“Você sabia que está tomando bactérias vivas?”, essa frase do meu primo bateu como um choque.
O leite fermentado, o produto daquela enxurrada de comerciais com figuras coloridas e animação atrativa eram bactérias vivas. E eu estava ingerindo, ao meu bel-prazer. Custei a acreditar que podiam existir bactérias boas.
Ao comentar com minha mãe, nem ela mesmo acreditou. Anos se passaram e a escola me confirmou, existem bactérias que são benéficas, assim como existem aquelas que não fazem bem para nosso organismo.
Quando cursei Engenharia de Alimentos, pude entender de fato e, de forma prática, como essas bactérias se comportavam em sua proliferação. No caso do leite fermentado, ele contém o Lactobacillus casei Shirota, popularmente conhecido como os “lactobacilos vivos”, microrganismos que fermentam a lactose e formam um ácido que ajuda no intestino, aumentando a defesa o órgão.
Dentro do Museu Campos Gerais, localizado em Ponta Grossa, há uma exposição de diversas placas com bactérias proliferadas, um jeito de mostrar a ciência de uma maneira acessível para as pessoas.
O projeto do Micro Museu surgiu com Marcos Pileggi, do Departamento de Biologia Estrutural, Molecular e Genética, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), e com seu incômodo na crença de que bactérias são sempre algo patogênico. “É uma coisa que sempre me perturbava. Eu sempre quis ter um projeto de extensão, para que a gente começasse a desmistificar isso. As bactérias têm um conjunto que trabalham por nós, mas, de vez em quando, dá uns desvios. Isso é biologia, isso é evolução”, alerta o professor.

Ciência e arte no Micro Museu
A exposição no museu não tem uma coleção pronta, está em construção. Tudo que se tem à mostra é fruto de material de aulas práticas da disciplina de Microbiologia, onde são sempre geradas novas placas para serem expostas no museu. Isso significa aproveitar um material que iria para descarte após as aulas.
Mariana Valentim, aluna do 4º ano de Licenciatura em Ciências Biológicas, e orientada por Pileggi, está fazendo o Trabalho de Conclusão de Curso sobre o Micro Museu e comenta acerca de outro método de obtenção das Placas de Petri. “Outra linha que a gente usa são os projetos de pesquisa do Laboratório de Microbiologia Ambiental. Por exemplo, eu estou tendo trabalho agora com as bactérias do Mangue. Então, a gente pega o que já foi isolado desse projeto de pesquisa e utiliza para fazer as placas bonitinhas ali para botar no Micro Museu.”
O fato de Mariana cursar licenciatura faz com que outro viés do projeto seja a divulgação científica em ambientes escolares, como aulas práticas em escolas públicas de ensino fundamental, sempre explicando sobre o que é o Micro Museu e a real importância das bactérias.
O material que vai nessas placas é chamado de “meio de cultura”, uma espécie de gel nutritivo onde as bactérias crescem. Uma das dificuldades na elaboração desse material é a questão de muitas bactérias não possuem cor. Então, esse meio de cultura que é transparente acaba por não evidenciar a manifestação desse grupo de bactéria.

O processo de realização das placas com desenhos é feito da mesma forma em que se inoculam bactérias, mas aqui com o intuito de fazer uma imagem no final. A equipe encosta a alça de inoculação com a bactéria no meio de cultura dentro da placa.
“Quando você coloca a bactéria ali você não consegue enxergá-la, por isso, é preciso incubar essa placa numa temperatura com estufa, para que se prolifere e deixe aquele desenho visível. Então, na verdade, você vai ter 100 mil, 200 mil bactérias, que vão ficar coladas na resina. Elas morrem ali, ficam completamente isoladas das pessoas, de forma segura”, comenta Pileggi.
Nos casos das bactérias ‘sem cor’, os pesquisadores usam corantes sintéticos para ajudar na ‘formação’ dos desenhos. Eles são utilizados na própria bactéria, aferindo a coloração nela. Esses exemplares são expostos no museu com caráter educacional, mesmo a cor não sendo a real dos microrganismos. Na verdade, acabam servindo para evidenciar sua presença e a forma deles.
Proliferando a ciência
Não há dúvidas de que, nas visitas espontâneas que o Museu recebe, o mostruário de placas com desenhos diferentes chama a atenção, principalmente de crianças pelo fato de ser colorido, e ser atrativo com uma iluminação ideal. Mas isso não muda que muitos dos visitantes ainda veem as bactérias como agentes causadores de mal-estar.
“Não é por acaso que as pessoas veem as bactérias de uma maneira ruim. A maneira como aprendemos sobre microbiologia e como as bactérias são retratadas na mídia reforça o medo e a desinformação. Na própria grade curricular do ensino fundamental temos essa conexão de bactérias com doenças, das que são grandes causadoras, e também a relação com fungos e outros parasitas”, esclarece o professor, que, junto com inúmeros pesquisadores, vem desafiando e lutando contra o sistema, para conseguir mostrar o contrário.
Por isso, levar o Micro Museu para as escolas públicas é fundamental, inclusive, para trazer as pessoas para dentro da universidade. É nisso que Pileggi trabalha no momento, com o desenvolvimento de uma estante menor do que a exposta no museu, para ser possível transportar para as escolas, fazendo com que o adolescente possa ir montando as placas e aprendendo sobre as bactérias, enquanto interage com os materiais.
O projeto segue com o objetivo claro de desmistificar essa ideia de bactérias como ruins, mas também de divulgar o que eles possuem de pesquisa dentro do laboratório, hoje. Mariana, por exemplo, trabalha com as bactérias do Mangue que são inimigas do crescimento de células tumorais, isso é incrível! E tem um potencial de impacto muito grande, mas poucas pessoas sabem disso, é preciso mostrar pro mundo que, ali dentro, existe ciência.
“O Micro Museu é lúdico, é bonito, desperta fascínio. Mas não podemos esquecer que o conhecimento verdadeiro se constrói no desconforto. Para ser um bom cientista, um bom profissional, é preciso aprender a lidar com dificuldades”, reflete o professor Marcos.
As bactérias podem ser parceiras, artistas microscópicas e até protagonistas de descobertas que mudam nossa vida. Assim como o leite fermentado da minha infância me ensinou sem querer, a exposição acaba sendo uma porta de entrada para o conhecimento de resultados e projetos de pesquisa incríveis, mas também como um lembrete de que a ciência não floresce apenas no conforto das respostas fáceis.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Guilherme Nascimento dos Santos
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Henrique Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.





