas rurais e municipais de Bandeirantes, e quase todas as estaduais.

A enfermeira e responsável pelos dados do projeto, Susan Carla Polizel Menegasso, conta que, em média, 150 crianças são atendidas em cada uma das escolas visitadas. Elas passam por um exame básico de vista, para identificação de algum possível problema e, caso algo seja detectado, são encaminhadas para um médico especialista. 

Mas como é esse exame básico?

Bom, ele consiste na medição da acuidade visual, com a utilização da Tabela de Snellen, desenvolvida pelo oftalmologista holandês Herman Snellen, em 1862. É aquele clássico procedimento de ler algumas letrinhas que estão distantes do seu olho.

imagem com fundo colorido, cheio de padrões com olhos em diferentes formas e cores — como se fossem círculos decorativos que lembram ícones visuais. No topo, está o título: "Exame básico de vista".A imagem se divide em duas partes principais, com setas verdes mostrando o caminho da explicação. Um retângulo azul traz a palavra "Procedimento". Logo abaixo, a instrução: "Cobrir um olho de cada vez e ler cada linha separadamente." Outro retângulo azul traz a palavra "Resultado". Em seguida, o texto explica: "A menor linha lida com precisão indica a acuidade visual, expressa como uma fração (como 20/20 ou 20/40)." Depois, há três explicações: "O primeiro número indica a distância entre o paciente e a tabela."; "O segundo número indica a distância que uma pessoa sem problemas de vista enxergaria a mesma linha."; e "Uma visão 'normal' é geralmente considerada 20/20." Na parte inferior esquerda, há uma ilustração de um oftalmologista, indicando uma Tabela de Snellen, onde aparecem letras em tamanhos decrescentes. A letra maior no topo é um "E" azul. No chão, uma linha azul marca a distância ideal para o exame: 6 metros ou 20 pés. Na parte inferior direita, uma criança aparece fazendo o teste, cobrindo o olho. No canto direito da imagem, em pé vertical, estão os créditos: "© Conexão Ciência | Arte: Any Veronezi"

Descobrir desde cedo possíveis problemas oculares, colabora diretamente com o sucesso escolar das crianças. Além delas não se sentirem desconfortáveis na escolinha ou diferentes dos coleguinhas, também terão menos dificuldades de aprendizado, garantindo um desenvolvimento saudável, prevenindo a progressão de doenças oculares e melhorando a qualidade de vida dos pequenos.

Uma mulher com jaleco branco está em frente a uma lousa em uma sala de aula. Ela está apontando para uma tabela de acuidade visual (tabela optométrica com a letra "E" em diferentes tamanhos e orientações), pois está realizando um teste de visão. Ela também usa um laço rosa preso ao jaleco, símbolo da campanha de prevenção ao câncer de mama (Outubro Rosa).
Aplicação do exame de acuidade visual com a Tabela de Snellen (Foto/Arquivo pessoal)

“A formação do sistema visual nos seres humanos se completa na adolescência, por isso é importante diagnosticar qualquer alteração logo na infância, caso contrário o paciente pode ficar com sequelas irreversíveis ao longo da vida”, afirma o médico oftalmologista e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Alessander Tsuneto.

Após o exame básico de vista promovido pelo projeto “Olho no Olho”, a depender do resultado, o encaminhamento para um oftalmologista é imprescindível, pois permite um acompanhamento mais aprofundado e com a possibilidade da realização de exames mais complexos.

A mesma mulher da imagem anterior está conduzindo o teste de visão com crianças em uma sala de aula. Em primeiro plano, uma criança segura um instrumento com a letra “E” (usado para indicar a direção da letra na tabela), enquanto a profissional aponta para a tabela na parede. A sala tem carteiras escolares, lousa de giz e pôsteres coloridos.
Aplicação do exame de acuidade visual com a Tabela de Snellen (Foto/Arquivo pessoal)

A maioria das crianças atendidas pela iniciativa não tem condições financeiras de arcar com esses procedimentos, dessa forma, o projeto viabiliza um cuidado fundamental com a saúde desses alunos. Tsuneto conta que, em uma consulta mais direcionada com o médico, é possível que ele prescreva desde um simples óculos, ou até mesmo chegue a indicar uma cirurgia de catarata ou de estrabismo.

E é por isso que projetos como o “Olho no Olho” e dias de conscientização como o Dia Mundial da Saúde Ocular são tão importantes. Afinal, eles podem mudar todo o desenvolvimento de uma pessoa, alcançando desde as raízes do seu aprendizado até o fim da vida.

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Maria Eduarda Tenório Calvi
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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