Que tal um hidrogel feito de ‘vidro’? Temos!

A ilustração apresenta um microscópio visto de cima, com a lente posicionada sobre uma placa circular de laboratório. Dentro da placa aparecem figuras humanas, uma em pé segurando um objeto e outra sentada diante de uma tela. Ao redor, há tubos de ensaio, placas de amostras, frascos e equipamentos de análise distribuídos de forma organizada. Duas mãos seguram a base do microscópio. A imagem utiliza tons de azul, cinza e branco, com traços limpos e textura suave, retratando um ambiente técnico e controlado.
Pesquisadores da UTFPR, do campus Toledo, desenvolveram um hidrogel com alto poder antimicrobiano e que já desperta interesse da indústria

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É preciso muitas mãos para se fazer ciência! E, de preferência, livres de germes e bactérias. O desenvolvimento de um hidrogel com alto poder antimicrobiano por pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), do campus Toledo, comprova que são necessárias, além de muitas mãos limpas, mentes e corações resilientes para termos inovação.

Quem conta a história da pesquisa é a bióloga Gabrielle Peiter, atualmente professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no campus Toledo, Oeste do Paraná. Em 2022, durante o seu pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Processos Químicos e Biotecnológicos (PPGQB-Toledo), pesquisadores iniciaram o desenvolvimento de um hidrogel composto de vidro de borofosfato, uma espécie de ‘vidro bioativo’, e carbopol, um agente gelificante utilizado em desinfetantes para as mãos. 

Uma das vantagens deste hidrogel, segundo o artigo dos pesquisadores, está no fato de que os álcoois serem rapidamente germicidas quando aplicados na pele, mas não apresentam atividade residual persistente, permitindo, até mesmo, o crescimento lento de bactérias após seu uso.

A imagem é um infográfico científico intitulado “Processo de Produção do Hidrogel”, com fundo escuro e ilustrações em tons de azul, branco e algumas cores vivas para destaque. No conjunto, a imagem explica de forma visual e passo a passo como o hidrogel é produzido quimicamente e depois aplicado no corpo humano, unindo ciência, química e biomedicina. À esquerda aparecem dois recipientes rasos, vistos de cima, identificados como “Composto químico 1” e “Composto químico 2”. Setas indicam que esses dois compostos são misturados em um recipiente com formato de almofariz e pistilo. Em seguida, a mistura é transferida para um recipiente cilíndrico. Logo abaixo, esse recipiente vai para um forno ou estufa, representado como uma caixa com porta, com a indicação “1h – 400 °C”, mostrando que o material é aquecido por uma hora a 400 graus Celsius. Do aquecimento, surgem estruturas moleculares desenhadas como formas geométricas ligadas por pontos, indicando reações químicas. Há uma seta circular com a indicação “25 °C”, mostrando que depois o material retorna à temperatura ambiente. No centro da imagem, aparece uma estrutura molecular maior, com ligações irradiando para vários lados, simbolizando a formação da rede do hidrogel. Acima dessa estrutura central, vê-se um material gelatinoso azul, com pequenos ícones dentro, representando partículas ou agentes incorporados ao gel. À direita, há a silhueta de uma pessoa de frente, em azul claro. Em diferentes regiões do corpo (tórax, abdômen e perna), aparecem manchas coloridas (amarelo, rosa, roxo), cada uma com um símbolo molecular no centro, indicando locais de aplicação ou ação do hidrogel no organismo. Setas ligam o gel formado à silhueta humana, sugerindo o uso biomédico do material. No canto inferior esquerdo está o crédito do infográfico: “© Conexão Ciência | Arte: Any Veronezi”.

É chamado de “vidro” porque, estruturalmente, é um material vítreo, ou seja, amorfo, não cristalino. Possui uma composição química específica, a partir do fosfato de potássio, diferente do vidro de janela que seria feito principalmente de areia de sílica. O termo “vidro bioativo” não está ligado apenas à composição química, mas ao comportamento do material quando entra em contato com um sistema biológico. Isto porque ele interage ativamente com o meio biológico.

“Para dar uma ideia do produto, o nosso vidro não é como um vidro de janela. Ele é um vidro que é solúvel. Esse vidro é composto por tipos de reagentes específicos. Fazemos uma síntese que a gente chama de fusão e resfriamento para formar esse material ‘vítreo’. É a partir disso que se faz o hidrogel”, explica Gabrielle.

Portanto, diferente de um vidro de janela, ele é diluído na água. “A partir desse líquido, que já é aquoso e não mais sólido, a gente incorporava no hidrogel feito de carbopol, normalmente usado em gel. A única diferença é que nosso princípio ativo, os vidros de borofosfato é o que mata as bactérias e está inserido dentro desse hidrogel”, complementa. 

Além do alto poder antimicrobial e sem a presença de metal pesado como a prata, outra grande vantagem do produto desenvolvido e patenteado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná  (Unioeste-Toledo) é que o hidrogel não é inflamável e pode ser um aliado no combate às superbactérias. Para saber mais sobre esses microrganismos que nos ameaçam, o C² preparou o podcast “Conexão Superbactérias” que está nas principais plataformas.

Em 2023, o grupo assinou e publicou um artigo da segunda revista científica mais citada na área de “Pharmacy & Pharmacology” com o trabalho desenvolvido pela pós-doutoranda Gabrielle e os alunos do mestrado Iago Assis (PPGBio UTFPR) e Jaqueline Saracini da (Unioeste), orientados pelos professores Ricardo Schneider e Cleverson Busso.

  • A imagem captura um evento promocional ou uma feira, com pessoas posando perto de um estande da universidade, transmitindo um tom de profissionalismo e divulgação. A composição da cena demonstra um estande de exposição ao ar livre, com duas pessoas em primeiro plano e outras em segundo plano. À esquerda, uma mulher sorri enquanto se encosta em uma mesa. À direita, um homem sorri, segurando uma garrafa. No fundo, outras pessoas interagem atrás da mesa, com um telão exibindo gráficos. A iluminação é difusa, indicando um dia claro, e a disposição dos elementos sugere uma atmosfera amigável. Os principais sujeitos incluem a mulher, com cabelos castanhos claros e uma tatuagem no braço, vestindo uma camisa preta e calças jeans. O homem, com óculos e uma camiseta branca, jeans e uma corrente amarela no pescoço. Atrás deles, outras pessoas parecem participar do evento. As expressões faciais são sorridentes, sugerindo uma interação positiva e aberta.
  • A fotografia retrata um grupo de estudantes e profissionais em um laboratório, posando sorrindo e usando jalecos brancos, em um ambiente de trabalho. A composição da cena mostra um grupo numeroso reunido em um laboratório, possivelmente um centro de pesquisa ou universidade. A maioria das pessoas está posicionada na frente, perto de uma bancada, enquanto outros ocupam o fundo, criando profundidade e interação. Os indivíduos parecem sorridentes e alegres, indicando um momento de camaradagem e satisfação. A iluminação é fornecida por luminárias de teto, que iluminam uniformemente o ambiente. Os indivíduos na imagem são principalmente jovens, usando jalecos brancos, vestimenta comum em ambientes laboratoriais. Eles parecem ser estudantes ou profissionais da área científica, considerando o contexto. Os rostos exibem sorrisos e expressões de felicidade, criando um ambiente positivo. As expressões e poses sugerem um momento de pausa ou celebração, reforçando a ideia de união e colaboração.

Em testes realizados, o hidrogel mostrou eficácia na inibição do crescimento e eliminação dessas bactérias, além de também demonstrar atividade contra espécies de Candida.  Atualmente, o grupo está expandindo os estudos para a aplicação desses materiais na avicultura, visando soluções para o controle de Salmonella, já que os atuais álcool em gel não consegue eliminar todos os tipos de microrganismos. 

Pela inovação no desenvolvimento de um gel com atividade antimicrobiana utilizando vidro de borofosfato de potássio como ingrediente ativo, para uso em ambientes hospitalares, Gabrielle fará parte da edição de 2025 do livro comemorativo “25 Mulheres na Ciência América Latina” e na plataforma online dedicada ao programa. A publicação trará o trabalho desenvolvido no Paraná, servindo de inspiração à próxima geração de mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Jornada acadêmica

Os estudos para o hidrogel de vidro bioativo levaram cerca de um ano, entre 2022 e 2023, e resultaram no depósito de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Este prazo considerado curto quando o assunto é produção científica, nem sempre faz juz ao tempo e caminhos que pesquisadores percorreram até o produto final.

No caso de Gabrielle, a paixão verdadeira pela ciência veio somente quando entrou no doutorado, após a larga experiência em laboratório desde a graduação. Já no mestrado, contou com o apoio da professora  da UFPR, e sua orientadora, Ivonete Rossi Bautitz.

“Ela foi como uma mãe, uma pessoa maravilhosa que me conduziu e isso faz a diferença para os alunos. Você não estar sozinho, ter uma orientação, ter quem te guiar… Não é ter quem faça por você, mas ter alguém que dê esse apoio. Foi ela que me impulsionou e que me mostrou do que eu era capaz”, homenageia.

Gabrielle reforça que nem sempre isso acontece, já que muitas pessoas passam por situações abusivas, constrangedoras e, em várias ocasiões, humilhantes. “Eu tento dar aos meus alunos a mesma atenção e apoio que eu recebi da professora Ivonete e de outros mestres que me inspiraram na vida acadêmica”, completa. Por essas e outras, Gabrielle criou o perfil LabMates, no Instagram, para dar dicas para quem está começando na ciência.

A fotografia mostra quatro pessoas em pé, lado a lado, sorrindo e posando para a câmera em frente a um fundo branco e neutro. A composição é simples, com as quatro pessoas alinhadas verticalmente, ocupando quase todo o quadro. A pose é informal, sugerindo uma relação de proximidade entre elas. A iluminação é suave e uniforme, sem sombras marcantes, o que indica uma fonte de luz difusa, possivelmente vinda de uma janela ou de um equipamento de iluminação. A ausência de detalhes no fundo direciona a atenção para os sujeitos principais. Os sujeitos principais são duas mulheres e dois homens. A primeira mulher, à esquerda, usa uma blusa preta com detalhes nas mangas e calças cor-de-rosa. A segunda mulher veste uma blusa azul com detalhes no decote e calças pretas. A terceira pessoa é uma mulher com uma blusa rosa clara e uma saia preta. O homem usa uma camisa branca e calças jeans claras. Todos sorriem para a câmera, com expressões alegres e amigáveis. Os cabelos das mulheres variam em comprimento e estilo, enquanto o homem tem a cabeça raspada.
Ao centro, a foto retrata a amizade entre a professora Ivonete Rossi Bautitz, de blusa azul, e A pesquisadora Gabrielle Peiter, ao lado direito, de camisa clara (Foto/Arquivo Gabrielle Peiter)

“Do primeiro ou último ano de faculdade até o mestrado, eu trabalhava o dia todo e estudava de noite. Desde aquela época, já gostava muito de estar dentro do laboratório. Quando entrei no meu mestrado de Tecnologia em Bioprodutos, em 2015, na UFPR de Palotina, gostava de fazer a pesquisa, mas não era ainda aquela coisa. Eu me apaixonei mesmo pela ciência no doutorado, num projeto com cogumelos medicinais”, relembra.

A então doutoranda trabalhava como técnica de laboratório na UTFPR em Toledo, local onde nasceu e onde foi iniciado o projeto dos vidros. Durante quatro anos, a rotina era trabalhar durante o dia na Universidade e, à noite, seguir para a UFPR de Palotina, distante aproximadamente 60 quilômetros, para cumprir a carga horária do doutorado.

“Sem a bolsa para me manter, eu poderia ter desistido da vaga do Programa Pós-Graduação de Bioquímica e Biologia Molecular, conquistada após estudar sete meses. Pensei: eu posso continuar a trabalhar e fazer o doutorado, mesmo sabendo que seria difícil por ser em outra cidade. E foi o que aconteceu!”, relembra.

Isso tudo em meio à pandemia, que trouxe novas demandas ao laboratório como orientação à comunidade, testagem e emissão de laudos de exames de Covid 19, tudo de forma gratuita. “Neste contexto, os responsáveis pelo laboratório da UTFPR me deram abertura para fazer estudos do meu doutorado, viabilizando uma parceria entre as instituições. Assim, eu ajudava muitos professores e alunos dos dois laboratórios, trabalhando com Bioinformática, Cromatografia, Microbiologia e Biologia Molecular. Então, sempre estava no meio de um monte de projetos”, conta.

E foi ao ajudar na parte de Microbiologia da pesquisa da mestranda Jaqueline Saracini, da Unioeste, orientada pelo professor Ricardo Schneider, que Gabrielle teve contato com os vidros que já começavam a ser desenvolvidos ali, porém para para aplicação na Engenharia Civil. 

  • A imagem é de um laboratório e mostra um termociclador posicionado na bancada com vários recipientes de tubos de teste, sugerindo uma cena científica focada na investigação molecular. A composição da cena demonstra uma organização funcional, com um termociclador no centro da imagem, e vários recipientes para amostras e reagentes dispostos ao seu redor. A disposição sugere uma estação de trabalho para experimentos de biologia molecular. A luz ilumina a bancada e destaca os detalhes dos equipamentos e materiais, e a câmera está posicionada de forma que proporciona uma visão clara e completa do conjunto.
  • A imagem mostra um recipiente de vidro (um béquer) sobre uma bancada de laboratório, contendo um pó branco de aparência granulada. Dentro do béquer há um bastão de vidro, parcialmente apoiado no fundo, utilizado para misturar ou homogeneizar a substância. Ao fundo, é possível ver outros recipientes de vidro com mais material branco, levemente desfocados, e a superfície da bancada parece ser de granito ou material similar, típico de laboratório. A cena sugere a preparação ou mistura de um composto em um contexto experimental ou acadêmico.
  • Uma pesquisadora, com cabelo castanho amarrado e máscara protetora, realiza procedimentos em um laboratório dentro de uma cabine de segurança, demonstrando meticulosidade. A composição da cena mostra uma pessoa em ação dentro de uma cabine de segurança laboratorial, com a pesquisadora predominantemente no lado esquerdo da imagem, inclinada sobre a bancada. A iluminação clara e difusa sugere um ambiente controlado, enquanto a disposição dos equipamentos e materiais indica um contexto experimental ou analítico. A ação central envolve o uso de uma pipeta, sugerindo a manipulação precisa de amostras ou reagentes. A ação é congelada no tempo, focando na precisão e atenção da pesquisadora.
  • A imagem mostra uma mulher branca, ruiva, em um laboratório, vestindo um jaleco branco, em pé ao lado de uma bancada. Ela está sorrindo e apoiando uma das mãos sobre a superfície do balcão, transmitindo uma postura confiante e profissional. Sobre a bancada há equipamentos laboratoriais, como uma balança e aparelhos eletrônicos de medição ou aquecimento. O ambiente é organizado, com paredes claras e tubulações e conexões visíveis ao fundo, típicas de laboratórios de pesquisa ou ensino. A cena sugere um contexto acadêmico ou científico, possivelmente relacionado a atividades experimentais ou de pesquisa.

“Gosto sempre de enfatizar que ciência é algo que a gente não faz sozinho. É humanamente impossível você fazer algo sozinho. Então, tinha o meu supervisor de pós-doc, o Ricardo Schneider, um pesquisador e professor excelente, que sempre me deu apoio. Ele já trabalhava com esses vidros quando entrei no laboratório e a gente foi indo mais para a parte da saúde, que era o que eu gostava muito”, reforça. 

Hoje, aos 32 anos, na primeira gravidez e já com uma linha de pesquisa própria, Gabrielle dá prosseguimento à pesquisa, ainda em parceria com os professores Schneider, Kádima Nayara Teixeira e Ana Carla Schultz Zarpelon. “Seguindo ainda na linha biológica, agora estamos realizando testes de toxicidade em animais vivos, se esse animal ingerir esse líquido vai ter um dano hepático ou um dano renal. O objetivo é saber se o vidro que vai no hidrogel pode virar um antibiótico ou algo que possa ser tomado”, adianta.

“Sei que minha rotina no laboratório deve desacelerar com uma criança pequena, mas  agora terei muito mais ajuda dos alunos,que estarão mais no laboratório do que eu, mas vou estar sempre ali auxiliando eles também. Acredito que quando uma pessoa ama aquilo que ela faz e que ela sabe fazer, coisas incríveis podem acontecer. Então, se eu puder deixar isso para esses jovens que estão começando, que eles não desistam, que vai ser difícil, mas que no final tudo vai valer a pena. E os momentos de frustração, como na vida, fazem parte”, conclui.

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Texto:
Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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