RMN: a técnica que abre portas para infinitas descobertas

A imagem apresenta uma composição artística com fundo azul escuro e elementos científicos em destaque: um tubo de ensaio com folhas verdes, um gráfico com seta vermelha apontando para cima, uma engrenagem azul, uma cápsula de remédio e um escudo. Ao fundo, há uma linha branca conectando estrelas, lembrando uma constelação. As formas ao redor remetem a pinceladas e manchas abstratas. A arte é creditada ao projeto “Conexão Ciência” e à artista Any Veronezi.
Do controle de alimentos à investigação criminal, o NAPI RMN vem impulsionando o uso da Ressonância Magnética Nuclear no Paraná

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Em 2024, um dos ingredientes mais usados na cozinha brasileira virou quase que um artigo de luxo. Se você pensou no azeite de oliva, acertou. Quem andava pelo mercado dava de cara com o preço do produto nas alturas, encontrando garrafas simples que beiravam os R$ 50. Isso aconteceu devido a uma combinação de fatores, como as mudanças climáticas, que afetaram a produção global, e a alta do dólar.

E quanto mais valorizado um produto, maior o risco de adulteração. Azeites vendidos como “extra virgem” podem, na verdade, ser misturas com óleo de soja ou de girassol. Tudo dentro de uma embalagem aparentemente confiável. O consumidor paga caro por algo que não é o que promete e, sem uma análise mais profunda, dificilmente conseguiria notar a diferença.

Na imagem, uma pessoa está em um supermercado, segurando uma garrafa de vidro transparente cheia de azeite, de cor amarelada e com tampa vermelha. A garrafa está acima de um carrinho de compras vermelho, que contém outra garrafa plástica de óleo com tampa amarela e um pacote retangular embalado em plástico vermelho. Ao fundo, a prateleira está repleta de outras garrafas de azeite, organizadas lado a lado. A cena mostra o momento de escolha do produto durante as compras.
O azeite de oliva está no pódio dos alimentos mais fraudados no Brasil e no mundo (Foto/Getty Images)

É aí que entra a ciência. Existe uma técnica que ajuda a desvendar esse tipo de adulteração, a chamada Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Com ela, é possível analisar a estrutura molecular de uma substância e descobrir, com precisão, o que está presente em cada amostra. Ou seja, dá para saber se dentro da garrafa tem mesmo azeite puro ou uma mistura disfarçada. 

Desde 2023, o Paraná conta com o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) RMN, uma iniciativa estratégica voltada ao fortalecimento e à expansão do uso da RMN no estado. O foco do Arranjo está em garantir o pleno funcionamento de laboratórios especializados em RMN nas seguintes universidades: Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila); ampliar o acesso à tecnologia e difundir seu uso entre pesquisadores, estudantes da educação básica e superior, e indústrias

O infográfico mostra um mapa do estado do Paraná com a localização dos laboratórios de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) existentes em universidades públicas. Cada laboratório é representado pelo desenho de um espectrômetro de RMN acompanhado do nome da instituição em destaque. No canto superior esquerdo, está escrito “Laboratórios de RMN no Paraná”. Na região norte do estado aparecem a UEM, em verde, e a UEL, em roxo. Mais ao centro, está a UEPG, em amarelo. Em Curitiba, no leste do Paraná, está a UFPR, em vermelho. Já no extremo oeste, próximo à fronteira, aparece a Unila, em azul claro. Os pontos que marcam os laboratórios estão conectados por linhas, representando a rede de colaboração entre as universidades. No rodapé, à direita, está o crédito “Conexão Ciência | Arte: Any Veronezi”.

O que é RMN e para que serve?

De acordo com o coordenador do NAPI RMN, o professor Andersson Barison, da UFPR, a Ressonância Magnética Nuclear funciona com base em princípios semelhantes aos da ressonância magnética utilizada em exames de imagem hospitalares. A diferença é que, em vez de gerar imagens, os espectrômetros (equipamentos de RMN) fornecem gráficos, que mostram o comportamento de átomos em uma molécula. A partir dessa leitura, a tecnologia identifica substâncias existentes em uma amostra, determina sua composição e até quantifica diferentes componentes.

Com laboratórios interligados, o NAPI RMN atua em rede para atestar que os equipamentos funcionem plenamente e estejam disponíveis para demandas de todo o Paraná. Presente em áreas que vão da agricultura à saúde, passando pela indústria e pela investigação criminal, o processo vem se consolidando como uma ferramenta indispensável para gerar respostas rápidas e precisas.

A imagem mostra o interior do Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). No centro, um pesquisador de jaleco branco está sentado diante de uma mesa com computador trabalhando. À esquerda, ocupa bastante espaço um grande equipamento cilíndrico branco com detalhes em azul, identificado como “Ascend 400 Bruker”, que é um espectrômetro de RMN. À direita do pesquisador, próximos à mesa, há grandes cilindros metálicos de diferentes tamanhos e cores, com etiquetas de segurança e válvulas na parte superior. O mais próximo é prateado e volumoso, com adesivos de aviso sobre risco de magnetismo e inflamabilidade. Ao lado dele, estão cilindros vermelhos e alaranjados. O laboratório tem paredes brancas, piso de azulejo claro e iluminação feita por lâmpadas fluorescentes
Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) da UEL (Foto/Arquivo pessoal)

Assim como no caso do azeite, a RMN é considerada a técnica padrão-ouro para identificar adulterações e assegurar a autenticidade de diversos produtos. No setor de alimentos, ela confirma a pureza de itens como sucos e vinhos, podendo até determinar sua origem geográfica. Essa precisão a torna estratégica para inserir a RMN como instrumento de alta tecnologia no controle de qualidade e certificação, agregando valor, fortalecendo cadeias produtivas e impulsionando a economia do Paraná.

O mel é um bom exemplo desse potencial. Segundo Barison, o Brasil perde cerca de US$ 40 milhões por ano por não conseguir comprovar, com a mesma precisão de países como a Argentina, que o produto exportado é autêntico e de qualidade. No Paraná, segundo maior produtor nacional de mel, a adoção da RMN poderia gerar até US$5 milhões anuais em exportações. Fora dos alimentos, a ferramenta certifica insumos agrícolas, controla a qualidade de cosméticos, fertilizantes e fármacos, corrige falhas de formulação e apoia o desenvolvimento de novos produtos.

A aplicação também é fundamental na área forense. É utilizada pela Polícia Federal, Polícia Científica do Paraná e outros órgãos para identificar drogas ilícitas, incluindo substâncias inéditas, ajudando a solucionar investigações. Já na saúde, abre espaço para ampliar o diagnóstico de doenças e verificar a composição exata de medicamentos, de modo a dar mais segurança ao paciente.

Um dos casos mais marcantes para o professor Andersson Barison envolveu uma criança com epilepsia, que precisava de um medicamento à base de canabidiol (CBD), ainda não disponível no Brasil, na época. A família só poderia importar o produto com a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Antes disso, no entanto, era fundamental confirmar que o remédio continha apenas CBD, sem THC (substância psicoativa da cannabis), para que fosse seguro para a criança.

A análise feita na mesma noite em que o pai da criança procurou o laboratório confirmou exatamente isso e permitiu que a família obtivesse a autorização para importar o remédio. “Hoje, essa criança é saudável, se desenvolve muito bem e leva uma vida normal. Saber que ajudamos a tornar isso possível não tem preço”, relembra.

O infográfico tem como título “Exemplos de uso da RMN” e mostra cinco áreas em que a Ressonância Magnética Nuclear pode ser aplicada. O primeiro exemplo é o controle de qualidade de produtos, utilizado na análise de alimentos, bebidas, medicamentos, combustíveis e cosméticos. O segundo é a análise forense, que permite identificar drogas ilícitas, substâncias tóxicas e produtos falsificados. Em seguida aparece o tratamento médico, voltado ao diagnóstico e monitoramento de doenças. Outro campo é a agricultura e a agroindústria, com uso na análise de solos, sementes, fertilizantes e óleos vegetais. Por fim, a inovação na indústria, onde a RMN é aplicada em processos industriais e no desenvolvimento tecnológico. No canto inferior direito está o crédito “Conexão Ciência | Arte: Any Veronezi” e, ao lado, a ilustração de um equipamento de RMN em azul.

Além de sustentar a infraestrutura analítica, o NAPI forma novos cientistas. Estudantes de graduação, mestrado e doutorado de diferentes áreas utilizam os equipamentos para análises e pesquisas. “Esses laboratórios funcionam como suporte para outros pesquisadores, para outras pessoas fazerem ciência. Eles oferecem a ferramenta de análise necessária para que diversas investigações aconteçam”, explica o coordenador.

A rede também aposta na divulgação científica. A Escola Paranaense de RMN é um exemplo disso. O evento reúne estudantes, professores e técnicos de diferentes regiões para aprender, de forma teórica e prática, como a RMN funciona e quais são suas aplicações no dia a dia. Durante a Escola, os participantes têm contato direto com pesquisadores experientes, conhecem casos reais de análise e desenvolvem atividades que simulam investigações científicas. 

  • A foto mostra a equipe organizadora da I Escola Paranaense de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), realizada na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O grupo, composto por cerca de 50 pessoas, está posicionado em frente à tela de projeção do auditório, onde aparece o título do evento e a logomarca da UEPG. A maioria veste camisetas brancas personalizadas e crachás de identificação. Nas laterais, alguns usam roupas casuais em outras cores. Atrás, no canto esquerdo, aparecem quatro bandeiras, sendo uma delas a do Brasil. O ambiente é um auditório amplo, com várias fileiras de cadeiras vazias na parte da frente da imagem. A cena transmite a ideia de união e cooperação.
  • A foto foi tirada durante a I Escola Paranaense de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), realizada na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). A imagem mostra um grupo de seis pessoas reunidas em um laboratório, sorrindo para a câmera. À esquerda, um jovem segura um certificado; ao lado dele está uma mulher de óculos e blusa clara com estampa floral. No centro, uma criança segura também um certificado, com um rapaz alto de camiseta branca logo atrás. À direita, estão duas jovens usando crachás do evento, ambas de camiseta azul-marinho com estampas relacionadas à ciência — uma delas está com a cabeça apoiada no ombro da colega, demonstrando proximidade e afeto. Ao fundo, vê-se parte dos equipamentos de laboratório e, na parede, um ar-condicionado instalado na parte superior. A cena transmite clima de celebração e conquista, marcando a entrega de certificados e a participação no evento científico.
  • A imagem foi registrada durante a I Escola Paranaense de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), realizada na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Nela, aparece uma menina de cabelo castanho preso, usando um casaco verde, e uma mulher de lenço preto na cabeça e camiseta vermelha. As duas estão lado a lado diante de um computador em uma bancada de laboratório, observando a tela com atenção. No monitor aparece um software de aquisição de dados científicos, que mostra a imagem de um tubo de ensaio e um gráfico circular indicando medições em andamento. Ao redor, sobre a bancada cinza, há equipamentos de laboratório, recipientes com canetas, papéis e outros materiais de uso técnico. Na parede ao fundo estão fixados pôsteres de referência científica, entre eles a tabela periódica, reforçando o caráter educativo e científico do espaço. A cena transmite o clima de aprendizado prático e de aproximação entre ciência e formação de novos pesquisadores, característica do evento.

E para aumentar ainda mais o alcance nos próximos meses, uma das metas do Novo Arranjo é adquirir um espectrômetro portátil de RMN. Embora mais simples que os equipamentos de grande porte, demonstra os princípios básicos da técnica e realiza análises rápidas. 

Assim, será viável levar a ciência até escolas, feiras e eventos, permitindo que crianças e jovens conheçam de perto a versatilidade desse método. “Se o aluno não pode vir até a universidade, a gente vai até ele. Queremos mostrar o que a ciência pode fazer e despertar o interesse desde cedo”, conclui o professor da UFPR.

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Texto:
Maria Eduarda de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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