“Ah, você só estuda?”. Essa é uma pergunta que toca o terror em quem está na jornada dos estudos. Estudar é construir o futuro e investir tempo, energia e dedicação para entender o mundo e transformá-lo para melhor.
Seja na escola, na universidade ou de forma autônoma, quem estuda tem a capacidade de criar uma sociedade mais justa e preparada. É justamente por isso que, em 11 de agosto, comemoramos o Dia do Estudante no Brasil.
O Dia do Advogado também é celebrado neste dia porque marca o início do ensino jurídico no país. Em 1927, no centenário da data, o jurista Celso Gand Ley propôs que o 11 de agosto também homenageasse os estudantes.
Apesar do clássico “só estuda?”, muitos estudantes conciliam a rotina com estágios ou jornadas de trabalho. Ou seja, a vida escolar e universitária é cheia de camadas e desafios que vão além de só entender o conteúdo explicado em sala de aula. Um bom exemplo disso é a atuação política estudantil que gera mudanças concretas na sociedade.
Relembrar para entender
Os movimentos estudantis surgem justamente dessa diversidade de atuações dos estudantes. Eles são um conjunto de organizações e ações de alunos que lutam por seus direitos, interesses e por melhorias na educação.
O professor de história do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e membro do Laboratório de Pesquisa em Educação e História Ambiental (LEHA), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), André Valentini, conta que esses movimentos surgiram no século XIX com a expansão das universidades e, no Brasil, ganharam força política no início do século XX.
Em 11 de agosto de 1937, também Dia do Estudante, foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE), com o objetivo de promover a defesa da qualidade de ensino, do patrimônio nacional e da justiça social. Se você se lembra um pouco das aulas de história, pode perceber que os anos seguintes à fundação da UNE foram bem conturbados… eclodiu, em 1939, a Segunda Guerra Mundial, e a União pressionou o governo de Getúlio Vargas a tomar posição contra o nazi-fascismo de Hitler.

Logo depois, veio a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985. O Movimento Estudantil teve papel de destaque na resistência ao autoritarismo, conta Valentini. Os estudantes também usaram a cultura como forma de protesto, com atividades artísticas que desafiavam o regime.
Depois do golpe, os reitores foram trocados por interventores, as eleições estudantis foram canceladas e muitos líderes estudantis foram perseguidos, presos, torturados ou exilados. No Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, mais de 700 estudantes foram presos, incluindo Luís Travassos, ativista e líder estudantil brasileiro.
Com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), também em 1968, a repressão aumentou e as manifestações foram duramente combatidas. Já nos anos 1970, o governo criou o Sistema de Segurança e Informações (SISNI) para vigiar estudantes e professores nas universidades. Resumindo: não eram bons tempos para os movimentos.
“Com a Lei da Anistia, em 1979, os estudantes começaram a se reorganizar por meio dos Centros Acadêmicos (CAs) e dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs). A partir daí, a luta pela restauração da democracia ganhou ainda mais força. Junto com sindicatos, partidos, movimentos populares, artistas e intelectuais, os estudantes se engajaram nas Diretas Já. Também criaram cartazes, faixas, cantos de protesto e músicas do movimento”, explica o professor.
Se você quiser relembrar um pouco mais sobre a história do golpe militar de 1964, não deixe de conferir essa matéria do C²! Inclusive, você já conhece alguns dos movimentos e organizações estudantis mais populares no Brasil? Dê uma conferida aqui:

A força estudantil na atualidade
Após a redemocratização, os estudantes continuaram presentes em momentos decisivos da política brasileira. Em 1992, protagonizaram o movimento dos caras-pintadas, pedindo o impeachment de Fernando Collor. Em 2013, mesmo sem a liderança direta estudantil, estudantes tomaram as ruas contra o aumento da tarifa de ônibus, lembra Valentini.
Hoje, quem vive a universidade de perto vê nascer e crescer movimentos estudantis cheios de energia. É o caso do estudante de Comunicação e Multimeios (CMM) na UEM, João Luiz Lazaretti, que é secretário-geral do carinhosamente apelidado CACO, o Centro Acadêmico do curso.
Ele contou ao C² que os CA são peça-chave na vida universitária porque vão além da ponte entre estudantes e instituição e fortalecem, também, os laços entre colegas e com os professores. “Estamos sempre em diálogo com a coordenação do curso, professores e os alunos de CMM”, ressalta João.

João conta que o CACO tem sido fundamental na luta pelos direitos dos estudantes de CMM, um curso que, em relação a outros da UEM, pode ser considerado precarizado. “Uma das vitórias mais marcantes foi a chegada de novos professores efetivos. A gente só tinha seis efetivos e cinco temporários. Junto com outros CA, lutamos por mais contratações e deu certo! No começo do ano, quatro novos docentes chegaram para reforçar o time do curso”.
Em 2024, o CACO deu um passo importante ao idealizar e lançar o Projeto Vozes, em parceria com outros Centros Acadêmicos. A iniciativa tem como foco abrir espaço para debates sobre permanência estudantil e pautas do cotidiano universitário. Na primeira edição, o tema foi a implementação de cotas para pessoas trans e travestis; na segunda, a inclusão de autores indígenas nas grades curriculares.
Uma das maiores dificuldades para manter o CA ativo, segundo João, é a falta de consciência política dentro da própria comunidade estudantil. “Muita gente não percebe que fazemos parte de um corpo coletivo, vivo, que tem poder de mudança. Precisamos lembrar que nossas ações têm impacto real nas políticas e nos debates que guiam a universidade e a sociedade”.
Essa característica de luta em prol da coletividade não se restringe apenas aos CAs. Em Curitiba, a Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU) é, para muitos, o primeiro passo rumo à realização do sonho de cursar uma universidade. Com 77 anos de história, a CEU é símbolo de resistência, acolhimento e luta coletiva.

Camila Calaudiano, atual 1ª vice-presidente da Casa, relembra que tudo começou em 1948, quando estudantes do interior ocuparam um prédio abandonado. Anos depois, com a força do movimento estudantil, conquistaram o atual edifício, que abriga cerca de 300 moradores de diversas instituições, cidades, estados e até países.
A CEU é a maior moradia estudantil autogerida da América Latina e se mantém viva graças ao engajamento dos próprios estudantes, que dividem entre si as despesas por meio do rateio. “A gestão é organizada em conselhos, cargos e eleições. Embora a CEU ofereça um ambiente propício para estudar, com café da manhã, sala de estudos, quadra e até hospedagem para eventos, os desafios são muitos”.
Mesmo enfrentando a precarização e limitações, como a impossibilidade de garantir segurança alimentar completa a todos os moradores, a CEU segue firme. Camila compartilha que foi graças à moradia que ela pôde estudar jornalismo na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Com localização próxima a um restaurante universitário e a rede de transportes, encontrou ali as condições para permanecer na universidade.
Hoje, retribui esse apoio participando ativamente da gestão. Para ela, a CEU é mais do que um lugar para morar: é prova de que, quando os estudantes se unem, conseguem criar soluções concretas para garantir o direito à educação.

O DCE da UFPR também tem desempenhado um papel essencial na defesa da permanência estudantil, especialmente diante das recentes crises no Restaurante Universitário (RU). A coordenadora geral do Diretório, Julia Andrade Maia, conta que a situação se agravou após problemas com a empresa vencedora da licitação, que retirou os equipamentos dos RUs e deixou os estudantes sem acesso à alimentação subsidiada após o rompimento do contrato.
Desde então, o DCE tem pressionado a reitoria por soluções. Um dos marcos dessa atuação foi a paralisação organizada em conjunto com os funcionários. A luta, agora, é para garantir a retomada plena e com qualidade do RU.

“A atual gestão do DCE nasceu em meio à greve das universidades federais, o que reflete uma aposta na mobilização como ferramenta política. Durante esse processo, estivemos ativamente envolvidos na construção do movimento grevista, e, a partir disso, vieram conquistas importantes: a ampliação dos horários de funcionamento do RU e a criação de uma comissão para debater cotas para pessoas trans na graduação e pós-graduação”, explica Julia.
Ela ainda destaca que a gestão do DCE acredita no poder da coletividade e da organização autônoma dos estudantes para pressionar por mudanças reais dentro da universidade e na sociedade: “o maior desafio do DCE, hoje, é romper com o sentimento de desmobilização que paira sobre a sociedade. Em tempos marcados pelo individualismo e pela pressa em concluir a universidade para entrar logo no mercado de trabalho, o engajamento estudantil parece cada vez mais distante”.
O papel do DCE, segundo ela, é justamente mostrar que a transformação coletiva ainda é possível e urgente. Julia também celebra a recente conquista de espaço na direção executiva da UNE, onde pretende fortalecer uma gestão plural e comprometida com temas como justiça social e crise climática. Para ela, o movimento estudantil continua sendo, em escala global, a faísca que reacende os processos de luta quando todas as outras luzes parecem apagadas.
Depois de ver tantos exemplos de mobilização estudantil, você ainda pode aprender mais sobre como funciona um DCE. Então, não deixe de conferir o Conexão Dia do Estudante!
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Texto: Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Romão
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
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