Séculos atrás, em uma busca de conexão do mundo e novas rotas comerciais, iniciaram-se as Grandes Navegações. Promovidas, inicialmente, por Portugal e Espanha, entre os séculos XV e XVI, essas expedições oceânicas marcaram o início da Idade Moderna e revolucionaram as relações entre a sociedade global.
A Expansão Marítima promoveu o encontro entre comunidades, a troca de conhecimentos e o avanço científico, mas esse trajeto não foi feito apenas em águas calmas… As viagens também resultaram em desafios, explorações desenfreadas e adversidades.
Os longos meses em alto mar foram um dos grandes problemas para as tripulações. Uma das piores consequências era a quantidade de doenças que surgiam nas embarcações, como o escorbuto, causado pela falta de vitamina C (ácido ascórbico) no organismo. A “peste dos mares” explodiu, já que as tripulações passavam meses alimentando-se apenas de biscoitos e carnes salgadas.

No entanto, há diversos relatos que os viajantes portugueses eram os que não tinham a “doença dos beiços inchados”, enquanto espanhóis e holandeses ainda sofriam muito com com o mal. Durante anos, muitos acreditavam que era por conta da incorporação de frutas cítricas, carregadas de vitamina C, na dieta desses portugueses.
Mas, como seria possível conservar esses alimentos durante tanto tempo em alto mar, sem apodrecer e dando conta de tripulações com centenas de homens diariamente?
Esse foi o questionamento que chamou a atenção do professor do Departamento de História, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), doutor Christian Fausto Moraes dos Santos, que resolveu averiguar a fundo essa história.
Com muita pesquisa e investigação, o professor encontrou relatos do século XVI, de um cronista alemão chamado Hans Staden, que foi capturado pelos Tupinambás e passou a perceber um movimento particular dessas embarcações portuguesas. Fazendo sua rota para chegar até a Índia, em busca de especiarias, os viajantes faziam uma paradinha em terras brasileiras e a primeira coisa que pediam aos indígenas era: “tem pimenta?”.
Fosse a dedo de moça, a jalapenho, a caiena ou a malagueta… Os portugueses queriam as pimentas ofertadas pelos indígenas, que já sabiam dessa necessidade e deixavam-nas preparadas, na forma desidratada. Isso chamou a atenção do professor da UEM, que conectou o fato à informação que as nossas pimentas têm uma concentração de vitamina C seis vezes maior do que uma laranja, por exemplo.
Além disso, a pimenta não apodrece em alto mar em sua versão desidratada, por conta do composto químico ativo responsável pela sua ardência, que é a capsaicina, e ainda mantém uma quantidade razoável de vitamina C. Assim, a tripulação passou a misturar esse “tempero” nos alimentos, sanando tal carência vitamínica.
Essa pesquisa, que revolucionou o entendimento sobre a supressão do escorbuto entre as tripulações portuguesas, foi desenvolvida dentro do Laboratório de História, Ciências e Ambiente (LHC), da UEM, que é coordenado por Fausto, evidenciando que a pimenta pode ser analisada como alimento, medicamento, mercadoria, planta americana ou mesmo objeto de circulação global.
O Laboratório deu os seus primeiros passos em 2010, com o professor de História promovendo reuniões e encontros nos espaços disponíveis na Biblioteca Central (BCE), da universidade. Após cerca de dois anos, o grupo já estava consolidado e adquiriu espaço próprio, no Bloco 004. Hoje, conta com 23 participantes e orientandos do professor, que trabalham em três grandes áreas: História das Ciências Naturais (relação com animais e plantas), História da Alimentação e História das Ciências da Saúde (de epidemias a medicamentos).
A grande vantagem é que, a História das Ciências não tem fronteiras temporais rígidas, permitindo uma interdisciplinaridade e conexão entre qualquer curso de graduação. Quem tiver vontade de fazer parte e fazer ciência, só precisa entrar em contato, não importa qual esteja sendo sua formação acadêmica.
“O LHC/UEM é um espaço em que pesquisa, ensino, orientação e divulgação científica caminham juntos. Nós investigamos como a ciência foi produzida historicamente, em contextos concretos, com disputas, circulação de saberes, traduções culturais e relações com a sociedade. A ideia é investigar como sociedades diferentes produziram conhecimento sobre a natureza, o corpo, os alimentos, as doenças e o ambiente”, afirma o coordenador.
São diversos campos de investigação que conectam a história mundial, desde seus primórdios até os dias atuais. O Laboratório também foi responsável pela publicação de um recente livro, “Um paraíso peçonhento: animais venenosos nas crônicas do Novo Mundo”, pela Editora Científica Digital. Reunindo estudos que vão do século XVI ao XIX, o volume mostra como picadas, infestações, venenos, contravenenos e pragas foram, ao mesmo tempo, problemas práticos e motores de descrição e ordenação do mundo natural.
O livro foi organizado por Fausto, junto com a pós-doutora pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Anelisa Mota Gregoleti, e com o professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutor Wellington Bernardelli Silva Filho. Você pode conferi-lo clicando aqui. https://www.editoracientifica.com.br/books/um-paraiso-peconhento-animais-venenosos-nas-cronicas-do-novo-mundo
“Nós buscamos entender como os animais do novo mundo fizeram com que os colonizadores repensassem sua dinâmica colonizatória, já que estavam diante de criaturas que eles nunca tinham visto na vida. Por exemplo, como eles deveriam lidar com a interferência de formigas nativas em plantações de novos alimentos ou venenos de animais que nunca tiveram contato. Obviamente, fazendo com que recorressem absurdamente aos saberes indígenas, embora eles nem sempre reconhecessem que fizessem isso”, explica Fausto.
Além disso, atualmente, o LHC/UEM conta com pesquisas em diversas ramificações. A doutoranda Gessica de Brito Bueno está na Suécia pesquisando como a ciência moderna, que é eminentemente europeia, bebeu no saber indígena americano para entender o mundo a sua volta. Por exemplo, a Classificação de Lineu, desenvolvida pelo naturalista sueco Carl Lineu, em 1735, que organiza todos os seres vivos em uma hierarquia de sete categorias taxonômicas e utiliza a nomenclatura binomial, com gênero e espécie, já era visível em nomes indígenas como “tatu peba”, “tatu mirim” ou “tatu canastra”, que estão registrados em visitas dos exploradores por volta do século XVI. Então, qual seria o nível de contribuição dos povos originários americanos?
Já o doutorando Lucas Cairê Gonçalves trabalha com o racismo científico no Brasil, analisando como relatos do século XVIII-XIX de viajantes animalizavam africanos escravizados baseados na zoologia do período, o que alimenta um racismo atual. Enquanto isso, a também estudante de doutorado, Nathália Moro, pesquisa a história da comida de rua no Brasil, baseada em Jean-Baptiste Debret, um francês que retratava, por meio de ilustrações, a alimentação cotidiana feita por escravizados, no período colonial, montando uma arqueologia da comida de rua.
Ainda, a mestranda Luana Carolina Gonzalez Carvalho está iniciando os seus estudos sobre as primeiras descrições de metamorfose de animais no Novo Mundo, buscando compreender os entendimentos europeus de abiogênese e a transformação dos pensamentos por meio do contato com essa nova realidade. Enquanto o bolsista de iniciação científica, Vitor Hugo Giovanni, estuda as “curas milagrosas” na pandemia de gripe espanhola, comparando com o que foi visto durante a pandemia da COVID-19.

Os pesquisadores entendem que todo esse conhecimento não deve ficar restrito aos muros da universidade, mas, sim, chegar até ao máximo de pessoas. Por isso, o Laboratório vem se consolidando também, por meio das redes sociais, como uma forte plataforma de divulgação científica, levando até o público não-acadêmico todas essas narrativas. Assim, usa o meio on-line como mais uma forma de linguagem universitária, para além das tradicionais aulas, conferências, artigos e livros didáticos.
“Quando um laboratório universitário ocupa as redes sociais com responsabilidade, ele não está abandonando a pesquisa; está ampliando seus canais de circulação. Isso é importante para a sociedade, que passa a ter acesso a temas que muitas vezes ficam restritos a artigos e eventos acadêmicos. Também é importante para a formação dos estudantes, porque eles aprendem pesquisa, escrita, comunicação pública, edição, trabalho em equipe e responsabilidade com a informação”, garante o coordenador.
Luana e Victor são responsáveis, para além de suas pesquisas, pela edição dos vídeos na conta do Instagram do LHC/UEM, que são roteirizados pelo coordenador do projeto. Em 2026, o grupo iniciou o desenvolvimento de uma série especial chamada “História com Ciência”, que tem movimentado a rede.

Hoje, cerca de 80% dos seguidores da página são de fora da academia, alcançando o objetivo do grupo de “pular” o muro acadêmico. O trabalho é feito coletivamente, em coautoria, com os participantes do LHC/UEM trazendo temáticas para serem abordadas, discutindo possibilidades de interconexão e sendo orientados pelo coordenador do projeto.
“Nós queremos trazer as pessoas ‘lá de fora’ para perto da ciência, então, para fazer uma aproximação e identificação, fazemos muito uso dos memes, de referências cinematográficas ou mesmo musicais. Isso faz com que elas se aproximem de temas ‘científicos’ que elas nem se imaginavam interessar. E a gente consegue acompanhar nos comentários dos vídeos as pessoas discutindo o tema, debatendo entre si, complementando aquilo que foi passado”, afirma Luana.
Fausto explica que esse é o recurso do Presentismo, que é pegar um fato histórico e fazer uma comparação de uma situação cotidiana contemporânea na área de história, um grande aliado da divulgação científica. Esta é uma forma de devolver à sociedade parte daquilo que a universidade constrói.
“O humor, quando bem usado, cria aproximação. Mas ele precisa ter limite: não pode substituir a análise, não pode desrespeitar sofrimento e não pode transformar temas sensíveis em espetáculo. Para nós, o vídeo curto não substitui artigo, aula ou livro. Ele é uma porta de entrada. A linguagem pode ser breve, mas o processo precisa ser rigoroso. Um reel pode apresentar uma pergunta, desmontar uma ideia equivocada ou convidar o público a conhecer um tema. Ele não encerra a discussão; ele abre a conversa”, expõe o professor da UEM.
Por meio da história, segundo o coordenador do Laboratório, é possível – e essencial – ensinar como e por que conhecimentos são construídos. Em especial, com a História das Ciências, a humanidade inteira é conectada ao seu meio, evidenciando como tudo está interligado desde que o mundo é mundo. E esse é o trabalho do LHC/UEM, que se inicia dentro dos espaços da universidade e extrapola para toda a sociedade.
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Leonardo Rosa
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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