Você sabe o que é ejiao? Até pouco tempo atrás eu não sabia e, sinceramente, preferia ter continuado sem saber. A notícia que me apresentou esse remédio tradicional da medicina chinesa falava sobre o risco de os jumentos brasileiros entrarem em extinção. Pode parecer confuso, mas, na verdade, a explicação é bem simples: o ejiao é produzido a partir do colágeno extraído da pele de jumentos. Por isso, milhões desses animais são mortos anualmente para abastecer esse mercado, o que tem ameaçado a existência da espécie em vários países.
Curiosa, fui pesquisar um pouco sobre esse tal remédio. Descobri que ele já é consumido há milhares de anos para tratar problemas como a anemia, a insônia, a fertilidade e até a impotência sexual. Porém, o detalhe que mais me chocou nessa busca foi que os benefícios do ejiao não tem eficácia comprovada por estudos científicos sólidos. Mesmo assim, o produto é extremamente valorizado pela Medicina Tradicional Chinesa.
Para produzir o ejiao, os jumentos são abatidos e suas peles são retiradas e fervidas para se extrair o colágeno, depois, ele é transformado e pode ser consumido em pó, pílulas ou líquido.

O consumo do ejiao na China tem aumentado cada vez mais e movimentado bilhões de dólares na economia local. E é essa demanda, cada vez mais intensa, que tem colocado os jumentos em perigo de extinção, pois, o ritmo de abate tem sido muito maior do que a velocidade com que esses animais conseguem se reproduzir.
No Brasil, essa exploração fez com que a população de jumentos diminuísse cerca de 94%, entre 1996 e 2025, de 1,37 milhão passou para pouco mais de 78 mil, atualmente. Mostrando preocupação diante desse cenário, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima procurou e financiou o Laboratório de Zootecnia Celular (Zoocel), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), para desenvolver uma alternativa biotecnológica que permita produzir o mesmo colágeno sem o envolvimento de abate animal.
Esse trabalho importantíssimo é conduzido por pesquisadores do Zoocel/UFPR, sob coordenação da professora titular do Departamento de Zootecnia da Universidade, Carla Forte Maiolino Molento. Além disso, a docente coordena o Laboratório de Bem-estar Animal (LABEA) e o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Proteínas Alternativas.

O projeto também conta com o apoio da Fundação Araucária e Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti), que contribuíram com recursos para a aquisição de equipamentos.
A busca pela ética e sustentabilidade
O principal objetivo do estudo é desenvolver uma forma ética e sustentável de produzir colágeno de jumento, sem envolver o sofrimento e o abate dos animais. “Para isso, buscamos comprovar que é possível obter o produto por meio de fermentação de precisão, mantendo a mesma qualidade, estrutura e funcionalidade do colágeno natural. Além disso, procuramos fortalecer a pesquisa em agricultura celular no Brasil, criar alternativas inovadoras para a produção de alimentos de origem animal e mostrar que é possível aliar ciência, bem-estar animal e sustentabilidade em soluções aplicáveis no mercado”, explica a professora Carla Molento.
Mas o que é fermentação de precisão? Essa é uma biotecnologia que utiliza microrganismos, como leveduras ou bactérias, geneticamente modificados para produzir moléculas específicas, como proteínas, gorduras ou enzimas, de forma controlada. O foco é fazer com que o microrganismo funcione como uma ‘fábrica celular’, sintetizando o composto de interesse que, nesse caso, é o colágeno de jumento.
A professora acrescenta que o método convencional de obtenção do colágeno de jumentos apresenta diversos problemas complexos. “No aspecto ético, além do abate em larga escala, grande parte desse processo ocorre de forma clandestina, sem fiscalização adequada, gerando sofrimento animal e exploração de uma população já em declínio. Há ainda impactos econômicos e sociais a serem pensados, como o fato da dependência de captura e abate limitar a produção”, conta a coordenadora do projeto.
As etapas de pesquisa e os parceiros
A pesquisa começa com a identificação do gene responsável pela produção do colágeno no jumento. A partir desse gene, é feito o desenho genético para que ele possa ser inserido em um microrganismo, neste caso em específico é uma levedura chamada Komagataella phaffii. Ela que irá funcionar como uma pequena ‘fábrica celular’, sendo cultivada em condições controladas. Durante o processo de fermentação, ela começa a produzir o colágeno de forma muito semelhante ao que acontece naturalmente no animal.
Depois, o colágeno produzido passa por uma etapa de purificação e caracterização, “em que são feitas análises bioquímicas e estruturais para confirmar que ele possui a mesma composição e estrutura do colágeno proveniente de abate”, explica Carla Molento.

No momento, o projeto está na fase de expressão da proteína, ou seja, os pesquisadores estão fazendo com que a levedura produza o colágeno. O estudo conta com uma parceria internacional com a Universidade de Wageningen, nos Países Baixos, uma das principais instituições do mundo em biotecnologia e agricultura celular. Por meio do intercâmbio de dois pesquisadores do Zoocel, a equipe tem contato direto com técnicas e tecnologias de ponta, além de trocar experiências com grupos que já desenvolvem processos semelhantes.
No Brasil, o estudo conta com a parceria do Grupo de Pesquisa em Equídeos e Saúde Integrativa, da Universidade Federal de Alagoas, que contribui com a coleta de material biológico de animais de forma ética e controlada. Além disso, o projeto também tem o apoio de organizações internacionais de proteção animal, como o The Donkey Sanctuary, que contribui com conhecimento sobre as questões de bem-estar de jumentos em nível global e nacional.
A pesquisa se mostra extremamente importante, tanto do ponto de vista ético quanto ambiental, já que propõe uma alternativa ao abate de jumentos, protegendo as raças brasileiras destes animais e evitando o seu sofrimento. O trabalho também contribui para a preservação da população nacional de jumentos e para práticas mais sustentáveis, já que o método convencional depende da matança de animais de uma população em estado avançado de declínio.
A coordenadora dos estudos também reforça que, cientificamente, a pesquisa visa mostrar que é possível produzir colágeno de alta qualidade por meio da biotecnologia, criando um modelo replicável para outros ingredientes de origem animal. “Socialmente e economicamente, o projeto abre possibilidades de desenvolvimento de tecnologias nacionais, geração de conhecimento, inovação no setor da agricultura celular e produção de alimentos éticos, que atendem à demanda de consumidores cada vez mais conscientes”, afirma Carla Molento.
O NAPI abrindo portas
Com o suporte do NAPI Proteínas Alternativas, financiado pela Fundação Araucária, foi possível consolidar um grupo de pesquisa focado em proteínas alternativas no Estado do Paraná, além de implementar o Laboratório de Zootecnia Celular, que se tornou o principal espaço em que a pesquisa sobre colágeno de jumento sem abate está sendo realizada. “Esse suporte institucional e financeiro é fundamental, porque oferece infraestrutura moderna, equipamentos de ponta e recursos humanos especializados, permitindo que a equipe desenvolva tecnologias inovadoras de forma ética e sustentável, garantindo proteção animal e preservação ambiental”, conta a coordenadora do projeto.
A professora também afirma que o NAPI possibilita o fortalecimento da pesquisa nacional, promovendo a formação de novos pesquisadores e ampliando a capacidade científica do Brasil na área de agricultura celular e proteínas alternativas. Além disso, o Arranjo institucional contribui para que o projeto não apenas avance cientificamente, como também gere impactos significativos no meio social, ético e econômico.

Enquanto isso, o estudo segue em desenvolvimento. Os próximos passos envolvem, primeiramente, a otimização da produção do colágeno pela levedura, garantindo que a proteína seja produzida de forma eficiente e com qualidade consistente. “Em seguida, vamos avançar para a purificação e caracterização detalhada do colágeno, verificando sua estrutura, composição e funcionalidade para verificar o grau de equivalência com o colágeno natural de jumento. Paralelamente, pretendemos refinar o processo em escala laboratorial e avaliar sua viabilidade para futuras aplicações comerciais, sempre mantendo o foco em métodos éticos e sustentáveis”, conclui a professora Carla Molento.
Esse é mais um estudo que mostra a seriedade, o comprometimento e os avanços da inovação paranaense na busca por respostas que podem impactar o mundo. Explore nosso site para conhecer muitas outras pesquisas que trazem benefícios reais à população!
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Milena Massako Ito
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.

