Era 27 de dezembro de 1831, quando o HMS Beagle deixou o porto de Plymouth, na Inglaterra, com suas velas altas e uma missão ambiciosa. Entre a tripulação, estava o jovem naturalista Charles Darwin, que embarcou na viagem que marcaria sua vida — e a história da ciência. Sob o comando de Robert FitzRoy, o principal objetivo do veleiro era mapear a costa da América do Sul.
No entanto, essa expedição acabou gerando um impacto muito além da cartografia. Foi durante esse período, que Darwin reuniu parte dos conhecimentos que levaram à publicação de A Origem das Espécies, em 1859, obra que revolucionou o entendimento mundial sobre a evolução da vida.
Durante cinco anos, o Beagle percorreu a costa sul-americana, explorando desde a Bahia até as ilhas Galápagos, no Equador, com paradas em países como Uruguai, Argentina, Chile e Peru. No caminho de volta, a tripulação ainda navegou pela Austrália, pelo Oceano Índico e pela África do Sul.

A jornada de Darwin mundo afora, repleta de achados, pode ser vista sob uma perspectiva bem interessante. E se disséssemos que foi um dos grandes marcos do turismo científico?
Entendendo o turismo científico
De acordo com a professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e doutora em Turismo e Hotelaria, Rosislene Fontana, o termo “turismo científico” ganhou força no século XX, mas sua essência remonta aos primórdios das viagens humanas. A pesquisadora explica que esta é uma atividade que combina viagem e conhecimento, permitindo que os participantes explorem diferentes áreas por meio de experiências práticas, visitas guiadas e imersões em lugares de importância científica e cultural.
“Hoje, a pessoa não quer mais só viajar por viajar. Ela quer viajar e voltar com o conhecimento adquirido naquela viagem. Isso encaixa perfeitamente no turismo científico, em que as pessoas buscam esse conhecimento além”, pontua Rosislene.
O turismo científico inclui visitas a museus, parques naturais, sítios arqueológicos, zoológicos e até experiências como trilhas interpretativas ou viagens técnicas a laboratórios. A diferença essencial para o turismo convencional é o propósito de aprendizado. No turismo científico, o visitante não apenas aprecia o local, mas busca entender sua história, funcionamento e impacto, seja por meio de guias, sinalizações interpretativas ou materiais informativos.

A professora maringaense Julia Mazer Dona é mais um exemplo de quem faz turismo científico. Sempre que viaja com sua família, ela escolhe destinos que proporcionam aprendizado, tanto para ela quanto para as filhas. Seus roteiros frequentemente incluem visitas guiadas a locais históricos ou parques naturais, e ela faz questão de contar com a expertise de guias de turismo, que tornam as experiências mais ricas e informativas.
Em uma viagem a Salvador, Julia e sua família foram acompanhados por um guia especializado, que trouxe vida às histórias da cidade. Em outra ocasião, durante uma visita à Usina Hidrelétrica de Itaipu, ela optou pela visita técnica, explorando aspectos tecnológicos e científicos do local. Esse tipo de experiência é algo que a professora valoriza, pois não só expande o conhecimento da família como enriquece seu trabalho ao compartilhar essas vivências com seus alunos em suas aulas.
Assim como Darwin utilizou a viagem no Beagle para aprofundar seus estudos e mudar o curso da ciência, pessoas como Julia transformam suas viagens em oportunidades para aprender e ensinar. Embora os objetivos e os contextos sejam diferentes, o espírito de curiosidade e exploração que move esses viajantes permanece o mesmo.
Mais pessoas precisam conhecer (e praticar) o turismo científico: como fazer isso acontecer?
Um dos desafios levantados por Rosislene Fontana, a docente da Unioeste, é a falta de divulgação e compreensão sobre o que é turismo científico, além da necessidade de promover o turismo com responsabilidade. Para ela, o livro “Espaços de Divulgação Científica do Estado do Paraná” (acesse-o aqui), lançado em outubro deste ano, é uma grande mudança nesse cenário, já que reúne o trabalho de pesquisadores e instituições com o intuito de popularizar a ciência pelo turismo.
Inclusive, o material desenvolvido pelo NAPI Paraná Faz Ciência conta com um artigo intitulado “Turismo Científico: desvendando a ciência pelo turismo” de autoria da professora Rosislene Fontana e com co-autoria da professora Débora Sant’Ana, uma das articuladoras do NAPI.
“Eu vejo o guia como uma grande iniciativa do Paraná, algo que precisa ser amplamente divulgado. É importante levar esse conhecimento para mais regiões, para que as pessoas entendam e reconheçam as potencialidades que também possuem. Basta trabalhar de forma adequada. Os espaços já estão ali, prontos para gerar esse conhecimento, mas é essencial que haja divulgação para que essa ideia alcance mais pessoas”, destaca.

Enquanto o livro traz uma base sólida para fomentar o turismo científico, ações como as viagens organizadas pela Associação dos Amigos do Mudi (Amudi) – ligada ao Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi), da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – mostram como essas ideias podem ser colocadas em prática.
Rio de Janeiro, Pernambuco, Bonito, Patagônia, Chile… Todos esses locais já fizeram parte dos roteiros das excursões da Amudi. “As viagens são abertas à comunidade e organizadas a partir de um roteiro cuidadosamente preparado, com significado social, científico e histórico. Ele une o aprendizado à viagem de uma forma lúdica, fazendo com que o turismo seja uma oportunidade para aprender como se fosse uma espécie de ‘aula-passeio’”, informa o coordenador das viagens da Amudi, o professor Marcílio Hubner de Miranda Neto.
A abordagem interdisciplinar do turismo dos Amigos do Mudi é um de seus destaques, porque engloba diversas áreas do conhecimento, desde as ciências humanas até biologia e meio ambiente. Segundo Marcílio, cada excursão é acompanhada por uma jornada de conhecimento, com atividades como palestras, oficinas e visitas guiadas conduzidas por viajantes que se voluntariam e especialistas locais. “Na maioria das vezes, buscamos pessoas com formação específica, como guias ou historiadores, por exemplo, tudo para enriquecer ainda mais a viagem”.

Diante do que você conferiu até aqui, vimos que o turismo científico desponta como uma resposta ao desejo humano por experiências que vão além do convencional. Em um mundo onde as viagens já não se limitam apenas ao lazer, essa modalidade oferece um equilíbrio entre descoberta, aprendizado e vivência prática. “As pessoas não buscam mais só o local, e sim a experiência”, enfatiza Rosislene.
Essa procura reflete a necessidade intrínseca dos indivíduos de explorar o desconhecido, adquirir conhecimento e criar conexões significativas com o ambiente e com outras culturas. O turismo científico não apenas atende a essa demanda, mas também contribui para a popularização da ciência e o fortalecimento da curiosidade humana.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Maria Eduarda de Souza Oliveira
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Guille Cordeiro e Hellen Vieira
Supervisão de arte: Tiago Franklin Lucena
Edição Digital: Gutembergue Junior
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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