Ser estudante é viver o presente para moldar o futuro

A imagem mostra três versões da mesma jovem de cabelo cacheado rosa, usando camiseta branca e calça amarela. À esquerda, ela está de pé com um megafone e punho erguido. Ao centro, está sentada de pernas cruzadas lendo um livro azul, com expressão tranquila. À direita, usa fone de ouvido com microfone e segura um notebook. O fundo é em tons de rosa. No canto inferior direito, lê-se: “© Conexão Ciência | Arte: Lucas Romão”.
Movimentos estudantis transformam a educação e inspiram mudanças sociais no Brasil

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“Ah, você só estuda?”. Essa é uma pergunta que toca o terror em quem está na jornada dos estudos. Estudar é construir o futuro e investir tempo, energia e dedicação para entender o mundo e transformá-lo para melhor. 

Seja na escola, na universidade ou de forma autônoma, quem estuda tem a capacidade de criar uma sociedade mais justa e preparada. É justamente por isso que, em 11 de agosto, comemoramos o Dia do Estudante no Brasil.

O Dia do Advogado também é celebrado neste dia porque marca o início do ensino jurídico no país. Em 1927, no centenário da data, o jurista Celso Gand Ley propôs que o 11 de agosto também homenageasse os estudantes.

Apesar do clássico “só estuda?”, muitos estudantes conciliam a rotina com estágios ou jornadas de trabalho. Ou seja, a vida escolar e universitária é cheia de camadas e desafios que vão além de só entender o conteúdo explicado em sala de aula. Um bom exemplo disso é a atuação política estudantil que gera mudanças concretas na sociedade.

Relembrar para entender

Os movimentos estudantis surgem justamente dessa diversidade de atuações dos estudantes. Eles são um conjunto de organizações e ações de alunos que lutam por seus direitos, interesses e por melhorias na educação.

O professor de história do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e membro do Laboratório de Pesquisa em Educação e História Ambiental (LEHA), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), André Valentini, conta que esses movimentos surgiram no século XIX com a expansão das universidades e, no Brasil, ganharam força política no início do século XX.

Em 11 de agosto de 1937, também Dia do Estudante, foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE), com o objetivo de promover a defesa da qualidade de ensino, do patrimônio nacional e da justiça social. Se você se lembra um pouco das aulas de história, pode perceber que os anos seguintes à fundação da UNE foram bem conturbados… eclodiu, em 1939, a Segunda Guerra Mundial, e a União pressionou o governo de Getúlio Vargas a tomar posição contra o nazi-fascismo de Hitler.

A imagem em preto e branco retrata uma solenidade de comemoração realizada no salão nobre da entidade UNE (União Nacional dos Estudantes), no ano de 1948. Em primeiro plano, vê-se uma longa mesa decorada. Ao redor da mesa, um grupo numeroso de homens e mulheres, todos vestidos formalmente, permanece de pé. A qualidade da imagem é granulada, típica de jornais antigos, mas ainda assim transmite a importância histórica do momento registrado.
Solenidade de comemoração de 11 anos no salão da UNE em 1948 (Foto/Reprodução)

Logo depois, veio a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985. O Movimento Estudantil teve papel de destaque na resistência ao autoritarismo, conta Valentini. Os estudantes também usaram a cultura como forma de protesto, com atividades artísticas que desafiavam o regime.

  • A imagem em preto e branco mostra um grupo de jovens durante a greve estudantil de 1956. Muitos estão com os braços erguidos em sinal de protesto ou comemoração, alguns sobre um bonde, símbolo da mobilização. A cena noturna transmite energia e união, típica dos movimentos estudantis da época.
  • A imagem em preto e branco mostra uma manifestação estudantil pela anistia. Um grupo numeroso se reúne ao redor de um monumento, onde alguns manifestantes escalam a estrutura e estendem uma faixa da UNE com os dizeres: “Estudantes pela Anistia”. A cena transmite mobilização, engajamento político e o clima de luta pelo fim da ditadura militar no Brasil

Depois do golpe, os reitores foram trocados por interventores, as eleições estudantis foram canceladas e muitos líderes estudantis foram perseguidos, presos, torturados ou exilados. No Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, mais de 700 estudantes foram presos, incluindo Luís Travassos, ativista e líder estudantil brasileiro. 

Com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), também em 1968, a repressão aumentou e as manifestações foram duramente combatidas. Já nos anos 1970, o governo criou o Sistema de Segurança e Informações (SISNI) para vigiar estudantes e professores nas universidades. Resumindo: não eram bons tempos para os movimentos. 

“Com a Lei da Anistia, em 1979, os estudantes começaram a se reorganizar por meio dos Centros Acadêmicos (CAs) e dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs). A partir daí, a luta pela restauração da democracia ganhou ainda mais força. Junto com sindicatos, partidos, movimentos populares, artistas e intelectuais, os estudantes se engajaram nas Diretas Já. Também criaram cartazes, faixas, cantos de protesto e músicas do movimento”, explica o professor. 

Se você quiser relembrar um pouco mais sobre a história do golpe militar de 1964, não deixe de conferir essa matéria do C²! Inclusive, você já conhece alguns dos movimentos e organizações estudantis mais populares no Brasil? Dê uma conferida aqui:

A imagem apresenta um infográfico colorido explicando quatro tipos de organizações estudantis no Brasil. Em blocos coloridos, estão listados: 1. CA – Centro Acadêmico: representa todos os estudantes de um curso. 2. DCE – Diretório Central dos Estudantes: representa todos os estudantes da universidade e reúne vários CAs. 3. UEE – União Estadual dos Estudantes: representa estudantes de cada estado. 4. UNE – União Nacional dos Estudantes: representa estudantes em nível nacional e reúne CAs, DCEs e UEEs. O título diz: “Alguns dos movimentos que fazem a diferença nas Universidades” e há crédito à União Nacional dos Estudantes (2025) e ao autor da arte.

A força estudantil na atualidade

Após a redemocratização, os estudantes continuaram presentes em momentos decisivos da política brasileira. Em 1992, protagonizaram o movimento dos caras-pintadas, pedindo o impeachment de Fernando Collor. Em 2013, mesmo sem a liderança direta estudantil, estudantes tomaram as ruas contra o aumento da tarifa de ônibus, lembra Valentini.

Hoje, quem vive a universidade de perto vê nascer e crescer movimentos estudantis cheios de energia. É o caso do estudante de Comunicação e Multimeios (CMM) na UEM,  João Luiz Lazaretti, que é secretário-geral do carinhosamente apelidado CACO, o Centro Acadêmico do curso.

Ele contou ao C² que os CA são peça-chave na vida universitária porque vão além da ponte entre estudantes e instituição e fortalecem, também, os laços entre colegas e com os professores. “Estamos sempre em diálogo com a coordenação do curso, professores e os alunos de CMM”, ressalta João.

A imagem mostra João e Graça sentados lado a lado em cadeiras vermelhas, durante um evento em ambiente fechado. À esquerda, a mulher veste uma blusa verde e colar claro; à direita, o rapaz com camiseta roxa do CACO. Ambos usam óculos e olham diretamente para a câmera.
João Luiz e a atual coordenadora de CMM, Graça Rossetto (Foto/Reprodução)

João conta que o CACO tem sido fundamental na luta pelos direitos dos estudantes de CMM, um curso que, em relação a outros da UEM, pode ser considerado precarizado. “Uma das vitórias mais marcantes foi a chegada de novos professores efetivos. A gente só tinha seis efetivos e cinco temporários. Junto com outros CA, lutamos por mais contratações e deu certo! No começo do ano, quatro novos docentes chegaram para reforçar o time do curso”.

Em 2024, o CACO deu um passo importante ao idealizar e lançar o Projeto Vozes, em parceria com outros Centros Acadêmicos. A iniciativa tem como foco abrir espaço para debates sobre permanência estudantil e pautas do cotidiano universitário. Na primeira edição, o tema foi a implementação de cotas para pessoas trans e travestis; na segunda, a inclusão de autores indígenas nas grades curriculares.

  • A imagem mostra um grupo de pessoas sentadas em círculo sobre um piso de madeira, sugerindo um espaço cultural ou sala de teatro. No centro, um homem de boné e colar de contas indígenas fala enquanto gesticula, sendo o foco da roda. Ao redor dele, jovens escutam com atenção, algumas com cadernos e canetas nas mãos. O clima é de escuta e troca, típico de rodas de conversa que valorizam o diálogo e o respeito às diferentes vozes.
  • A imagem mostra um grupo grande de pessoas posando para uma foto coletiva em ambiente fechado, com cortinas pretas ao fundo e chão de madeira. A maioria são jovens. Todos sorriem, transmitindo um clima de confraternização, união e acolhimento.
  • A imagem mostra uma roda de conversa em uma sala de aula ampla, com piso de cerâmica e iluminação fluorescente. As pessoas estão sentadas em cadeiras organizadas em círculo, com atenção voltada para o centro do espaço. O ambiente é informal, mas concentrado, indicando um momento de escuta coletiva, discussão ou partilha de experiências. A disposição em círculo reforça o caráter horizontal e participativo da atividade.
  • A imagem mostra pessoas reunidas em uma sala de aula, sorrindo para uma foto coletiva. O grupo é diverso e o clima é descontraído, indicando o registro de uma atividade cultural ou educativa. Destaque para uma pessoa ao centro, com roupa verde vibrante, ajoelhada à frente.

Uma das maiores dificuldades para manter o CA ativo, segundo João, é a falta de consciência política dentro da própria comunidade estudantil. “Muita gente não percebe que fazemos parte de um corpo coletivo, vivo, que tem poder de mudança. Precisamos lembrar que nossas ações têm impacto real nas políticas e nos debates que guiam a universidade e a sociedade”.

Essa característica de luta em prol da coletividade não se restringe apenas aos CAs. Em Curitiba, a Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU) é, para muitos, o primeiro passo rumo à realização do sonho de cursar uma universidade. Com 77 anos de história, a CEU é símbolo de resistência, acolhimento e luta coletiva.

A imagem mostra uma página de revista com o título “Moradia Estudantil: uma luta sem trégua”. À direita, há uma foto em preto e branco de uma passeata com estudantes segurando faixas e cartazes. A legenda da foto informa que moradores das casas realizam passeata em Curitiba.
Registro histórico do jornal da CEU (Foto/Reprodução)

Camila Calaudiano, atual 1ª vice-presidente da Casa, relembra que tudo começou em 1948, quando estudantes do interior ocuparam um prédio abandonado. Anos depois, com a força do movimento estudantil, conquistaram o atual edifício, que abriga cerca de 300 moradores de diversas instituições, cidades, estados e até países.

A CEU é a maior moradia estudantil autogerida da América Latina e se mantém viva graças ao engajamento dos próprios estudantes, que dividem entre si as despesas por meio do rateio. “A gestão é organizada em conselhos, cargos e eleições. Embora a CEU ofereça um ambiente propício para estudar, com café da manhã, sala de estudos, quadra e até hospedagem para eventos, os desafios são muitos”. 

Mesmo enfrentando a precarização e limitações, como a impossibilidade de garantir segurança alimentar completa a todos os moradores, a CEU segue firme. Camila compartilha que foi graças à moradia que ela pôde estudar jornalismo na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Com localização próxima a um restaurante universitário e a rede de transportes, encontrou ali as condições para permanecer na universidade. 

Hoje, retribui esse apoio participando ativamente da gestão. Para ela, a CEU é mais do que um lugar para morar: é prova de que, quando os estudantes se unem, conseguem criar soluções concretas para garantir o direito à educação.

A imagem mostra a fachada da CEU, com vários andares, arquitetura simétrica e janelas alinhadas. Acima da entrada principal está escrita a frase "CASA DO ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO". Em frente ao edifício há uma calçada arborizada, com árvores altas e vegetação, além de uma rua asfaltada com faixa de pedestres.
Casa do Estudante Universitário em Curitiba (Foto/Reprodução)

O DCE da UFPR também tem desempenhado um papel essencial na defesa da permanência estudantil, especialmente diante das recentes crises no Restaurante Universitário (RU). A coordenadora geral do Diretório, Julia Andrade Maia, conta que a situação se agravou após problemas com a empresa vencedora da licitação, que retirou os equipamentos dos RUs e deixou os estudantes sem acesso à alimentação subsidiada após o rompimento do contrato. 

Desde então, o DCE tem pressionado a reitoria por soluções. Um dos marcos dessa atuação foi a paralisação organizada em conjunto com os funcionários. A luta, agora, é para garantir a retomada plena e com qualidade do RU.

Funcionários do Restaurante Universitário (RU) da UFPR aparecem reunidos em uma cozinha industrial, usando uniformes brancos e toucas de higiene. Estão em pé, lado a lado, com expressões sérias, olhando para a câmera. A legenda na imagem diz: “estamos aqui esperando algum posicionamento”.
Funcionários do RU da UFPR aguardam respostas sobre reivindicações (Foto/Reprodução)

“A atual gestão do DCE nasceu em meio à greve das universidades federais, o que reflete uma aposta na mobilização como ferramenta política. Durante esse processo, estivemos ativamente envolvidos na construção do movimento grevista, e, a partir disso, vieram conquistas importantes: a ampliação dos horários de funcionamento do RU e a criação de uma comissão para debater cotas para pessoas trans na graduação e pós-graduação”, explica Julia.

Ela ainda destaca que a gestão do DCE acredita no poder da coletividade e da organização autônoma dos estudantes para pressionar por mudanças reais dentro da universidade e na sociedade: “o maior desafio do DCE, hoje, é romper com o sentimento de desmobilização que paira sobre a sociedade. Em tempos marcados pelo individualismo e pela pressa em concluir a universidade para entrar logo no mercado de trabalho, o engajamento estudantil parece cada vez mais distante”.

  • Membros do DCE da UFPR participam de manifestação em frente ao prédio histórico da universidade, segurando uma faixa que pede o fim da escala 6×1. Ao redor, estudantes erguem bandeiras de diferentes coletivos e movimentos estudantis.
  • Estudantes da UFPR lotam a assembleia estudantil. Com os braços erguidos, seguram crachás de votação e aprovam, por ampla maioria, a greve estudantil.

O papel do DCE, segundo ela, é justamente mostrar que a transformação coletiva ainda é possível e urgente. Julia também celebra a recente conquista de espaço na direção executiva da UNE, onde pretende fortalecer uma gestão plural e comprometida com temas como justiça social e crise climática. Para ela, o movimento estudantil continua sendo, em escala global, a faísca que reacende os processos de luta quando todas as outras luzes parecem apagadas.

Depois de ver tantos exemplos de mobilização estudantil, você ainda pode aprender mais sobre como funciona um DCE. Então, não deixe de conferir o Conexão Dia do Estudante!

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Texto:
Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Romão
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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