Resista como uma Tabebuia cassinoides!

A imagem mostra uma grande árvore no centro de um gramado verde. Embaixo dela, dois homens estão sentados tocando instrumentos de corda. Ao redor, quatro crianças estão em pé, algumas dançando e outras observando. Notas musicais flutuam pelo ar. O céu é azul claro, e a cena acontece durante o dia. A árvore tem tronco marrom e copa volumosa com folhas verdes. Todos os personagens estão vestidos com roupas simples e coloridas.
Livro e ações educativas contam a história da árvore que, à beira da extinção, mantém vivos o fandango e a cultura caiçara no litoral do Paraná

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A história da existência da Tabebuia cassinoides não é para amadores. E muito menos para quem subestima o poder das árvores ou releva a força e resiliência da natureza. E como toda história que se preza, é preciso começar pelo ‘era uma vez…’, ou seja, do começo. O termo científico que a identifica tem origem no nome indígena ‘tabebuia’, que vem da árvore ‘Tabebuia uliginosa’, da família Bignoniaceae. Já o cassinoides, significa “semelhante a caixa”. 

Com presença de Pernambuco ao norte de Santa Catarina, há séculos, na Floresta Atlântica brasileira, predominantemente em terrenos alagadiços como mangues, brejos e várzeas, ela é conhecida no litoral do Paraná como ‘caixeta’. Mas em outros territórios, a árvore ‘magrela’, ‘seca’ e ‘desgrenhada’ também é conhecida por caxeta, tabebuia, pau caxeta, pau paraíba, tabebuia do brejo, pau de tamanco, tamanqueira, malacaxeta, pau de viola, corticeira, tamancão, caixeta-do-litoral, entre outras denominações locais.

Por ser uma árvore de pequeno porte e com raízes flutuantes, daquelas que a gente vê nos manguezais servindo de abrigo para caranguejos, a madeira da caixeta é muito leve, não racha, nem empena. É ideal para fabricar canoas, utensílios domésticos como gamelas e talheres, tamancos, além de instrumentos musicais. Porém, foram essas características que colocaram a árvore em perigo de extinção, apesar de já fazer parte da tradição dos povos caiçaras na geração de renda e incremento para consolidação de suas expressões folclóricas como o fandango. 

A imagem tem o título "União da ciência com a arte" e mostra uma professora diante de um quadro, conectada por setas a uma árvore identificada como "Caixeta (Tabebuia cassinoides)" e a instrumentos musicais do "Fandango caiçara (Patrimônio Cultural Imaterial)". Abaixo, outra cena mostra a professora sentada com três crianças, segurando uma muda de planta e um instrumento, com uma caixa amarela ao lado. A legenda identifica essa atividade como "Caixeta Fandangueira". O fundo é azul e a arte tem estilo ilustrativo.

Desde a década de 1930, a caixeta passou a ser utilizada pela indústria madeireira, especialmente para a fabricação de móveis, utensílios, palitos de fósforos e lápis. Segundo informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), “no litoral do Paraná, a exploração dos caixetais nativos chegou a contribuir com 70% do consumo das serrarias locais, apesar dos custos serem o dobro, ou mais, da extração em reflorestamentos de Pinus situados em terra firme. Com o tempo, houve um abandono da exploração dos caixetais naturais pelas indústrias de lápis, devido ao custo elevado da exploração e pela localização em áreas de conservação permanente”.

Outros fatores contribuíram para esse cenário de devastação da caixeta, favorecendo o surgimento de outras espécies em seu habitat.  Entre eles, estão o assoreamento dos rios e, consequentemente, das áreas de várzea, a erosão dos solos, o lançamento constante de detritos sólidos nos cursos d’água por indústrias e centros urbanos em geral, bem como a criação de barragens, açudes e estradas cruzando cursos d’água.

Não bastasse, a pressão resultante da expansão desordenada dos centros urbanos e especulação imobiliária, assim como o aumento dos condomínios à beira mar impulsionados pelo turismo, vem resultando no aterro de diversas áreas alagadas e a devastação das mais diversas formações vegetais como restingas, mangues e caixetais nos litorais do país.

Com a exploração da caixeta proibida durante décadas para impedir o desaparecimento completo da árvore, somente em 2023 que a diretoria de Patrimônio Natural do Instituto Água e Terra (IAT) atendeu a um pedido antigo da Associação de Cultura Popular Mandicuera, que permitiu a dispensa de licenciamento ambiental a três construtores de instrumentos de Paranaguá para manejo de caixeta. A decisão colaborou com a preservação de duas riquezas do Estado: a árvore ameaçada de extinção e a cultura fandangueira caiçara. 

A história da caixeta está intimamente ligada ao fandango caiçara, considerado Patrimônio Cultural Imaterial, desde novembro de 2012, pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A prática acontece na parte Norte do litoral paranaense e no sul do litoral paulista, por meio de expressão musical-coreográfica-poética e festiva. Com a proibição do corte da caixeta, os caiçaras não puderam mais realizar atividades cotidianas sob pena de serem criminalizados, nem repassar para a tradição para as novas gerações.

‘Caixeta Fandangueira’

É neste contexto que a árvore nativa retoma a sua jornada junto à tradução Fandangueira da comunidade caiçara da Ilha de Valadares, no litoral do estado. E neste caminho secular, há o encontro de duas mulheres, de origens e culturas distintas, que se encontram na sala de aula do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), no campus de Paranaguá.

Mônica Herek é professora do curso de Administração da Unespar, campus Paranaguá (Foto/Arquivo pessoal)

Mônica Herek é natural de Paranavaí, cidade do interior do estado, e se transfere do campus da Unespar, do Noroeste para o litoral, para conhecer Fátima Pires Machado, aluna nascida e criada na Ilha de Valadares e imersa no universo do fandango. Durante a disciplina Sociologia Aplicada à Administração, em 2022, surge o projeto ‘Caixeta Fandangueira’, a partir da pesquisa da estudante sobre a importância social, econômica,  cultural e ambiental da caixeta para a comunidade caiçara da ilha, localizada a pouco mais de três quilômetros de Paranaguá. 

“A Fátima não é o perfil que a gente está acostumado na universidade. Ela já é casada, com um filho adulto e uma pré-adolescente, e durante a retomada das atividades pós-pandemia surge a ideia de pensar como funciona a economia local e a importância da caixeta para o povo caiçara”, relembra a professora. A partir daí, com a parceria do professor Adilson Anacleto, Fátima apresenta o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Administração, resultando na publicação de um artigo científico na Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales

O processo de pesquisa foi tão rico para professora e aluna que, no ano seguinte, elas deram prosseguimento ao projeto, numa nova etapa. “Estivemos na Casa Mandicuera na Ilha de Valadares, numa visita organizada pela Fátima, e aí surgiu a ideia de levar um pouco das descobertas da pesquisa para as crianças caiçaras”, conta Mônica.

  • A imagem mostra uma sala de aula cheia de crianças pequenas, provavelmente da educação infantil, sentadas no chão, assistindo atentamente a uma mulher que está em pé na frente da sala, falando ou contando uma história.; as crianças estão uniformizadas com camisetas nas cores azul e branco, com a inscrição "Secretaria Municipal de Educação" nas costas; o ambiente é bastante colorido e acolhedor com as paredes pintadas de azul claro na parte inferior e creme na parte superior. No fundo, destaca-se uma árvore decorativa feita de papel, com folhas coloridas; do lado direito da imagem, há algumas pessoas adultas (possivelmente professoras ou acompanhantes) sentadas em cadeiras, também acompanhando a atividade; o clima geral da cena transmite um momento de contação de histórias, roda de conversa ou alguma atividade pedagógica interativa, com foco em estimular a atenção e participação dos alunos.
  • A imagem mostra uma sala de aula cheia de crianças pequenas, todas sentadas no chão, muitas delas sobre um tapete colorido; as crianças estão usando uniforme escolar com camiseta azul e branca com o nome da "Secretaria Municipal de Educação" nas costas; o clima geral da foto é de uma aula animada, um momento de convivência com contação de histórias e o ambiente é alegre e infantil: algumas mulheres adultas, provavelmente professoras, estão sentadas ao fundo ou agachadas junto das crianças, sorrindo e interagindo com o grupo.
  • A imagem mostra uma professora, de camiseta vermelha, cabelos escuros na altura do ombro, realizando uma atividade de contação de história para um pequeno grupo de crianças. Ela está sentada atrás de uma mesa de madeira simples. Com uma das mãos, segura uma figura de papelão em formato de árvore com folhas verdes e, com a outra, uma representação de um violão feito de papel ou papelão marrom. As crianças estão sentadas no chão em frente à professora, prestando atenção. Algumas usam uniforme escolar (camiseta branca com mangas azuis da Secretaria Municipal de Educação), enquanto outras estão com roupas casuais, como uma menina com camiseta verde e outra com laços vermelhos nos cabelos. O ambiente é uma sala de aula com decoração simples, mas acolhedora.

Em 2024, o projeto se transforma numa contação de histórias para crianças dos três Centros Municipais de Educação Infantil (Cemeis) que atendem à comunidade, resgatando e apresentando para as novas gerações a história da caixeta e a sua importância para a economia, a cultura do fandango e ao meio ambiente. 

“As crianças que são do Cemei não conhecem muito sobre a história do fandango. E, por meio da ‘Caixeta Fandangueira’, eu posso contar um pouco da relação entre a caixeta com o fandango, da nossa cultura, que é uma cultura que vem de uma tradição já de anos e precisa ser preservada e compartilhada”, afirma Fátima. 

Na atividade, a pesquisadora apresenta de forma lúdica, quase misteriosa, uma caixa decorada com vários objetos como miniaturas da caixeta, instrumentos musicais e tamancos de fandango, uma canoa e até utensílios. E, cada vez que retira um ítem, ela conta a história da árvore, da música e dança do fandango e de como precisamos preservar a cultura e o meio ambiente. 

Para ajudar a criar o clima, Fátima contou com a participação do filho Felipe Orlandino, de 18 anos, que desde os oito está inserido na cultura Fandangueira. Hoje ele fabrica instrumentos, dança, canta e perpetua o fandango que vem do bisavô, Mestre Eugênio, o único a receber o Prêmio de Comendador da Cultura do Paraná.

🎙️ A professora Mônica Herek, da Unespar, conta mais um pouco sobre os aprendizados com o projeto ‘Caixeta Fandangueira’. Dê um play!

Livro infantil

Quanta coisa aconteceu desde aquele momento em sala de aula, em que a ciência ajuda a contar a história de uma árvore e de um povo a partir de expressões artísticas e culturais. Mas pensa que esta história acabou? 

Que nada! Quando a ciência encontra a arte, não há limites para a inovação, ainda mais se tratando de uma árvore que encontra em seu caminho duas mulheres determinadas e cheias de ideias. 

Do TCC, passando pela prática da contação de histórias, agora, o ‘Caixeta Fandangueira’ se transforma em livro infantil, a ser lançado ainda em 2025, com autoria de Fátima e Mônica. Nesta etapa, a ilustradora Katiucya Perigo se junta ao novo formato e dá vida à história em imagens que serão visualizadas por crianças por onde o livro chegar.

“Eu e Fátima tivemos que fazer um período de construção da própria história, que a gente tira da oral e vai para texto e tem que se preocupar com outras questões. Porque, quando você está contando, você espera a interação do público. Então, é preciso fazer algumas modificações na história para gerar mistério e dar uma conotação poética ao contexto”, explica Mônica.

A imagem é da capa do livro ‘Caixeta Fandangueira’, com a representação de uma árvore com seus galhos e folhas, estilizada na cor preta que destaca no fundo amarelo. No tronco, há referência de três caranguejos que vivem no mangue com a árvore, nas cores amarelo, vermelho e azul. Num dos galhos, à direita, há um desenho de uma rabeca, espécie de violino feito com a madeira da própria árvore, a caixeta, pendurado como se fosse um ‘fruta’. Abaixo do título do livro há o nome das autoras, Mônica Herek e Fátima Pires Machado, e na linha de baixo vem o nome da ilustradora Katiucya Perigo.
Livro infantil será disponibilizado a escolas da região para atividades lúdicas (Foto/Reprodução)

Juntas, professora e aluna do curso de Administração da Unespar abandonam o universo das finanças para entrar no mundo lúdico das crianças menores de cinco anos. “É muito mais difícil você transformar o pensamento de um adulto do que você gerar uma cultura já desde criança. Então, essa foi um pouco a nossa trajetória, de onde nós saímos e aonde chegamos”, acredita a professora.

Já Fátima enfatiza sua jornada de conhecimento. “O retorno que eu tive das crianças foi tremendo à medida que iam conhecendo a história dessa árvore. Na verdade, tudo me surpreendeu também, quando me dei conta como foi importante a continuação do projeto e a divulgação do livro, até porque as pessoas não dão valor a nossa cultura do fandango”. 

A aluna dedicada diz que só tem a agradecer à professora, sua parceira nessa empreitada que envolve ciência e arte, cultura e sustentabilidade.”Sou grata por essa grande oportunidade. Especialmente à Mônica, porque ela me abriu portas e tudo isso aconteceu graças ao seu apoio e incentivo”, reflete.

🎙️A aluna do curso de Administração une ciência e arte para transformar a sua própria história. Ouça!

Já a professora entende que o projeto e seus produtos retratam o muito do que acontece na universidade, seja em conhecimento como em transformação social e até pessoal. “A Fátima também foi uma janela para um outro universo para a menina que veio lá do noroeste do Estado, que é uma outra cultura, onde tudo é muito mais seco e aqui é tudo água. Essa vivência me abriu muito para conhecer esse território e sou muito grata e feliz da gente ter se encontrado, porque nós completamos uma jornada de três anos com grandes realizações”.

Por fim, o projeto ‘Caixeta Fandangueira’ é um exemplo de que a ciência e arte são irmãs na transformação de corações e mentes por onde chega para a construção de um mundo mais justo e sustentável. E a caixeta, que promoveu esse encontro, vai expressar seu agradecimento pela sua história imortalizada no livro resistindo a tudo e a todos e seguindo adiante com seu florescer e muita música e dança.

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Texto:
Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Maysa Ribeiro Macedo
Arte: Mariana Muneratti
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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