Em 2024, um dos ingredientes mais usados na cozinha brasileira virou quase que um artigo de luxo. Se você pensou no azeite de oliva, acertou. Quem andava pelo mercado dava de cara com o preço do produto nas alturas, encontrando garrafas simples que beiravam os R$ 50. Isso aconteceu devido a uma combinação de fatores, como as mudanças climáticas, que afetaram a produção global, e a alta do dólar.
E quanto mais valorizado um produto, maior o risco de adulteração. Azeites vendidos como “extra virgem” podem, na verdade, ser misturas com óleo de soja ou de girassol. Tudo dentro de uma embalagem aparentemente confiável. O consumidor paga caro por algo que não é o que promete e, sem uma análise mais profunda, dificilmente conseguiria notar a diferença.

É aí que entra a ciência. Existe uma técnica que ajuda a desvendar esse tipo de adulteração, a chamada Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Com ela, é possível analisar a estrutura molecular de uma substância e descobrir, com precisão, o que está presente em cada amostra. Ou seja, dá para saber se dentro da garrafa tem mesmo azeite puro ou uma mistura disfarçada.
Desde 2023, o Paraná conta com o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) RMN, uma iniciativa estratégica voltada ao fortalecimento e à expansão do uso da RMN no estado. O foco do Arranjo está em garantir o pleno funcionamento de laboratórios especializados em RMN nas seguintes universidades: Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila); ampliar o acesso à tecnologia e difundir seu uso entre pesquisadores, estudantes da educação básica e superior, e indústrias

O que é RMN e para que serve?
De acordo com o coordenador do NAPI RMN, o professor Andersson Barison, da UFPR, a Ressonância Magnética Nuclear funciona com base em princípios semelhantes aos da ressonância magnética utilizada em exames de imagem hospitalares. A diferença é que, em vez de gerar imagens, os espectrômetros (equipamentos de RMN) fornecem gráficos, que mostram o comportamento de átomos em uma molécula. A partir dessa leitura, a tecnologia identifica substâncias existentes em uma amostra, determina sua composição e até quantifica diferentes componentes.
Com laboratórios interligados, o NAPI RMN atua em rede para atestar que os equipamentos funcionem plenamente e estejam disponíveis para demandas de todo o Paraná. Presente em áreas que vão da agricultura à saúde, passando pela indústria e pela investigação criminal, o processo vem se consolidando como uma ferramenta indispensável para gerar respostas rápidas e precisas.

Assim como no caso do azeite, a RMN é considerada a técnica padrão-ouro para identificar adulterações e assegurar a autenticidade de diversos produtos. No setor de alimentos, ela confirma a pureza de itens como sucos e vinhos, podendo até determinar sua origem geográfica. Essa precisão a torna estratégica para inserir a RMN como instrumento de alta tecnologia no controle de qualidade e certificação, agregando valor, fortalecendo cadeias produtivas e impulsionando a economia do Paraná.
O mel é um bom exemplo desse potencial. Segundo Barison, o Brasil perde cerca de US$ 40 milhões por ano por não conseguir comprovar, com a mesma precisão de países como a Argentina, que o produto exportado é autêntico e de qualidade. No Paraná, segundo maior produtor nacional de mel, a adoção da RMN poderia gerar até US$5 milhões anuais em exportações. Fora dos alimentos, a ferramenta certifica insumos agrícolas, controla a qualidade de cosméticos, fertilizantes e fármacos, corrige falhas de formulação e apoia o desenvolvimento de novos produtos.
A aplicação também é fundamental na área forense. É utilizada pela Polícia Federal, Polícia Científica do Paraná e outros órgãos para identificar drogas ilícitas, incluindo substâncias inéditas, ajudando a solucionar investigações. Já na saúde, abre espaço para ampliar o diagnóstico de doenças e verificar a composição exata de medicamentos, de modo a dar mais segurança ao paciente.
Um dos casos mais marcantes para o professor Andersson Barison envolveu uma criança com epilepsia, que precisava de um medicamento à base de canabidiol (CBD), ainda não disponível no Brasil, na época. A família só poderia importar o produto com a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Antes disso, no entanto, era fundamental confirmar que o remédio continha apenas CBD, sem THC (substância psicoativa da cannabis), para que fosse seguro para a criança.
A análise feita na mesma noite em que o pai da criança procurou o laboratório confirmou exatamente isso e permitiu que a família obtivesse a autorização para importar o remédio. “Hoje, essa criança é saudável, se desenvolve muito bem e leva uma vida normal. Saber que ajudamos a tornar isso possível não tem preço”, relembra.

Além de sustentar a infraestrutura analítica, o NAPI forma novos cientistas. Estudantes de graduação, mestrado e doutorado de diferentes áreas utilizam os equipamentos para análises e pesquisas. “Esses laboratórios funcionam como suporte para outros pesquisadores, para outras pessoas fazerem ciência. Eles oferecem a ferramenta de análise necessária para que diversas investigações aconteçam”, explica o coordenador.
A rede também aposta na divulgação científica. A Escola Paranaense de RMN é um exemplo disso. O evento reúne estudantes, professores e técnicos de diferentes regiões para aprender, de forma teórica e prática, como a RMN funciona e quais são suas aplicações no dia a dia. Durante a Escola, os participantes têm contato direto com pesquisadores experientes, conhecem casos reais de análise e desenvolvem atividades que simulam investigações científicas.
E para aumentar ainda mais o alcance nos próximos meses, uma das metas do Novo Arranjo é adquirir um espectrômetro portátil de RMN. Embora mais simples que os equipamentos de grande porte, demonstra os princípios básicos da técnica e realiza análises rápidas.
Assim, será viável levar a ciência até escolas, feiras e eventos, permitindo que crianças e jovens conheçam de perto a versatilidade desse método. “Se o aluno não pode vir até a universidade, a gente vai até ele. Queremos mostrar o que a ciência pode fazer e despertar o interesse desde cedo”, conclui o professor da UFPR.
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Texto: Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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