Dia Nacional da Saúde no Brasil. Comemorada em 5 de agosto, a data é uma homenagem ao aniversário do médico e cientista Oswaldo Gonçalves Cruz (1872-1917). Resumindo a história, ele ganhou destaque no combate a epidemias no país, em uma época que ainda havia pouco conhecimento sobre grande parte das doenças. Sua trajetória tornou-se referência para pesquisadores e, até hoje, é um exemplo quando se fala em ações voltadas para a saúde pública.
Aliás, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define ‘saúde’ como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. É semelhante ao que entendemos como qualidade de vida. Por isso, investir em estudos que visam facilitar o processo de análises clínicas é tão importante. Com esses avanços, chegamos mais perto de garantir o diagnóstico precoce e ter maior sucesso nos tratamentos.
Este é, inclusive, o principal objetivo do Mews App. O software1, criado por estudantes e professores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), utiliza dados dos sinais vitais em tempo real para identificar se pode vir a ocorrer deterioração clínica. Dessa forma, aumentam as chances de uma intervenção rápida e assertiva logo que se percebe possíveis pioras no estado de saúde. Um programa de computador que promete se tornar um forte aliado no monitoramento de pacientes nas enfermarias.

O software faz a análise com base na escala Mews2 (Modified Early Warning Score), já conhecida por ajudar a detectar, em tempo hábil, pacientes com risco. Essa avaliação é feita a partir de parâmetros básicos: frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, frequência respiratória e nível de consciência. Cada dado recebe uma pontuação e a soma indica a situação clínica.
Contudo, podem existir erros durante a implementação dessa escala. Falha na coleta de dados, interpretação incorreta dos resultados e até a má comunicação entre a equipe, por exemplo, podem impactar o tratamento de forma negativa. Por isso, o Mews App funciona como um “facilitador”. Após o preenchimento dos cinco parâmetros fisiológicos, o programa calcula o Mews automaticamente e ainda indica medidas a serem tomadas, prevenindo a piora clínica com maior precisão e rapidez.
A invenção está registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O Mews App também já foi implantado na enfermaria do Hospital Universitário Regional de Maringá (HUM-UEM) e, por enquanto, testado para utilizar dados dos monitores cardíacos das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no cálculo do Mews.
Da teoria à prática
A tecnologia foi desenvolvida por uma equipe de pesquisadores das áreas de Medicina e Informática da UEM. Na verdade, no Mestrado Profissional em Gestão, Tecnologia e Inovação em Urgência e Emergência (Profurg). Os integrantes do projeto são a professora orientadora Cátia Millene Dell’Agnolo e o mestrando Davi Tamamaru de Souza, cardiologista. Já, no Departamento de Informática (DIN), participaram o professor orientador Yandre Maldonado e Gomes da Costa, o professor André Felipe Ribeiro Cordeiro, o analista de sistemas Luiz Henrique Toffanetto e a estudante Maria Fernanda Almeida Oliveira, de Ciência da Computação.
A ideia partiu de Davi de Souza, quando atuava na coordenação do Núcleo Interno de Regulação (NIR), do HUM-UEM. Ele notou que algumas pessoas recebiam alta para o setor da enfermaria e, em pouco tempo, tinham complicações. Outras permaneciam ocupando leitos do Pronto Atendimento, porém, ficavam estáveis. Problemas comuns, que diminuiriam com o reconhecimento precoce de pacientes suscetíveis a situações inesperadas. “Pensando nisso, fui pesquisar uma ferramenta que pudesse nos ajudar e o Mews veio ao encontro”, explica.

O projeto foi produto de mestrado de Souza, mas a implementação da ferramenta não era tão simples. Assim, surgiu a parceria com o DIN. O intuito do software foi direcionar uma conduta, facilitando a leitura de indicadores clínicos que já existem na rotina da enfermagem e promovendo maior envolvimento entre a equipe. “A gente, junto com o pessoal da informática da UEM, desenvolveu um aplicativo que calcula o score3 automaticamente, não só dá a pontuação, mas também orientações para o profissional.”
Segundo a professora Cátia Dell’Agnolo, que orientou Souza, foi realizado um treinamento com os enfermeiros do HUM-UEM para mostrar como o Mews App tornaria a avaliação clínica mais objetiva e padronizada. “Com essa facilidade do cálculo automático, o pessoal da enfermagem teve uma boa aceitação e foi implantado no setor de Clínica Médica e Cirúrgica do Hospital Universitário”, relembra. “Hoje, nós temos uma detecção rápida e o mais precocemente […] daquela possível piora clínica do paciente.”
A docente também reforça a importância de produtos como esse, que no geral são apresentados pelos próprios estudantes. A busca pela resolução de um determinado problema ou lacuna no dia a dia do profissional é o que tem incentivado o surgimento das “criações”, trazendo benefícios diretos e indiretos para a sociedade. “São equipamentos, softwares, planos de trabalho, protocolos, enfim, as mais variadas possíveis [invenções]”, enaltece Dell’Agnolo.
O Mews App
Integração com os sistemas hospitalares, precisão dos algoritmos e interface simples. Essas são algumas das características que tornam o Mews App tão especial. Além de minimizar erros humanos, o software também ajuda a reduzir custos, enquanto facilita o acesso aos parâmetros que indicam os sinais vitais do paciente. Afinal, com o uso do programa é possível evitar internações prolongadas, o que aumenta a eficiência da atuação dos profissionais no trabalho.
Para Maria Fernanda Oliveira, estar envolvida no desenvolvimento da tecnologia foi uma experiência enriquecedora. Ela ainda era aluna do curso de Ciência da Computação, quando surgiu a oportunidade de se tornar coautora no projeto. Dessa forma, buscou se aprofundar mais sobre a escala Mews, para compreender o cálculo e elaborar um sistema automatizado. “O contexto é um pouco diferente do que a gente faz, é área da medicina. Então, tinha que ter essa parceria com o HUM-UEM, para entender como funcionava”, recorda.
A pesquisa foi detalhada no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da estudante, defendido no início de 2025. O objetivo inicial era criar um equipamento capaz de monitorar o risco de deterioração clínica dos pacientes da UTI. Até o momento, porém, o programa foi implantado apenas na enfermaria, como reforça o professor Yandre da Costa. “A parte da UTI, especificamente, temos ainda um obstáculo técnico, relativo ao protocolo [HL7, Health Level Seven] que está presente nos Sistemas de Saúde”, revela. “Estamos fazendo reuniões para tentar superar essa barreira.”

Apesar deste pequeno contratempo, a equipe está orgulhosa com a construção do programa e eficácia demonstrada pelo software. O Mews App tem evidenciado a importância de integrar tecnologias na prática clínica, garantindo principalmente assistência de melhor qualidade e segurança aos pacientes. “A gente tem um potencial, no limite, de salvar vidas. Então, eu acho que tem uma nobreza dentro da aplicação disso tudo”, admira o docente.
Mais informações sobre a transferência da tecnologia podem ser solicitadas pelo e-mail nit@uem.br ou telefone (44) 3011-4109.
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Texto: Isabella Abrão
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Software – É a parte lógica de um sistema computacional. São programas, procedimentos e dados que controlam o computador e realizam tarefas específicas. ↩︎
- Mews – Modified Early Warning Score ou Pontuação de Alerta Precoce Modificada. É um sistema de avaliação clínica que usa parâmetros fisiológicos para detectar precocemente pacientes com risco de deterioração. ↩︎
- Score – Significa “pontuação”. No contexto do Mews App, trata-se do resultado do cálculo fornecido pelo software, após a leitura dos parâmetros clínicos. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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