Recebi um rim, mas o corpo disse não — e agora?

A imagem mostra uma mulher de jaleco manipulando um equipamento científico, possivelmente uma caixa térmica ou instrumento de pesquisa. Ao fundo, destaca-se a silhueta estilizada de uma igreja com uma torre pontiaguda e uma cruz no topo, sobre um fundo em tons de verde e laranja. A arte combina traços lineares e texturas granuladas, criando um efeito gráfico contemporâneo. No canto inferior direito, estão os créditos: “Conexão Ciência | Arte: Lucas Higashi”.
O Laboratório de Imunogenética da UEM embarca em um novo desafio para prever a rejeição de rins transplantados

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A Universidade Estadual de Maringá (UEM) abriga um universo de diferentes atividades no coração da cidade, localizada no noroeste do Paraná. Entre prédios e corredores, convivem múltiplas áreas do conhecimento. Para muitos, a universidade é apenas o lugar onde estudantes assistem às aulas, fazem provas e, depois, voltam para casa. Mas a UEM oferece tantos serviços à comunidade que até eu, que a vivo intensamente há quatro anos neste espaço, ainda me surpreendo ao descobrir um novo.

Um exemplo é o Laboratório de Imunogenética da UEM, o Imunogen. Quem olha de fora não imagina que, no interior de um bloco discreto, acontecem processos fundamentais para que transplantes de órgãos e de medula óssea ocorram em cidades atendidas pelas 13ª, 14ª e 15ª regionais de saúde do Paraná.

A imagem mostra o Laboratório de Imunogenética da Universidade Estadual de Maringá (UEM). No espaço, bem iluminado e organizado, diversos pesquisadores e técnicas utilizam computadores e equipamentos de análise biomolecular. Todos vestem jalecos brancos, caracterizando o ambiente científico. Em diferentes áreas da sala, é possível ver atividades simultâneas.
Equipe do Imunogen trabalhando no laboratório (Foto/Reprodução)

Desde 1985, o Imunogen faz exames de histocompatibilidade pré-transplante. Em outras palavras, esses exames que verificam se o organismo de quem vai receber um órgão ou medula óssea é compatível com o de quem vai doar. 

A importância disso é enorme, já que a fila de transplantes pode ser longa e, quando finalmente chega a vez de um paciente, é decisivo que o corpo aceite o novo órgão. Caso contrário, além das complicações, o paciente teria que passar por um tratamento ou recomeçar a espera por uma nova chance de compatibilidade, algo urgente e que, infelizmente, nem sempre acontece a tempo.

Ou seja, quando um paciente dessas regionais de saúde mencionadas precisa de um transplante, o Imunogen recebe as amostras biológicas e realiza os exames necessários para informar o sistema de saúde sobre a compatibilidade entre doador e receptor. E tudo isso é feito de forma gratuita, custeado por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

A diretora do Laboratório e professora da UEM, Jeane Visentainer, lembra que todos os pacientes que precisam de um transplante de órgão de um doador falecido entram na mesma lista de espera, independentemente da rede de saúde utilizada. Isso significa que, mesmo quem sempre se consultou na rede privada ou pretende realizar a cirurgia em um hospital particular, precisa aguardar por um órgão compatível na mesma fila que quem é atendido exclusivamente pelo SUS.

Jeane apresentando o projeto em Brasília (Foto/Reprodução)

Quando o paciente finalmente encontra um doador compatível, ainda existe um desafio: mesmo com todos os exames de histocompatibilidade, ainda há a possibilidade do corpo rejeitar o novo órgão e, como eu disse lá em cima, isso não é nada bom. Portanto, em 2025, o Imunogen iniciou um novo projeto de pesquisa com o apoio do Ministério da Saúde e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O projeto tem foco especial nos casos de transplante renal. Entre todos os órgãos demandados na fila de transplantes, o rim é o mais solicitado. A principal causa é a Doença Renal Crônica (DRC), que compromete o funcionamento dos rins. No Brasil, mais de 153 mil pessoas dependem da hemodiálise para sobreviver, que é um tratamento que substitui parcialmente a função renal e exige várias sessões semanais em clínicas. Já o transplante oferece uma alternativa que devolve maior autonomia ao paciente e melhora significativamente a qualidade de vida. Isso é ainda mais crucial nos casos de DRC em estágio terminal, quando os rins operam com menos de 15% da capacidade normal.

A iniciativa busca desenvolver um algoritmo capaz de prever desfechos clínicos após o transplante de rim, com o objetivo de dar suporte à decisão médica e personalizar estratégias de tratamento. “O transplante de rim é a alternativa mais eficaz nos casos graves, mas ainda esbarra em um problema recorrente, a rejeição do órgão”, explica a professora.

“Aqui no Imunogen sempre trabalhamos, principalmente, com exames de compatibilidade para doação de medula óssea, mas nossa atuação vem se expandindo nos últimos anos. Em 2025, por exemplo, ampliamos nosso foco para os cuidados pré e pós-transplante renal, especialmente graças à parceria com o CNPq”, conta Visentainer. Ela reforça que o Imunogen tem buscado atender de forma ativa às novas demandas da ciência e da saúde pública ao incorporar tecnologias como Genômica e Bioinformática aplicadas à medicina de precisão.

O projeto envolve professores pesquisadores do Laboratório, alunos de graduação e pós-graduação, além de médicos nefrologistas. Entre os alunos, há um responsável pelo desenvolvimento do software, enquanto os médicos participam de reuniões quinzenais com os professores para discutir como as soluções desenvolvidas pelo Imunogen podem apoiar o trabalho diário deles. 

A professora e codiretora do Imunogen, Larissa Bahls, comemora que essa equipe multidisciplinar possa fazer parte do projeto e do Laboratório: “O acesso, principalmente, dos estudantes de graduação e pós à tecnologia de ponta no Imunogen contribui significativamente para a qualificação do ensino e da pesquisa na UEM”.

A imagem mostra a professora Larissa em atividade no laboratório, utilizando jaleco e luvas de proteção. Ela manuseia cuidadosamente um tubo de ensaio em um equipamento de análise, demonstrando um procedimento técnico com precisão. O ambiente é limpo e iluminado, característico de um laboratório de pesquisa científica, com foco em experimentação e controle de qualidade.
Larissa no Laboratório de Imunogenética (Foto/Reprodução)

O participante do projeto e responsável pelo desenvolvimento do algoritmo, Victor Hugo de Souza, explica o que é um algoritmo: “Um algoritmo pode ser comparado a uma receita de bolo: é um passo a passo que ajuda o computador a resolver um problema. No nosso caso, queremos criar um algoritmo capaz de analisar os dados de um paciente e prever o risco de rejeição de um rim transplantado. Para isso, ele precisa ser treinado, ou seja, examinar os dados de vários pacientes e identificar padrões”, explica Victor.

Ele acrescenta que, nesse processo de aprendizado, são utilizadas redes neurais que simulam o funcionamento dos neurônios do cérebro. Essas redes recebem informações de entrada, como os dados do paciente, e geram uma saída, indicando se o risco de rejeição é baixo, médio ou alto.

A expectativa é que a ferramenta digital seja incorporada futuramente como suporte ao atendimento no SUS, contribuindo para decisões mais rápidas, precisas e personalizadas, com foco no bem-estar dos pacientes e na eficiência dos recursos públicos. O algoritmo não substitui os profissionais de saúde, mas auxilia na padronização e agilidade das decisões, economizando tempo e recursos.

Ilustração de um infográfico, com fundo em tons de vermelho e laranja, que tem como título “Quais são alguns processos e exames para um transplante renal?”. Ele organiza as informações em seis etapas numeradas, dispostas verticalmente, conectadas por uma linha branca. Cada número aparece dentro de um círculo verde, seguido de um retângulo com texto explicativo em branco e verde. Inscrição no Sistema Nacional de Transplantes (SNT): realizada por um médico, insere o paciente na fila de espera por um órgão. Tipagem HLA do receptor: análise do DNA do paciente para identificar características genéticas e determinar compatibilidade com possíveis doadores. Exame PRA (Painel de Reatividade de Anticorpos): verifica se o paciente já possui anticorpos contra tecidos de outras pessoas, indicando risco de rejeição. Tipagem HLA do doador: mesmo exame realizado no doador para comparação genética com o receptor. Prova cruzada: teste que confirma se o sistema imunológico do receptor aceita o órgão do doador. Transplante realizado: com a compatibilidade confirmada, o paciente é submetido à cirurgia, obtendo melhor qualidade de vida. Na parte inferior, há os créditos: © Conexão Ciência | Arte: Lucas Higashi.

Além da frente científica, o projeto também conta com um time de Comunicação, responsável pela produção de vídeos, textos explicativos e podcasts voltados ao público em geral. A professora reforça que essa comunicação é essencial não só para mostrar como o trabalho desenvolvido na universidade beneficia a sociedade, mas também para conscientizar o público leigo sobre temas como Doença Renal Crônica e doação de órgãos.

Também em 2025, o Laboratório mudou a identidade visual e o nome: o antes LIG-UEM passou a se chamar Imunogen. Jeane conta que essa mudança está em consonância com a vontade da equipe de seguir inovando: “O Laboratório cresceu, se modernizou, ampliou suas áreas de atuação e fortaleceu sua relação com a comunidade e o sistema de saúde. Sentimos que era o momento de alinhar nossa imagem institucional com essa nova fase”, conta a diretora do agora Imunogen.

Para quem espera por um transplante, seja de órgãos ou de medula, cada exame, cada dado analisado e cada tecnologia desenvolvida no Imunogen pode significar uma nova chance de vida. O melhor de toda essa história é que esses serviços são todos custeados  pelo SUS e tornam a Universidade Estadual de Maringá referência em exames de histocompatibilidade. Se você quiser descobrir mais sobre o Imunogen, não deve deixar de conferir o Conexão Imunogen, disponível aqui no C². Te espero lá!

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Texto:
Luiza da Costa
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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