A história da existência da Tabebuia cassinoides não é para amadores. E muito menos para quem subestima o poder das árvores ou releva a força e resiliência da natureza. E como toda história que se preza, é preciso começar pelo ‘era uma vez…’, ou seja, do começo. O termo científico que a identifica tem origem no nome indígena ‘tabebuia’, que vem da árvore ‘Tabebuia uliginosa’, da família Bignoniaceae. Já o cassinoides, significa “semelhante a caixa”.
Com presença de Pernambuco ao norte de Santa Catarina, há séculos, na Floresta Atlântica brasileira, predominantemente em terrenos alagadiços como mangues, brejos e várzeas, ela é conhecida no litoral do Paraná como ‘caixeta’. Mas em outros territórios, a árvore ‘magrela’, ‘seca’ e ‘desgrenhada’ também é conhecida por caxeta, tabebuia, pau caxeta, pau paraíba, tabebuia do brejo, pau de tamanco, tamanqueira, malacaxeta, pau de viola, corticeira, tamancão, caixeta-do-litoral, entre outras denominações locais.
Por ser uma árvore de pequeno porte e com raízes flutuantes, daquelas que a gente vê nos manguezais servindo de abrigo para caranguejos, a madeira da caixeta é muito leve, não racha, nem empena. É ideal para fabricar canoas, utensílios domésticos como gamelas e talheres, tamancos, além de instrumentos musicais. Porém, foram essas características que colocaram a árvore em perigo de extinção, apesar de já fazer parte da tradição dos povos caiçaras na geração de renda e incremento para consolidação de suas expressões folclóricas como o fandango.

Desde a década de 1930, a caixeta passou a ser utilizada pela indústria madeireira, especialmente para a fabricação de móveis, utensílios, palitos de fósforos e lápis. Segundo informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), “no litoral do Paraná, a exploração dos caixetais nativos chegou a contribuir com 70% do consumo das serrarias locais, apesar dos custos serem o dobro, ou mais, da extração em reflorestamentos de Pinus situados em terra firme. Com o tempo, houve um abandono da exploração dos caixetais naturais pelas indústrias de lápis, devido ao custo elevado da exploração e pela localização em áreas de conservação permanente”.
Outros fatores contribuíram para esse cenário de devastação da caixeta, favorecendo o surgimento de outras espécies em seu habitat. Entre eles, estão o assoreamento dos rios e, consequentemente, das áreas de várzea, a erosão dos solos, o lançamento constante de detritos sólidos nos cursos d’água por indústrias e centros urbanos em geral, bem como a criação de barragens, açudes e estradas cruzando cursos d’água.
Não bastasse, a pressão resultante da expansão desordenada dos centros urbanos e especulação imobiliária, assim como o aumento dos condomínios à beira mar impulsionados pelo turismo, vem resultando no aterro de diversas áreas alagadas e a devastação das mais diversas formações vegetais como restingas, mangues e caixetais nos litorais do país.
Com a exploração da caixeta proibida durante décadas para impedir o desaparecimento completo da árvore, somente em 2023 que a diretoria de Patrimônio Natural do Instituto Água e Terra (IAT) atendeu a um pedido antigo da Associação de Cultura Popular Mandicuera, que permitiu a dispensa de licenciamento ambiental a três construtores de instrumentos de Paranaguá para manejo de caixeta. A decisão colaborou com a preservação de duas riquezas do Estado: a árvore ameaçada de extinção e a cultura fandangueira caiçara.
A história da caixeta está intimamente ligada ao fandango caiçara, considerado Patrimônio Cultural Imaterial, desde novembro de 2012, pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A prática acontece na parte Norte do litoral paranaense e no sul do litoral paulista, por meio de expressão musical-coreográfica-poética e festiva. Com a proibição do corte da caixeta, os caiçaras não puderam mais realizar atividades cotidianas sob pena de serem criminalizados, nem repassar para a tradição para as novas gerações.
‘Caixeta Fandangueira’
É neste contexto que a árvore nativa retoma a sua jornada junto à tradução Fandangueira da comunidade caiçara da Ilha de Valadares, no litoral do estado. E neste caminho secular, há o encontro de duas mulheres, de origens e culturas distintas, que se encontram na sala de aula do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), no campus de Paranaguá.

Mônica Herek é natural de Paranavaí, cidade do interior do estado, e se transfere do campus da Unespar, do Noroeste para o litoral, para conhecer Fátima Pires Machado, aluna nascida e criada na Ilha de Valadares e imersa no universo do fandango. Durante a disciplina Sociologia Aplicada à Administração, em 2022, surge o projeto ‘Caixeta Fandangueira’, a partir da pesquisa da estudante sobre a importância social, econômica, cultural e ambiental da caixeta para a comunidade caiçara da ilha, localizada a pouco mais de três quilômetros de Paranaguá.
“A Fátima não é o perfil que a gente está acostumado na universidade. Ela já é casada, com um filho adulto e uma pré-adolescente, e durante a retomada das atividades pós-pandemia surge a ideia de pensar como funciona a economia local e a importância da caixeta para o povo caiçara”, relembra a professora. A partir daí, com a parceria do professor Adilson Anacleto, Fátima apresenta o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Administração, resultando na publicação de um artigo científico na Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales.
O processo de pesquisa foi tão rico para professora e aluna que, no ano seguinte, elas deram prosseguimento ao projeto, numa nova etapa. “Estivemos na Casa Mandicuera na Ilha de Valadares, numa visita organizada pela Fátima, e aí surgiu a ideia de levar um pouco das descobertas da pesquisa para as crianças caiçaras”, conta Mônica.
Em 2024, o projeto se transforma numa contação de histórias para crianças dos três Centros Municipais de Educação Infantil (Cemeis) que atendem à comunidade, resgatando e apresentando para as novas gerações a história da caixeta e a sua importância para a economia, a cultura do fandango e ao meio ambiente.
“As crianças que são do Cemei não conhecem muito sobre a história do fandango. E, por meio da ‘Caixeta Fandangueira’, eu posso contar um pouco da relação entre a caixeta com o fandango, da nossa cultura, que é uma cultura que vem de uma tradição já de anos e precisa ser preservada e compartilhada”, afirma Fátima.
Na atividade, a pesquisadora apresenta de forma lúdica, quase misteriosa, uma caixa decorada com vários objetos como miniaturas da caixeta, instrumentos musicais e tamancos de fandango, uma canoa e até utensílios. E, cada vez que retira um ítem, ela conta a história da árvore, da música e dança do fandango e de como precisamos preservar a cultura e o meio ambiente.
Para ajudar a criar o clima, Fátima contou com a participação do filho Felipe Orlandino, de 18 anos, que desde os oito está inserido na cultura Fandangueira. Hoje ele fabrica instrumentos, dança, canta e perpetua o fandango que vem do bisavô, Mestre Eugênio, o único a receber o Prêmio de Comendador da Cultura do Paraná.
Livro infantil
Quanta coisa aconteceu desde aquele momento em sala de aula, em que a ciência ajuda a contar a história de uma árvore e de um povo a partir de expressões artísticas e culturais. Mas pensa que esta história acabou?
Que nada! Quando a ciência encontra a arte, não há limites para a inovação, ainda mais se tratando de uma árvore que encontra em seu caminho duas mulheres determinadas e cheias de ideias.
Do TCC, passando pela prática da contação de histórias, agora, o ‘Caixeta Fandangueira’ se transforma em livro infantil, a ser lançado ainda em 2025, com autoria de Fátima e Mônica. Nesta etapa, a ilustradora Katiucya Perigo se junta ao novo formato e dá vida à história em imagens que serão visualizadas por crianças por onde o livro chegar.
“Eu e Fátima tivemos que fazer um período de construção da própria história, que a gente tira da oral e vai para texto e tem que se preocupar com outras questões. Porque, quando você está contando, você espera a interação do público. Então, é preciso fazer algumas modificações na história para gerar mistério e dar uma conotação poética ao contexto”, explica Mônica.

Juntas, professora e aluna do curso de Administração da Unespar abandonam o universo das finanças para entrar no mundo lúdico das crianças menores de cinco anos. “É muito mais difícil você transformar o pensamento de um adulto do que você gerar uma cultura já desde criança. Então, essa foi um pouco a nossa trajetória, de onde nós saímos e aonde chegamos”, acredita a professora.
Já Fátima enfatiza sua jornada de conhecimento. “O retorno que eu tive das crianças foi tremendo à medida que iam conhecendo a história dessa árvore. Na verdade, tudo me surpreendeu também, quando me dei conta como foi importante a continuação do projeto e a divulgação do livro, até porque as pessoas não dão valor a nossa cultura do fandango”.
A aluna dedicada diz que só tem a agradecer à professora, sua parceira nessa empreitada que envolve ciência e arte, cultura e sustentabilidade.”Sou grata por essa grande oportunidade. Especialmente à Mônica, porque ela me abriu portas e tudo isso aconteceu graças ao seu apoio e incentivo”, reflete.
Já a professora entende que o projeto e seus produtos retratam o muito do que acontece na universidade, seja em conhecimento como em transformação social e até pessoal. “A Fátima também foi uma janela para um outro universo para a menina que veio lá do noroeste do Estado, que é uma outra cultura, onde tudo é muito mais seco e aqui é tudo água. Essa vivência me abriu muito para conhecer esse território e sou muito grata e feliz da gente ter se encontrado, porque nós completamos uma jornada de três anos com grandes realizações”.
Por fim, o projeto ‘Caixeta Fandangueira’ é um exemplo de que a ciência e arte são irmãs na transformação de corações e mentes por onde chega para a construção de um mundo mais justo e sustentável. E a caixeta, que promoveu esse encontro, vai expressar seu agradecimento pela sua história imortalizada no livro resistindo a tudo e a todos e seguindo adiante com seu florescer e muita música e dança.
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Texto: Silvia Calciolari
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de áudio: Maysa Ribeiro Macedo
Arte: Mariana Muneratti
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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