Quando meninas escolhem a ciência, o futuro muda!

Imagem mostra uma garota vestida de cientista, olhando por um telescópio, em um fundo amarelo e chão verde. Do telescópio saem fumaças coloridas, com itens científicos nelas. A ilustração representa a garota sonhando com esse universo científico e todas as possibilidades na tecnologia, matemática e ciência no geral, representando todas as meninas e mulheres que se dedicam nas pesquisas.
Apesar dos avanços, mulheres ainda enfrentam desafios para ocupar espaços científicos e incentivar meninas é essencial para mudar esse cenário

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As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço na sociedade. Na ciência não seria diferente, claro. Basta lembrarmos que houve um tempo em que o estudo era privilégio masculino. A polonesa Marie Curie (1867-1934), por exemplo, enfrentou dificuldades para pesquisar, antes de ser validada no meio científico. Foi com muita dedicação que se tornou a primeira mulher a receber um Prêmio Nobel e, hoje, inspira milhares de meninas pelo mundo.

Infelizmente, isso não significa que a luta por mais participação feminina tenha acabado. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a “disparidade de gênero em todos os níveis das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) em todo o mundo” persiste. Ao mesmo tempo, o empoderamento de meninas e mulheres se faz necessário para o desenvolvimento mundial.

A verdade é que precisamos de novas perspectivas para criar um planeta próspero e saudável. E quem representa metade da população? Pois é. Se limitamos nossas mulheres, limitamos a diversidade de soluções globais e, consequentemente, temos menos progresso na ciência, tecnologia e inovação. Em tudo isso, há uma certeza: essa disparidade não pode permanecer existindo.

Uma reflexão necessária

A igualdade de gênero é um direito humano e prioridade da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Por isso, a ONU criou datas para conscientizar a sociedade de que a luta não terminou. Um destaque foi o dia 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, com o claro objetivo de levantar o debate sobre o papel das mulheres e meninas cientistas.

Essa discussão é crucial, pois dados levantados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) evidenciam uma porcentagem pequena de pesquisadoras mulheres. O estudo, publicado em 2024, indica que a média global é de apenas 33,3%, sendo 35% dessa porcentagem mulheres na área STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Não é uma realidade animadora.

Estatísticas do Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG) revelam que tem ocorrido um ‘efeito tesoura’. Muitas entram na ciência e até concluem o doutorado, mas nem todas conseguem permanecer na carreira acadêmica. O motivo para a evasão? As mulheres continuam enfrentando desafios estruturais, como mostra o infográfico abaixo.

A imagem mostra um infográfico, que apresenta dados numéricos sobre a quantidade de mulheres na ciência e as razões para evasão. O fundo está em degradê roxo e cada informação está inserida em uma silhueta, que representa uma mulher cabisbaixa. Apenas a primeira está levemente feliz, pois traz o dado mais animador. O infográfico começa com uma silhueta grande até uma menor, a primeira está em amarelo, a segunda em laranja e tem um óculos quadrado e roxo, por fim, a última está em vermelho. A diminuição das silhuetas acompanha os números, que indicam que há, respectivamente, 57% mulheres com pós-graduação, 23% na engenharia e 24% em ciências exatas e da terra, 26% da força de trabalho em dados e inteligência artificial e 12% na computação em nuvem. Do lado esquerdo e no canto, um quadrado em roxo com informações das razões que podem impactar a participação de mulheres na ciência: Falta de financiamento, Estereótipos de gênero, Discriminação, Sobrecarga emocional e Maternidade. A fonte para a imagem foram estudos divulgados pela Organização das Nações Unidas e pelo Governo Brasileiro.

A pouca representatividade feminina nessas áreas cria uma ‘bola de neve’. Com a falta de mulheres na ciência e tecnologia, as oportunidades para a próxima geração também ficam mais escassas. A boa notícia é que ainda podemos mudar esse cenário, mas a solução não é tão simples. É preciso interesse em investir na educação de qualidade e em garantir condições para que as jovens continuem essa trajetória.

No Paraná, já existe um movimento de transformação. Conforme o Governo do Estado, as mulheres representam 51% do corpo docente e 59% dos estudantes de graduação nas universidades estaduais paranaenses. Também não podemos esquecer do estímulo contínuo para estudantes da Educação Básica da Rede Estadual de Ensino. Esse é um dos focos do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) – Paraná Faz Ciência (PRFC), que busca “fomentar a extensão, a ciência cidadã e a divulgação do conhecimento científico”.

NAPI – Paraná Faz Ciência

Mais do que números e datas, ações precisam ser tomadas. Ouvir quem está atuando na ciência pode ser a centelha que acende o interesse. Durante a semana do dia 11 de fevereiro, o NAPI PRFC divulgou relatos de meninas e mulheres que estão colocando a mão na massa desde o Ensino Fundamental e Ensino Médio. Os depoimentos de Maíra de Andrade, Nívea Caroline, Suzanna Heliza, Vânia Eloiza e Elisa Namie Lopes Guimarães marcam a exaltação das meninas e mulheres na ciência.

Para a articuladora do NAPI PRFC, Débora Sant’Ana, a preocupação de incentivar as meninas estava presente na origem dos Novos Arranjos e, quando a Rede de Clubes nasceu, a proposta foi feita. “Da concepção da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência já propusemos que, pelo menos 50% dos estudantes clubistas fossem meninas. A existência de um clube de ciências na escola tem sido uma oportunidade para meninas de todo o Paraná terem um contato ainda mais próximo com a ciência”, explica.

Oportunidade é, definitivamente, a palavra que marca a Rede de Clubes. A iniciativa do NAPI visa construir ambientes onde os estudantes mergulham na ciência. O projeto oferece para crianças e adolescentes oportunidades de olhar com novos olhos para o mundo, um mundo recheado de ciências, onde é possível que os alunos apresentem seus projetos por todo o estado. São mais de 200 clubes distribuídos pelo Paraná e mais de 6 mil clubistas!

Dentro dessa Rede, há uma vertente que se destaca: o Paraná Faz Ciência Maker. A iniciativa é financiada pelo programa “Mais Ciência na Escola”, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI), e foi selecionada como representante do estado na Chamada Pública CNPq/MCTI/FNDCT Conecta Capacita 13/2024. O projeto organiza clubes com abordagem maker, ou seja, que possuem foco nas áreas STEM, priorizando instituições com diferentes perfis organizacionais e sociais.

A imagem mostra um grupo de quatro alunos usando crachá, indicando que estão participando de um evento. Os estudantes fazem parte do clube de ciências e ao fundo dá para ver banners. Na frente, há um computador com a tela virada para a câmera. Dois alunos usam blusas claras, enquanto o restante veste preto. Eles posam para a foto, sorrindo.
Exemplo das atividades dos clubes com o Clube Makers CEUP na I Mostra da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência (Foto/Ana Elisa Frings e Ana Carolina Arenso)

Os clubes makers foram implementados em 45 escolas do Paraná, um grupo que constitui instituições indígenas, quilombolas, de campo, de ilha, de regiões centrais e bairros periféricos. A divisão das escolas é feita em dois “nós”. O primeiro é o Planeta Consciente, com foco em pesquisas em Ciências Ambientais, Sustentabilidade e Biotecnologia. Já o segundo, chama-se Exploradores Digitais, com atividades de Design, Robótica, Automação e Fabricação Digital. É possível consultar todos os clubes makers no site do NAPI PRFC.

Para Débora, os clubes do PRFC maker são importantíssimos no fortalecimento da participação das meninas nas áreas de tecnologia. “Por muito tempo acreditou-se no mito de que meninas teriam menores habilidades para as áreas das ciências exatas, mas nós entendemos que isso não é uma realidade e que elas podem atuar na área que desejarem”, elabora. Assim, os clubes makers cumprem o papel de abrir espaço para as meninas e combater o preconceito social de uma suposta falta de aptidão.

Como já explicado, a diversidade de pessoas é o eixo do projeto. Isso inclui oferecer a chance das alunas participarem não só como espectadoras, mas como criadoras ativas na cultura maker – e parece que elas têm gostado disso. Atualmente, 52% dos clubistas são meninas, de acordo com a coordenadora estadual do NAPI PRFC Maker, Mariana de Andrade. “Essa representatividade só reflete todo o interesse que existe em participar de espaços de construção do conhecimento científico e tecnológico”, conclui.

A imagem mostra as professoras Mariana de Andrade e Débora Sant’Ana sorrindo, posando para a câmera. Professora Mariana usa uma blusa preta e cabelos presos, passando um braço pelos ombros de Débora, que usa uma blusa verde escuro e um crachá de evento. Débora também está de óculos. Ao fundo, é possível ver parte de um painel de um dos eventos do NAPI - Paraná Faz Ciência.
Da esquerda para a direita, as professoras Mariana de Andrade e Débora Sant’Ana (Foto/Arquivo pessoal)

Se meninas colocam ideias em prática desde cedo, criam confiança. Esse entusiasmo pode ser a peça que falta para dar início a descobertas inovadoras e, quem sabe, solucionar problemas reais. É nisso que acredita Mariana. “Além do impacto individual, entendemos que investir na participação de meninas, a longo prazo, poderá ter retorno social e econômico possibilitando o aumento da representatividade feminina em setores de alta demanda, reduzir a desigualdade salarial e ampliar o capital humano disponível para inovação.”

Meninas na Ciência

Mas quem melhor para falar disso tudo do que as jovens pesquisadoras, né? A aluna Anamylla da Silva, 12 anos, do clube Makers no Quilombo, tem se interessado cada vez mais por esse universo. Para os que duvidam, ela reforça: “sempre gostei de estudar ciência, sempre tive curiosidade para entender como as coisas funcionam, […] pois meninas são tão capazes quanto meninos”. A estudante está no 7º ano do Colégio Estadual Quilombola Maria Joana Ferreira, na cidade de Palmas.

Essa percepção sobre a capacidade feminina também é presente no clube maker Margarida Consciente, do Colégio Estadual do Campo Margarida Franklin, em Ibaiti. E a aluna Gabrielly Castilho, 13 anos, do 9º ano, sabe bem a importância de incentivar a paixão pela ciência desde cedo. “Se, no futuro, elas [as meninas] escolherem uma profissão que precisa saber sobre a ciência, elas já saberão mais das coisas da ciência”, destaca.

Isabelly Batista, 14 anos, do clube maker Saco Tambarutaca, é uma das que já consideram seguir na área científica. Ela também está no 9º ano, no Colégio Estadual do Campo Povoado São Miguel, em uma região de ilhas do município de Paranaguá. “Eu já gostava de ciências antes. Quando surgiu a proposta do clube de ciências, eu passei a gostar mais ainda. Por conta dos projetos de pesquisas, descobrimos e aprendemos mais coisas”, compartilha.

Em alguns casos, o interesse pela ciência começa pela filosofia e essa é a história de Vitória Freitas (16 anos), do Clube Makers CEUP, do município de Maringá. “Comecei a enxergar o conhecimento de outra maneira, aprendendo a questionar, observar e buscar explicações lógicas para o mundo. Quando estudei sobre o início do pensamento filosófico, percebi que ele foi fundamental para o surgimento da ciência, porque ajudou a construir explicações racionais para a realidade”, comenta. Para Vitória, ser uma menina na ciência é ter oportunidade de desenvolver conhecimento, criatividade, pensamento crítico, pesquisa e programação, além de incentivar outras meninas, claro!

Isabela Ribas, 14 anos, do Colégio Estadual do Campo Marechal Floriano Peixoto, da cidade de Ivaiporã, também compartilha a sensação de mão na massa. A participante do Clube Planeta Consciente: Paraná Faz Cultura Maker contou que o encantamento com a ciência vem da possibilidade de transformar o mundo das ideias em realidade. “No Clube Maker podemos usar nossa criatividade, expressar ideias sem medo de julgamento, construir projetos usando tecnologia”, explica. E sobre a participação das meninas na área, a estudante é firme: ciência é sim espaço para meninas. Isabela conheceu outras cientistas assim, fontes inspiradoras de transformação.

A imagem mostra uma montagem com cinco meninas adolescentes. Quatro usam o uniforme da escola, e uma (a segunda da direita para a esquerda) veste um conjunto de roupas pretas. A do meio segura um livro e a última segura um erlenmeyer. Todas olham diretamente para a câmera. Elas fazem parte de clubes de ciência maker.
Da esquerda para a direita, as alunas Anamylla, Gabriely, Isabelly, Vitória e Isabela (Fotos/Arquivo pessoal)

E o espaço para sonhar e criar é o que as nossas meninas mais merecem. Refletir sobre os desafios e condições é mais do que importante, é necessário. Por isso, para o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o debate sobre a condição das mulheres é soberano. Para contribuir com a entrada e permanência das meninas na ciência, a Rede de Clubes Paraná Faz Ciência coletou depoimentos de estudantes dos clubes makers. O ebook “A ciência é para as meninas” será lançado no Dia da Mulher e pode ser consultado no site da Rede de Clubes.

Ilustração de três meninas abraçadas e sentadas no centro da capa. A camiseta das duas primeiras contêm a escrita “maker” colorida, indicando que as personagens representam as meninas dos clubes makers. Logo acima, lê-se o título “a ciência é para as meninas” em laranja. Acima do título, nos lados esquerdo e direito, dois pássaros voando, um rosa claro e outro em rosa mais escuro. O fundo é composto de um céu azul, com nuvens e elementos em laranja e rosa., atrás das meninas há arbustos floridos.
Capa do e-book “A ciência é para as meninas” (Ilustração/Any Veronezzi)

Cada depoimento reforça a paixão que as meninas têm pela ciência. Isso não pode ser retirado delas. Quando meninas se sentem seguras para escolher a ciência, elas mudam o futuro!

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Isabella Abrão e Carlisle Ferrari
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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