Por que a Idade Média ainda importa?

A imagem mostra uma ilustração em estilo medieval com tons sépia. Ao centro, há uma figura de armadura com elmo e escudo, rodeada por espadas apontadas em sua direção. À frente, uma grande mesa redonda está coberta por livros, papéis e mais espadas cravadas ou apoiadas sobre ela. O fundo contém detalhes ornamentais circulares, com raios de luz que convergem para o centro, criando um clima solene e simbólico.
Grupo da UEM resgata saberes clássicos para pensar os desafios do presente e o impacto das tecnologias na formação humana

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Você já parou para pensar por que a universidade existe? Por que usamos diplomas, fazemos pesquisas, nos reunimos em congressos e debatemos ideias? A maioria dessas práticas, e até mesmo instituições como o Estado, os bancos e a escola, têm raízes na Idade Média.

Muitas vezes, ao pensarmos neste período da história, somos transportados para um imaginário de castelos, cavaleiros e lendas, um período distante e, para alguns, até irrelevante para a complexidade do mundo contemporâneo. Mas não é bem assim, afinal, como é possível explicar o presente sem entender o passado? Como educar para o futuro sem reconhecer as heranças que moldaram nossas instituições, ideias e modos de pensar?

O Paraná, com sua intensa atividade acadêmica, nos convida a conhecer melhor esse período tão interessante da história. Na Universidade Estadual de Maringá, a UEM, um Grupo de Estudos se dedica a mostrar justamente que conhecer o passado é fundamental para compreender o presente e transformar o futuro.

O Grupo de Estudos e Pesquisa em Transformações Sociais e Educação nas Épocas Antiga e Medieval, o Getseam, é um dos mais antigos grupos da UEM, e em 2025 chega às bodas de prata, completando 25 anos. Mas, se considerarmos a criação primária do Grupo, a trajetória se estende por impressionantes 35 anos. 

A jornada do Getseam começa na década de 90, quando a professora Lizia Helena Nagel, então docente na UEM, hoje aposentada, criou uma iniciativa voltada ao estudo dos clássicos, com o objetivo de proporcionar uma base sólida para compreender as estruturas históricas e políticas que nos cercam.

Desde o ano 2000, quem coordena o Grupo é Terezinha Oliveira, doutora em História e docente na UEM. A professora acompanha de perto o crescimento do Grupo de Estudos, que já formou centenas de pesquisadores e continua ampliando sua atuação dentro e fora da universidade.

A imagem mostra a professora Terezinha Oliveira, coordenadora do Getseam. Ela está posicionada de frente, do busto para cima, diante de um fundo branco liso. Terezinha tem pele clara, cabelos cacheados e volumosos na altura dos ombros, em tom avermelhado. Ela usa uma blusa bege com decote em "V" por cima de uma peça branca e um colar delicado com pingentes verdes e dourados. Seu semblante é sereno, com um leve sorriso nos lábios. A iluminação é suave e natural, realçando seus traços com nitidez.
Terezinha de Oliveira, coordenadora do Getseam (Foto/Arquivo pessoal)

O Getseam, atualmente, conta com mais de 300 trabalhos de pesquisa concluídos, incluindo iniciações científicas, mestrados e doutorados. Os projetos são desenvolvidos em diálogo constante com cada integrante, pois os trabalhos passam pelo olhar atento de outros membros do Grupo. Essa horizontalidade fortalece o vínculo entre teoria e prática, incentivando a autonomia intelectual e o pensamento crítico desde as primeiras etapas da formação superior.

A interdisciplinaridade é uma marca registrada do Grupo, e se traduz em uma produção diversificada, que abrange diferentes campos das humanidades, como a história da antiguidade e da Idade Média, histórias institucionais, estudos sobre intelectuais e a história das imagens. Tal abordagem enriquece as discussões, e como salienta Terezinha, torna as reuniões “bastante acaloradas” e produtivas. Inclusive, a família Getseam, ainda que baseada na UEM, não se limita ao território paranaense, há pesquisadores de todo o Brasil e até mesmo de outros países, como Argentina, Chile, Portugal e Espanha.

Atualmente, o Grupo se organiza em quatro linhas de pesquisa principais:

  • Educação e Atividade Humana nas Sociedades Antiga e Medieval: Usa fontes clássicas como ferramenta para investigar as relações existentes entre a educação e os acontecimentos históricos.
  • Imagem e Educação na Idade Média e Renascimento: Estuda a imagem como parte essencial do processo de aprender do indivíduo, dado que, a partir da imagem, seja ela material ou imaterial, é possível despertar a sensibilidade, estimular o pensamento abstrato e representar como as pessoas viam e entendiam o mundo em determinado período da história.
  • Instituições Sociais e Educação: Desenvolve atividades que se relacionam às diversas instituições sociais das épocas Antiga e Medieval, com especial atenção às Universidades Medievais e as Corporações de Ofício.
  • Intelectuais, Memória, História e Educação: investiga os princípios sociais, políticos e éticos que fundamentam a formação dos homens da Antiguidade e da Idade Média, por meio de estudos, análises e recuperação da memória de teóricos e intelectuais desses períodos.

Para além dos muros da universidade

Conhecimento tem que ser compartilhado, transcender as barreiras acadêmicas e se integrar aos saberes comuns, afinal, esse é um dos pilares de sustentação da universidade: a extensão do conhecimento acadêmico.

Diante disso, o Grupo também consolidou uma importante frente de extensão universitária.

Uma das iniciativas são oficinas realizadas em escolas da rede básica, em que alunos da graduação, por meio de maquetes do período medieval, materializam o conhecimento teórico aprendido na universidade e ensinam as crianças. Assim, o passado, nesse contexto, deixa de ser uma abstração distante e passa a fazer parte do presente dessas crianças.

Outro eixo da extensão envolve cursos temáticos ministrados por diferentes integrantes do Grupo. Os temas são diversos, há, por exemplo, o estudo da linguagem e subjetividade em São Tomás de Aquino, e até mesmo o estudo do tratado do amor, que aborda o papel do amor na vida social. Cada atividade é pensada para dialogar com a formação humana, respeitando a complexidade dos temas e, ao mesmo tempo, os tornando acessíveis a públicos diversos.

Esse esforço em estender o conhecimento para além dos muros da universidade não é apenas um complemento, mas um eixo estruturante do Getseam, pois o Grupo entende que produzir saber é também uma forma de exercer cidadania, e que, para isso, é preciso estimular a consciência histórica e o engajamento ético de cada pessoa em seu tempo e em seu contexto.

Expandindo o conhecimento

Para garantir a continuidade e o aprofundamento desse trabalho, foi criado recentemente o Núcleo Interdisciplinar Clássicos na Educação, que se constitui com um braço do Getseam. Com pouco mais de três anos de existência, o Núcleo busca refletir sobre como o estudo dos clássicos podem contribuir para a melhoria da educação básica brasileira. Isso inclui, por exemplo, pensar de que modo, conceitos como retórica, ética, justiça e conhecimento podem ser abordados desde os primeiros anos da formação escolar.

Segundo Terezinha, os pesquisadores que integram o núcleo não são necessariamente vinculados ao Getseam, há docentes que trabalham com patrimônio, discussões no âmbito da construção, arquitetura, memória e monumentos. Juntos, a equipe reflete sobre o papel das pesquisas e do próprio Getseam na educação básica nacional.

Por ser muito ‘jovem’, o Núcleo ainda está em fase de construção, mas a professora reforça que o núcleo é o “planejamento de futuro”, uma grande aposta do Getseam.

E falando em futuro, você já imaginou de que forma a Idade Média pode se relacionar a algo tão contemporâneo e atual como a Inteligência Artificial (IA)? Segue por aqui que o C² te conta tudo!

Do fogo de Prometeu ao clique da IA

Foi justamente essa conexão entre tempos tão distantes: o medieval e o contemporâneo,  que motivou o tema da 24.ª Jornada de Estudos Antigos e Medievais, promovida pelo Getseam. O evento se tornou referência nacional para pesquisadores que se dedicam ao tema, tendo mais edições do que a própria Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM), afinal, o Grupo de Estudos é anterior à criação da associação.

  • A imagem mostra a professora Terezinha Oliveira falando ao microfone durante um evento. Ela tem pele clara, cabelos cacheados escuros com reflexos avermelhados e usa blusa rendada clara, colar e relógio. Ao lado dela, uma mulher de cabelos grisalhos e longos a observa sorrindo levemente. Ambas estão sentadas à mesa, com copos e garrafa de água à frente. O ambiente é interno, com cadeiras vermelhas ao fundo.
  • Descrição de imagem: Sete pessoas estão sentadas lado a lado atrás de uma longa mesa de palestrantes, em um auditório. Entre elas está a professora Terezinha Oliveira, que fala ao microfone. À frente da mesa há um tecido verde decorativo e vasos de plantas. No fundo, um telão exibe a imagem de um livro antigo. O público assiste à apresentação em cadeiras posicionadas em fileiras.
  • Em uma sala de eventos, seis pessoas estão sentadas à mesa e um homem de cabelos brancos, em pé e sorrindo, fala ao microfone. Atrás dele, um telão projeta o título do evento: “XV Jornada de Estudos Antigos e Medievais” e o tema “Leituras e Imagens na Antiguidade e Medievo: estudos sobre educação”. À esquerda, há bandeiras e um banner do evento. Copos e garrafas de água estão sobre a mesa, que é decorada com tecido verde.

A edição deste ano traz um tema especialmente em alta: Inteligência Artificial. O evento intitulado “De Prometeu à Inteligência Artificial”, tem como premissa explorar como o ser humano vem lidando, ao longo do tempo, com sua capacidade de pensar, criar e transformar o mundo. 

Para além disso, a proposta, segundo a coordenadora do Grupo, é refletir criticamente sobre o uso da inteligência artificial à luz das tradições filosóficas e educacionais da Antiguidade e da Idade Média.

Nas palavras da professora, “nós, que ganhamos o fogo de Prometeu, hoje estamos deixando de ter esse fogo e entregando para a alma externa a nós, que é a Inteligência Artificial”. A crítica se apoia não apenas em uma visão filosófica, mas em todo trabalho coletivo que há anos se dedica a compreender como o conhecimento era produzido, conservado e transmitido no mundo medieval.

O debate sobre inteligência artificial, aliás, não é novo no Grupo. Ele aparece como uma preocupação legítima de quem estuda a história da razão humana. 

Inteligência Artificial em pauta no Getseam

Terezinha destaca que o problema não está na tecnologia em si, mas na maneira como ela é utilizada e compreendida.

A inteligência artificial, por mais avançada que seja, é fruto do pensamento humano, e não seu substituto. Ao atribuir a ela o papel de “alma externa”, corremos o risco de enfraquecer a consciência crítica e o papel ativo do sujeito na construção do conhecimento.

“Pode ser pesado o que eu vou dizer, mas parece-me que nós estamos dispostos a abrir mão da nossa capacidade intelectual de produzir ciência, de produzir emancipação humana, e ao fazer isso, nós perdemos a nossa liberdade”, alerta a coordenadora do Getseam.

A metáfora que intitula a jornada, “De Prometeu à Inteligência Artificial”, carrega justamente essa provocação. Se o mito de Prometeu simboliza a conquista do saber e da liberdade pelo uso da razão, o cenário atual levanta uma questão urgente: estariam as novas tecnologias apagando o fogo do pensamento crítico?

Essa discussão dialoga com uma das convicções do Getseam: o conhecimento é um fim, não apenas um meio. Em tempos de mercantilização da educação, em que diplomas e certificados muitas vezes são vistos como moeda de troca, o Grupo de Estudos, por meio de suas intensas pesquisas, insiste que o valor do saber está em sua capacidade de transformar quem o busca e, por consequência, transformar o mundo.

Por isso que, ao invés de tratar o passado como algo superado, o Grupo aposta na perenidade da história. Os textos clássicos, mesmo quando escritos em latim ou grego, carregam perguntas que seguem sem resposta. E, quando os estudamos, ganhamos não só informações, mas ferramentas para pensar, argumentar, escolher e agir, e por consequência, estimulamos nosso pensamento crítico.

Se, como dizia Aristóteles, o que nos diferencia dos demais seres vivos é justamente fazer o exercício pleno da razão, ou seja, ser capaz de pensar, então essa capacidade deve ser cultivada com cuidado. Justamente por isso, a universidade, que cabe evidenciar se tratar de uma criação medieval por excelência, por sua vez, desenvolve papel essencial no que tange a construção de indivíduos críticos.

Ao estudar a história medieval, o Getseam propõe não somente um retorno ao passado, mas um resgate daquilo que este carrega de mais potente: a valorização do intelecto como base da liberdade e da vida coletiva. As lições da Idade Média ecoam em debates sobre tecnologia, ética e a própria essência do ser humano, provando que o conhecimento, não importa de qual época, sempre será relevante.

Mais do que meras reminiscências históricas, os estudos medievais realizados em universidades paranaenses revelam a profunda conexão do passado com o presente, a influência de suas instituições e pensamentos em nossa vida diária e, mais do que isso, oferecem lentes para compreendermos até mesmo a ascensão da inteligência artificial!

Se você se interessou por essa discussão e quer ouvir a entrevista completa com a professora Terezinha Oliveira, acesse o podcast “Conexão Medieval”, disponível nas principais plataformas de áudio.

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Texto:
Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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