Turismo científico: uma ponte entre viagem e conhecimento

Como viagens movidas pela curiosidade transformam lazer em aprendizado e popularizam a ciência mundo afora

compartilhe

Era 27 de dezembro de 1831, quando o HMS Beagle deixou o porto de Plymouth, na Inglaterra, com suas velas altas e uma missão ambiciosa. Entre a tripulação, estava o jovem naturalista Charles Darwin, que embarcou na viagem que marcaria sua vida — e a história da ciência. Sob o comando de Robert FitzRoy, o principal objetivo do veleiro era mapear a costa da América do Sul. 

No entanto, essa expedição acabou gerando um impacto muito além da cartografia. Foi durante esse período, que Darwin reuniu parte dos conhecimentos que levaram à publicação de A Origem das Espécies, em 1859, obra que revolucionou o entendimento mundial sobre a evolução da vida.

Durante cinco anos, o Beagle percorreu a costa sul-americana, explorando desde a Bahia até as ilhas Galápagos, no Equador, com paradas em países como Uruguai, Argentina, Chile e Peru. No caminho de volta, a tripulação ainda navegou pela Austrália, pelo Oceano Índico e pela África do Sul.

O infográfico intitulado "A Viagem de Charles Darwin" apresenta um mapa-múndi estilizado com fundo azul, que representa o oceano, e continentes destacados em amarelo. Ele ilustra a rota percorrida por Darwin durante sua famosa viagem a bordo do navio HMS Beagle, realizada entre 1831 e 1836. A trajetória é marcada por uma linha preta contínua que atravessa os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, destacando os locais visitados. Entre os pontos marcados no mapa estão Plymouth, na Inglaterra, de onde a viagem começou, Cabo Verde, Rio de Janeiro, Bahia, Montevidéu, Patagônia, Ilhas Galápagos, Sydney, Ilhas Maurício e Cidade do Cabo. Os nomes dos oceanos também são identificados no mapa: Atlântico, Pacífico e Índico, acompanhando a trajetória da expedição. O design é simples e visualmente agradável, com cores contrastantes que facilitam a compreensão da jornada histórica de Darwin, que desempenhou um papel fundamental na formulação de sua teoria.

A jornada de Darwin mundo afora, repleta de achados, pode ser vista sob uma perspectiva bem interessante. E se disséssemos que foi um dos grandes marcos do turismo científico? 

Entendendo o turismo científico

De acordo com a professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e doutora em Turismo e Hotelaria, Rosislene Fontana, o termo “turismo científico” ganhou força no século XX, mas sua essência remonta aos primórdios das viagens humanas. A pesquisadora explica que esta é uma atividade que combina viagem e conhecimento, permitindo que os participantes explorem diferentes áreas por meio de experiências práticas, visitas guiadas e imersões em lugares de importância científica e cultural.

“Hoje, a pessoa não quer mais só viajar por viajar. Ela quer viajar e voltar com o conhecimento adquirido naquela viagem. Isso encaixa perfeitamente no turismo científico, em que as pessoas buscam esse conhecimento além”, pontua Rosislene. 

O turismo científico inclui visitas a museus, parques naturais, sítios arqueológicos, zoológicos e até experiências como trilhas interpretativas ou viagens técnicas a laboratórios. A diferença essencial para o turismo convencional é o propósito de aprendizado. No turismo científico, o visitante não apenas aprecia o local, mas busca entender sua história, funcionamento e impacto, seja por meio de guias, sinalizações interpretativas ou materiais informativos.

O infográfico intitulado "Locais para turismo científico" apresenta uma composição visual organizada e colorida, destacando diversos espaços que podem ser explorados com fins educativos e científicos. Em um fundo bege claro, um mapa estilizado com linhas curvas sugere uma conexão entre os diferentes tipos de lugares mencionados: trilhas, sítios arqueológicos, cavernas, herbários, unidades de conservação, museus, jardins botânicos, parques naturais, cidades históricas, laboratórios, universidades e centros de pesquisa.
Para complementar as categorias, o infográfico utiliza ícones ilustrativos que tornam o visual mais atrativo e intuitivo. Alguns exemplos desses ícones incluem um microscópio, que remete à pesquisa científica, uma árvore, simbolizando espaços naturais como unidades de conservação, e uma coluna clássica, frequentemente associada a museus ou sítios históricos. Há também ilustrações de folhas, globo terrestre e outros elementos que reforçam a temática científica e ambiental. A paleta de cores em tons de verde, azul e amarelo cria uma conexão visual com a natureza e o conhecimento. O infográfico, além de didático, é uma forma criativa de apresentar possibilidades de aprendizado por meio do turismo.

A professora maringaense Julia Mazer Dona é mais um exemplo de quem faz turismo científico. Sempre que viaja com sua família, ela escolhe destinos que proporcionam aprendizado, tanto para ela quanto para as filhas. Seus roteiros frequentemente incluem visitas guiadas a locais históricos ou parques naturais, e ela faz questão de contar com a expertise de guias de turismo, que tornam as experiências mais ricas e informativas.

Em uma viagem a Salvador, Julia e sua família foram acompanhados por um guia especializado, que trouxe vida às histórias da cidade. Em outra ocasião, durante uma visita à Usina Hidrelétrica de Itaipu, ela optou pela visita técnica, explorando aspectos tecnológicos e científicos do local. Esse tipo de experiência é algo que a professora valoriza, pois não só expande o conhecimento da família como enriquece seu trabalho ao compartilhar essas vivências com seus alunos em suas aulas. 

  • A imagem mostra Julia em frente a uma estrutura industrial maciça e curvilínea, parte da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Ela está usando um capacete de segurança amarelo, uma camiseta branca, calça jeans e tênis branco. Julia sorri enquanto está levemente inclinada para frente, tocando a superfície da estrutura com as duas mãos. A estrutura é pintada de branco e tem placas metálicas parafusadas. Ao fundo, parte de outra construção industrial é visível, com linhas de transmissão de energia e o céu parcialmente nublado. A cena transmite a ideia de visita a uma instalação técnica, com um foco educativo e turístico.
  • A imagem mostra Julia, seu marido e suas filhas posando no interior da Igreja e Convento de São Francisco, que fica em Salvador. O teto e as paredes são ricamente ornamentados com esculturas douradas, enquanto a parte inferior das paredes é coberta por azulejos azuis com cenas detalhadas. No centro, há um altar magnífico e dourado, que domina a composição ao fundo. Na frente, estão as filhas de Julia. A da esquerda, de 6 anos, usa um vestido amarelo estampado e sandálias, enquanto a da direita, de 9 anos, veste uma blusa branca com desenhos coloridos e shorts pretos, além de estar descalça. Ambas têm pinturas corporais brancas nos braços e nas pernas, formando desenhos tribais. Atrás delas estão os pais, com o homem usando uma camiseta azul e Julia com uma roupa estampada com tons vivos. Ambos sorriem para a câmera. A atmosfera é iluminada por luz natural e candelabros, destacando os detalhes dourados e os azulejos azuis.

Assim como Darwin utilizou a viagem no Beagle para aprofundar seus estudos e mudar o curso da ciência, pessoas como Julia transformam suas viagens em oportunidades para aprender e ensinar. Embora os objetivos e os contextos sejam diferentes, o espírito de curiosidade e exploração que move esses viajantes permanece o mesmo. 

Mais pessoas precisam conhecer (e praticar) o turismo científico: como fazer isso acontecer?

Um dos desafios levantados por Rosislene Fontana, a docente da Unioeste, é a falta de divulgação e compreensão sobre o que é turismo científico, além da necessidade de promover o turismo com responsabilidade. Para ela, o livro “Espaços de Divulgação Científica do Estado do Paraná” (acesse-o aqui), lançado em outubro deste ano, é uma grande mudança nesse cenário, já que reúne o trabalho de pesquisadores e instituições com o intuito de popularizar a ciência pelo turismo. 

Inclusive, o material desenvolvido pelo NAPI Paraná Faz Ciência conta com um artigo intitulado “Turismo Científico: desvendando a ciência pelo turismo” de autoria da professora Rosislene Fontana e com co-autoria da professora Débora Sant’Ana, uma das articuladoras do NAPI.

“Eu vejo o guia como uma grande iniciativa do Paraná, algo que precisa ser amplamente divulgado. É importante levar esse conhecimento para mais regiões, para que as pessoas entendam e reconheçam as potencialidades que também possuem. Basta trabalhar de forma adequada. Os espaços já estão ali, prontos para gerar esse conhecimento, mas é essencial que haja divulgação para que essa ideia alcance mais pessoas”, destaca.

A imagem mostra a professora Rosislene sorridente segurando um livro em um auditório. Ela tem cabelos cacheados e avermelhados, veste uma camisa rosa. O livro que ela segura está aberto e tem o título visível: "Espaços de Divulgação Científica do Estado do Paraná." Ao fundo, há um ambiente de evento, com várias pessoas sentadas, algumas usando celulares, e uma mesa de conferência na frente. Atrás da mesa, estão bandeiras, incluindo a do Brasil e de outros estados ou instituições.
A profª. Rosislene esteve no lançamento do guia “Espaços de Divulgação Científica do Estado do Paraná” durante o Paraná Faz Ciência 2024 (Foto/Arquivo pessoal)

Enquanto o livro traz uma base sólida para fomentar o turismo científico, ações como as viagens organizadas pela Associação dos Amigos do Mudi (Amudi) – ligada ao Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi), da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – mostram como essas ideias podem ser colocadas em prática. 

Rio de Janeiro, Pernambuco, Bonito, Patagônia, Chile… Todos esses locais já fizeram parte dos roteiros das excursões da Amudi. “As viagens são abertas à comunidade e organizadas a partir de um roteiro cuidadosamente preparado, com significado social, científico e histórico. Ele une o aprendizado à viagem de uma forma lúdica, fazendo com que o turismo seja uma oportunidade para aprender como se fosse uma espécie de ‘aula-passeio’”, informa o coordenador das viagens da Amudi, o professor Marcílio Hubner de Miranda Neto. 

A abordagem interdisciplinar do turismo dos Amigos do Mudi é um de seus destaques, porque engloba diversas áreas do conhecimento, desde as ciências humanas até biologia e meio ambiente. Segundo Marcílio, cada excursão é acompanhada por uma jornada de conhecimento, com atividades como palestras, oficinas e visitas guiadas conduzidas por viajantes que se voluntariam e especialistas locais. “Na maioria das vezes, buscamos pessoas com formação específica, como guias ou historiadores, por exemplo, tudo para enriquecer ainda mais a viagem”.

A imagem mostra um grupo de viajantes da Amudi reunido em frente a uma paisagem natural impressionante na Patagônia. Eles estão em um terreno de terra próximo a um lago de cor azul-turquesa vibrante. Ao fundo, é possível ver montanhas cobertas de neve e um céu claro e azul, com algumas nuvens espalhadas, criando um cenário de beleza natural. O grupo está vestido com roupas de inverno, incluindo casacos acolchoados, gorros e cachecois, sugerindo que o local é frio. Algumas pessoas estão de pé, enquanto um homem na frente está agachado sorrindo. Todos parecem descontraídos, aproveitando o momento juntos em um ambiente deslumbrante. A composição destaca a união do grupo e a imensidão da natureza ao redor.
Viagem da Amudi à Patagônia (Foto/Arquivo pessoal)

Diante do que você conferiu até aqui, vimos que o turismo científico desponta como uma resposta ao desejo humano por experiências que vão além do convencional. Em um mundo onde as viagens já não se limitam apenas ao lazer, essa modalidade oferece um equilíbrio entre descoberta, aprendizado e vivência prática. “As pessoas não buscam mais só o local, e sim a experiência”, enfatiza Rosislene. 

Essa procura reflete a necessidade intrínseca dos indivíduos de explorar o desconhecido, adquirir conhecimento e criar conexões significativas com o ambiente e com outras culturas. O turismo científico não apenas atende a essa demanda, mas também contribui para a popularização da ciência e o fortalecimento da curiosidade humana.

EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto:
Maria Eduarda de Souza Oliveira
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Guille Cordeiro e Hellen Vieira
Supervisão de arte: Tiago Franklin Lucena
Edição Digital: Gutembergue Junior

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

Edição desta semana

Artigos em alta

Descubra o mundo ao seu redor com o C²

Conheça quem somos e nossa rede de parceiros