Minhas primeiras lembranças de vida são com livros. Na minha perspectiva de criança, eu enxergava as enormes estantes de casa como GIGANTES! E, nelas, incontáveis livros que eu adorava folhear mesmo sem entender nada. Assim começou uma amizade de décadas entre eu e a literatura.
Com incentivo, a leitura se tornou um hábito que fui gostando cada vez mais. Lembro dos clássicos da literatura brasileira infantil, como “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo, e “Marcelo, Marmelo, Martelo”, de Ruth Rocha. Com eles, a minha imaginação ia longe! Inclusive, adorava andar pela casa com uma panela na cabeça.
A transformação social que a leitura pode criar, desenvolvendo grandes personalidades, é gigante, mas parece não ser prioridade para muita gente. Cada vez mais vemos estudos sendo divulgados sobre o hábito da leitura ter diminuído, como se ler por prazer agora, entrasse em uma competição com as redes sociais pela atenção.
Além de ser uma fonte de aprendizado, a leitura nos ajuda a expandir nosso conhecimento e a ter um desenvolvimento cognitivo, combatendo o analfabetismo funcional.
Essa transformação ocorre em uma sala de aula de uma escola pública de Guarapuava, onde alunos do 6º ano do Ensino Fundamental nadam contra a maré através de um projeto chamado “Leia, criança”. Nele, jovens estudantes são apresentados ao infinito universo dos livros.
É graças ao Programa de Educação Tutorial de Letras (PET Letras), da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), em Guarapuava, no Paraná, que os alunos são instruídos ao letramento literário desde cedo em um ambiente de escuta, diálogo e criação. Isso faz despertar o olhar sensível e o entendimento dos sentidos por meio de atividades lúdicas, leitura orientada e outras experiências, favorecendo o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças.
Com ações integradas entre petianos (participantes do PET), escolas e comunidade, a iniciativa põe em prática uma frase que me marcou bastante: “a leitura é um exercício da liberdade”, já que nos proporciona o poder de viajar entre incontáveis mundos por diversas perspectivas, através da imaginação.
Sobre o Programa de Educação Tutorial
Lançado em 2005 e popularmente conhecido como PET, o Programa de Educação Tutorial concede bolsas a estudantes da graduação e professores tutores nas instituições de educação superior de todo o Brasil. Desde então, os três pilares da educação universitária, ensino, pesquisa e extensão, são fortalecidos e promovidos de forma integrada.
O programa está regulamentado pela Lei nº 11.180/2005 e na Portaria do Ministério da Educação (MEC) nº 976/2010. O PET ajuda a formar profissionais críticos, reflexivos e comprometidos, em grupos de até doze estudantes de graduação orientados por um professor tutor.
Os mais de 10 mil bolsistas do país, de instituições públicas ou particulares, desenvolvem ações que articulam conhecimento acadêmico e compromisso social e transformam o meio em que vivemos. No caso do PET Letras, da Unicentro, a inscrição para participação pode ser feita após a abertura do edital pela Pró-Reitoria de Ensino da Unicentro. Vale destacar que o graduando deve manter boas notas para permanecer no programa.
Universidade em movimento
Para a professora tutora do PET Letras, Níncia Cecília Ribas Borges-Teixeira, pesquisadora na área de Letras da Unicentro, a literatura nunca foi apenas objeto de estudo, mas sim, a ponte entre a teoria e a prática. No caso do PET Letras, pode ser vista como uma das pontes entre a universidade e a comunidade.
“Nosso objetivo é fortalecer a leitura literária, o pensamento crítico e a formação de leitores em diferentes faixas etárias”, destaca.
À frente do PET Letras da Unicentro, ela coordena um conjunto de ações que, ao mesmo tempo em que instruem os estudantes a pesquisar, a ensinar e a organizar projetos, transformam a leitura em formação crítica e cidadã.
Em um cenário em que o acesso à leitura e à universidade ainda é desigual, ações como as do PET Letras democratizam o conhecimento e aproximam diferentes gerações por meio da literatura. Além do “Leia, Criança”, o PET conta com as ações “Entre Linhas e Leituras”, clube do livro aberto à comunidade; “Memórias em Poemas”, oficina de escrita com a terceira idade; e “Literashow” e “ESCREVA!!”, que são voltados à preparação de vestibulandos e estudantes da rede pública para o ingresso no ensino superior.

O PET como experiência coletiva transformadora
A doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Letras da Unicentro, Andriele Aparecida Heupa, ressalta que o PET é um espaço de pertencimento e construção coletiva, não apenas acadêmico.
Ela teve a oportunidade de ingressar no PET Letras no último ano de graduação e considera a participação como muito decisiva e produtiva em sua história. Lá, pôde desenvolver trabalho em equipe, diálogo e escuta nas oportunidades que teve de atuar em oficinas de Latim/Estudos Latinos, por exemplo, para ajudar alunos com dificuldade.
Além de ser um ótimo campo para seu desenvolvimento intelectual, Andriele julgou que a participação no PET agregaria em seu currículo, já pensando no ingresso para o mestrado. E mais: a bolsa recebida foi super bem-vinda para auxiliar nas despesas de transporte e moradia.
Andriele aconselha aos graduandos que entrem no PET quanto antes!
“O crescimento, tanto acadêmico quanto pessoal e profissional, é enorme. Você consegue aprender coisas novas, ter desafios, mas com eles você vai aprendendo, melhorando, se aprimorando, e percebendo em que área você tem mais afinidade, em que área você quer atuar, porque dentro das Letras são muitos caminhos a seguir”, enfatiza a doutoranda.
Em 2023, já atuando como professora no Colégio Estadual do Campo de Palmeirinha, levou o PET Letras para apresentar um projeto de extensão vinculado, com o tema “Pedagogia dos Sentidos e Letramento Midiático para o Empoderamento Feminino”.
PET na escola (Foto/Arquivo pessoal) As petiana Emilly e Jaqueline no Colégio Estadual do Campo de Palmeirinha apresentando um projeto de extensão vinculado ao Pet Letras (Foto/Arquivo pessoal) As petiana Emilly e Jaqueline no Colégio Estadual do Campo de Palmeirinha apresentando um projeto de extensão vinculado ao Pet Letras (Foto/Arquivo pessoal)
Compromisso com a comunidade
Buscando ampliar o impacto social do PET, uma outra iniciativa é o “Aulas abertas”, que por meio de uma tutoria através do canal do YouTube chamado Trollendo, democratiza o acesso à conteúdos literários de livros cobrados nos vestibulares das universidades do Paraná e na prova do ENEM.
“O PET contribui para uma formação integral, que ultrapassa a dimensão exclusivamente acadêmica”, reforça a professora Nincia, que acredita que com esses projetos seja uma forma eficaz de aproximar a comunidade da Universidade.
Seja qual for o projeto, a missão do PET Letras é construir pontes entre teoria e prática, entre sonho e realidade, criando possibilidades para as pessoas e transformando os acadêmicos que fazem parte do programa.
Assim como eu fui transformado pela leitura, o projeto “Leia, criança” não se trata apenas de formar leitores assíduos. Trata-se de formar pessoas capazes de imaginar outros mundos e de transformar o mundo em que vivem.

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Texto: Guilherme Nascimento dos Santos e Gustav Bartmann
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Maria Eduarda Tenório
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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